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Posts de setembro 2011

Os melhores times do RS - 2

30 de setembro de 2011 72

Vou pegar de novo os times que relacionei. Vou listar o que pode lhes valer pontos como grandes times. O número de craques, por exemplo. Antes de mais nada, é preciso definir o que é craque. Craque é o incontestável protagonista. Diferente do grande jogador, do ótimo jogador e do bom jogador, que vêm abaixo do craque. Então vamos lá:

1. O Grêmio de Lara, Luiz Luz, Foguinho e Luiz Carvalho - naquele tempo só havia Gauchão. Lara, Luiz Carvalho, “ORei da Virada”, e Luiz Luz, “O Fantasma da Área”, que até jogou na Seleção Brasileira, eram craques. Digo por tudo o que se sabe deles, claro. Foguinho, grande jogador. Dario, Sardinha, Laci, ótimos.

2. O Rolo Compressor do Inter – Nena e Tesourinha, craques incontestáveis. Mas coloco também nessa categoria Carlitos e Ávila. Adãozinho, grande jogador. Os outros, ótimos. Esse foi um time poderoso, muito melhor do que os seus adversários da época. A vantagem do Inter em Gre-Nais se deve a esse time.

3. O Inter de Chinesinho, Luisinho, Larry e Bodinho - Todos ótimos jogadores, mas craque incontestável talvez só Salvador. Havia também Oreco, que era um grande jogador.

4. O Grêmio de Foguinho – Aírton e Gessy eram craques incontestáveis. O Professor Ruy diz que Gessy foi o maior jogador que ele viu, depois de Pelé. Aírton é considerado por todos que o viram o maior zagueiro do Brasil. Ortunho, Calvet, Ênio Rodrigues e Juarez eram grandes jogadores. Marino, Élton, Milton e Vieira, ótimos.

5. O Grêmio de Babá, Joãozinho, Alcindo e Volmir – Craques, só Aírton e Alcindo. Os demais eram ótimos.

6. O Inter de 75 e 76 – Para mim, Manga era craque. Figueroa, Falcão e Carpegiani, igualmente, craques. Marinho, Caçapava, Valdomiro. Flávio e Lula eram grandes jogadores. Os demais, ótimos. Um time quase perfeito. Acho injusto quando se critica esse time por não ter sido campeão da Libertadores e do Mundo. Esse foi um time precursor, desbravador. Os Inters de 2006 e 2010 não conquistaram nenhum campeonato nacional, nem Brasileiro, nem Copa do Brasil. O título brasileiro do Inter em 75 foi maior até do que o mundial, e não só por ter sido o pioneiro, mas pelo brilhantismo, pela dificuldade e pela excelência daquele time.

7. O Inter de 79, campeão invicto do Brasileirão – Craques, Falcão, Jair e Mário Sérgio.

8. O Grêmio de Telê Santana, em 1977 – Craque, Éder. Grandes jogadores eram Oberdan, Eurico, Ancheta, Tadeu Ricci, Tarciso e André. Jogava com muita fluência esse time, e bateu o Inter de Falcão com naturalidade.

9. O Grêmio de Renato Portaluppi de 82 e 83 – Ganhou tudo o que havia para ganhar na época, Brasileiro em 81, Libertadores e Mundial na sequência. Craques eram Renato, Mário Sérgio e Paulo César Caju. Grandes jogadores eram Mazarópi, De León, Paulo Roberto, Oswaldo e Tarciso.

10. O Grêmio de Felipão – Craque, só um: Danrlei. Os demais, grandes jogadores.

11. O Grêmio de Tite, campeão da Copa do Brasil em 2001 – Craque, só Danrlei. Os demais, grandes jogadores.

12. O Inter de 2006 - Índio, Fernandão, Iarley, Tinga e Sóbis, grandes jogadores. Nenhum craque.

13. O Inter de 2010 – Índio, Sandro, Tinga, D’Alessandro e Sóbis, grandes jogadores. Nenhum craque.

E aí? Concordam?

Túnel do tempo: Uma festa com 33 aeromoças

30 de setembro de 2011 1

Texto publicado em 20/10/2010.

James Hunt era alto, loiro e devotava-se ao sexo oposto com fervor. Uma vez, ele estava no Japão, concentrado para participar da corrida que decidiria se seria ou não campeão mundial de Fórmula 1, e notou que em seu hotel também se hospedavam dezenas de formosas aeromoças da British Airlines. Isso deu a Hunt uma ideia: chamou um amigo, abasteceu a geladeira da sua suíte com muita cerveja e algumas substâncias estimulantes, e convidou as aeromoças para um convescote. Elas toparam, Hunt era um cara convincente. E durante duas semanas ele e o amigo ficaram se repoltreando com as 33 aeromoças. Eles bebiam e fumavam e tudo mais, principalmente tudo mais.

Depois da festinha, James Hunt foi para a pista, enfiou-se no macacão, esgueirou-se para trás dos boxes e vomitou – ele sempre fazia isso antes de cada corrida, para espantar a ressaca e atrair eflúvios positivos. Em seguida, cambaleou até o alambrado, abriu o zíper e fez um xixizinho em frente à torcida japonesa, que o aplaudiu, entusiasmada. Em retribuição, Hunt acenou, sorridente. Aí foi correr. E ganhou o campeonato do mundo.

A história, e outras tantas, é contada numa biografia que está sendo lançada este mês. O título em inglês é um trocadilho com o apelido de James Hunt,“shunt”, que significa “desvio”. Como Renato, do Grêmio, James Hunt contava ter se refestelado com cinco mil mulheres. Um dia, casou-se com uma única. Mas já na lua de mel percebeu seu erro. Passou a relacionar-se com outras mulheres e a incentivar sua ilustríssima a ter o mesmo comportamento liberal. Certa feita ela conheceu Richard Burton, o ator, que vivia uma de suas crises matrimoniais com Elizabeth Taylor, a Cleópatra dos olhos lilases. Burton se encantou com a mulher de Hunt. Tanto que queria casar com ela. Hunt disse que tudo bem, podia casar, ele até apressaria os trâmites do divórcio, o problema era o custo do cartório rápido. Burton foi compreensivo e ofereceu um milhão de dólares para que Hunt contratasse o melhor despachante da Inglaterra. Hunt topou, entregou a mulher e pegou o milhão.

Meu ídolo, esse James Hunt.

Som do Sexta

30 de setembro de 2011 0

Esses carinhas do America eram, bem, eram americanos. Mas moravam em Londres. Fizeram bom sucesso nos anos 70.

Som das madrugadas - 2

30 de setembro de 2011 0

A Gabriela Oliveira pede a música Anúncio de Jornal, da cantora Julia Graciela.

Som das madrugadas - 1

30 de setembro de 2011 1

A pedido do Fernando Cabral, ouça o som Rockinho, da banda Bixo da Seda.

Os melhores times do RS

29 de setembro de 2011 18

O texto sobre o Escurinho, em que elenco os melhores times que vi jogar, mexeu com os brios de diversos leitores.

Gremistas ficaram furiosos porque escrevi que o Inter dos anos 70 era melhor do que o Grêmio campeão do mundo.

Colorados ficaram furiosos porque não citei o Inter de 2006.

Vou tentar ser “científico” numa matéria que é tudo, menos científica.

Quais foram os melhores times do RS?

Em ordem cronológica, vou ciatar os times vencedores. Ou, pelo menos, os que foram mais vencedores:

1. O Grêmio de Lara, Luiz Luz, Foguinho e Luiz Carvalho.

2. O Rolo Compressor do Inter.

3. O Inter de Chinesinho, Luisinho, Larry e Bodinho.

4. O Grêmio de Foguinho.

5. O Grêmio de Babá, Joãozinho, Alcindo e Volmir.

6. O Inter de 75 e 76.

7. O Inter de 79, campeão invicto do Brasileirão.

8. O Grêmio de Telê Santana, em 1977.

9. O Grêmio de Renato Portaluppi de 82 e 83.

10. O Grêmio de Felipão.

11. O Grêmio de Tite, campeão da Copa do Brasil em 2001.

12. O Inter de 2006.

13. O Inter de 2010.

Temos aí seis times do Inter e sete do Grêmio. Bem. Como vamos descobrir quais são os melhores? Critérios. Precisamos de critérios. Se fosse usar o critério da minha avaliação pessoal, sensitiva, particular, eu classificaria os que vi jogar assim:

Em primeiro lugar, o Inter bicampeão do Brasil em 75 e 76.

Em segundo lugar, o Grêmio de Renato Portaluppi campeão do mundo em 83.

Em terceiro lugar o Inter campeão  invicto em 79.

Em quarto lugar o Grêmio de Felipão campeão da América e do Brasil em 95, 96 e 97.

O Rolo Compressor, no entanto, foi um time muito superior a todos os outros na sua época. Tinha Carlitos e Tesourinha e Nena e Adãozinho. A vantagem do Inter em Gre-Nais se deve ao Rolo Compressor.

E o time de Foguinho, nos anos 50, marcou época. Tinha Gessy, Aírton, Juarez, Ortunho.

E agora?

Como sair dessa?

Vou pensar um pouco mais. Conto com a ajuda de vocês.

 

A morte de Escurinho

29 de setembro de 2011 17

Texto enviado pelo leitor Airton Gontow.

Eu não lembro bem em que Gre-Nal foi. Mas o Grêmio ganhava por 1 a 0 e parecia que dessa vez tinha tudo para quebrar a terrível e torturante hegemonia colorada no futebol gaúcho. A torcida gremista, em maioria no estádio Olímpico, festejava o resultado e a ampla supremacia do time na partida. Até que faltando poucos minutos, 15 talvez, o treinador colorado mandou Escurinho aquecer.

Um murmúrio tomou conta do lado azul. No canto do estádio, os colorados se agitaram. Até que ele, negro, alto e esguio, entrou em campo. Parecia que já estava escrito. Ao primeiro cruzamento, os até então inexpugnáveis zagueiros gremistas sentiram as pernas pesadas. A torcida tricolor sentiu a espinha gelada, como se um vento minuano tivesse rapidamente passado pelo estádio. Escurinho subiu alto, muito alto, mais alto ainda do que você, leitor, imagina e, de cabeça marcou o gol de empate do Inter.

Como poucos, Escurinho personificou o jogador “Camisa 12”, aquele que entra no segundo tempo e resolve o jogo. Aquele herói que nunca consegue conquistar um lugar na equipe titular, mas que é decisivo ao entrar para salvar a Pátria, fundamental nas partidas difíceis, essencial para a conquista de títulos. Nunca vi alguém cabecear como ele.

Chego a dizer que daquele time colorado que foi octa gaúcho e tricampeão brasileiro (Escurinho participou de sete conquistas estaduais e de duas nacionais), eu não temia os craques, mas sim o Escuro, que tinha o poder de tornar meus domingos menos azuis.

Nos últimos anos, o ídolo colorado teve uma vida muito difícil. Com diabetes e insuficiência renal passou longos períodos hospitalizado. Chegou a ter amputadas ambas as pernas, triste ironia da vida para quem saltava tão alto nos tempos de jogador. A direita em 2009. A esquerda este ano. Felizmente, encontrou a solidariedade e o reconhecimento dos antigos colegas, da torcida vermelha e da diretoria colorada, que doou para ele a bilheteria do filme “Nada vai nos Separar”, que narra os 100 anos do time gaúcho.

Na última terça-feira, 27 de setembro, recebi ao final da tarde de um lindo dia a notícia de que Luís Carlos Machado, o Escurinho, morreu, de parada cardíaca, aos 61 anos. Olhei para o céu. Nuvens vermelhas começavam a tornar meu dia menos azul. Imaginei o Escuro subindo, subindo, subindo…Um frio congelou minha espinha. Mas logo abri um sorriso. “Escurinho finalmente pode voltar a saltar, a voar sobre todos nós”, pensei, enquanto uma lágrima escorria pelo meu rosto.
-Descanse em paz, meu querido e inesquecível rival…

Airton Gontow, 49 anos, cronista, jornalista e gremista.

Sala de Redação

29 de setembro de 2011 1

Confira o Sala de Redação desta quinta-feira:

Garrincha redivivo

29 de setembro de 2011 8

Esse lance do Neymar, em Brasil versus Argentina, ontem à noite, não foi um lance de Neymar; foi de Garrincha. Vale a pena ver de novo:

Túnel do tempo: A nudez absolvida

29 de setembro de 2011 5

Texto publicado em 18/08/2004:

Os gregos preferiam as loiras. Por isso, as famosas cortesãs conhecidas como “hetairas” esmeravam-se em manter seus cabelos sempre cuidadosamente tingidos de amarelo, uma vez que as gregas antigas, para infelicidade dos gregos antigos, nasciam na sua maioria morenas feito pés de oliveira.

As hetairas são a prova cabal das vicissitudes pelas quais passavam as mulheres na Grécia. Quer dizer: não em toda a Grécia. Na belicosa Lacedemônia, as espartanas participavam livremente da vida da comunidade e exerciam poderosa influência sobre filhos e maridos – Helena de Tróia, lembre-se, não era de Tróia; era de Esparta.

Em Atenas é que as mulheres viviam reclusas, fornecendo inspiração para uma imortal composição de Chico Buarque e refulgentes notas do Mário Marcos no caderno da Olimpíada. Até surpreende que uma das sociedades mais luminosas da história humana tenha relegado desta forma a mulher às sombras. A tal ponto que muitas delas, mesmo mulheres da aristocracia, mesmo as que dispunham do cobiçado título de cidadãs, mesmo essas preferiram se tornar hetairas.

Essas meretrizes de luxo tinham não apenas mais liberdade do que o comum das gregas, tinham também certo acesso à cultura. Por conta de leituras esparsas e muito esforço elas se transformaram nas mulheres mais célebres da Grécia clássica. Nenhuma tão ilustre quanto Aspásia, paixão imorredoura do grande Péricles. Aspásia fez Péricles divorciar-se da esposa e se tornou uma espécie de primeira-dama ateniense. Promovia saraus, incentivava os intelectuais, centralizava a vida social da cidade, antecipando as damas francesas do século 18.

Mas havia outras hetairas a brilhar em Atenas, com outras habilidades. Havia Clepsidra, assim chamada porque media com uma ampulheta d´água o tempo que despendia na companhia dos clientes, cobrando proporcionalmente. O hábito de Clepsidra com frequência exasperava a freguesia, mas sobreviveu à poeira dos séculos, pelo que se sabe. Igualmente notável foi Targélia, que serviu de espiã aos persas. No afã da coleta informações, Targélia dormiu com o maior número de próceres atenienses possível, número esse que, garantiram seus escandalizados conterrâneos, não foi pequeno.

Já Temístone era tão proficiente na sua arte que prosseguiu ativa até perder o último dente e o último fio de cabelo, enquanto Gnatena treinou a filha com tamanho desvelo que exigia a fortuna de 10 mil dracmas a quem pretendesse passar uma noite de delícias com a moça. Ah, e também havia Laís, a lindíssima Laís de Corinto, tão bela que os escultores imploravam para que lhes servisse de modelo. Depois de muito suplicar, o velho escultor Miron conseguiu sua aprovação. Não se tratava de qualquer um – Miron foi o autor do famoso discóbulo, ainda hoje um dos símbolos do esporte em todo o mundo. No momento em que Laís se despiu, porém, Miron se apaixonou de forma irremediável. Prometeu dar-lhe tudo o que possuía em troca de uma só noite de gozo. Laís sorriu, vestiu-se e se foi em silêncio, deixando Miron sem modelo. No dia seguinte, esperançoso, o velho artista se banhou, untou os cabelos com óleos finos, penteou a barba com critério, vestiu uma túnica púrpura presa por um cinto dourado e renovou as propostas a Laís. A cortesã, sorridente, replicou:

– Meu pobre amigo, vens pedir-me o que ontem recusei a teu pai.

Laís sabia ser exigente e sabia ser generosa. Frustrou os ardores do feio Demóstenes ao reivindicar 10 mil dracmas por uma sessão de prazer, mas ao virtuoso Diógenes ofereceu-se de graça tão-somente para lhe haurir a filosofia.

Agora, de todas, minha preferida é Frinéia. Para os gregos, jamais houve mulher tão deslumbrante quanto Frinéia – compreensível para um povo que não conheceu a Aninha Hickmann. Frinéia serviu de modelo para Praxíteles esculpir suas vênus eternas. Amealhou tamanha riqueza com seus encantos que, depois de uma guerra devastadora, se ofereceu para reerguer a muralha de Tebas às suas expensas. Pagaria tudo, apenas com uma condição. Que na base da muralha fosse inscrito: “Destruído por Alexandre; reconstruído por Frinéia”. O povo de Tebas, temente da posteridade maledicente, recusou. Finalmente, um certo Eutias, a quem Frinéia deve ter repudiado, acusou-a de impiedade. Acusação grave – a pena era a morte. O advogado Hipérides, o Lia Pires de Tebas, ofereceu-se para defendê-la. Não por acaso: Hipérides também se refestelava nos coxins e almofadas de Frinéia. Mas, a despeito de toda a habilidade de oratória do causídico, os jurados pareciam inclinados a condená-la. Foi então que Hipérides, in extremis, arrancou a túnica de Frinéia em plena corte, deixando-a nua como uma Deborah Secco. Em seguida, perguntou aos 200 homens que a julgavam se aquela perfeição seria capaz de cometer um único ato merecedor de censura. Os jurados, sem fôlego, a absolveram antes que Eutias pudesse dizer Gianna Angelopoulos-Daskalaki.

Frinéia. Não ganhou música do Chico, nem notas do Mário Marcos, mas mereceu um poema do parnasiano Olavo Bilac intitulado justamente “O Julgamento de Frinéia”. Reproduzo alguns trechos, começando com a acusação de Eutias. Uma cândida homenagem às mulheres antigas e modernas de todas as cidades:

“Elêusis profanou! É falsa e dissoluta,
Leva ao lar a cizânia e as famílias enluta!
Dos deuses zomba! É ímpia! é má!” (E o pranto ardente
Corre nas faces dela, em fios, lentamente…)
“Por onde os passos move a corrupção se espraia,
E estende-se a discórdia! Heliastes! condenai-a!”
Vacila o tribunal, ouvindo a voz que o doma…
Mas, de pronto, entre a turba Hiperides assoma,
Defende-lhe a inocência, exclama, exora, pede,
Suplica, ordena, exige… O Areópago não cede.
“Pois condenai-a agora!” E à ré, que treme, a branca
Túnica despedaça, e o véu, que a encobre, arranca…
Pasmam subitamente os juízes deslumbrados,
– Leões pelo calmo olhar de um domador curvados:
Nua e branca, de pé, patente à luz do dia
Todo o corpo ideal, Frinéia aparecia
Diante da multidão atônita e surpresa,
No triunfo imortal da Carne e da Beleza.

Os gregos preferiam as loiras. Por
isso, as famosas cortesãs conhecidas
como “hetairas” esmeravam-se em
manter seus cabelos sempre
cuidadosamente tingidos de amarelo,
uma vez que as gregas antigas, para
infelicidade dos gregos antigos,
nasciam na sua maioria morenas feito
pés de oliveira.
As hetairas são a prova cabal das
vicissitudes pelas quais passavam as
mulheres na Grécia. Quer dizer: não
em toda a Grécia. Na belicosa
Lacedemônia, as espartanas
participavam livremente da vida da
comunidade e exerciam poderosa
influência sobre filhos e maridos –
Helena de Tróia, lembre-se, não era
de Tróia; era de Esparta.
Em Atenas é que as mulheres
viviam reclusas, fornecendo
inspiração para uma imortal
composição de Chico Buarque e
refulgentes notas do Mário Marcos no
caderno da Olimpíada.
Até surpreende que uma das
sociedades mais luminosas da história
humana tenha relegado desta forma a
mulher às sombras. A tal ponto que
muitas delas, mesmo mulheres da
aristocracia, mesmo as que
dispunham do cobiçado título de
cidadãs, mesmo essas preferiram se
tornar hetairas.
Essas meretrizes de luxo tinham não
apenas mais liberdade do que o comum
das gregas, tinham também certo acesso
à cultura. Por conta de leituras esparsas e
muito esforço elas se transformaram nas
mulheres mais célebres da Grécia
clássica. Nenhuma tão ilustre quanto
Aspásia, paixão imorredoura do grande
Péricles. Aspásia fez Péricles divorciar-se
da esposa e se tornou uma espécie de
primeira-dama ateniense. Promovia
saraus, incentivava os intelectuais,
centralizava a vida social da cidade,
antecipando as damas francesas do
século 18.
Mas havia outras hetairas a brilhar em
Atenas, com outras habilidades. Havia
Clepsidra, assim chamada porque media
com uma ampulheta d´água o tempo que
despendia na companhia dos clientes,
cobrando proporcionalmente. O hábito de
Clepsidra com frequência exasperava a
freguesia, mas sobreviveu à poeira dos
séculos, pelo que se sabe.
Igualmente notável foi Targélia, que
serviu de espiã aos persas. No afã da
coleta informações, Targélia dormiu com
o maior número de próceres atenienses
possível, número esse que, garantiram
seus escandalizados conterrâneos, não foi
pequeno.
Já Temístone era tão proficiente na sua
arte que prosseguiu ativa até perder o
último dente e o último fio de cabelo,
enquanto Gnatena treinou a filha com
tamanho desvelo que exigia a fortuna de
10 mil dracmas a quem pretendesse
passar uma noite de delícias com a moça.
Ah, e também havia Laís, a lindíssima
Laís de Corinto, tão bela que os escultores
imploravam para que lhes servisse de
modelo. Depois de muito suplicar, o
velho escultor Miron conseguiu sua
aprovação. Não se tratava de qualquer um
– Miron foi o autor do famoso discóbulo,
ainda hoje um dos símbolos do esporte
em todo o mundo. No momento em que
Laís se despiu, porém, Miron se
apaixonou de forma irremediável.
Prometeu dar-lhe tudo o que possuía em
troca de uma só noite de gozo. Laís
sorriu, vestiu-se e se foi em silêncio,
deixando Miron sem modelo. No dia
seguinte, esperançoso, o velho artista se
banhou, untou os cabelos com óleos
finos, penteou a barba com critério, vestiu
uma túnica púrpura presa por um cinto
dourado e renovou as propostas a Laís. A
cortesã, sorridente, replicou:
– Meu pobre amigo, vens pedir-me o
que ontem recusei a teu pai.
Laís sabia ser exigente e sabia ser
generosa. Frustrou os ardores do feio
Demóstenes ao reivindicar 10 mil
dracmas por uma sessão de prazer, mas
ao virtuoso Diógenes ofereceu-se de
graça tão-somente para lhe haurir a
filosofia.
Agora, de todas, minha
preferida é Frinéia. Para os
gregos, jamais houve
mulher tão deslumbrante
quanto Frinéia –
compreensível para um
povo que não conheceu a
Aninha Hickmann. Frinéia
serviu de modelo para
Praxíteles esculpir suas
vênus eternas. Amealhou
tamanha riqueza com seus
encantos que, depois de
uma guerra devastadora, se
ofereceu para reerguer a
muralha de Tebas às suas
expensas. Pagaria tudo,
apenas com uma condição.
Que na base da muralha
fosse inscrito: “Destruído por
Alexandre; reconstruído por
Frinéia”. O povo de Tebas, temente da
posteridade maledicente, recusou.
Finalmente, um certo Eutias, a quem
Frinéia deve ter repudiado, acusou-a de
impiedade. Acusação grave – a pena era a
morte. O advogado Hipérides, o Lia Pires
de Tebas, ofereceu-se para defendê-la.
Não por acaso: Hipérides também se
refestelava nos coxins e almofadas de
Frinéia. Mas, a despeito de toda a
habilidade de oratória do causídico, os
jurados pareciam inclinados a condená-la.
Foi então que Hipérides, in extremis,
arrancou a túnica de Frinéia em plena
corte, deixando-a nua como uma Deborah
Secco. Em seguida, perguntou aos 200
homens que a julgavam se aquela
perfeição seria capaz de cometer um
único ato merecedor de censura. Os
jurados, sem fôlego, a absolveram antes
que Eutias pudesse dizer Gianna
Angelopoulos-Daskalaki.
Frinéia. Não ganhou música do Chico,
nem notas do Mário Marcos, mas
mereceu um poema do parnasiano Olavo
Bilac intitulado justamente “O
Julgamento de Frinéia”. Reproduzo
alguns trechos, começando com a
acusação de Eutias. Uma cândida
homenagem às mulheres antigas e
modernas de todas as cidades:
“Elêusis profanou! É falsa e
dissoluta,
Leva ao lar a cizânia e as famílias
enluta!
Dos deuses zomba! É ímpia! é
má!” (E o pranto ardente
Corre nas faces dela, em fios,
lentamente…)
“Por onde os passos move a
corrupção se espraia,
E estende-se a discórdia!
Heliastes! condenai-a!”
Vacila o tribunal, ouvindo a voz
que o doma…
Mas, de pronto, entre a turba
Hiperides assoma,
Defende-lhe a inocência,
exclama, exora, pede,
Suplica, ordena, exige… O
Areópago não cede.
“Pois condenai-a agora!” E à ré,
que treme, a branca
Túnica despedaça, e o véu, que a
encobre, arranca…
Pasmam subitamente os juízes
deslumbrados,
– Leões pelo calmo olhar de um
domador curvados:
Nua e branca, de pé, patente à luz
do dia
Todo o corpo ideal, Frinéia
aparecia
Diante da multidão atônita e
surpresa,
No triunfo imortal da Carne e da
Beleza.


Som das madrugadas - 2

29 de setembro de 2011 0

Saga, de Filipe Catto, é a sugestão da Êrika Juchem.

Som das madrugadas - 1

29 de setembro de 2011 0

Curte aí uma dica da Mariana Muniz: No Rain, da banda Blind Melon.

O time de Escurinho

28 de setembro de 2011 12

Escurinho jogou no melhor time que vi em campo, no Rio Grande do Sul.
Claro, não vi o Grêmio de Foguinho, nem o Rolo Compressor dos anos 40. Mas posso assegurar que o Inter dos anos 70 era melhor até do que o Grêmio campeão do mundo, que tinha Renato, Paulo César Caju, Mário Sérgio, Oswaldo e De León, e melhor também do que o Grêmio de Luiz Felipe Scolari, que ganhou Copa do Brasil, Brasileiro, Libertadores, Recopa e Gauchão. Foram os três melhores times que vi no Estado. Só que o Inter dos anos 70 era superior.
Escurinho jogava, na prática, como o único meia daquele time. Em 1974, Falcão e Carpegiani jogavam de volantes, saindo ora um, ora outro, e Escurinho na frente deles, um pouco atrás do centroavante, que foi Flávio Bicudo do meio do ano para frente e, antes disso, Sérgio Lima ou Tadeu. Claudiomiro já enfrentava problemas de peso.
Valdomiro voltava e ajudava a marcar, fechando no meio-campo. Na esquerda, Vacaria, Carpegiani e Lula se aproximavam e faziam jogadas de combinação que enlouqueciam os adversários. Atrás, Figueroa funcionava como o chamado “beque de espera” e Pontes ou Hermínio saíam à caça do atacante inimigo.
O time todo tentava preencher os espaços eformandotriângulos imaginários no gramado. Um jogador tomava a bola e outros dois se aproximavam para lhe dar opção de passe.
Mas o mais inteligente do esquema era mesmo o posicionamento do meio-campo. Na época, os times jogavam com dois meias e um centromédio. O Inter, ao contrário, tinha dois centromédios e um meia. Assim, os meias adversários ficavam sempre bem vigiados. Como os dois centromédios tinham fôlego para ir à frente e voltar, o ataque estava permanentemente abastecido.
Escurinho foi destaque em 74, foi o goleador do time. Só perdeu a posição no fim do ano seguinte, quando Minelli designou Caçapava para fazer marcação especial no melhor jogador do Brasil, na época: Roberto Rivellino. “Vocês querem ganhar o jogo?”, perguntou Minelli aos jogadores antes da partida com o Fluminense. “Então vamos botar o Caçapava em cima do Rivellino”. Deu certo. Caçapava não desgrudou do Riva um único segundo, o Inter bateu a Supermáquina e passou à final do Brasileiro de 1975.

Sala de Redação

28 de setembro de 2011 1

Ídolo gaúcho, Escurinho foi homenageado no Sala de Redação desta quarta-feira. O ex-craque colorado estava internado desde abril, devido a sérios problemas de diabetes, e morreu ontem, aos 61 anos, vítima de uma parada cardíaca.

A morte do jornalista esportivo Antonio Carlos Porto, conhecido como Portinho, também foi mencionada pelos integrantes do programa.

Ouça:

Túnel do tempo: Não me venham com borboletas!

28 de setembro de 2011 0

Texto publicado em 19/04/2006.

Título do imeil: “A lição da borboleta”. Minha inclinação foi de clicar no iconezinho de “excluir” e mandar o troço direto ao purgatório para onde vão os imeils que são excluídos, em algum lugar sombrio do fundo do computador. A lição da borboleta, francamente. Sei que os animaizinhos e as plantinhas da Natureza podem nos fornecer inúmeros ensinamentos e patati, mas duvido que isso possa ocorrer pela via estreita e pouco profunda do imeil. Então, quando recebo imeils com arco-íris, ou bichinhos peposos, ou crianças rechonchudas, ou florzinhas, qualquer coisa assim mimosa, ou se é algo pio e alvo, como uma ilustração de Jesus Cristo com o coração vermelho exposto no peito aberto, ou aqueles raios passando pelo meio das nuvens prenunciando a voz potente do Senhor, quando recebo isso, ainda que só tenha a agradecer ao Senhor e tudo mais, quando recebo, realmente, clico no excluir sem vacilação.

Mas esse imeil, “A lição da borboleta”, era um imeil de um velho conhecido. O Cabral. Não, o Cabral não é qualquer um.

Ele é mau.

Jogava de zagueiro. Nunca riu em campo, nem sequer sorriu. Isso é que é importante: o zagueiro não ri. O zagueiro não se perde em considerações, não negocia, não tergiversa. O zagueiro resolve. Pronto. De uma só vez. Decidido como a mulher que vai embora. Firme como seios siliconados. Reto como o caminho da virtude.

Olhe para um Pereirão. Para um Evaldo. Um Bolívar. Eles só mostram os dentes para trinchar uma costela borrachuda ou para rosnar para um centroavante saçaricante. Nada a ver com aquela alegre irresponsabilidade do ataque. Logo, aquele imeil não deveria ter nada a ver com as borboletas que voejam coloridas entre as begônias azuis. Deveria ser sacanagem, e sacanagem, tudo bem, sacanagem eu abro.

Abri. Lá estava aquela paisagem paradisíaca e a frase: “Um dia, num pequeno arbusto, surgiu um casulo…” Ah, não! Excluir! Excluir! Mas o que é que o Cabral está pensando, ao me mandar um imeil sobre borboletas que voejam coloridas entre as begônias azuis???

Isso demonstra duas coisas:

1. Que o Cabral está ficando perigosamente sensível.

2. Que não pode mais jogar de zagueiro.

Assim nossos zagueiros malvados da Dupla. Se um deles pintar o cabelo, amarrar trancinhas, pendurar brinco na orelha ou, pior, se começar a rir por aí, cuidado: passem-no para as amenidades do meio-campo. Ele que vá se arreganhar no grande círculo.