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O melhor de todos não existe

30 de outubro de 2011 7

Citius, altius, fortius. O mais rápido, o mais alto, o mais forte. O lema dos Jogos Olímpicos que o Barão de Coubertin tomou emprestado de um frasista amigo seu, o Padre Didon, este lema que vige até hoje nos Jogos é, de resto, a razão de ser de quaisquer jogos esportivos. Um jogo pretende sempre apurar quem é O Melhor. Mas esse anseio é irrealizável. Não existe nem nunca existiu nem jamais existirá O Melhor no que quer que seja.

A prova do que digo é fornecida, exatamente, pelo esporte.Você pega o futebol, por exemplo. O mais popular dos jogos esportivos. O futebol fornece uma série de exemplos clássicos de que é impossível apontar quem é O Melhor. O Maracanazo de 50, a derrota acachapante da Hungria de Puskas para a Alemanha em 54, a mesma Alemanha batendo a Holanda de Cruyff 20 anos mais tarde, o fracasso do Brasil de Telê em 82, o estranho desfalecimento de Ronaldo que levou a Seleção Brasileira à falência na França em 98. Exemplos mundiais, notórios, exemplos do tamanho de uma Copa do Mundo. E todas as semanas explodem outros, menores, mas igualmente expressivos, de favoritos se desmanchando diante de inimigos pretensamente inofensivos.

Isso poderia significar a frustração absoluta do esporte, já que o principal objetivo da atividade não é atingido. Mas não é o que acontece.Ao contrário, até: o esporte acaba alcançando plenamente o seu objetivo através de dois caminhos opostos:

1. O esporte, mesmo que não apure quem é O Melhor, fornece a ilusão de que apurou quem é O Melhor. Pelo menos momentaneamente, pelo menos ao fim de uma temporada. Essa ilusão é um consolo para as pessoas. Elas se enganam pensando que é possível haver alguém ou algo que seja O Melhor, e aí a vida se torna mais simples, organizada e compreensível.Ali está O Melhor, depois dele vem o segundo melhor, a seguir o terceiro melhor e, lá adiante, o pior de todos. Está tudo classificado, rotulado e arquivado. Não é preciso mais pensar no assunto. Isso é tão conveniente. Dá a confortadora ideia de que a existência é previsível.

2. Exatamente, e contraditoriamente, por não conseguir jamais apurar quem é O Melhor, por apresentar vez em quando uma surpresa chocante, o esporte fascina as pessoas. Porque elas percebem que ali está a representação da vida, as incongruências, incoerências e imprevistos da vida. Os dramas, as comédias, as tragédias, as alegrias e tristezas todas da existência são reproduzidas pelo esporte em escala inofensiva.A vida não é reta e o esporte mostra isso a cada torneio, assim como o mundo mostra isso todos os dias.

São sentimentos conflitantes, mas que acabam se completando e se encaixando à perfeição: no esporte, as pessoas anseiam por apurar quem é O Melhor e acreditam que vão apurar quem é O Melhor. Mas, ao não conseguirem, ao serem surpreendidas entendem que a vida é assim mesmo, que há circunstâncias imponderáveis em tudo e em todos, e isso termina sendo a grande lição do esporte.A beleza do jogo esportivo é precisamente essa incapacidade de atingir seus próprios objetivos.

O esporte tenta demonstrar quem é o mais forte, mas acaba demonstrando que, mesmo que exista alguém muito forte, sempre haverá alguém ainda mais forte. O esperto sempre encontra alguém mais esperto, a mais bela sempre encontra alguém mais bela.A espetacular variedade da vida. Por isso, a derrota é fascinante. Dias atrás, um bom amigo meu proferiu, no bar da Redação, uma frase aparentemente casual, mas na verdade profunda, que me tocou:

– Eu sempre admirei meu pai – disse o meu amigo, com um copo de café na mão. – Mas só fui amá-lo quando vi que ele também errava.

Aí está. Perder é fundamental.A derrota faz parte da essência humana. Não é por acaso que times derrotados forjam torcidas fanáticas.A massa vibrante do Corinthians cresceu no fermento dos 23 anos sem um único título do clube, período interrompido pelo gol de Basílio em 1977. O inchaço da maior torcida do Brasil, a do Flamengo, ocorreu nos anos 60, década mais pobre de títulos da história do clube. E agora, nas séries subalternas do Brasileirão, o Santa Cruz dá um show nas arquibancadas. Por que o amor floresce nas horas ruins? Porque a vida é feita também de horas ruins. Campeões invencíveis não são humanos. Campeões invencíveis podem até ser admirados, mas amados nunca serão.

* Texto publicado na Zero Hora de ontem, 29/10/2011.



Comentários (7)

  • Eduardo diz: 30 de outubro de 2011

    Davi, no futebol não existe o melhor, o invencível, o jogo é decidido na sorte dos detalhes decisivos.
    Se diz que aquele time menos qualificado joga 10 vezes e vai perder 9 para o time melhor qualificado, mas como, somente aquele jogo que era decisivo o grandão perdeu ??
    Se o time pequeno tiver novamente a boa sorte nos detalhes decisivos ele vai vencer mais vezes o grandão.
    Penso que a competência de um time é definida pela:
    - qualidade técnica de seus jogadores,
    - capacidade física do time,
    - motivação do time,
    - estratégia de jogo,
    - boa sorte dos detalhes.
    Num jogo de Libertadores o Grêmio teve 14 chances claras de gol, mas a boa sorte não este presente em nenhum destes detalhes decisivos.
    O Grêmio era superior em todos os itens relacionados, menos um, a boa sorte nos detalhes decisivos, então o jogo terminou 0×0.

  • np7761 diz: 30 de outubro de 2011

    Texto muito longo e chato. Não consegui ler até o fim.

  • JC Dias diz: 30 de outubro de 2011

    Uma prova de que nem sempre o melhor vence é a quantidade de títulos gaúchos que o Grêmio tem (rsssss). Um abraço.

  • mateus diz: 30 de outubro de 2011

    JC Dias, baseado nas suas declarações, é óbvio que nem sempre o melhor vence, senão também seria óbvio que o seu time moranguinho não teria ganhao Libertadores, Mundial e Sul Americana.

  • Pablo diz: 30 de outubro de 2011

    Nem sempre o melhor vence. Vide Gauchão 2011.

  • Ismael diz: 30 de outubro de 2011

    David, a torcida do flamengo não se explica por isso. É um típico caso de teoria/pesquisa que desprezou outros fatores importantes, e ficou portanto errada.

    A Ascensão do Flamengo (e provavelmente influenciou da do Corinthians também), se dá junto com a criação e crescimento da Globo. A primeira rede realmente nacional de TV.

    A “cariocalização” do brasil que explica isso. Hoje vivemos a “paulistazação”, pois SP tem mais poder econômico e o Rio há muito não é capital.

    Não acreditam em mim ? Quem aí com 30 anos ou mais notou que se tornou até estranho falar “Guria”, está até comum falar “Mina”, coisa inconcebível uns 5 anos atrás.

    Lamentavelmente estamos indo pelo ralo, virando uma grande SP.

  • JC Dias diz: 30 de outubro de 2011

    Mateus, ou “má teus”. Além de tudo, vocês são mau humorados. Afe! Melhor ir fazer um DVD para desestreçar meu caro! Aproveite que o Náutico está vindo aí.

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