As hetairas são a prova cabal das vicissitudes pelas quais passavam as mulheres na Grécia. Quer dizer: não em toda a Grécia. Na belicosa Lacedemônia, as espartanas participavam livremente da vida da comunidade e exerciam poderosa influência sobre filhos e maridos – Helena de Tróia, lembre-se, não era de Tróia; era de Esparta.
Em Atenas é que as mulheres viviam reclusas, fornecendo inspiração para uma imortal composição de Chico Buarque e refulgentes notas do Mário Marcos no caderno da Olimpíada. Até surpreende que uma das sociedades mais luminosas da história humana tenha relegado desta forma a mulher às sombras. A tal ponto que muitas delas, mesmo mulheres da aristocracia, mesmo as que dispunham do cobiçado título de cidadãs, mesmo essas preferiram se tornar hetairas.
Essas meretrizes de luxo tinham não apenas mais liberdade do que o comum das gregas, tinham também certo acesso à cultura. Por conta de leituras esparsas e muito esforço elas se transformaram nas mulheres mais célebres da Grécia clássica. Nenhuma tão ilustre quanto Aspásia, paixão imorredoura do grande Péricles. Aspásia fez Péricles divorciar-se da esposa e se tornou uma espécie de primeira-dama ateniense. Promovia saraus, incentivava os intelectuais, centralizava a vida social da cidade, antecipando as damas francesas do século 18.
Mas havia outras hetairas a brilhar em Atenas, com outras habilidades. Havia Clepsidra, assim chamada porque media com uma ampulheta d´água o tempo que despendia na companhia dos clientes, cobrando proporcionalmente. O hábito de Clepsidra com frequência exasperava a freguesia, mas sobreviveu à poeira dos séculos, pelo que se sabe. Igualmente notável foi Targélia, que serviu de espiã aos persas. No afã da coleta informações, Targélia dormiu com o maior número de próceres atenienses possível, número esse que, garantiram seus escandalizados conterrâneos, não foi pequeno.
Já Temístone era tão proficiente na sua arte que prosseguiu ativa até perder o último dente e o último fio de cabelo, enquanto Gnatena treinou a filha com tamanho desvelo que exigia a fortuna de 10 mil dracmas a quem pretendesse passar uma noite de delícias com a moça. Ah, e também havia Laís, a lindíssima Laís de Corinto, tão bela que os escultores imploravam para que lhes servisse de modelo. Depois de muito suplicar, o velho escultor Miron conseguiu sua aprovação. Não se tratava de qualquer um – Miron foi o autor do famoso discóbulo, ainda hoje um dos símbolos do esporte em todo o mundo. No momento em que Laís se despiu, porém, Miron se apaixonou de forma irremediável. Prometeu dar-lhe tudo o que possuía em troca de uma só noite de gozo. Laís sorriu, vestiu-se e se foi em silêncio, deixando Miron sem modelo. No dia seguinte, esperançoso, o velho artista se banhou, untou os cabelos com óleos finos, penteou a barba com critério, vestiu uma túnica púrpura presa por um cinto dourado e renovou as propostas a Laís. A cortesã, sorridente, replicou:
– Meu pobre amigo, vens pedir-me o que ontem recusei a teu pai.
Laís sabia ser exigente e sabia ser generosa. Frustrou os ardores do feio Demóstenes ao reivindicar 10 mil dracmas por uma sessão de prazer, mas ao virtuoso Diógenes ofereceu-se de graça tão-somente para lhe haurir a filosofia.
Agora, de todas, minha preferida é Frinéia. Para os gregos, jamais houve mulher tão deslumbrante quanto Frinéia – compreensível para um povo que não conheceu a Aninha Hickmann. Frinéia serviu de modelo para Praxíteles esculpir suas vênus eternas. Amealhou tamanha riqueza com seus encantos que, depois de uma guerra devastadora, se ofereceu para reerguer a muralha de Tebas às suas expensas. Pagaria tudo, apenas com uma condição. Que na base da muralha fosse inscrito: “Destruído por Alexandre; reconstruído por Frinéia”. O povo de Tebas, temente da posteridade maledicente, recusou. Finalmente, um certo Eutias, a quem Frinéia deve ter repudiado, acusou-a de impiedade. Acusação grave – a pena era a morte. O advogado Hipérides, o Lia Pires de Tebas, ofereceu-se para defendê-la. Não por acaso: Hipérides também se refestelava nos coxins e almofadas de Frinéia. Mas, a despeito de toda a habilidade de oratória do causídico, os jurados pareciam inclinados a condená-la. Foi então que Hipérides, in extremis, arrancou a túnica de Frinéia em plena corte, deixando-a nua como uma Deborah Secco. Em seguida, perguntou aos 200 homens que a julgavam se aquela perfeição seria capaz de cometer um único ato merecedor de censura. Os jurados, sem fôlego, a absolveram antes que Eutias pudesse dizer Gianna Angelopoulos-Daskalaki.
Frinéia. Não ganhou música do Chico, nem notas do Mário Marcos, mas mereceu um poema do parnasiano Olavo Bilac intitulado justamente “O Julgamento de Frinéia”. Reproduzo alguns trechos, começando com a acusação de Eutias. Uma cândida homenagem às mulheres antigas e modernas de todas as cidades:
Os gregos preferiam as loiras. Por
isso, as famosas cortesãs conhecidas
como “hetairas” esmeravam-se em
manter seus cabelos sempre
cuidadosamente tingidos de amarelo,
uma vez que as gregas antigas, para
infelicidade dos gregos antigos,
nasciam na sua maioria morenas feito
pés de oliveira.
As hetairas são a prova cabal das
vicissitudes pelas quais passavam as
mulheres na Grécia. Quer dizer: não
em toda a Grécia. Na belicosa
Lacedemônia, as espartanas
participavam livremente da vida da
comunidade e exerciam poderosa
influência sobre filhos e maridos –
Helena de Tróia, lembre-se, não era
de Tróia; era de Esparta.
Em Atenas é que as mulheres
viviam reclusas, fornecendo
inspiração para uma imortal
composição de Chico Buarque e
refulgentes notas do Mário Marcos no
caderno da Olimpíada.
Até surpreende que uma das
sociedades mais luminosas da história
humana tenha relegado desta forma a
mulher às sombras. A tal ponto que
muitas delas, mesmo mulheres da
aristocracia, mesmo as que
dispunham do cobiçado título de
cidadãs, mesmo essas preferiram se
tornar hetairas.
Essas meretrizes de luxo tinham não
apenas mais liberdade do que o comum
das gregas, tinham também certo acesso
à cultura. Por conta de leituras esparsas e
muito esforço elas se transformaram nas
mulheres mais célebres da Grécia
clássica. Nenhuma tão ilustre quanto
Aspásia, paixão imorredoura do grande
Péricles. Aspásia fez Péricles divorciar-se
da esposa e se tornou uma espécie de
primeira-dama ateniense. Promovia
saraus, incentivava os intelectuais,
centralizava a vida social da cidade,
antecipando as damas francesas do
século 18.
Mas havia outras hetairas a brilhar em
Atenas, com outras habilidades. Havia
Clepsidra, assim chamada porque media
com uma ampulheta d´água o tempo que
despendia na companhia dos clientes,
cobrando proporcionalmente. O hábito de
Clepsidra com frequência exasperava a
freguesia, mas sobreviveu à poeira dos
séculos, pelo que se sabe.
Igualmente notável foi Targélia, que
serviu de espiã aos persas. No afã da
coleta informações, Targélia dormiu com
o maior número de próceres atenienses
possível, número esse que, garantiram
seus escandalizados conterrâneos, não foi
pequeno.
Já Temístone era tão proficiente na sua
arte que prosseguiu ativa até perder o
último dente e o último fio de cabelo,
enquanto Gnatena treinou a filha com
tamanho desvelo que exigia a fortuna de
10 mil dracmas a quem pretendesse
passar uma noite de delícias com a moça.
Ah, e também havia Laís, a lindíssima
Laís de Corinto, tão bela que os escultores
imploravam para que lhes servisse de
modelo. Depois de muito suplicar, o
velho escultor Miron conseguiu sua
aprovação. Não se tratava de qualquer um
– Miron foi o autor do famoso discóbulo,
ainda hoje um dos símbolos do esporte
em todo o mundo. No momento em que
Laís se despiu, porém, Miron se
apaixonou de forma irremediável.
Prometeu dar-lhe tudo o que possuía em
troca de uma só noite de gozo. Laís
sorriu, vestiu-se e se foi em silêncio,
deixando Miron sem modelo. No dia
seguinte, esperançoso, o velho artista se
banhou, untou os cabelos com óleos
finos, penteou a barba com critério, vestiu
uma túnica púrpura presa por um cinto
dourado e renovou as propostas a Laís. A
cortesã, sorridente, replicou:
– Meu pobre amigo, vens pedir-me o
que ontem recusei a teu pai.
Laís sabia ser exigente e sabia ser
generosa. Frustrou os ardores do feio
Demóstenes ao reivindicar 10 mil
dracmas por uma sessão de prazer, mas
ao virtuoso Diógenes ofereceu-se de
graça tão-somente para lhe haurir a
filosofia.
Agora, de todas, minha
preferida é Frinéia. Para os
gregos, jamais houve
mulher tão deslumbrante
quanto Frinéia –
compreensível para um
povo que não conheceu a
Aninha Hickmann. Frinéia
serviu de modelo para
Praxíteles esculpir suas
vênus eternas. Amealhou
tamanha riqueza com seus
encantos que, depois de
uma guerra devastadora, se
ofereceu para reerguer a
muralha de Tebas às suas
expensas. Pagaria tudo,
apenas com uma condição.
Que na base da muralha
fosse inscrito: “Destruído por
Alexandre; reconstruído por
Frinéia”. O povo de Tebas, temente da
posteridade maledicente, recusou.
Finalmente, um certo Eutias, a quem
Frinéia deve ter repudiado, acusou-a de
impiedade. Acusação grave – a pena era a
morte. O advogado Hipérides, o Lia Pires
de Tebas, ofereceu-se para defendê-la.
Não por acaso: Hipérides também se
refestelava nos coxins e almofadas de
Frinéia. Mas, a despeito de toda a
habilidade de oratória do causídico, os
jurados pareciam inclinados a condená-la.
Foi então que Hipérides, in extremis,
arrancou a túnica de Frinéia em plena
corte, deixando-a nua como uma Deborah
Secco. Em seguida, perguntou aos 200
homens que a julgavam se aquela
perfeição seria capaz de cometer um
único ato merecedor de censura. Os
jurados, sem fôlego, a absolveram antes
que Eutias pudesse dizer Gianna
Angelopoulos-Daskalaki.
Frinéia. Não ganhou música do Chico,
nem notas do Mário Marcos, mas
mereceu um poema do parnasiano Olavo
Bilac intitulado justamente “O
Julgamento de Frinéia”. Reproduzo
alguns trechos, começando com a
acusação de Eutias. Uma cândida
homenagem às mulheres antigas e
modernas de todas as cidades:
“Elêusis profanou! É falsa e
dissoluta,
Leva ao lar a cizânia e as famílias
enluta!
Dos deuses zomba! É ímpia! é
má!” (E o pranto ardente
Corre nas faces dela, em fios,
lentamente...)
“Por onde os passos move a
corrupção se espraia,
E estende-se a discórdia!
Heliastes! condenai-a!”
Vacila o tribunal, ouvindo a voz
que o doma...
Mas, de pronto, entre a turba
Hiperides assoma,
Defende-lhe a inocência,
exclama, exora, pede,
Suplica, ordena, exige... O
Areópago não cede.
“Pois condenai-a agora!” E à ré,
que treme, a branca
Túnica despedaça, e o véu, que a
encobre, arranca...
Pasmam subitamente os juízes
deslumbrados,
- Leões pelo calmo olhar de um
domador curvados:
Nua e branca, de pé, patente à luz
do dia
Todo o corpo ideal, Frinéia
aparecia
Diante da multidão atônita e
surpresa,
No triunfo imortal da Carne e da
Beleza.
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