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Posts de janeiro 2012

Túnel do tempo: Uma de dez e duas de cinco

31 de janeiro de 2012 9

Eu tinha uma de dez e duas de cinco dobradas no bolso esquerdo da minha US Top. Uma de dez e duas de cinco, nada mais. Estava duro, durango kid. Então era todo dia pão com ovo ou pão com banana, e batata, muita batata. Aí, justamente nesse dia, ela chegou. Aquela loirinha. Era uma loirinha pequena, mas não baixinha. Magrinha, mas jeitosa. Curvas, manja? Ela tinha curvas. Ela tinha um bracinho torneado, tinha um musculinho bem ali naquele bracinho, e ela tinha um jogo nos quadris e um olhar azul de gata vadia, ela era toda dourada, cabelo dourado, pele dourada, ela era dourada e azul, aquela loirinha. Pois ela chegou naquele dia, bem naquele dia que eu andava na maior dureza, e ela parou na minha frente e deu uma quebrada na cintura de um jeito que ela sabia dar, e me olhou com aquele olhar de viés, e me disse algo que me fez tremer todo por dentro:

– Tu sempre me quis, não é?

Minha voz saiu rouca, do fundo do peito, arranhando a garganta:

– S-sempre…

Ela sorriu um sorriso dourado e branco:

– Vamos jantar hoje?

Respondi que sim, sim, sim, muito sim! Combinamos de ir ao restaurante mais caro da cidade, que ali estava uma mulher que merecia jantares suntuosos, com consomês e pratos em sequência e maítres solícitos e tudo mais. Só depois que ela se foi, gingando, derramando a primavera por onde passava, só depois lembrei da minha situação financeira. Precisava arranjar algum emprestado. Desesperadamente.

Saí atrás dos amigos. Descrevia a loirinha para eles. Gemia:

– Ela disse: “Tu sempre me quis, não é?”, ela me disse isso, meeen! Preciso de um troco!

Fui num, fui noutro, nada. Amigos descapitalizados. Maldição.

Fui para casa aflito. Faltava uma hora para o encontro, e eu não encontrava a solução. Enquanto tomava banho, pensava no que fazer. O quê? O quê??? Aparentemente, não havia saída. E se confessasse meu estado lastimável para ela? Ela me consideraria um muquirana (com toda a razão) e cairia fora (com toda a razão). Havia outros, muitos outros, enxameando em torno dela. O que fazer, Cristo? O que fazer???

Saí do banho com o coração confrangido. Faltavam 45 minutos. Sentei-me na borda da cama, finquei os cotovelos nos joelhos e pus a cabeça entre as mãos. Não possuía nada que pudesse vender. Pelo menos não assim, à última hora. Ninguém mais a quem apelar. E a
loirinha me esperando, toda cheirosa e dourada. Desgraça! Desgraça!!!

Suspirei. Levantei-me. Ia assim mesmo, depois veria o que fazer. Tirei minha melhor camisa do roupeiro. Vesti-a. Puxei a nota de dez e as duas de cinco da calça jeans. Olhei para elas como se olhasse um quadro de Renoir. Alisei-as. Deitei-as carinhosamente sobre o colchão. Suspirei de novo. Peguei outra calça do cabide, uma um pouco mais nova, que fazia tempo que não usava. Enfiei uma perna. A outra. Fechei a calça. Colhi a de dez e as duas de cinco da cama. Levei-as ao bolso. E aí…

… WOLFREMBAER!!!

Achei dinheiro no bolso da minha calça! Dinheiro, velhinho! Muito dinheiro! Ou, pelo menos, o suficiente para pagar a conta caríssima de um restaurante caríssimo. Olhei para o céu. Com lágrimas nos olhos, balbuciei:

– Obrigado, Senhor!

Esses jogadores que fazem gol e agradecem a Deus. Por favor! Um gol não é nada. Gols são marcados todos os dias, todas as horas, em todas as partes do mundo. Achar um buquê esquecido de reais no bolso de uma calça jeans quando uma loirinha jeitosa, com um bracinho com musculinho, com curvas e negaças à mancheia, com um jeito todo dela de quebrar os quadris, achar dinheiro para pagar a conta do restaurante quando uma loirinha dessas espera por você, isso, rapaz, isso sim é ser abençoado pelo Todo-Poderoso, isso sim faz um homem sair por aí com uma camiseta apregoando: “Deus é fiel!” Como é.

* Texto publicado na Zero Hora de 31/03/2010.

Som das madrugadas

31 de janeiro de 2012 0

Sugestão do Odirlei Perosa.

O cinquentenário do Juremir

30 de janeiro de 2012 15

Fui ontem ao aniversário de 50 anos do meu amigo Juremir Machado.

Foi uma festa quase do tamanho do Juremir. Não digo que tenha sido do tamanho dele, porque o Juremir é um dos maiores jornalistas do Brasil, um talento raro, um cérebro sofisticado.

Lá estavam o governador, o prefeito, prefeituráveis, deputados, autoridades e, sobretudo, amigos.

Foi bonito de ver. Fiquei emocionado ao testemunhar como o meu amigo é admirado.

Em seu discurso de agradecimento, o Juremir se definiu como um poeta. E é. Sinto orgulho de, há mais de 30 anos, ser amigo deste grande poeta.

Passe valorizado

30 de janeiro de 2012 75

A permanência de D’Alessandro no time do Inter foi discutida no Sala de Redação desta segunda.

Ouça o programa!

Guiomar não existe mais

30 de janeiro de 2012 7

Hoje dificilmente você encontrará uma Guiomar. Se encontrar, será bem velhinha. As mulheres não se chamam mais Guiomar, nem Dagmar, como a daquela música de João Bosco & Aldir Blanc, “O Rancho da Goiabada”, que diz que os boias frias, quando tomam uma birita, espantando a tristeza, sonham com bife a cavalo e batata frita.

A verdade é que a mulher do Didi chamava-se Guiomar, e era uma linda mulher – nos anos 50, mulheres lindas podiam se chamar Guiomar. Essa em questão era uma cantora de certa fama. Trabalhava vestida de odalisca num programa apresentado pelo Ary Barroso, que, naturalmente, tinha uma queda por ela. Quando Didi casou-se com Guiomar, Ary compôs um samba, “Risque”, pedindo, despeitado, que ela riscasse o nome dele de seu caderninho de endereços.

O Didi a que me refiro é o jogador, não o amigo do Dedé.

Acontece que Didi já era casado e tinha filhos, quando enamorou-se de Guiomar. Deixou a primeira família, constituiu uma segunda e causou escândalo no país. Mas ninguém o incomodou muito, porque ele era craque. Meia-direita de passe escorreito e lançamentos de 50 metros, bicampeão do mundo em 58 e 62,estava um único nível abaixo dos imbatíveis Pelé e Garrincha. Nelson Rodrigues chamava-o de “Príncipe Etíope”, tal a sua elegância. Neném Prancha disse sobre ele:

– Quem vê o Didi na rua, sem nem saber de quem se trata, logo pensa: “Aquele crioulo deve ser um troço na vida”.

Era.

Em 59,Didi foi contratado pelo Real Madri, que pretendia montar o melhor time de todos os tempos com ele mais o argentino Di Stéfano e o húngaro Puskas, que já estavam lá. Mas Didi fracassou no Real e, um ano depois, já vestia de novo a camisa listrada do Botafogo. Puskas disse que Didi não deu certo no Real por ter engordado com a boa comida europeia,mas,lá da Espanha, Guiomar escrevia artigos para os jornais brasileiros acusando Di Stéfano de boicotar o seu marido, tudo por inveja vulgar. Foi tão enfática,Guiomar,que vingou essa versão. Di Stéfano tornou-se persona non grata para os brasileiros da época. Muitos até o acusavam de ser um simpatizante do ditador Franco, o que,aliás,era verdade.

Seja como for, o fato é que Guiomar sempre cuidou dos interesses de Didi. Era ela quem negociava os seus contratos e fazia eventuais reivindicações aos dirigentes dos clubes em que o marido jogava. Era correspondida. Na Copa de 1954,os jogadores ficaram confinados à concentração. Naquele tempo, não havia celular nem internet. Didi queria ligar para Guiomar, os dirigentes da então CBD não deixavam. Didi fez greve de fome. Meio fajuta, é verdade, porque Nilton Santos levava-lhe comida escondido, mas fez.

Em 1958 a coisa foi mais grave. A Seleção estava treinando no Maracanã, quando, de repente, Didi deu um grito de horror:

– Perdi minha aliança!

O treino parou. Ele caiu de quatro na grama:

– Ninguém se mexe! A Guiomar vai ficar uma fera!

Num instante,todos,Pelé,Garrincha, Nilton Santos,Zito,Belini,Zagallo,todos aqueles craques num instante puseram-se de gatinhas e passaram a vasculhar cada palmo do campo de cem metros de comprimento. Não acharam. À noite, Didi pediu:

– Acendam os refletores!

E os refletores se acenderam para que ele seguisse na busca.Vã.A aliança não foi encontrada. Mas o desespero de Didi parou nas páginas dos jornais e, no dia seguinte, alguém foi avisá-lo:

– Dona Guiomar está lá fora, querendo falar com o senhor.

Didi foi, não sem algum temor a lhe amolecer as pernas. Encontrou a mulher sorridente e emocionada:

– Te vi de quatro no jornal, procurando pela nossa aliança. Achei lindo. Vamos comprar uma mais bonita ainda!

Mandava muito, a Guiomar. Lembrei dela quando soube das notícias do casamento do Damião. Como ele reagirá ao matrimônio? Já vi jogadores falindo por causa de um casamento mal assestado, assim como vi outros se tornando muito maiores do que eram graças a uma esposa atenta e amorosa. O que se dará com Damião? Já marcou um gol pós-enlace. Marcará outros? Não parará mais de marcar, enquanto durar a felicidade conjugal?

Didi seguiu casado e feliz até o fim da vida. Quando morreu, aos 72 anos de idade, Guiomar murchou de tristeza e morreu um mês e meio depois. Belo exemplo de casal de sucesso. Embora haja quem diga que a história da aliança fosse um golpe do Didi. Teria sido uma trama armada para justificar a perda da aliança em outras circunstâncias, menos explicáveis. Se foi isso mesmo, não diminui o amor que ele tinha por Guiomar, mas aumenta sua capacidade criativa.Gênio.Didi era capaz de lances de gênio.

* Texto publicado na Zero Hora de 28/01/2012.

Técnico de futuro

29 de janeiro de 2012 85

Esse técnico do Juventude, o Picolli, é um daqueles treinadores de boa cabeça formados no interior do Estado. Estilo Mano, com comando e bom senso.

Não duvido que em meados de 2012 esteja trabalhando em Porto Alegre.

O nó do Grêmio

29 de janeiro de 2012 52

O Grêmio não tem um time ainda, isso é evidente.

Há problemas sérios na zaga e problemas seriíssimos no meio-campo,

Mas o pior problema é, de longe, Douglas.

Douglas é o 10, é o chamado centro de time. Só que, com sua atitude de natural displicente, com seu jogo pouco participativo, com a sua já admitida ideia de que tem de jogar apenas com a bola no pé, sem lutar por ela, com tudo isso, Douglas contamina o time. O Grêmio, com Douglas, se torna molenga, bocejante, um time de toquinho de bola, desinteressado, sem alma e sem coração.

Esse estilo de jogo “clássico” não é o estilo de jogo do Grêmio.

Não sei se Caio Jr tem coragem de tirar Douglas do time, mas, se não tirar, em breve quem sairá do time será Caio Jr.

Som das madrugadas

29 de janeiro de 2012 2

Sugestão da Marisa Oliveira.

O fim da História do Mundo no blog

28 de janeiro de 2012 18

Dois anos atrás, em fevereiro de 2010, comecei a publicar os posts da História do Mundo. Foram 28 capítulos, uma média de um capítulo por mês.

Estou escrevendo essa história há mais tempo, há quatro anos. Decidi publicá-la no blog, como anunciei nos primeiros posts, para compartilhar com os leitores o processo de construção de um livro. A História do Mundo (não sei se será este o título) será muito maior, e será diferente, mas esses 28 capítulos são, por assim dizer, o “copião”, o rascunho de parte do que será publicado mais tarde.

Agora encerro este ciclo e começo a escrever os capítulos finais do primeiro volume do livro. Não sei ainda quantos capítulos mais escreverei, nem quantos volumes terá a versão final, mas calculo que não serão poucos. Depois de terminar os capítulos deste volume, reescreverei tudo, acrescentarei, cortarei, modificarei. Os 28 capítulos publicados no blog servirão para o leitor comparar com a versão final. Há leitores que encontram prazer nessa atividade, embora saiba que são poucos.

Posso dizer que gostei muito de compartilhar com os leitores do blog esse processo de criação do livro. O retorno dos leitores me surpreendeu, para falar a verdade. A maioria dos comentários dá a entender que a massa de leitores só se interessa pelas questiúnculas da Dupla Gre-Nal, mas não é bem assim. Há leitores, e não são poucos, que não se restringem à superfície da vida e aos temas comezinhos da bola.

Avisarei em primeira mão, aqui no blog, quando o livro estiver pronto. Será disponibilizado também em versão digital.

Tranquilidade no sabadão

28 de janeiro de 2012 1

Gosto demais dessa letra, e da forma como a Marisa Monte interpreta a canção:

Quanto vale um dedo

28 de janeiro de 2012 9

O homem é um ser físico. Parece óbvio; não é. Um antigo vice-presidente dos Estados Unidos chamaria isso de uma verdade inconveniente. Porque, de certa forma, é uma verdade que reduz a dimensão da espécie humana. O homem gosta de acreditar que se move prioritariamente por valores intangíveis. Gosta de acreditar que é um ser nobre, diferente do restante dos animais do planeta por ser animado por vida espiritual.

Certo.

Agora pense no seu dedo mínimo, tão pequeno e insignificante que é chamado de “minguinho”. Você nunca tece reflexões sobre o minguinho, não é? Claro que não. Você pensa todos os dias nos seus cabelos, que ajeita a mirar-se no espelho e lava com xampu restaurador e besunta com gel; você talvez se aflija com os sulcos que os anos vão lhe cavoucando nas comissuras dos lábios e dos olhos, e nessa minúscula região também aplica cremes franceses que custam 50 euros; você faz abdominais para enrijecer a barriga; você protege bem os pés com calçados elegantes, até porque, você sabe, a primeira peça do vestuário masculino na qual as mulheres reparam são os sapatos. Pois bem. Você está atento a todas as partes do seu corpo. Mas você nunca pensa no minguinho, nunca olha para ele, nunca dedica 10 segundos do seu dia a ponderar acerca do minguinho.

Bem.

Neste momento raro em que, devido ao parágrafo acima, você está pensando no seu minguinho, suponha que ele esteja doendo. Doendo muito por conta de alguma doença de minguinhos. O que acontecerá? Você só vai pensar no minguinho. Você não conseguirá fazer mais nada direito por causa do minguinho. Os lábios em forma de coração daquela morena, as elevações da vida religiosa, os prazeres inefáveis do saber e da cultura, os euros e os dólares todos, nada disso tem importância. Só o que importa é o seu dedo minguinho, o dedo minguinho é o suserano do seu ser, o dedo minguinho é o centro do mundo.

Por quê? Porque o homem é um ser físico. É por isso que você precisa evitar certas temeridades. Dirigir em alta velocidade, fazer ultrapassagens perigosas, praticar acrobacias inúteis, saltar de paraquedas se não for para invadir a Normandia ou porque o avião está caindo, limpar janelas de edifícios sem corda de segurança, chamar uma mulher de gorda, todas essas, e outras tantas, são ações estúpidas que podem causar mutilações. Quer dizer:que podem profanar o seu corpo, e com isso, profanar a sua mente e acabar com a sua vida.

O homem é um ser físico. Mas gostaria de ser puramente espiritual. E a fase mais espiritual da vida, mais ideológica, a fase em que o ser humano mais anseia pelos valores intangíveis, não por acaso corresponde ao auge do seu vigor físico:a juventude. O jovem sonha com realizações, com a glória, com a justiça ou com a revolução. Com “algo mais” do que a vida mundana, comum, material, “física”.E, quando um jovem experimenta drogas, ele quer algo além do prazer físico; ele quer alcançar o intangível. Ele arrisca a sua integridade física por uma experiência extrassensorial,ou seja, além dos sentidos. Além do físico. As campanhas contra as drogas precisavam convencer o jovem disso, de que ele é um ser físico. E de que nenhuma experiência transcendental vale mais do que um dedo minguinho.

* Texto publicado na Zero Hora de ontem, 27/01/2012.

Som das madrugadas

28 de janeiro de 2012 2

Dica da Gabriela Oliveira.

A História do Mundo: capítulo 28

27 de janeiro de 2012 15

Cem anos depois de Champollion decifrar os hieróglifos sem nunca ter pisado no solo do Egito, o inglês Howard Carter, munido de pá e picareta, escavando incansavelmente na areia macia e quente do deserto, fez uma das maiores descobertas da história da arqueologia. Encontrou a tumba de Tutancâmon, uma das poucas que haviam se mantido a salvo dos ladrões de sepulturas. Não que eles não a tivessem descoberto e violado. O mausoléu de Tutancâmon foi conspurcado por pelo menos dois arrombamentos, mas, por algum motivo, os ladrões não conseguiram acessar os tesouros nem o cadáver do faraó.

Alguém pode achar que o roubo de câmaras funerárias egípcias foi um fenômeno de uma época em que o país entrou em decadência, quando os valores tradicionais não eram mais respeitados. Nada disso. Os ladrões de sepultura agiram desde sempre. Há registro documentado de uma violação em 2.100 a.C., quando o rei Mérikaré escreveu a seu filho:

“Travaram-se combates nos cemitérios e os túmulos foram pilhados. Eu próprio o fiz”.

Alguns ladrões detalharam por escrito o seu modus operandi. O relato abaixo, redigido mais de mil anos antes de Cristo, é tanto espantoso quanto esclarecedor, e não deixa de pingar um acento de cinismo quando chama as vítimas falecidas de “veneráveis”:

“Pegamos os nossos utensílios de cobre e escavamos um corredor na pirâmide tumular do rei (…) descobrimos a câmara subterrânea e descemos com archotes (…) encontramos a sepultura da rainha. Abrimos os sarcófagos e os caixões nos quais repousavam e encontramos a venerável múmia do rei, armado de uma espada em forma de uma pequena foice. Numerosos amuletos e joias de ouro rodeavam-lhe o pescoço. A máscara de ouro recobria-o. A venerável múmia do rei estava inteiramente revestida de ouro. Os caixões estavam decorados com prata e ouro (…) e cobertos de todas as variedades de pedras preciosas. Arrancamos o ouro. Encontramos a rainha no mesmo estado e também arrancamos tudo. Deitamos fogo aos caixões”.

Havia tanta pilhagem que alguns faraós ordenaram a remoção das múmias dos seus antecessores para locais secretos, a fim de proteger-lhes o descanso, que deveria ser eterno. Ou seja: assim como os egípcios tinham adoração reverencial pelos mortos e consideravam a morte outra etapa da existência, não hesitavam em violá-los, se enfrentassem alguma crise e precisassem de recursos. O que mostra que, em qualquer época, as necessidades materiais da vida se impõem aos valores imateriais. Que a dor física é mais forte do que a dor da alma.

O homem é um ser físico. Parece óbvio; não é. Um antigo vice-presidente dos Estados Unidos chamaria isso de uma verdade inconveniente. Porque, de certa forma, é uma verdade que reduz a dimensão da espécie humana. O homem gosta de acreditar que se move prioritariamente por valores intangíveis. Gosta de acreditar que é um ser nobre, diferente do restante dos animais do planeta por ser animado por vida espiritual.

Certo.

Agora pense no seu dedo mínimo, tão pequeno e insignificante que é chamado de “minguinho”. Você nunca tece reflexões sobre o minguinho, não é? Claro que não. Você pensa todos os dias nos seus cabelos, que ajeita a mirar-se no espelho e lava com xampu restaurador e besunta com gel; você talvez se aflija com os sulcos que os anos vão lhe cavoucando nas comissuras dos lábios e dos olhos, e nessa minúscula região também aplica cremes franceses que custam 50 Euros; você faz abdominais para enrijecer a barriga; você protege bem os pés com calçados elegantes, até porque, você sabe, a primeira peça do vestuário masculino na qual as mulheres reparam são os sapatos. Pois bem. Você está atento a todas as partes do seu corpo. Mas você nunca pensa no minguinho, nunca olha para ele, nunca dedica 10 segundos do seu dia a ponderar acerca do minguinho.

Bem.

Neste momento raro em que, devido ao parágrafo acima, você está pensando no seu minguinho, suponha que ele esteja doendo. Doendo muito por conta de alguma doença de minguinhos. O que acontecerá? Você só vai pensar no minguinho. Você não conseguirá fazer mais nada direito por causa do minguinho. Os lábios em forma de coração daquela morena, as elevações da vida religiosa, os prazeres inefáveis do saber e da cultura, os euros e os dólares todos, nada disso tem importância. Só o que importa é o seu dedo minguinho, o dedo minguinho é o suserano do seu ser, o dedo minguinho é o centro do mundo.

É por isso que você precisa evitar certas temeridades físicas. Dirigir em alta velocidade, fazer ultrapassagens perigosas, praticar acrobacias inúteis, saltar de para-quedas se não for para invadir a Normandia ou porque o avião está caindo, limpar janelas de edifícios sem corda de segurança, chamar uma mulher de gorda, todas essas, e outras tantas, são ações estúpidas que podem causar mutilações. Quer dizer: que podem profanar o seu corpo, e com isso, profanar a sua mente e acabar com a sua vida.

O homem é um ser físico.

Por mesquinhas necessidades físicas, os egípcios violaram os túmulos de seus antepassados e de seus reis mais respeitáveis.

A carne é forte, o espírito é fraco.

Mas não sejamos injustos com o povo egípcio, até porque o conceito de “povo” é abstrato. Qualquer “povo” é tão genérico e tão amplo que se torna disforme.

O povo brasileiro é cordial? Pode um povo cordial admitir que alguém seja enfiado numa pilha de pneus encharcados de gasolina para ser supliciado até a morte com fogo, como já ocorreu nos morros do Rio de Janeiro, num tipo de execução batizado debochadamente de “micro-ondas”?

O povo americano é belicista? Mas um povo belicista seria capaz de criar e promover um dos maiores movimentos pacifistas da História, como o movimento hippie?

O que se pode dizer do povo, de quaisquer povos, isto é, do homem comum e não-individualizado de qualquer parte do mundo, é que todos são iguais: o “povo” é crédulo, emotivo, supersticioso e influenciável. Ou seja: tocado pelos tais valores imateriais. No caso dos egípcios e suas velhas crenças, prova-o uma célebre e compassiva passagem da história da arqueologia da qual falarei mais adiante. Por ora, vamos sublinhar que nem todos os egípcios eram profanadores de cadáveres. E talvez por isso o sepulcro de Tutancâmon tenha conseguido manter-se mais ou menos intocado através dos milênios. Quando Howard Carter o descobriu, lá estavam os tesouros com que o faraó havia sido enterrado. Foi uma das grandes façanhas da arqueologia mundial de todos os tempos. Muito do que sabemos sobre os egípcios e, por conseguinte, sobre nós mesmos, se deve a Howard Carter.

A respeito de sua façanha imortal, Carter escreveu um pequeno livro, “A Descoberta da Tumba de Tut-Ankh-Amon”, à disposição em bom português, traduzido e prefaciado brilhantemente pelo brilhante Eduardo Bueno, o “Peninha”. Vou reproduzir o primeiro parágrafo da introdução escrita pelo Peninha, para você se situar nessa trepidante história:

“Em 1903, Howard Carter vivia precariamente na cidade do Cairo, capital do Egito. Sem dinheiro, sem amigos e enfraquecido por uma grave doença estomacal contraída depois de anos percorrendo os recantos mais abrasivos e insalubres do Egito, sobrevivia vendendo aquarelas nas quais retratava cenas e monumentos egípcios. De temperamento irascível, por vezes explosivo, olhar ameaçador e um bigode imperioso sob o nariz acentuadamente adunco, com certeza mais parecia um personagem de Conrad ou Kipling – um drifter, um autoexilado – do que o egiptólogo erudito que era. Na verdade, quem o encontrasse perambulando por mercados repletos de gente e moscas não poderia imaginar que, vinte anos mais tarde, Carter se tornaria o arqueólogo mais famoso da História – cuja fama, até hoje, só pode ser comparada à de Henrich Schliemann, o descobridor de Troia, ou a de Jean François Champollion, que decifrou os hieróglifos egípcios.”

Depois de realizado, um feito se torna simples. Talvez você imagine que, para descobrir um túmulo egípcio, bastaria dirigir-se até um cemitério, ou olhar para cima e identificar uma pirâmide que se elevava ao céu, ir até lá e fazer uma rápida exploração. Só que não é assim que funciona. A partir de 1.500 a.C. os egípcios pararam de erguer pirâmides e passaram a escavar os rochedos do Vale dos Reis para dentro deles construir galerias e câmaras que serviriam de sepulturas para os seus faraós.

Por que houve essa mudança?

Exatamente por causa dos ladrões de sepulturas. A fim de manter as múmias e seus tesouros a salvo dos violadores, os administradores egípcios camuflaram os túmulos das formas mais engenhosas. Esconderam-nos sob as areias do deserto e atrás de paredes de pedra. Se um arrombador descobrisse a entrada, poderia perder-se em um labirinto, ou então esbarrar em uma câmara aparentemente inconclusa que trazia, por trás de suas ruínas, outra câmara.

A propósito disso é que vou contar aquela história compassiva de que falei parágrafos atrás.

Aí vai:

No começo dos anos 80 do século 19, um grupo de arqueólogos europeus vivia e trabalhava no Egito com objetivo de descobrir, preservar e estudar as antiguidades do tempo dos faraós. Os europeus eram movidos pela febre da nova ciência da egiptologia, nascida da aventura dos savants de Napoleão e da descoberta de Champollion. Uma das angústias dos cientistas era o combate ao tráfico de antiguidades, prática comum dos habitantes dos lugarejos próximos ao Vale dos Reis. Seguindo a pista de um desses ladrões de sepulturas, o arqueólogo alemão Emil Brugsch-Bey fez uma descoberta tão sensacional que parece inverossímil, uma história que bem poderia virar roteiro de um filme de Indiana Jones.

O ladrão de túmulos, depois de desmascarado pelos cientistas, foi levado à presença das temíveis autoridades muçulmanas do Egito. Como tentar ludibriar temíveis autoridades muçulmanas é temível, ele acabou concordando em mostrar o local de onde subtraía as antiguidades que vendia. O cientista que o acompanhou foi, exatamente, Emil Brugsch-Bey. Na madrugada de 5 de julho de 1881, Brugsch, seu auxiliar árabe e o ladrão de túmulos encaminharam-se para o deserto. Escalaram um monte com grande dificuldade e, depois de um percurso acidentado, o ladrão apontou para uma abertura na rocha muito bem disfarçada por pedras. Aquele lugar permanecera intocado por mãos humanas durante mais de três mil anos. O ladrão tirou uma corda que levava enrolada nos ombros e disse a Brugsch que ele devia descer com ela pela abertura. Brugsch fez como o indicado, não sem algum temor. O que ele encontraria no escuro lá embaixo? Poderia confiar no ladrão que ficava lá em cima?

O arqueólogo desceu 11 metros pela corda, chegou ao solo e acendeu uma tocha. Avançou alguns passos e, então, deparou com o inacreditável. Diante dele, dispostos em desordem, estavam ataúdes, múmias e objetos dos maiores soberanos do Egito Antigo. Ali jaziam os corpos de Amósis I, Tumés III e o próprio Ramsés II, o Grande, talvez o mais poderoso rei do Egito em todos os tempos. Ali estavam outras dezenas de múmias, 40 ao todo, e objetos que deviam acompanhar os faraós na sua viagem para o Além.

O esconderijo havia sido descoberto seis anos antes pelo ladrão de túmulos. Durante todo esse período, ele sua família enriqueceram vendendo com parcimônia as antiguidades tiradas do lugar. O segredo era partilhado por praticamente toda a comunidade em que vivia o ladrão. Todos se beneficiavam de alguma forma dos despojos dos faraós, num tardio arranjo de distribuição de renda entre os ricos mortos e os pobres vivos.

Brugsch emergiu do esconderijo encantado e preocupado: se deixasse as múmias no local, elas decerto seriam atacadas pelos ladrões, ansiosos por obter o derradeiro faturamento com as antiguidades. O que fazer? Tomou uma decisão rápida. Recrutou 300 operários e, em seis dias, levou as múmias, os sarcófagos e os objetos que os circundavam para um navio, a fim de transladar tudo para o Museu do Cairo. Ocorre que, nessa semana de trabalho, a notícia da mudança dos corpos dos faraós correu entre a população das aldeias do entorno. No dia em que o navio zarpou, deu-se o inusitado: camponeses e artesãos, homens, mulheres, crianças e velhos se perfilaram nas duas margens do Nilo e acompanharam o barco rio abaixo numa procissão de desesperados. Os homens atiravam para o alto com seus revólveres e espingardas, as mulheres gritavam e choravam, esfregavam a areia do deserto nos rostos pardos, atiravam os braços para o céu azul. Todos abanavam aos prantos para seus antigos reis, que iam embora para sempre. A cena era tão triste e, ao mesmo tempo, tão poderosa, que Emil Brugsch teve de virar o rosto para não se deixar comover.

O povo também é capaz de manifestações de cunho moral e desinteressado.

Nesse mesmo Vale dos Reis, Howard Carter encontrou a múmia de Tutancâmon e seus tesouros, que se mantiveram intactos por mais de 3.300 anos.

O que Tutancâmon fez de tão importante para merecer a posteridade?

Por que a descoberta de seu túmulo foi tão impactante?

Você saberá no próximo capítulo.

Som de Sexta

27 de janeiro de 2012 2

Uma americana bem francesinha para esta sexta, em homenagem ao meu amigo Dinho, que está voltando para Paris:

Som das madrugadas

27 de janeiro de 2012 1

A dica é do Jorge Zilio.