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Kant estava certo

09 de janeiro de 2012 18

Ao observar o meu filhinho, concluí que Kant estava certo. Immanuel Kant foi um filósofo que viveu a vida inteira em Konnigsberg. Concebeu uma obra portentosa, difícil, cada página é uma dor, mas, depois que você consegue compreendê-la, o mundo se ilumina. Vou tentar fazer um resumo grosseiro.

Kant dizia que temos conhecimento a priori. Quer dizer: sabemos  de certas coisas ANTES de receber informações sobre elas. Um conhecimento que estaciona do lado de fora da área intelectual. Por exemplo: você tem nas mãos uma barra de chocolate. De imediato,o seu cérebro começa a receber informações a respeito. A forma, a cor, o cheiro, a textura, o sabor. Dezenas de sensações.Talvez centenas. Mas você não leva todas em consideração.  Algumas você rejeita; outras, qualifica como mais ou menos importantes. Um processo sofisticado. Tudo isso em menos de um segundo.

Como você decidiu o que seria relevante? Onde você adquiriu essa escala de valores? Aí está: em lugar algum. Você JÁ SABIA disso. Você faz isso todos os dias, o dia todo. Agora mesmo você está sendo acossado por um milheiro de sensações. O encosto da cadeira na sua espinha dorsal, o tecido da sua roupa, o tique-taque do relógio de parede, o rosnado do carro que passa lá fora, o vagido da criança no apartamento contíguo, a temperatura da sala, as cores e  formas de tudo o que o cerca, o odor do café sobre a mesa e do feijão que ferve na cozinha, as atividades internas do pulsar do seu coração, dos ácidos que dissolvem alimento no seu estômago, do seu pulmão que se enche de ar e até a pressão atmosférica. A maioria das sensações você decide ignorar. Outras você assimila. Não se trata de um processo intelectual. É algo que você SABE fazer a priori.  Pois meu filhinho sabe coisas a priori. Percebo que ele tem noção exata de como se comportar diante de situações sobre as quais jamais teve informação.

A sensibilidade vem antes do raciocínio. As pessoas não são só massa moldada pelos acontecimentos e pelo meio ambiente. Há algo mais envolvido no processo, algo mais sutil, mais requintado e mais sensível: o espírito humano. Eu aqui, dois séculos depois de Kant, ousaria afirmar que esse espírito não se manifesta só no indivíduo. Existe também um espírito da sociedade, um entendimento coletivo que se manifesta antes de que sejam tecidas considerações intelectuais a respeito. Ninguém escreveu sobre aquilo, ninguém formulou tese alguma, mas aquele sentimento permeia a comunidade.

Agora, por exemplo, os tempos são de falsa liberdade individual. Homossexuais fazem beijaço no Centro, o racismo é punido por lei, o machismo é censurado. Tudo isso é positivo. Mas não significa que sejam expressões de um mundo livre. Porque, simultaneamente, o comportamento das pessoas está sob severo julgamento. Nunca as motivações internas sofreram tanta vigilância externa. Uma vigilância que tem sido exercida antes da teoria. Antes da regulamentação. A priori. Tempos estranhos. E mais estranhos serão os que meu filho haverá de enfrentar.

Comentários (18)

  • Artur diz: 9 de janeiro de 2012

    Correto! O mundo ocidental caminha para um totalitarismo do pensamento sem precedentes pois é sútil e dá falsa sensação de liberdade. Os valores ocidentais serão solapados em prol de regulações de burocratas que decidirão nosso destino e como viveremos lá em Bruxelas. Nada como uma boa anestesia para tomar corações e mentes de assalto. Os locais só decidem o trivial e inodoro… oremos.

  • Carlos diz: 9 de janeiro de 2012

    Bem, é bastante óbvio que o homem não seja somente uma massa a ser moldada pela sociedade e pelo ambiente, afinal de contas, a sua presença não é insignificante, pelo contrário tem significância. Todo homem interfere no meio onde vive, porém só percebe sua significância quando interage, interfere e se compreende nesse mesmo meio. Logo, o ambiente e a história interferem no homem, mas o homem interfere na sua própria história, na história dos outros e no ambiente.
    Sim, também é óbvio que existam conhecimentos anteriores ao homem, afinal, a história do mundo não se inicia quando o homem nasce. Sendo assim, antes desse homem recém-nascido não haveria história e nem conhecimento, tornando cada homem uma parte de um corpo maior, mas um corpo onde as partes não se comunicam e funcionam acéfalas.
    Apesar disso, o conhecimento apriori que o homem terá sobre o conhecimento do mundo não ocorre automaticamente, tipo: “nasceu, sabe”.
    O homem se desenvolve a partir de suas heranças genéticas e históricas, mas também, através dos estímulos internos (seus interesses, seu potencial psicológico e social) e dos estímulos externos (os interesses sociais, econômicos dos outros, bem como, os conhecimentos transmitidos por outros).
    Bem por isso, seria necessário que os professores desse país fossem valorizados, para serem os auxiliarem das pessoas à construção de sua autonomia plena como seres humanos e à construção de seus conhecimentos, tão particulares e tão públicos, porque precisam ser públicos. Mas, isso já é outra história.

  • juarez bonamigo diz: 9 de janeiro de 2012

    A TOMADA DE CONCIENCIA É MEIO CAMINHO ANDADO. ACREDITO QUE ESTAMOS A ALGUNS MILHOES DE ANOS DE ENTENDER O FUNCIONAMENTO DO CEREBRO, POREM QUANDO VCINCLUI EM SUAS CONSIDERAÇOES A PALAVRA “ESPIRITO”, TENTA PASSAR UMA IDEIA MEIO RELIGIOSA A UM ASSUNTO ESTRITAMENTE CIENTIFICO. E ISSO É O QUE CONFUNDE AS PESSOAS JA A BASTANTE TEMPO

  • Gabriela diz: 9 de janeiro de 2012

    Desculpe Juarez você que está sendo religioso, não entendeu o conceito: espírito que o David quis passar.

    “A palavra espírito tem sua raiz etimológica do Latim “spiritus”, significando “respiração” ou “sopro”, mas também pode estar se referindo a “alma”, “coragem”, “vigor” e finalmente, fazer referência a sua raiz no idioma PIE *(s)peis- (“soprar”). Na Vulgata, a palavra em Latim é traduzida a partir do grego “pneuma” (πνευμα), (em Hebreu (רוח) ruah), e está em oposição ao termo anima, traduzido por “psykhē”.

  • Matheus diz: 9 de janeiro de 2012

    Algum problema em entender o espirito pelo o que ele realmente é?? Parece que sim!! Me vem uma frase do som Dias Melhores do Jota Quest “…vivemos esperando, o dia em que seremos melhores, melhores no amor, melhores na dor, melhores…” talvez esteja ai a resposta, esperamos de mais, fazemos de menos, procuramos velhos conceitos inves de criar novos, e agora, burocratizamos os sentidos em busca de teorias racionais que expliquem tudo cientificamente, até os sentidos, estamos perdidos!!

  • Romeu Bitencourt diz: 9 de janeiro de 2012

    David, Thomas de Aquino ´já anteviu o que o imitão KAnt falou.

    “Nihil est in intelectus quod nom fueri prius in sensu”.

    nada estaá no intelecto sem que tenha passado pelos sentidos.

  • SeFreudjogassefutebol diz: 9 de janeiro de 2012

    A busca por explicações sobre a personalidade parece ter mobilizado as mais diversas áreas do conhecimento humano desde sempre. A tendência em classificar pessoas é tão antiga quanto à humanidade. Ninguém, absolutamente ninguém, deixa de classificara as pessoas que conhece, ainda que intimamente, involuntariamente e até inconscientemente. Todos nós temos uma espécie de arquivo subjetivo das pessoas que julgamos explosivas, simpáticas, sensíveis, desleais, preocupadas, ansiosas, mentirosas, amorosas e assim por diante.

    Para Kant, a pessoa, e a personalidade são “a liberdade e independência perante o mecanismo da natureza toda, consideradas ao mesmo tempo como a faculdade de um ser submetido a leis próprias, isto é, a leis puras práticas estabelecidas pela sua própria razão”. O que faz com que alguns atos possam parecer conhecimento a priori…

    Contudo, sabe-se que nenhuma teoria reflete uma verdade absoluta, assim como muda o mundo, ampliam-se as teorias, as convicções e as complicações humanas e sociais…

    É importante poder pensar em um “indivíduo não nasce com uma personalidade pré-moldada”, basicamente estável, que o acompanharia pela vida e à qual se poderia atribuir à função de causa essencial de seus atos, quer os considerados adequados, quer os considerados impróprios. A visão que atribui à personalidade a propriedade de originar as ações humanas é alienante e desloca a análise da conduta das pessoas de seus reais determinantes: todas suas vivências no decorrer de sua história de vida pessoal e sócio-cultural.

    Nós atuamos no mundo e assim o transformamos; mas, nossas ações também são influenciadas pelas transformações que produzimos. Essa interação de influências recíprocas em que sou sujeito de transformações do meu ambiente (físico, social e psicológico) e ao mesmo tempo objeto transformado pelo mundo sobre qual atuei, é que dá ao homem a privilegiada posição de se tornar um ser consciente que constrói sua existência.

    Não há mudanças pela inércia. A mera passagem do tempo não muda comportamento!

    O que muda comportamento é a percepção das conseqüências desse comportamento. Quanto mais consciente um indivíduo, mais perspicaz ele é para observar as conseqüências (se desejáveis ou não) do seu ato. Consequentemente, mais apto ele estará para manter ou alterar determinado padrão de conduta. Paralelamente, a flexibilidade (característica oposta à rigidez) comportamental faz com que o indivíduo seja capaz, ao avaliar as conseqüências do seu comportamento, de alterar rapidamente seus comportamentos e testar novas possibilidades.

    Perspicácia para observar as conseqüências dos comportamentos e flexibilidade para testar novas alternativas comportamentais compõe a interação necessária para as mudanças!

    Sejam estas mudanças individuais ou grupais.

    Fonte:
    http://www.terapiaporcontingencias.com.br/pdf/helio/Entrevista_Dr_Jornal.pdf
    http://config.no.sapo.pt/psicologia5.htm
    Ballone GJ, Meneguette JP- Teoria da Personalidade – Geral, in. internet PsiqWeb, disponível em http://www.psiqweb,med.br, atualizado em 2008

  • L diz: 9 de janeiro de 2012

    David, gostei muito do fim. Falsa liberdade, realmente. Também a priori somos espíritos que julgam e cerceiam a liberdade alheia. É do ser humano condenar seu próximo quando difere de si próprio, ou pior, mesmo quando não difere – reina a hipocrisia no espírito humano, estejamos conscientes dela ou não. Somos seres assim, que gostam de ser domesticados e domesticar, mas que no fundo estão repletos de desejos, pensamentos, sentimentos que precisam ficar encastelados no íntimo. Ao menos não podem ser compartilhados totalmente com a sociedade.

    Sabemos que a sociedade é feita desses seres humanos, e que a sociedade nunca será igualitária, nunca parará de julgar e nem de ser hipócrita. A sociadade a priori é assim, concordas? Só mudam os disfarces que ela tem de si própria, as tentativas de valorizar o subjetivo que ainda assim não desfazem o que é a sociedade. Olhemos a história do mundo, é isso mesmo… Desigualdade, intolerância, julgamentos e hipocrisia. Mas ainda há esperança… e bondade, por trás de tudo isso.

  • Luiz Henrique diz: 9 de janeiro de 2012

    Sei não,me parece puro descornamento metafísico provocado pela cruel nova lesão do neo-gremista Sorondo…amplexos solidários se tal!

  • Bernardo Garicochea diz: 9 de janeiro de 2012

    Essa questão de intuição vs lógica tem por baixo uns 100 anos (Gilberto vs poincare). David, ninguém sabe se temos conhecimentos a priori. A idéia e legal, mas completamente especulativa.
    Valores a priori em grupos sociais, os chamados memes, também sao especulações interessantes, mas infelizmente tão reais quanto o complexo de edipo e a inveja do pênis. Mas valeu a crônica, foi bem legal.

  • Marcelo diz: 10 de janeiro de 2012

    Filosofia é brincadeira. O sujeito acha uma coisa e então é. A ciencia do achismo.

    Qq proposta de pesquisa comportamental (como essa do kant) que não envolva NUMEROS e EVIDENCIAS ESTATÍSTICAS não passa de achismo

  • Daniel Aço diz: 10 de janeiro de 2012

    Por gentileza, adquiram o seguinte livro: Filosofia, a Provação da Metafísica.

    Quer acreditem ou não, quer aceitem ou não, escrevi um “sistema filosófico original”.

    Tal esquematização, aliás, não é fruto de uma suposta e inexistente genialidade minha, mas apenas a concretização do pensamento eterno entre a maioria esclarecida dos homens.

    Há muito de Kant no meu “sistema filosófico original”. Convido-lhe a entender, como nenhum livro ou curso de Filosofia é capaz de te esclarecer, esta e outras questões.

    Leia a sinopse do livro e compre-o pelo site da Editora Protexto ou pela página da Inkooks.

    http://www.protexto.com.br/livro.php?livro=388

    http://www.inbooks.com.br/book_detail.asp?cod_livro=AO0071

    E conheça os meus outros livros:

    http://tereart.com.br/livraria/produtodetalhe.php?pId=0000000470
    (Histórias curtas) / SANGUE NA PAULISTA

    http://www.livrariaixtlan.com.br/o-inculto-daniel-aco.html (Crônicas) / O INCULTO

  • fernando diz: 10 de janeiro de 2012

    isso quer dizer que teu filho nunca vai fazer parte da ku klux klan. so nao sei se tu acha isso bom ou ruim.

  • Michel diz: 10 de janeiro de 2012

    Kant perguntou?

  • vinicius diz: 10 de janeiro de 2012

    qual o livro dele que passa essa idéia?

  • fernando diz: 10 de janeiro de 2012

    teu texto quer dizer que teufilho nunca vai fazer parte da ku klux klan.

  • Lucas diz: 11 de janeiro de 2012

    Muito bem David. Tenho a mesma opinião. A vigilância externa não modifica esse sentimento interno das pessoas, que permite o julgamento de cada um.
    Acho que somente tende a piorar e torná-lo mais intolerante.
    Mas é de se esperar a partir de um governo de esquerda atual. Só sabem agir de tal modo. Quando isso terá fim?

  • Daniela diz: 11 de janeiro de 2012

    Liberdade individual é utopia. Porque nossas atitudes sempre vão interferir no bem-estar do outro e como as pessoas não andam munidas de bom-senso e educação, regras são necessárias. Em condomínio, por exemplo. O morador tem liberdade de colocar o som no último, mas as regras de condomínio determinam o horário em que ele tem permissão para isso, pois os vizinhos precisam dormir para trabalhar no outro dia. Vá que ele não tenha noção e resolva ouvir música no máximo às 3 da manhã? e assim é para tudo… Já que não se tem respeito e consideração com o próximo, se criam regras.

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