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A mulher do surfista

28 de dezembro de 2011 7

* Texto publicado em janeiro de 2010.

Há homens que dizem não conhecer o significado da palavra medo. Há homens que não conhecem o significado da palavra celulite. São os surfistas. Não quaisquer surfistas, bem entendido. Os bons. Os de campeonato. As mulheres desses surfistas são inverossímeis mulheres desprovidas de celulite. Uma delas foi avistada dias atrás, dentro de seu shortinho, nas cercanias da plataforma de Atlântida.

Causou comoção.

Mulheres de surfistas são como mulheres de músico. A mulher do músico chega ao bar, senta-se sozinha, pede um guaraná, levanta o queixo e fica assistindo ao show. Todos os homens reparam nela. Comentam. Tecem teses. Os mais arrojados tentam aproximação. Invariavelmente, dão-se mal. A mulher do músico os rechaça e, do alto do palco, o músico sorri um meio sorriso de superioridade.

Mulher de surfista, a mesma coisa. Ela fica sentada na areia, sozinha nas miudezas do seu biquíni. Se algum gaiato
se aproxima, ela aponta para o mar espumante. O sujeito ergue a cabeça e vê aquele rapagão saindo d’água feito um Namor, o Príncipe Submarino. Maldição.

Normal que sejam assediadas, as mulheres dos músicos e as dos surfistas. Não apenas porque em geral estão sozinhas, mas porque em geral são belas. Sobretudo as dos surfistas, essas mulheres sem celulite.

Não vai aí nenhuma crítica à mulher com celulite, ressalte- se. A celulite faz parte do corpo da mulher neste tempo de refrigerantes gaseificados. Algumas, bem localizadas, são até graciosas. Um dos meus amigos do Pretinho Básico não admite mulheres descelulitadas. Acha que a celulite humaniza a mulher, e desconfia da que não possua quaisquer acidentes geográficos na pele, embora não conheça nenhuma que seja assim.

Não chego a tanto, mas também não fico reparando em celulites módicas, desde que elas sejam, bem, módicas.

Para os grandes surfistas, no entanto, a celulite é desclassificatória. As carnes de suas mulheres são rijas, suas nádegas têm a firmeza das convicções religiosas, suas ilhargas são lisas e límpidas como o caminho da virtude.

Foi uma dessas mulheres, uma jovem de pernas longas como uma garça, de cabelos negros retintos, de pele de morenice carioca, foi uma dessas pequenas Afrodites do Atlântico Sul que estava, dias atrás, deitada langorosa sobre uma canga, nas proximidades da plataforma de Atlântida. A tarde caía mormacenta, a praia esvaziava-se devagar, e ela permanecia em seu posto, fitando o horizonte. Olhava para as ondas.

Obviamente, uma mulher de surfista.

Um grupo deles, de surfistas, equilibrava-se nas pranchas lá longe, depois da segunda arrebentação. Pareciam pequeninos, vistos da areia. Foi justamente a distância que motivou um conhecido combatente da noite porto-alegrense a se aproximar da menina solitária. Trata-se, esse velho lobo dos bares da cidade, de um tipo ilustrado, um aristocrata lido, viajado, conhecedor de vinhos e charutos. Um tipo que agrada as mulheres.

– Vou lá – anunciou aos amigos.

– É mulher de surfista – avisou um.

– Eu sei, mas olha onde estão os surfistas – apontou para o mar escuro.

– Não voltam antes de meia hora. É tempo suficiente. Esses caras são todos umas bestas, não conseguem completar uma frase inteligível. Essa menina nunca teve 15 minutos de conversa de verdade com um homem.

Antes que o outro contra-argumentasse, a menina pôs-se de pé. Vestia um short curto amarrado por uma cordinha e uma blusa branca de alças delgadas. Ajeitou os longos cabelos pretos com graça felina, e todos os homens num raio de cem metros se arrepiaram. Era o que bastava para o velho lobo dos bares se decidir. Ele foi.

Não se pode acusá-lo de falta de empenho. Todos viram como falou, argumentou e gesticulou ao lado da moça. Em vão. Ela nem sequer moveu o olhar do mar. Dispensou-o de forma delicada, mas decidida. Retornou derrotado, o velho lobo, e desdenhoso:

– Essas gurias gostam mesmo é dos burrões.

Naquele momento, o burrão em questão emergiu das ondas. Caminhou até a morena, sorrindo, e sorrindo beijou-a na boca. Fez aterrissar a prancha na areia, secou-se com uma toalha que ela lhe estendeu, trocaram algumas frases, isso tudo sob as vistas da turma de amigos do velho lobo dos bares. Então, o surfista enfiou a mão na sacola de pano que estava ao lado da menina e de lá sacou algo que surpreendeu a todos.

Um livro. Um volume com encadernação de couro, que ele abriu e pôs-se a ler. Os amigos, perplexos, avançaram alguns passos para ver o título. Viram, estupefatos: “Os Irmãos Karamazov”.

Dostoievski.

O surfista lia Dostoievski e tinha a lhe esperar, na areia, uma dessas Afrodites sem celulite.

Não. A vida praiana não é justa.

Comentários (7)

  • Vinicius Bresolin diz: 28 de dezembro de 2011

    Davi,
    Sou fã dos teus textos e com eles às vezes tento melhorar o meu português.
    Dá-me uma ajudinha. Onde tu escreveste:
    - “Maldição.”
    Não deveria ter um ponto de exclamação ao invés de ponto final?

    Sobre as mulheres de surfistas. Eu as comparo as artistas globais, muito linda para se olhar, mas inacessíveis.

  • Gabriela diz: 28 de dezembro de 2011

    fantástico!

  • Raphael Nunes diz: 28 de dezembro de 2011

    Mulhéres de verdade são aquelas do Dominó Night Club. Estas sempre caem no meu Jogo da Sedução.

  • marcelo diz: 28 de dezembro de 2011

    Como sempre, excelente. O texto do David flui com uma naturalidade impressionante. Que inveja! Maldição.
    Ah, quanto ao “Maldição.” sem o ponto de exclamação, vejo-o mais como um resmungo entredentes do que uma manifestação para que outrem ouça. Ao menos foi a minha interpretação da ausência do dito.
    Mas faço minhas as palavras do Vinicius; uso toda e qualquer leitura, de qualidade, diga-se, para melhorar minha leitura, minha escrita e até minha fala.
    Gracias, David. Agora, sem “Maldição”.

  • Ewerton Fernandez diz: 28 de dezembro de 2011

    David, estou aguardando a historinha dos amigos (sala de hoje).

  • Araujo diz: 28 de dezembro de 2011

    Como é bom te ver contanto essas historias de bronheiro, ao invés dos teus lunáticos e desinformados comentários sobre futebol.

    Que 2012 seja assim David … sem futebol nas tuas colunas. Coisa Boa!

    Um abraço e feliz ano novo!

  • jota araujo diz: 8 de março de 2012

    foi tempo em que surfistas eram taxados de burros, vagabundos, maconheiros, hoje em dia a coisa está mudada,hoje no mundo do surf temos atletas milhonários,temos grandes empresarios viajados que em horas de folgas não trocam uma boa caida por nada, e digo ainda mais e ganham muito mais do que certos caras que passam horas atrás de uma mesa secrevendo besteira, tipo assim: o que um surfista ganha as vezes em dois campeonatos o cara não ganha em 6 meses de trabalho.
    A vida praiana não pode ser justa mas a do mar é justa , muito justa

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