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Não mande flores para o inimigo

24 de janeiro de 2012 10

Tamerlão tinha o hábito de derramar prata derretida na garganta dos seus inimigos. Nunca entendi isso. Por que prata? Água quente, por exemplo, também dói, e sai muito mais em conta. Mas, não. Era só prata, prata, prata.

Tamerlão não economizava, quando o assunto era execuções sádicas.

Tamerlão gostava de intitular-se “O Flagelo de Deus”, como Gengis Khan antes dele e, antes ainda, Átila, o Huno. Tamerlão, inclusive, se dizia parente distante de Gengis Khan. Não era, mas quem haveria de contestá-lo?

Tamerlão aterrorizou o mundo durante a segunda metade do século 14. Sua política era exatamente esta: a do terror. Quando atacava uma localidade qualquer, esperava rendição incondicional. Se houvesse resistência, vae victis, ai dos vencidos, como havia dito Breno em bom latim, ao saquear Roma. A vingança mongólica era crudelíssima. Uma vez, ao invadir certa cidade asiática, Tamerlão mandou que cada um de seus mongóis lhe trouxesse duas cabeças masculinas a fim de empilhá-las em pirâmide na praça principal, prática que, aliás, já havia sido muito empregada por Gengis Khan dois séculos atrás. Assim, os soldados saíram cortando pescoços. Decepa daqui, decepa dali, decepa acolá, acabou faltando cabeça de homem. O jeito foi pegar mulheres, raspar-lhes as cabeças e apresentá-las ao chefe como se fossem de homem.

Durante outra invasão, ao deparar com inimigos mais renitentes, Tamerlão ficou irritado com a teimosia dos adversários e, como punição, emparedou duas mil pessoas vivas em uma torre. Os gritos e os gemidos dos supliciados foram ouvidos por dias, nas imediações.

Os líderes de uma cidade assediada tentaram comover Tamerlão apelando para seus hipotéticos sentimentos paternos. Reuniram todas as crianças pequenas do lugar e as levaram para um monte, imaginando que a visão dos inocentes desprotegidos amolentaria o coração do bárbaro. Tamerlão ordenou que sua cavalaria pisoteasse os bebês até a morte.

Não era bacana ser inimigo de Tamerlão.

Vivesse hoje e fosse dirigente de futebol, ele seria um Fernando Carvalho. Não que Fernando Carvalho seja cruel, mas ele também não manda flores para a cova do inimigo. Fernando Carvalho começou a reconstrução do Inter ao compreender que havia um único adversário a ser batido: o Grêmio. Sabia, Fernando Carvalho, que só derrotando o Grêmio, solapando-o, reduzindo seu prestígio, só assim o Inter cresceria. E foi o que Fernando Carvalho fez – para o que, é verdade, contou com o auxílio luxuoso de alguns dirigentes do Grêmio.

Mas, como todo conquistador, Fernando Carvalho sabe que, às vezes, ele tem de reprimir seu impulso belicoso para dar lugar ao bom senso e à cordialidade. É por isso que, urbanamente, sensatamente, ele estará no Estádio Olímpico neste domingo, para entregar a taça que leva o seu nome ao vencedor do turno, ainda que o vencedor seja o Grêmio.

Ponto para Fernando Carvalho.

Tamerlão também faria isso. Sua crueldade era mais estratégia do que traço de caráter. Cronistas medievais atestam que ele era um homem que valorizava a cultura. Antes de liberar a pilhagem, postava sentinelas às portas das casas de artistas, artesãos, escritores e
historiadores, protegendo-os da rapacidade da soldadesca. Depois, os enviava para trabalhar em sua capital, Samarcanda, cidade que fica onde hoje é o Uzbequistão. O lema de vida de Tamerlão, inclusive, poderia servir de dístico para qualquer intelectual moderno. Estava gravado em seu sinete de governo: “rasti rusti” – em turco, “a verdade é segurança”.

Certa feita, ao tomar a cidade de Chiraz, Tamerlão chamou à sua presença Hafiz, o maior poeta da Pérsia. Hafiz apresentou-se, cheio de temor. Tamerlão revelou que apreciava poesia, mas acrescentou estar deveras agastado com um verso escrito pelo poeta. O seguinte:

“Se aquela ingrata turca de Chiraz em suas mãos meu coração tomara, Eu daria, pelo sinal do rosto dela, Samarcanda ou Bucara”. Após declamar os versos, Tamerlão esbravejou:

– Então, gasto tempo, esforço e sangue para dar segurança a estas cidades, e você pretende trocá-las pela pinta do rosto de uma jovem?!?

Hafiz rebateu, sem vacilar:

– Essa minha generosidade excessiva vive me causando problemas...

Tamerlão riu à larga com a tirada e, depois de cumprimentar o poeta, despediu-o com presentes dignos de rei. Grandes conquistadores têm senso de humor.

* Texto publicado em 28/02/2010.

Comentários (10)

  • Luiz diz: 24 de janeiro de 2012

    Caro David, você conhece a história portanto você não poderia cometer gafes.
    O Grêmio teve, segundo os próprios gremistas, o seu período de ouro que durou cerca de 15 anos, em que o Grêmio saiu do seu patamar de coadjuvante.
    O Inter, antes disto, já havia tido 2 períodos de ouro - o Rolo compressor, e o time da década de 70 - e mais recentemente o 3º período em que fomos campeões do mundo.
    Além disto, jogamos a libertadores antes do Grêmio saber que existia Santa Catarina, e mandamos nesse terreirinho gaúcho a décadas. Portanto, Carvalho não deve ter querido suplantar o Grêmio, certamente não foi esse o elemento motivador.

  • marilha paulina de farias diz: 24 de janeiro de 2012

    FANTÁSTICO !!!!!

  • Fábio diz: 24 de janeiro de 2012

    Prezado Luiz, esqueceste de referir que antes do primeiro "período de ouro" a que te referiste, levaram de 10 (eu disse D E Z!!) em Grenal, e que conheceram a Libertadores antes, mas só foram colocar a mão nela mais de 20 anos depois dos azuis terem levantado ela a primeira vez, quando aliás, tb os azuis tomaram o mundo, passando a ser conhecidos fora das fronteiras tupiniquins, o que o glorioso co-irmão só foi conseguir em 2006, data antes da qual ninguém na Europa ou Ásia jamais havia escutado falar do time vermelho do sul do Brasil...

  • Luiz diz: 24 de janeiro de 2012

    Ok Fábio, mas isso não muda o fato o fato de que vocês são coadjuvantes eternos.

  • Luiz Carlos diz: 24 de janeiro de 2012

    Cada vez mais eu fico adepto da doutrina espírita; mais eu vejo que Allan Kardec tem razão ao afirmar que é possível sim ouvir os mortos, que eles se comunicam conosco. O número de gremistas que se manifesta com uma pseudo grandeza, só dá razão ao espiritismo: os mortos falam.

  • Peri Quito diz: 24 de janeiro de 2012

    Conquistar a Taça Toyota, na época, foi como FICAR com a Miss Universo.
    Ser rebaixado duas vezes é equivalente a FICAR duas vezes com o SEGURANÇA da Miss Universo.

  • Paulo Santos diz: 24 de janeiro de 2012

    Sou obrigado a discordar de você! Acho que o Inter cresceu com o Carvalho por ter feito exatamente o contrário do que estas dizendo: Esqueceu o Grêmio e passou a se concentrar nas necessidades do Inter. Na década de 90, quando o Grêmio tinha o time do Felipão, só se ouvia que o Inter tinha que ganhar do Grêmio, que tinha que montar um time melhor e etc. Pura bobagem. O Colorado passou a se concentrar em si mesmo e só assim se reergueu. Pelo menos penso assim.

  • Ismael diz: 26 de janeiro de 2012

    David, gostei muito do texto. Apesar disto discordo no que se refere ao Carvalho ter focado sua ira no gremio para assim conseguir reerguer o Internacional. É muita vontade de encontrar as razões e méritos dentro de casa (Rio Grande do Sul). Pode ser que o Carvalho tivesse gana de que o Colorado fizesse tudo isto que tu citaste, e tem conseguido com mérito a bastante tempo, tanto nesta última década como desde os "tres periodos que um leitor citou", mas o fato inegavel, é que o Internacional focou em si (coisa que o gremio não tem conseguido fazer pois busca dar "resposta imediata a tudo que o Internacional tem de exito). Após o Carvalho assumir, o foco foi arrumar a casa e não sair desesperado atrás de uma "Libertadores". Isto (pra mim) explica o fato de o Internacional ter focado em si para assim conseguir conquistar suas glórias (e verdade também que isto geraria toda a crueldade Tamerlão do Carvalho para com seu "rival".

  • Didiêi diz: 27 de janeiro de 2012

    Dadiv, como alguns já disseram, o Fernando Carvalho fez na verdade o contrário do que dizes...esqueceu o grêmio e focou nas soluções para os problemas do Inter. As vitórias que vieram foram consequência desse trabalho.

    A coincidente década perdida do co-irmão é consequência também de trabalho, mas de trabalho ruim e uma sucessão de gestões equivocadas, pra ser elegante. Isso não é culpa do Inter nem do FC. Nós ganhamos a maioria dos gre-nais e, no limite, secamos muito vocês. E só.

    A bem da verdade, nós Colorados até gostaríamos de ter tamanho poder de causar esse estrago todo no co-irmão. Mas infelizmente não temos...só temos a certeza do sentimento recíproco.

    Se tem alguém que cabe no papel de Tamerlão nessa história, esse alguém está dentro dos salões da azenha.

  • Didiêi diz: 27 de janeiro de 2012

    David, perdão pelo erro na grafia de seu nome, no comentário anterior.

    Abraço

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