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A História do Mundo: Capítulo 20

06 de outubro de 2011 5

Quantos presidentes o Brasil já teve desde a proclamação da República, em 1889, até a eleição de Dilma Rousseff, em 2010?

Parece fácil de responder. Basta contar: um, Deodoro; dois, Floriano Peixoto; três, Prudente de Morais; quatro, Campos Sales… Mas não é bem assim. Vibra e pulsa uma polêmica a respeito dessa questão, porque houve vices que assumiram a presidência, houve presidentes interinos, houve brechas em que um presidente ficou no cargo por pouquíssimo tempo, houve juntas governativas. Então, se é certo que Dilma Rousseff é a primeira mulher eleita presidente (ou presidentA, como ela gosta), não é certo se ela é a 37ª ou 32ª pessoa a ocupar o posto. Isso numa história de 120 anos. Imagine, agora, listar os faraós que governaram o Egito por 3.200 anos…

Trata-se de tarefa árdua, sobretudo porque naquele tempo não existia o Google. No entanto, o regime dos faraós foi tão bem-sucedido que, durante todo esse tempo, apenas 30 famílias governaram o país em sucessão. Trinta dinastias. Um fenômeno de estabilidade. É certo que, antes da unificação, o Egito experimentou pelo menos outros dois mil anos de história, mas o tempo dos faraós é que foi a glória da nação. Foi nesse período que o Egito se tornou imortal. E, ainda mais importante, foi nessa época que o Egito influenciou para sempre a Civilização Ocidental.

A unificação do Egito, e o consequente estabelecimento da Primeira Dinastia, se deu em cerca de 3.200 anos antes da Era Cristã. O autor da façanha foi Menés, o primeiro faraó. É evidente que Menés dispôs de muita habilidade ao unir o Alto e o Baixo Egito, mas é evidente, também, que ele só alcançou sucesso porque havia uma demanda por isso. O Estado centralizado tornava-se necessário no Egito porque, sozinhas, as pessoas não conseguiriam vencer as enormes dificuldades impostas pela Natureza. Era preciso abrir canais de irrigação, construir silos, definir canais fluviais de transporte, montar barcos e portos para recebê-los. Quer dizer: o esforço conjunto fazia-se indispensável. E, se o esforço conjunto é indispensável, indispensável também é a figura de um líder que aponte o caminho a seguir. Esse líder foi o faraó. Menés, o primeiro de todos.

O governo centralizado e forte era tão importante no Egito que o faraó foi promovido de rei a deus. Essas coisas não acontecem por acaso. As instituições só funcionam quando as pessoas precisam delas. Pense em tudo que é convenção na sociedade, tudo que é subjetivo e que depende visceralmente de justificativa moral para existir: o casamento, a monogamia, a ética do trabalho, a etiqueta, as maneiras de se vestir etc. Tudo isso, que em última análise é limitador da vontade humana, tudo isso só existe por necessidade da sociedade. Assim a divinização do faraó. O Egito não existiria sem um poder central forte. Esse sentimento tornou-se tão arraigado no espírito do povo que varou os séculos. Sobreviveu até à própria independência do país. No século 19, Napoleão escreveu do seu exílio em Santa Helena:

“Quando Alexandre atravessou o deserto até o oásis de Amon, em 14 dias de marcha, e quando ali se proclamou filho de Zeus-Amon, agiu com profundo conhecimento da mentalidade daquele povo (…) E, desta forma, contribuiu para consolidar a conquista mais do que se tivesse construído 20 fortalezas e chamado cem mil macedônios (…) O que admiro em Alexandre não são tanto as suas campanhas, mas os seus métodos políticos (…) Foi um ato solenemente político sua ida ao Templo de Amon, pois deste modo ele conquistou o Egito. Se eu tivesse ficado no Oriente, provavelmente teria fundado um império como o de Alexandre, dirigindo-me em peregrinação a Meca”.

Napoleão, um gênio político-militar, admirava Alexandre, outro gênio político-militar, por sua sagacidade. E a prova dessa sagacidade, no entender de Napoleão, foi a percepção de Alexandre do quanto o povo egípcio tinha entranhada na alma a convicção de que seu governante era divino.

Menés, portanto, fundou a tradição dos reis-deuses do Egito e a Primeira Dinastia. Nessa Primeira Dinastia houve inclusive um faraó chamado Aha, mas não acredito que tenha sido ele o inspirador de uma banda de rock norueguesa que se formou cinco mil anos depois. Foi só na Terceira Dinastia que o faraó Djoser, ou Geser, ordenou a construção da famosa Pirâmide de Sakkara, a precursora das pirâmides que simbolizam o país.

Trata-se de uma pirâmide em degraus. A base retangular, e não quadrada como a das pirâmides clássicas, é maior do que a segunda camada. A segunda camada é maior do que a terceira, e assim por diante, até a sexta. A Pirâmide de Sakkara foi obra de Imhotep, o primeiro grande arquiteto da Humanidade. Imhotep era médico, arquiteto, administrador e primeiro ministro. Uma espécie de Leonardo da Antiguidade.

A pirâmide de Imhotep, ou do faraó Djoser, foi o ponto de partida para que se chegasse à simplicidade irretocável da pirâmide clássica. Em seguida, na Quarta Dinastia, o faraó Snefru avançou três passos rumo à perfeição, cada passo uma pirâmide. Snefru tornou-se conhecido pela posteridade como “O Construtor de Pirâmides”. Não por acaso. Ergueu uma, não gostou: era uma pirâmide em degraus, como a de Sakkara. Mandou erguer outra, não gostou: foi uma denominada “romboidal”, que é quase a forma da pirâmide clássica, mas com a base quadrangular. Por fim, ergueu a terceira, a chamada Pirâmide Vermelha, muito parecida com as pirâmides que o mundo conhece. Dessa o homem gostou. Os arquitetos egípcios estavam chegando lá.

As pirâmides que simbolizam o Antigo Egito foram construídas ainda na Quarta Dinastia pelos três famosíssimos faraós que bem poderiam formar um trio de meio-campo: Quéops, Quéfren e Miquerinos.

O pai de todos foi Quéops, que, embora fosse pai de todos, era filho de Snefru. Foi ele o construtor da Grande Pirâmide, a única das Sete Maravilhas do Mundo Antigo que ainda está de pé. A estupidez e a concupiscência humanas, porém, por pouco não a puseram abaixo (quando se juntam, a estupidez e a concupiscência são quase invencíveis). No século 9, o califa Abdullah El Mamun, que governou o país por 50 anos, queria desmontar a Grande Pirâmide a fim de se apoderar dos tesouros que, supunha ele, estavam escondidos entre suas paredes. Só desistiu do projeto porque seus engenheiros disseram que o trabalho sairia mais caro do que a soma de todos os impostos arrecadados pelo Egito durante anos. Contentou-se em abrir uma passagem na parede norte, ainda utilizada por quem visita o monumento.

Muitos se impressionam ao saber que a Pirâmide de Quéops é o monumento mais pesado do mundo. Não sei por que tanto espanto. Afinal, quem é que vai querer levantar a Pirâmide de Quéops? Mais impressionante é a precisão geométrica com que foi construída. Sua base é um quadrado praticamente perfeito, com lados de 230 metros, variando menos de 20 centímetros de um para outro. As paredes laterais se inclinam num ângulo de 41º até se encontrarem a 157 metros do chão. Os gigantescos blocos de calcário foram cortados com tanta destreza que, depois de encaixados, era impossível enfiar uma faca entre eles. Como conseguiram essa proeza 25 séculos antes de Cristo?

Quéops é o nome que os gregos deram ao faraó. Em egípcio diz-se Khufu. Era um rei misterioso, pouco se sabe a seu respeito, não existe nem sequer a certeza de que tenha sido sepultado na Grande Pirâmide. Não restou nenhum retrato dele, nenhuma estátua, exceto uma estatueta de marfim de 12 centímetros de altura, que está exposta no Museu Egípcio do Cairo.

Segundo Heródoto, Quéops foi um rei cruel e tirânico. Obcecado pela sua pirâmide monumental, exauriu os cofres do país na construção. Mas você sabe como é obra: sempre sai mais do que o previsto. Se o arquiteto diz que vai custar 60, pode se preparar para gastar 120. Neste caso, normalmente as pessoas apelam para empréstimos bancários. Como naquele tempo não havia bancos, quando o dinheiro acabou Quéops lançou mão de um recurso pouco ortodoxo: mandou a própria filha para um lupanar. O que ela arrecadasse alugando o corpo macio e sinuoso seria revertido para a construção. O homem queria MESMO terminar aquela pirâmide.

A princesa obedeceu às ordens de papai, com uma condição: além do pagamento por seus serviços, cada amante teria de lhe trazer uma pedra. Com essas pedras, ela levantou a pirâmide que está plantada em frente à do pai-cafetão. Se você for um dia a Gizé, poste-se entre as duas pirâmides e pense em como foram erguidas. Em seguida, jogue suas mãos para o céu e faça uma saudação a essa admirável mulher da Antiguidade, pois ela certamente foi uma filha obediente, uma princesa formosa e uma competente profissional do prazer.

Depois de meio século de desmandos, Quéops virou múmia e foi sucedido por seu irmão, Dedefre, um faraó obscuro, que mal teve seu nome registrado pela História. O rei seguinte foi o filho de Quéops, Khafre (Quéfren, para os gregos), que governou por 56 anos e construiu a segunda maior pirâmide e a Esfinge. Quéfren foi tão despótico quanto o pai. Os egípcios detestavam tanto esses dois faraós que chamavam seus túmulos de “As Pirâmides de Filítis”, um pastor que costumava passar com seus rebanhos pelo local – uma pequena vingança do povo oprimido, mostrando que desde os séculos mais remotos só restam aos povos oprimidos pequenas vinganças.

Miquerinos, filho de Quéfren e neto de Quéops, não puxou ao pai ou ao avô. Foi um bom faraó, que ajudava o povo até com seus recursos pessoais. Como não queria gastar muito do tesouro público, mandou erigir um túmulo mais modesto do que os dos seus antepassados. Sua pirâmide eleva-se à metade da altura da de Quéops.

Heródoto conta uma história curiosa sobre Miquerinos: um dia, um oráculo profetizou que ele só teria mais seis anos de vida. O faraó ficou muito triste, mas resolveu reagir. Ordenou que fossem construídas inúmeras candeias. Assim, quando a noite chegava, ele mandava acendê-las em todo o palácio. Então, bebia e comia à grande, amava belas mulheres, divertia-se com os amigos. Fazia de tudo para confundir o oráculo e transformar seis anos em doze. Não funcionou, Miquerinos morreu mesmo. Mas pelo menos aproveitou bem o tempo que lhe restava. Os monumentos que imortalizaram os faraós e seu tempo, portanto, estavam concluídos, mas a aventura dos antigos egípcios continuaria, repleta de lances espetaculares, por ainda outros 2.500 anos.

Os quais vamos ver nos próximos capítulos.

Comentários (5)

  • dschonardie diz: 6 de outubro de 2011

    Finalmente voltou a hostoria do mundo , né?
    … E foi bom!
    Aguardamos o capilo 21!

  • Vinícius diz: 6 de outubro de 2011

    Parabéns David, belo texto. Já desconfiava que tanto Túnel do tempo ultimamente tinha um bom motivo.

  • Alessandro – SC diz: 7 de outubro de 2011

    Muito bom David! Só tenho uma consideração a fazer, acho que essa frase está incompleta, parece que falta alguma coisa depois da palavra local. “Os egípcios detestavam tanto esses dois faraós que chamavam seus túmulos de “As Pirâmides de Filítis”, um pastor que costumava passar com seus rebanhos pelo local – uma pequena vingança do povo oprimido, mostrando que desde os séculos mais remotos só restam aos povos oprimidos pequenas vinganças.

  • Edson Miguel Forigo’ diz: 7 de outubro de 2011

    David, bom dia!!! Este não seria o 21º Capítulo?!?!?! Abraço!

  • Geodario Vieira diz: 5 de novembro de 2012

    David, concordo com o comentário do Alessandro quando diz:

    Alessandro – SC diz:
    7 de outubro de 2011
    Muito bom David! Só tenho uma consideração a fazer, acho que essa frase está incompleta, parece que falta alguma coisa depois da palavra local. “Os egípcios detestavam tanto esses dois faraós que chamavam seus túmulos de “As Pirâmides de Filítis”, um pastor que costumava passar com seus rebanhos pelo local – uma pequena vingança do povo oprimido, mostrando que desde os séculos mais remotos só restam aos povos oprimidos pequenas vinganças.

    Abraço.

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