O Gênesis abre um curioso parêntese em meio à história de José, uma edícula que não tem a ver com a construção narrativa principal, deslocada, meio torta, mas realmente interessante. Esse desvio relata o destino de um dos irmãos de José, Judá. Como o parêntese é de fato curioso, vou abri-lo também. Ó:
(A tribo de Judá, óbvio, é a Judeia, de onde, mais óbvio ainda, vem a designação "judeu". Logo, trata-se de um personagem importante. Esse Judá casou-se com uma cananeia chamada Sué, com quem teve três filhos, Her, Onã e Sela. O primogênito, Her, cresceu, tornou-se adulto e casou-se com uma moça local, uma certa Tamar. Mas Her era "mau aos olhos do Senhor", de acordo com a Bíblia. O que ele fazia de tão maligno a Bíblia não especifica. Seja o que for, não devia ser pouca coisa, pois o Senhor puniu Her com nada menos do que a morte. Sua mulher Tamar, no entanto, ainda não tivera filhos. Pelo costume da época, o pai do marido morto, no caso, Judá, devia dar a nora, no caso, Tamar, em casamento ao segundo filho sobrevivente, no caso, Onã. Chama-se a esse costume "levirato". Levir, em latim, é cunhado. Há um técnico de futebol brasileiro que se chama Levir Culpi; ou seja: Cunhado Culpi. Ou será que Culpi tem a ver com culpa? Cunhado culpado. Adequado à sequência da história.
Essa:
A ideia do levirato é não deixar o primogênito sem descendência. Por isso, o filho que a cunhada teria do cunhado seria considerado filho do marido falecido. A herança da família, portanto, passaria para o filho de Onã com Tamar e não para Onã. Afinal, o filho que ele deveria fazer não seria dele, mas do irmão primogênito. Como Onã espichava o olho para a fortuna da família, ele decidiu que não faria filho em Tamar. Optou por "espojar-se no solo", de acordo com o Gênesis. Em bom latim, coitus interruptus. O que significa que a acepção atual para "onanismo" não é precisa. De qualquer forma, o Senhor, que está sempre atento e que na época adotava a política de tolerância zero, não gostou do estratagema de Onã e matou-o também. Essa sentença rigorosa geraria inúmeras aflições aos rapazes adolescentes dos séculos vindouros, em que a tradição religiosa apontaria a masturbação como um ato criminoso, passível de punições terríveis como a cegueira, o definhamento ou o crescimento de horríveis pelos nas mãos.
O fato é que Jeová matou também a Onã. Sobrou a Judá um único filho, o caçula Sela, e esse ele decidiu não arriscar casando-o com a viúva negra Tamar. Mandou a mulher de volta para a casa da família e manteve o filho solteiro e saudável. Nesse interregno, a mulher de Judá morreu. O que deu ideias a Tamar. Decidida a ter um filho do clã de Judá, ela disfarçou-se de prostituta e foi fazer ponto no caminho por onde passava o ex-sogro. Na época, uma mulher não se disfarçava de prostituta vestindo microssaia e botas até os joelhos, como Julia Roberts em "Uma Linda Mulher". Bastava-lhe cobrir o rosto com um véu. Era um costume que protegia a mulher. Ela exercia seu ofício e preservava a identidade. Essa narrativa da Bíblia demonstra como a prostituição era encarada com naturalidade pela sociedade da Antiguidade, como a relação entre sexo e pecado é moderna, e não ancestral.
Tamar, portanto, cobriu o rosto com um véu e foi fazer o trottoir, até que Judá apareceu e se interessou. Negociaram o preço. Ela disse que se entregaria em troca de um cabrito, o que, suponho, devia ser um valor razoável. Judá topou e esfregou as mãos:
_ Vamos lá.
Aí Tamar olhou em volta e perguntou:
_ Cadê o cabrito?
Logicamente, Judá não andava por aí acompanhado de cabritos. Informou-lhe que seus cabritos estavam no rebanho, onde usualmente vivem os cabritos, e que lhe daria um depois que se espadanassem, repoltreassem e refestelassem. Tamar não gostou, pediu uma garantia e Judá deu-lhe seu anel, seu bastão e seu cordão. Trato feito, encaminharam-se para o tugúrio do amor. Tamar, é claro, já devia saber que estava em período fértil, pois ficou grávida de pronto. Depois de tudo consumado, ela voltou para casa tranquilamente. Mais tarde, Judá ainda a procurou para entregar-lhe o cabrito e pegar seus pertences de volta, mas não a encontrou. Esqueceu o caso, ela que ficasse com seus pertences dados em garantia. Passados três meses, algum vizinho fofoqueiro correu a avisar Judá que sua nora "havia se portado mal" e estava grávida. Ele ficou furioso.
_ Que ela seja queimada! _ gritou.
E foi aquela confusão. Pegaram Tamar e a arrastaram para fora de casa. Estavam prestes a queimá-la, quando ela avisou que contaria quem era o pai.
Pararam todos, expectantes.
_ É o dono desses objetos _ disse, mostrando o anel, o cordão e o bastão.
Judá os reconheceu, se enterneceu e assumiu Tamar. Seguindo a tendência da família, seis meses depois eles tiveram gêmeos. E viveram felizes para sempre.
Bonito, não?
Bonito, mas repare nas informações que a história fornece a respeito das mulheres da época: como já disse, não havia preconceito contra o ato sexual. Uma mulher, se quisesse viver da prostituição, ou mesmo se quisesse se regalar com sexo casual, poderia fazer isso sem problemas: ninguém lhe veria o rosto protegido com o véu profissional. Se você lembrar do caso de Bila, a mais jovem e formosa das concubinas de Jacó, com seu filho mais velho, Rúben, concluirá que havia tolerância até mesmo para com a mulher que traía o marido.
Certo.
Agora pense no que podia ter acontecido com Tamar, quando Judá descobriu que ela levava no ventre um filho ilegítimo: ela seria queimada. Isto é: não havia tolerância para com a mulher que ENGRAVIDAVA fora do matrimônio. Relembre do centro de todos os dramas dos patriarcas hebreus descritos até aqui: as disputas entre Isaac e Ismael pelos favores de Abraão, as disputas entre Esaú e Jacó pelos favores de Isaac, a morte de Onã. Qual é o ponto nevrálgico disso tudo? É a HERANÇA. Foi a herança que escravizou a mulher à fidelidade inflexível por todos esses séculos. A herança é a mãe da monogamia.)
Fechado o parêntese, voltemos ao infeliz José, vendido como escravo a Putifar, chefe da guarda do faraó. Em verdade, José era escravo, mas não era tão infeliz. Ao contrário, logo ganhou a confiança de seu amo, que lhe proporcionou educação superior e pôs em suas hábeis mãos a administração de todos os negócios da casa, no que José se saiu muito bem.
Além de competente, José era "belo de corpo e de rosto", o que despertou a lascívia da mulher de Putifar. Uma dia ela chegou-se ao criado e propôs:
_ Dorme comigo!
É exatamente assim que a Bíblia conta que ela falou, "dorme comigo!", sem tergiversações, sem volutas, direta e firme.
José, provando ser um homem controlado, recusou a oferta. Mas uma mulher, depois que chega a esse ponto, não recua. Porque, em geral, a mulher não aceita que o homem a rejeite. À rejeição fria e indiferente, a mulher prefere a traição fervente e pulsante. Aí está. Do século 20 para cá, as feministas têm reclamado, protestado e denunciado quando as mulheres são tratadas como "objeto". Um erro crasso das feministas na interpretação da alma feminina. Para a mulher, em determinado período da vida, é indispensável sentir-se objeto: objeto de desejo. Uma das realizações da feminilidade é sentir-se objeto de desejo, da concupiscência dos homens.
É evidente que para uma mulher muito feia ou para uma mulher muito bela é fácil criticar esse sentimento, porque a mulher muito feia já aprendeu que jamais será objeto de desejo e a mulher muito bela sabe que jamais deixará de sê-lo. Logo, é compreensível a grita de "não queremos ser vistas como um objeto!"
Só que as mulheres querem, sim, ser objeto de desejo, e se comprazem com isso. Por essa razão, quando um homem as repudia sexualmente elas se sentem feridas de morte. No momento em que uma mulher se oferece e um homem responde "não, obrigado", o que ocorre é uma inversão do processo natural da evolução, uma implosão da lógica biológica. Que é a seguinte: um homem, quantos filhos um homem pode ter? Milhares. Quantos descendentes ele pode ter? Milhões.
Neste sentindo, o homem mais bem-sucedido da história evolutiva da Humanidade, o campeão entre os campeões, o ser humano que atingiu de forma mais gloriosa os objetivos da espécie foi Gengis Khan. No início dos anos 10 do século 21 o Departamento de Bioquímica da Universidade de Oxford liderou uma equipe de cientistas ingleses, italianos, chineses, mongóis e uzbeques numa pesquisa que tinha por objetivo desenhar um mapa genético da região entre o Mar Cáspio e o Oceano Pacífico, por onde zanzaram e guerrearam os mongois. Depois de afanosas diligências, os pesquisadores fizeram uma descoberta surpreendente: existe a possibilidade de que 8% da população daquela área, o equivalente a 12 milhões de pessoas, sejam descendentes de Gengis Khan. Alguns apressados acreditam que 0,5% da população mundial sejam da linhagem do Khan. Isso é possível não apenas por Gengis Khan dispor de um número generoso de mulheres e concubinas regulares, mas porque, a cada conquista, todas as mulheres jovens capturadas passavam por suas mãos calosas e ávidas, antes de serem entregues em definitivo aos soldados. Gengis Khan deixou explícito quem era e o que fazia numa frase:
"A maior alegria de um homem é, depois de arrasar o inimigo, invadir sua casa, cavalgar em seus cavalos e possuir suas mulheres e filhas".
Ecce Homo. Gengis Khan não tecia considerações. Ele queria ser o Senhor da Terra, e era. Nesta ânsia animal de conquista e dominação, ele espalhou seus genes pelo planeta como talvez nenhum outro antes ou depois dele. O que o torna um super-homem, pois esse é o impulso biológico do ser humano do gênero masculino: multiplicar sua descendência, deixar sua marca cromossômica sarapintada pela posteridade afora. Um homem pode fazer isso, dele podem vir milhões. Uma mulher, não. Uma mulher muito fértil pode ter bem duas dezenas de filhos, mas a que custo! É por isso que uma mulher tem de escolher com critério o seu parceiro reprodutivo. Ela não pode errar, ela não tem muitas chances.
E não é assim que funciona? É a mulher quem escolhe. O homem se acha "conquistador", mas quem conquista é a mulher, e para isso basta-lhe um olhar de viés, um meio sorriso, o erguer de uma única sobrancelha. Ela emite um sinal, e o homem vem, arfante, língua de fora, baba escorrendo, jurando que irá submeter, mas submetendo-se. Então, para um homem a rejeição não faz diferença, evolutivamente falando: se ele não puder plantar sua semente aqui, tentará plantá-la ali adiante, ou lá, ou acolá. Para uma mulher, faz. Porque a mulher ESCOLHEU. Houve reflexão na sua escolha. Ela preza a qualidade. Além disso, ela sabe que o homem quer multiplicar sua descendência, que para o homem o que importa é a quantidade. Logo, o fato de ela ser rejeitada é um insulto biológico. Ele tem de querê-la porque, em tese, ele quer QUALQUER UMA.
Eis o drama de José. Ele rejeitou a mulher de Putifar. A rejeição é um insulto para qualquer mulher, e é um insulto muito mais grave para a mulher que se julga superior ao homem que a rejeitou, caso em questão. Furiosa, a mulher de Putifar foi ao marido para queixar-se de que José havia feito exatamente o contrário do que fez. Disse que José a atacou, que queria possuí-la. Putifar, indignado com a suposta deslealdade do servo e encantado com a suposta fidelidade da mulher, mandou José para o calabouço.
Mas José sabia mesmo agradar aos superiores. Com a mesma subserviência, mansidão e astúcia com que conquistara os favores do pai e de Putifar, tornou-se o queridinho do carcereiro, que logo fez dele o preso responsável pelos outros presos.
José tinha outros dons, além da adaptabilidade: inteligência e oportunismo. Interpretou os sonhos de alguns colegas de prisão, previu que um seria executado e outro libertado, e foi o que aconteceu. Se José trabalhava com informação privilegiada, se apenas deduziu o que ocorreria a partir da situação dos condenados, isso é secundário. O fato é que ele se consagrou como intérprete infalível de sonhos, e foi por essa condição que ganhou de novo a liberdade, depois de alguns anos de detenção: o faraó teve um sonho estranho, que muito o havia perturbado. O preso que fora solto (segundo o vaticínio de José) contou ao rei que nas masmorras de Putifar apodrecia um homem que conhecia a linguagem do sonhos. O faraó mandou chamá-lo e, pronto, em pouco tempo José conquistou também a confiança do monarca. A Bíblia conta que José tornou-se vizir do Egito. Foi investido deste cargo que ele acabou reencontrando os irmãos.
José agora era um homem maduro, tinha mais de 30 anos de idade. Uma severa carestia abalou Canaã e, por consequência, a família de Jacó, que mandou os filhos ao Egito em busca de víveres. Lá chegando, eles foram levados ao vizir. Depois de tantos anos, não o reconheceram. José jogou bastante com eles, usufruiu de uma pequena vingança, mas terminou revelando sua identidade, perdoando-os e, mais importante, mandou chamar Jacó para viver no Egito. Os hebreus, assim, instalaram-se no Egito. Lá estavam Israel (Jacó) e seus 12 filhos, os cabeças das 12 tribos que formariam a nação.
Pronto. Chegamos aonde queríamos. Os hebreus se radicaram no Egito. Era a época do domínio hicso, entre 1650 e 1500 a.C. Tudo iria acontecer a partir daí. Como? Você verá em seguida, no próximo capítulo de A História do Mundo.
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