Citius, altius, fortius. O mais rápido, o mais alto, o mais forte. O lema dos Jogos Olímpicos que o Barão de Coubertin tomou emprestado de um frasista amigo seu, o Padre Didon, este lema que vige até hoje nos Jogos é, de resto, a razão de ser de quaisquer jogos esportivos. Um jogo pretende sempre apurar quem é O Melhor. Mas esse anseio é irrealizável. Não existe nem nunca existiu nem jamais existirá O Melhor no que quer que seja.
A prova do que digo é fornecida, exatamente, pelo esporte.Você pega o futebol, por exemplo. O mais popular dos jogos esportivos. O futebol fornece uma série de exemplos clássicos de que é impossível apontar quem é O Melhor. O Maracanazo de 50, a derrota acachapante da Hungria de Puskas para a Alemanha em 54, a mesma Alemanha batendo a Holanda de Cruyff 20 anos mais tarde, o fracasso do Brasil de Telê em 82, o estranho desfalecimento de Ronaldo que levou a Seleção Brasileira à falência na França em 98. Exemplos mundiais, notórios, exemplos do tamanho de uma Copa do Mundo. E todas as semanas explodem outros, menores, mas igualmente expressivos, de favoritos se desmanchando diante de inimigos pretensamente inofensivos.
Isso poderia significar a frustração absoluta do esporte, já que o principal objetivo da atividade não é atingido. Mas não é o que acontece.Ao contrário, até: o esporte acaba alcançando plenamente o seu objetivo através de dois caminhos opostos:
1. O esporte, mesmo que não apure quem é O Melhor, fornece a ilusão de que apurou quem é O Melhor. Pelo menos momentaneamente, pelo menos ao fim de uma temporada. Essa ilusão é um consolo para as pessoas. Elas se enganam pensando que é possível haver alguém ou algo que seja O Melhor, e aí a vida se torna mais simples, organizada e compreensível.Ali está O Melhor, depois dele vem o segundo melhor, a seguir o terceiro melhor e, lá adiante, o pior de todos. Está tudo classificado, rotulado e arquivado. Não é preciso mais pensar no assunto. Isso é tão conveniente. Dá a confortadora ideia de que a existência é previsível.
2. Exatamente, e contraditoriamente, por não conseguir jamais apurar quem é O Melhor, por apresentar vez em quando uma surpresa chocante, o esporte fascina as pessoas. Porque elas percebem que ali está a representação da vida, as incongruências, incoerências e imprevistos da vida. Os dramas, as comédias, as tragédias, as alegrias e tristezas todas da existência são reproduzidas pelo esporte em escala inofensiva.A vida não é reta e o esporte mostra isso a cada torneio, assim como o mundo mostra isso todos os dias.
São sentimentos conflitantes, mas que acabam se completando e se encaixando à perfeição: no esporte, as pessoas anseiam por apurar quem é O Melhor e acreditam que vão apurar quem é O Melhor. Mas, ao não conseguirem, ao serem surpreendidas entendem que a vida é assim mesmo, que há circunstâncias imponderáveis em tudo e em todos, e isso termina sendo a grande lição do esporte.A beleza do jogo esportivo é precisamente essa incapacidade de atingir seus próprios objetivos.
O esporte tenta demonstrar quem é o mais forte, mas acaba demonstrando que, mesmo que exista alguém muito forte, sempre haverá alguém ainda mais forte. O esperto sempre encontra alguém mais esperto, a mais bela sempre encontra alguém mais bela.A espetacular variedade da vida. Por isso, a derrota é fascinante. Dias atrás, um bom amigo meu proferiu, no bar da Redação, uma frase aparentemente casual, mas na verdade profunda, que me tocou:
– Eu sempre admirei meu pai – disse o meu amigo, com um copo de café na mão. – Mas só fui amá-lo quando vi que ele também errava.
Aí está. Perder é fundamental.A derrota faz parte da essência humana. Não é por acaso que times derrotados forjam torcidas fanáticas.A massa vibrante do Corinthians cresceu no fermento dos 23 anos sem um único título do clube, período interrompido pelo gol de Basílio em 1977. O inchaço da maior torcida do Brasil, a do Flamengo, ocorreu nos anos 60, década mais pobre de títulos da história do clube. E agora, nas séries subalternas do Brasileirão, o Santa Cruz dá um show nas arquibancadas. Por que o amor floresce nas horas ruins? Porque a vida é feita também de horas ruins. Campeões invencíveis não são humanos. Campeões invencíveis podem até ser admirados, mas amados nunca serão.
* Texto publicado na Zero Hora de ontem, 29/10/2011.
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