O meu amigo João Raul Borges Neto morava na Salgado Filho. Um apê nos píncaros. Vigésimo andar, se não me engano. Volta e meia eu ia lá, estudar com ele, que éramos colegas de segundo grau no Piratini. Mal entrava, e o João apontava para uma depressão no tapete da sala.
– Uma loira estava deitada aqui agora mesmo – ele dizia, e acrescentava com casualidade: – Nua.
Cara, um guri de 15 anos de idade ouvir isso, naquela época... Eu ficava olhando para o tapete. Que sorte tinha o João Raul. Ele viera do Interior profundo do Rio Grande, atravessava a febre dos 18 anos e agora morava sozinho num apartamento na Salgado Filho. O que podia querer mais? A vida mundana pulsava na Salgado Filho, com suas palmeiras longilíneas se elevando do canteiro central, seus bares, cafés e cinemas, seus transeuntes elegantes que passeavam sem pressa pelas calçadas, olhando as vitrines,sorrindo,sorvendo a existência. A Salgado Filho era um bulevar, era isso que era a Salgado Filho.
O que aconteceu com a Salgado Filho? Agora mesmo recebi um e-mail de um morador da avenida queixando-se da sujeira, dos mendigos, do tráfico de drogas, da insegurança. O que houve para que tudo se tornasse tão diferente? Para que piorasse tanto?
Vou dizer o que houve: uma única decisão errada. Uma só: no fim dos anos 70,a prefeitura resolveu lá instalar pontos finais de linhas de ônibus. Estacionados ao longo do meio-fio, os ônibus monstruosos passaram a cobrir a visão dos passantes e bloquearam o acesso ao comércio, as filas de passageiros ocuparam as calçadas e afugentaram os frequentadores dos bares e dos cafés. A Salgado Filho foi violentada.
Mas,obviamente,não era essa a intenção dos administradores. Eles pretendiam melhorar a vida do usuário de ônibus. Em tese, tratava-se de uma ação popular; acabou sendo uma ação pouco inteligente. Talvez os gestores da época não compreendessem que a cidade é um organismo vivo, que cada lasca de bairro tem seu estilo e sua vocação que precisam ser respeitados.
A Salgado Filho é uma avenida para ser percorrida a pé, para que o caminhante levante a cabeça e veja um pedaço do horizonte, algo que normalmente não é visto no coração da grande cidade. É para ser usufruída, não para ser utilitária.
Há tantas vocações perdidas em Porto Alegre.Aquele prédio inconcluso em frente ao Chalé da Praça XV. Vi um prédio parecido em Berlim. Os alemães o transformaram em um centro de cultura e lazer alternativo. Lá acontecem exposições e festas, lá as pessoas se divertem em meio ao que devia ser escombros.
Por que não conseguimos fazer algo assim com nossos projetos falidos, como oAeromóvel,com os nossos planos jamais concretizados, como o Estaleiro Só?
Nós brigamos demais. Temo que, por causa de nossas brigas irresolvíveis, outra vocação de PortoAlegre vá se perder: a vocação boêmia da Cidade Baixa. Só vejo gente contra ou a favor, neste caso da Cidade Baixa. Só vejo birra. Por que não conseguimos nos entender e chegar a um denominador comum em que todos saiam ganhando? Há que se conversar antes de se tomar uma atitude. Porque, a Salgado Filho já mostrou, basta uma só atitude para causar o mal de toda uma geração.
* Texto publicado na Zero Hora de ontem, 25/11/2011.





Não acredito que discutem a bohemia da Cidade Baixa?? Deixa ela quieta para quem curte. Por favor!!
Quem viveu as noites da Salgado Filho na década de 70 sabe muito bem do que você está falando.
David eu vivi aquela época, morava próximo, na Lima e Silva, era um esplendor só, não tinha como não gostar, mas na minha opinião o que pior acontece hoje é a falta de caracter, diguinidade e respeito, as pessoas não sabem mais se comportar, as drogas e as bebidas acabaram com tudo isso, é uma pena porque com certeza essa Salgado Filho não volta mais, e os culpados são os próprios frequentadores.
Fico revoltada com essa campanha no mundo de acabar com a noite, com a boêmia, vou falar de Blumenau que conheço muito, Blu só dá o direito das pessoas se divertirem na vila germânica em festivais de cerveja, ok lindo isso, mas fora disso não há outra opção, fábricas estão nos lugares onde deveria existir boêmia. Isso é muito triste, tanto em capitais quanto em cidades ricas quanto Blumenau. Existe uma corrente no mundo quem vem não sei do onde, infelizmente não é só Poa que sofre com isso, essa corrente deseja acabar com lugares clássicos como este que vc descreveu David, não é acaso que as drogas pesadas tem ganhando espaço cada vez mais. O Brasil quer moralizar sem ter inteligência pra isso.
Bah David, teus textos são tão melhores qdo tu não fala de futebol...
Aqui foste perfeito. Parabéns!
Infelizmente o povo gaúcho é assim David. Somos tomados pelo conservadorismo, e não conseguimos discurtir sociavelmente projetos que vêm a melhorar nossas vidas. As pessoas atem-se a criticar, inclusive nesse caso da Cidade Baixa, e não levam em consideração toda representatividade economica, cultural e social da bohemia na região. Um exemplo clássico foi a discussão gerada quando da necessidade de troca da posição do Laçador (para um lugar bem melhor!!!), criou-se uma novela por um assunto tão simples, que tinha como propósito melhorar o acesso a zna norte da cidade!!!
Não entendi... O problema da Salgado Filho foi sua degeneração para "sujeira, mendigos, tráfico de drogas, insegurança." A seguir, falas da Cidade Baixa (onde morei por 8 anos, até junho, agora). Pois é exatamente desses problemas que os moradores de lá reclamam, e acrescente-se o barulho, o sexo em público, a depredação. Eu sei o que é subir a Lima e Silva às 7 da manhã de uma segunda-feira! As lixeiras nas calçadas são mais limpas que as próprias calçadas. Perdi a conta de quantas vezes tive de desviar de fezes humanas, de garrafas quebradas, de corpos de bêbados ou drogados inconscientes no chão.
Ah, mas aí é a "boemia", que bonitinho, e isso redime qualquer coisa. O direito de fazer festa justifica que se sacrifique qualquer outro direito, inclusive frescuras de gente chata, tipo... dormir!
O primeiro comentário aqui resumiu a incapacidade das pessoas de entender o problema: "Deixa ela (a boemia) quieta para quem curte"
É impossível deixá-la quieta, porque, numa sociedade que se lixa para os direitos alheios, quieta é JUSTAMENTE o que ela não é!