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Túnel do tempo: O homem que virou inseticida

09 de janeiro de 2012 2

Achei estranho chamar alguém de “ seu Detefon”, mas é assim que ele é chamado em Tapes, onde mora, e por todos os seus amigos, em todos os lugares. Além disso, ele tem 80 anos, vai completar 81 em março, há que chamá-lo de “ seu”, com o maior respeito. Então, seu Detefon, nada de seu Ariovaldo Wedt, o nome de batismo que ele perdeu em 1946 numa circunstância curiosa.

É que, naquele ano, o inseticida Detefon estava sendo lançado em Porto Alegre, com intensa campanha publicitária. Só se falava em Detefon, Detefon. Justamente na semana de maior badalação do produto, Ariovaldo fez sua estréia no time do Força e Luz. Ah, Ariovaldo era jogador de futebol, um atacante veloz, de chute explosivo. Só que ninguém o conhecia, ainda.

Ainda.

Naquela tarde, Ariovaldo e seus 10 colegas do Força e Luz enfrentaram o poderoso time do Inter hexacampeão gaúcho, o temível Rolo Compressor. E o bateram, com um gol dele, o jovem Ariovaldo. Quer dizer: ele havia matado o Inter. Ariovaldo, o matador. E, como quem matava tudo era o Detefon, isso significava que Ariovaldo era o Detefon.

Pegou. Ariovaldo virou Detefon e Detefon continuou sendo pelos 60 anos seguintes. Causaria ainda mais mortandades futebolísticas. A mais grave outra vez o Inter, outra vez o Rolo. Agora em definitivo. Detefon ajudou, e muito, a liquidar com o supertime colorado.

A façanha se deu em 1949, quando Detefon já jogava no Grêmio. No Gre-Nal decisivo do Gauchão, o Grêmio entrou em campo com uma formação surpreendente, com três juniores no lugar de titulares consagrados. Mas a maior surpresa aconteceu no começo do jogo: o loiro centroavante Geada marcou 1 a 0. Na comemoração do gol, o zagueiro colorado Nena acertou um murro no centroavante do Grêmio, que caiu na grama e se ergueu, furioso, pronto para o revide. O árbitro, o inglês Mister Barrick, não viu o soco, viu a reação indignada de Geada, e o expulsou.

O Grêmio estava com um jogador a menos, diante do Rolo Compressor, com Tesourinha e tudo. O técnico Otto Pedro Bumbell deu a seguinte instrução:
– Recuem todos. Deixem só o Detefon lá na frente.

Pois Detefon sozinho, zunindo de um lado para outro, chutando com violência com os dois pés, de qualquer distância, indo à linha de fundo, invadindo a área, perdendo gol cara-a-cara com o goleiro Ivo, Detefon, apenas ele, imobilizou toda a defesa do Inter e segurou o 1 a 0. Grêmio campeão. Os colorados ficaram abalados. Tesourinha foi acusado de omissão e mandado embora para o Vasco. Era o fim do Rolo Compressor.

Detefon ainda experimentaria outras glórias. Em 3 de junho de 1950, foi ao Rio de Janeiro para jogar no ataque da Seleção Gaúcha contra a Seleção Brasileira que se preparava para a Copa do Mundo do Brasil. O amistoso foi no São Januário. Detefon e Geada passaram o primeiro tempo abastecendo Hermes, que jogava com eles no Grêmio e chutava com a violência das bombas V2 que seis anos antes haviam destruído Londres. Resultado: Hermes marcou quatro gols e os gaúchos foram para o intervalo vencendo por 4 a 3. Estavam felizes no vestiário, quando entrou um homem da então CBD, fulo: o que eles queriam? Derrotar a Seleção às vésperas da Copa? Aquilo era uma atitude antipatriótica, o que ia pensar o resto do mundo??? Que dessem um jeito de perder o jogo!

No segundo tempo, a Seleção Gaúcha levou três gols, dois deles com a bola atirada para as redes pelo próprio goleiro Ivo. Final: 6 a 4 para eles, os do Brasil.

O Santos tentou contratar Detefon no início dos anos 50. Pelo seu futebol, sim, mas também pelo apelido: é que a fabricante do inseticida queria o jogador em São Paulo para promover o produto. Detefon não aceitou, preferiu continuar no Grêmio, onde jogou até 1951. Depois, sofreu uma séria lesão no joelho, passou por três operações e acabou pendurando as chuteiras aos 26 anos de idade. Mal largou o futebol, Detefon se casou e se mudou para Tapes. Trabalhou na prefeitura, montou um engenho de arroz e finalmente se aposentou. Hoje, seu passatempo preferido é… o futebol, claro. Não perde uma partida na TV, especialmente do seu time do coração, o Grêmio. Agora, 2006 será um ano especialíssimo para seu Detefon. Será quando ele vai comemorar os 60 anos daquele gol que marcou no velho Rolo Compressor. Será quando ele vai comemorar o dia em que Ariovaldo se transformou em Detefon.

Grêmio Mania

Os dirigentes do Grêmio dizem que a vinda de reforços depende do rendimento do Grêmio Mania. Ou seja: da boa vontade do torcedor. Aí está: a boa vontade do torcedor com o Grêmio Mania tem de ser mesmo muito grande. Porque, num tempo em que se faz débito em conta automaticamente, em que as contas são pagas por telefone ou Internet, o plano de sorteios do Grêmio exige o deslocamento do torcedor até o banco ou até uma lotérica.

Nesse mundo ralo e rápido, é pedir muito da paixão.

Bola e balé

Todo aquele balé na festa da Fifa. Chatice. Lembrei do filme Vinícius. Viu? Vá. Ótimo. Mas tem umas declamações da Camila Morgado e do Ricardo Blat que só não derrubam o filme porque o filme de fato é supimpa, como diria o Padre Vieira. Nem os profundos olhões verdes da Camila ajudam. Nesses momentos, o filme perde a naturalidade, que é o seu maior trunfo.

Chico Buarque, aliás, aparece muito à vontade. Fala bastante, e com desenvoltura. Torna-se destaque do documentário. Exatamente porque está descontraído, está no seu ambiente. Por isso que, francamente, festa de futebol com balé soa a exibicionismo. A Fifa se esforça para nobilitar o futebol. Nem precisava. O futebol tem suas nobrezas.

* Texto publicado em 21/12/2005

Comentários (2)

  • Héder P. S. W. diz: 9 de janeiro de 2012

    E o Ronaldinho já é do Grêmio… LOL

  • Koboldt diz: 9 de janeiro de 2012

    E o Tcheco é um ser superior… Baita colunista esse

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