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Posts de fevereiro 2012

Melhore sua quarta-feira

29 de fevereiro de 2012 6

Deu vontade de compartilhar um Eagles com você, Beibe.

Quando eu quero ser mau

29 de fevereiro de 2012 8

A melhor qualidade que um ser humano pode ter é a bondade. Kant não concordaria. Do alto de sua capacidade filosófica germânica, ele não considerava a bondade predicado. Por uma razão irredutível: por ser inata. Quer dizer: a pessoa nasce com aquilo, não se esforça para sê-lo. Como a beleza física – não existe nenhum mérito nela, a não ser uma harmônica combinação de genes.

Mas, embora não haja méritos, não há nada de errado em admirar quem foi dotado com uma boa aparência ou com um bom coração. O mundo é um lugar melhor para se viver quando andam sobre sua superfície uma Megan Fox ou um Gandhi.

Só que a beleza não cansa, mesmo quando surge em excesso, como a de Catherine Deneuve em horário nobre. Bondade, sim. Bondade demais cansa.

Digo isso porque tenho uns dois amigos, não mais do que dois, que são tão bonzinhos que despertam em mim o que tenho de pior. Aquela bondade melequenta me irrita. Quero ser mau quando estou com eles e, o mais grave, transformo-me, realmente, em uma pessoa má. Vejo malícia em tudo, enxergo todos pelo lado ruim, sou crítico e amargo, sou agressivo, sou veemente, sou como alguns comentaristas de blog.

Como pode a bondade pura gerar sentimentos ruins?

Aí está. Entendo o motivo. Ainda que Jesus tenha garantido que os mansos herdarão a Terra, a mansidão não é uma qualidade apreciada pela maioria das pessoas. Porque a mansidão parece frouxidão, e as pessoas não gostam de quem é frouxo. As pessoas gostam de quem é bom, sim, mas desde que a bondade seja atuante, decidida e positiva, jamais passiva. A bondade tem de saber ver a maldade onde a maldade existe.

Difícil não ver maldade nas intenções da Andrade Gutierrez nesse negócio com o Inter para a reforma do Beira-Rio. E o presidente do Inter, Giovanni Luigi, que é um homem cordato e educado, que respeita as outras pessoas, ou seja, que é um homem bom, o presidente do Inter já viu essa maldade. A irritação silenciosa que o presidente demonstra em suas entrevistas mostra isso.

O bom caráter do presidente do Inter não faz dele um manso, na pior acepção da palavra. Nada disso. Luigi tem demonstrado que sabe agir, quando é preciso. Agora é preciso.

À beira da areia

Pela primeira vez em nem sei quantos anos, passei mais de uma semana sem escrever. Aluguei uma casa nas franjas da areia do Litoral Norte e me mantive com a dieta básica de caipirinha e pastel de camarão, longe das malhas da internet, dos debates de rádio e TV e das aflições da cidade grande, como diria o velho Pinheiro Machado. Li apenas literatura, olhei o mar indo e vindo, indo e vindo, e senti meu cérebro atrofiar gostosamente.

Foi pouco tempo, sei, mas o suficiente para encontrar algumas mudanças no retorno. Sobretudo mudanças de concepção, que são as mais importantes. O Grêmio está voltando a pensar como
pensou um dia. Pensando que a grandeza não prescinde do empenho. Que o talento se esfarela sem o cimento do esforço. É uma evolução.


As ideias de Luxa

As saídas de Caio Jr. e Douglas deram ao Grêmio mais do que alguma evolução técnica ou tática. Deram ao Grêmio uma evolução ideológica.

O Grêmio agora retoma a ideia de que é preciso ser agressivo na tomada da bola para ser agressivo quando tiver a posse dela. Um time só se torna vencedor se tem meio-campistas que participam do jogo com intensidade. Foi assim que o Grêmio envolveu o Inter no Gre-Nal, e assim foi melhor
do que o Caxias na Serra. Perdeu nos pênaltis porque pênaltis são imponderáveis. A ideologia não é imponderável.

Existe um mito de que Vanderlei Luxemburgo é um técnico ofensivista. Balela. Vanderlei Luxemburgo preza o bom jogo, claro que sim, mas sabe que o bom jogo só é jogado quando se tira a bola do adversário.

* Texto publicado na Zero Hora de ontem, 28/02/2012.

Som das madrugadas

29 de fevereiro de 2012 1

Sugestão do Ruy Maier.

O papel ridículo do RS na Copa

28 de fevereiro de 2012 188

Falei com diretores da CBF e com colegas do Rio.

Por lá, no chamado “centro do país”, e não me refiro a Goiás, mas ao centro político do país, pois por lá, onde as coisas retumbam, lá comenta-se muito sobre o “papel ridículo” que o Rio Grande do Sul está fazendo na Copa do Mundo.

Foi a expressão que usaram: papel ridículo.

Um estado que, com RJ. SP e MG faz o primeiro mundo do futebol brasileiro, ficar de fora da Copa das Confederações e sediar só as oitavas de final da Copa é inadmissível. Porto Alegre, na Copa, está no nível de Manaus. O que, futebolisticamente, é um absurdo.

Ridículos.

Estamos sendo ridículos.

Entre amigos, cervejas e histórias

27 de fevereiro de 2012 4

* Texto enviado pelo leitor Diego Alves.

É engraçado como não precisamos de muito, na verdade, precisamos de pouco…

Como o título, estes elementos são responsáveis por gerar um número infinito de histórias e unir pessoas diferentes, mas com objetivos em comum.

Num primeiro momento, na adolescência, saímos com os amigos para conhecer o sexo oposto, para flertar, chegar junto, beijar e apalpar as meninas da balada. Sim, na adolescência apalpar é suficiente para uma noite na balada. Depois disto, vem as histórias de quem beijou a mais feia, de quem tomou o porre catastrófico, quem se perdeu da galera, e por aí vai…

Após a adolescência, se chega à fase adulta e, nos primeiros momentos, vamos à balada para chegar junto, conquistar e sair com a “sortuda” da noite para um delicioso sexo casual. Então, fazemos e fazemos este ritual até que nos domingos podemos conversar com os amigos assistindo ao futebol, ou tomando um chimarrão e contando sobre a performance (boa ou ruim) da noite, pois amigos não mentem para amigos, sempre preservando a identidade da “sortuda”, carinhosamente chamada assim.

Depois da fase de Don Juan, atacamos o real significado da noite com os amigos, sim, a diversão, o carinho, o companheirismo, as rodadas de cervejas geladas e chopp’s cremosos, o reviver das histórias antigas, mulheres marcantes, problemas profissionais e pessoais, enfim, o verdadeiro exercício da amizade, e nisto, passamos anos da nossa vida fazendo o que mais nos agrada, até descobrirmos que o mais simples pode agradar ainda mais.

É aí que conhecemos o real significado da palavra amizade.

Sala de Redação

27 de fevereiro de 2012 7

A dupla Gre-Nal está fora da Taça Piratini _ primeiro turno do Campeonato Gaúcho. Após vencer o Inter por 2 a 1, na última quarta-feira, o Grêmio deixou escapar a vaga na final, depois de perder nos pênaltis para o Caxias.

O que você achou da atuação do time de Vanderlei Luxemburgo no jogo de ontem?

A questão foi debatida no Sala de Redação desta segunda. Confira!

Como será a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres

27 de fevereiro de 2012 3

* Texto enviado pela correspondente do blog em Londres, Denise Tamer.

Marcado para domingo, 12 de agosto, o show de encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres contará os principais nomes da música britânica. Adele, vencedora nas seis categorias do Prêmio Grammy em que foi indicada neste ano, puxa a lista de artistas que a imprensa local divulga como atração certa.

Intitulado A Sinfonia da música britânica, a cerimônia ira durar cerca de duas horas e meia e contará com os maiores nomes da música do país. Os detalhes foram divulgados pela Locog, comitê organizador responsável pelas atrações artísticas do evento.

A transmissão deverá ultrapassar a marca dos 750 milhões de espectadores ao redor do mundo. Cerca de 4.100 artistas devem participar, incluindo crianças dos bairros envolvidos com o Jogos.
O evento também vai incorporar as Ilhas da Maravilha, tema da cerimônia de abertura. E uma seção de oito minutos com imagens do Rio de Janeiro, deixando as portas abertas para os Jogos que acontecerão no Rio de Janeiro em 2016.

Simultaneamente, o Hyde Park, um dos principais parques de Londres, sediará o “melhor dos britânicos” uma noite com Blur, The Specials e New Order.

A noite de encerramento está marcada para o dia 12 de agosto, a partir das 21h. Assim como na abertura dos Jogos, a trilha sonora orquestral será gravada pela London Symphony Orchestra.

O Grêmio foi bem em Caxias

27 de fevereiro de 2012 56

O Grêmio jogou bem contra o Caxias.

Dominou 80% do jogo, não deixou o Caxias entrar na área e criou importantes situações de gol, como a que Fernando perdeu sozinho, dentro da área.

Como lição fica o erro na tentativa de administrar um resultado precário. Aconteceu o mesmo no Gre-Nal. O Grêmio foi muito superior ao Inter, dominou a partida inteira e, no fim, decidiu segurar a vantagem mínima. Decorrência: não fosse Victor, o Inter teria empatado.

Um gol é tudo que se precisa para vencer uma partida, mas não pode ser considerado poupança. A atenção e a agressividade têm de ser mantidas até o fim. Com dois gols de diferença, bem, aí sim o time pode tocar a bola nos cinco minutos finais, não antes.

Mas o Grêmio está no caminho. Victor voltou a ser o goleiro de Seleção que é, as laterais estão bem supridas com Gabriel e Julio César, Gilberto Silva na zaga é uma providência que deveria ter sido tomada ano passado, Fernando, Souza e Leo Gago fazem um meio campo vibrante, Kleber e Moreno na frente têm qualidade confirmada. O  resto vai ter de se ajeitar com reforços. E com o tempo.

O que mudou em 10 dias

27 de fevereiro de 2012 15

Não lembro da última vez em que havia passado mais de uma semana sem escrever, como aconteceu neste último quarto de fevereiro.

Estava numa bela casinha que Jonas Amaral, “o melhor corretor do litoral”, me conseguiu na franja da areia de Xangri-Lá. Abria a janela e dava com a visão do mar aberto do litoral gaúcho. Fechava-a e ia dormir com o ronronar das ondas. Foram dias sem internet, em que pouco me inteirei do que se dava no mundo ao redor. Muito relaxante.

Mas vi o Gre-Nal e vi Grêmio versus Caxias e constatei que o Grêmio melhorou consideravelmente. Ainda falta um tanto a caminhar para que o time seja compatível com as ambições do clube, mas já existe um esboço, um esqueleto de equipe.

Esse Grêmio é mais agressivo quando ataca e quando defende, luta pela bola. Esse Grêmio é mais lógico. Tem tudo para acabar bem o ano, o último ano do Olímpico.

Túnel do tempo: 3.988.000

26 de fevereiro de 2012 10

O homem existe sobre a Terra há bem uns 4 milhões de anos. A agricultura começou há 12 mil. Ou seja: durante três milhões novecentos e oitenta e oito mil anos, o ser humano sobreviveu principalmente da caça. Os homens saíam em grupos e se embrenhavam na floresta inóspita a fim de abater mamutes, enquanto as mulheres ficavam na cabana, cuidando das crias. Assim, cada qual desenvolveu habilidades e características específicas. Vivendo os dias em meio à liberdade e aos perigos do nomadismo, os homens dependiam do espírito de colaboração, da lealdade, da agressividade, do pensamento estratégico. Como muitos morriam nas lutas e nas caçadas, havia um número excedente de mulheres e, desta forma, a poligamia era natural.

Quanto às mulheres, cabia a elas o exercício da paciência. E, com paciência e observação, alguma fêmea da espécie, em algum momento de há 120 séculos, descobriu que a semente caída no solo germinava. Foi o início de todas as coisas que o homem moderno conhece, da morcilha colonial ao I-Pod. As mulheres inventaram a agricultura e, com a agricultura, inventaram a Civilização. As mulheres domesticaram o cão, o gato, as aves, as cabras, o cavalo e, finalmente, o homem. Dos anseios das mulheres surgiram o casamento, as convenções, as liturgias e a moral. Tudo, absolutamente tudo, para proteger a família, a instituição máxima fundada pelo espírito feminino.

Elas conseguiram. As mulheres fizeram do mundo o que o mundo é. E com que sacrifícios! Afinal, tiveram de submeter a alma selvagem do macho, uma alma forjada em 3.988.000 anos de sexo e sangue. É muito tempo. Esses instintos poderosos ainda estão lá, pulsando nos recônditos do espírito masculino, ameaçando a cada dia a Civilização, essa obra genial da mulher. Volta e meia eles, os instintos, sobem à superfície e fazem o mundo estremecer, seja pela explosão do gênio de um Michelângelo, um Mozart, um Shakespeare, seja pela senda macabra aberta por um Hitler, um Stalin, um Jack, o Estripador. Porque tanto a façanha gloriosa quanto o crime odiento dependem do mesmo ingrediente – a paixão bestial que o homem traz no fundo do peito desde os tempos primevos.

As mulheres, não. As mulheres, para resguardar a família, não se valem da violência; valem-se da renúncia, da sutileza, da solércia e da paciência superior. Só uma mulher consegue, com uma única frase, arruinar um fim de semana ou abalar um relacionamento de anos. Só uma mulher sabe, com um olhar, amolentar a resistência mais convicta do homem mais austero. Porque a mulher conhece todas as reentrâncias da Civilização.

Por isso, decidi: quero votar numa mulher para presidente, para governador, para prefeito. Só as mulheres podem arrumar esse troço. Até porque foram elas que começaram tudo.

* Texto publicado em 21/04/2006.

Túnel do tempo: Certa noite de chuva

25 de fevereiro de 2012 11

Chovia muito no último dia em que vi meu pai. Eu estava com oito anos de idade e padecia na cama com 40ºC de febre. Amígdalas. Meus pais tinham se desquitado havia já alguns meses. Eu, meus irmãos e minha mãe morávamos num apartamento de um quarto na Assis Brasil. Ele foi nos visitar e deparou comigo tiritando sob a coberta.

Lembro com nitidez daquela noite, dele parado à soleira da porta do quarto, de pé, olhando-me, e minha mãe ao lado, com o papel da receita do médico na mão. Ele tomou a receita e ofereceu-se para ir à farmácia. Deu as costas para o quarto, mergulhou na escuridão do corredor e foi embora. Nunca mais o vi.

Logo depois ele se mudou para outro Estado, no Centro-Oeste, e lá construiu o resto da sua vida. Um dia de 2001 alguém me disse:

– Teu pai morreu ontem.

E eu não sabia o que sentir. Não conto essa história com ressentimento. Porque acho que entendo o que aconteceu com meu pai, naquela noite de chuva. Ao sair do apartamento, ele de fato tencionava comprar os remédios.

– Vou comprar dois de cada! – recordo que disse.

Mas meu pai era alcoolista. Na rua, deve ter cruzado pela porta de um bar, ou com um amigo, e parou para beber. Quando deu por si, era tarde para ir à farmácia e tarde para desculpar-se. Continuou bebendo, gastou todo o dinheiro e, no dia seguinte, envergonhado, preferiu não dar notícias. Assim passou-se um dia, e outro, e mais outro. De repente, havia transcorrido tempo demais para voltar atrás ou para dar explicação. Meu pai não enfrentou a própria vergonha, isso não é incomum. Acontece. É compreensível.

O que sempre me enfeitiçou nessa história, que, afinal, é parte da minha própria história, não foi o detalhe da desistência do meu pai. Não foi o abandono. Foi o momento em que meu pai decidiu entrar no bar. Uma decisão tão aparentemente irrelevante, tão fácil de ser tomada, dar dois passos da calçada em direção a uma porta aberta, e, ao mesmo tempo, uma decisão tão crucial. Fico pensando em como a vida é repleta dessas pequenas deliberações que podem alterar rumos e mover destinos. Fico pensando em todas as palavras espinhosas não ditas, nas vezes em que o sinal amarelo não foi cruzado, em que o gatilho não foi apertado, em que não liguei para ela, nas chances que deixei passar, e nas vezes em que fiz tudo isso, por bem ou por mal. Um passo, uma palavra, um gole, um pedido de perdão que não foi feito, e tudo muda. Mudou para meu pai. Mudou para mim. Neste fim de ano, o que desejo a todos é isso, que o passo seja certo, que a palavra seja macia, que o gole valha a pena, que o perdão seja pedido. E concedido.

* Texto publicado em 28/12/2007.

Túnel do tempo: Seios novos e calças justas

24 de fevereiro de 2012 6

A Ciência levou decênios a fim de desenvolver toda uma tecnologia de fabricação de jeans femininos para, no século 21, atingir a perfeição. Calças cada vez mais justas, porém maleáveis, amoldam-se ao corpo da mulher e até lhe emprestam formas ideais. O tecido envolve as coxas e enrijece os músculos das nádegas e deixa tudo empinadinho onde tem de ser empinadinho, ai.

Bem, as mulheres estão usando essas calças na Orla. Não quaisquer mulheres – os jeans custam mil e tantos reais, pode-se alimentar duas famílias com o preço de uma dessas calças. Mas funciona. Eu mesmo usei os jeans e num único dia recebi três convites para posar nu – recusei, talvez espere aumentar o cachê.

Mas o importante é que as mulheres estão ondulando dentro dessas calças às franjas do Atlântico, desde a elegante ponta de Punta, de onde se pode ver o sol nascer e fenecer no mar em um mesmo dia, aos decaídos rochedos de Torres, profanado por bárbaros com churrasqueiras portáteis e vulgares tiras de costela borrachuda.

Claro que as mulheres continuam vestindo aqueles biquínis minúsculos, aqueles provocantes biquínis de lacinho. Com uma novidade na parte de cima: os reduzidos triângulos de tecido da parte de cima mal lhes comportam os seios. Porque há muitos seios flamantes no litoral – no ano passado, as gaúchas definitivamente aderiram ao silicone. Conheço várias mulheres que implantaram silicone e agora passeiam pelo mundo de confiança nova, os ombros jogados para trás, um meio sorriso permanente a lhes luzir no rosto. Vou fornecer uma ilustração concreta.

A Leozinha.

Leozinha é uma bela colega nossa da Redação. Nem precisava, mas certo dia resolveu colocar silicone, e o fez à socapa, aproveitando-se de um pequeno recesso de férias. Antes de voltar ao
trabalho, ela foi no aniversário de outro colega, o Ricardinho Stefanelli. Chegou ao bar daquele jeito que chegam as mulheres de peitos novos, orgulhosa, queixo erguido, barriga encolhida, sentindo-se mais fêmea. Todos notamos, era o comentário da noite. Só um não sabia: o aniversariante.

A folhas tantas, a Leozinha, que estava de cabelo preso, foi ao banheiro e voltou com o cabelo solto. O Ricardinho, que, como todo homem, odeia cabelo preso, elogiou:

– Ficou bem melhor assim.

A Leozinha sorriu:

– Achaste?

– Achei. Bem melhor.

– Que bom. Pensei muito até fazer isso.

O Ricardinho se surpreendeu um pouco. Mas logo concluiu que ela devia preferir o cabelo preso porque estava muito quente no local.

– Foi uma sábia decisão – continuou ele.

– Mas foi difícil, pode crer.

O Ricardinho arregalou os olhos: realmente, isso de cabelo é algo importante para as mulheres, mas ele não imaginava quanto.

– Que coisa – comentou, já sem saber o que dizer.

– É – prosseguiu ela. – Mas eu tinha que fazer uma operaçãozinha no dedo. Aí aproveitei e fiz tudo junto.

O Ricardinho abriu a boca, estupefato. Havia algo de estranho naquele diálogo. Só depois de uns 10 minutos de conversa esquizofrênica é que eles se entenderam. Por que o Ricardinho esquecera que 2005 foi o ano do silicone, sim, senhor.

Então, o mínimo que se encontra na Orla são nossas bem cuidadas e criteriosas gaúchas, algumas delas até estreando seios, o que não é pouco.

Mas supondo que você não possa ir à Orla, por algum motivo. O que fazer na canícula de Porto Alegre, 40ºC sob uma placa de ozônio toda danificada? Você não tem piscina em casa e não é sócio de nenhum clube náutico. A alternativa são os shoppings refrigerados. Cinema à tarde. Fui ver King Kong, dia desses. Gostei. O macaco teve muito bom gosto em escolher a Naomi Watts como namorada, ela e aquela sua boquinha eternamente entreaberta, os olhos duas bolitas azul acinzentadas, lindalinda.

Enfim, tudo para fugir da temperatura escaldante do verão meridional. Mas há quem não possa. Os operários da construção civil, suando sobre vigas pingentes; os funcionários do DMLU, correndo atrás dos caminhões de lixo; os operadores das britadeiras, abrindo crateras na José Otão. E os jogadores de Grêmio e Veranópolis, que, às 15h30min, estarão inaugurando o Campeonato Gaúcho de 2006 sob o sol vermelho do janeiro dos Pampas. Ah, nem tudo são flores na vida de jogador de futebol.

* Texto publicado em 11/01/2006.

Sala de Redação

23 de fevereiro de 2012 12

Confira o que foi dito no Sala desta quinta sobre a vitória do Grêmio no clássico Gre-Nal de ontem, no Beir-Rio.

Túnel do tempo: Amor seis vezes ao dia

23 de fevereiro de 2012 6

Catarina II, a “Grande”, tinha necessidade de fazer sexo seis vezes ao dia, mas não foi por isso que a chamaram de Grande. Questão de precisão, não luxúria vulgar. Talvez padecesse da doença do Tiger Woods. Kennedy padecia, coitado, se bem que com menor intensidade: desenvolveu o hábito de possuir pelo menos três mulheres por dia, em rapidíssimas sessões de amor agendadas por seus solícitos assessores, dois a três minutos cada. Kennedy tinha muita pressa e nenhuma paciência.

Catarina era mais dedicada. Constituía amantes, envolvia-se com eles em profundidade e, quase sempre, só os dispensava quando encontrava outro mais tenro. Escrevi tenro, não terno.

Embora tenha sido a czarina mais importante da Rússia, era alemã. Sabe como são essas alemãs… Não havia sido batizada Catarina, e sim Sofia Augusta Frederica. Gosto desse nome, Frederica. Quando casou-se com o herdeiro do trono, Pedro, é que se renomeou Catarina. Também gosto de Catarina. Estava com 16 anos. Na noite do casamento, depois da festa, as criadas ajudaram-na a tirar as roupas pesadas de pedrarias e a levaram para a câmara nupcial. Ansiosa, a jovem e fresca Catarina sentou-se à borda da cama debaixo de seus cabelos louros, esperando pelo marido como se esperasse pelo abate.

É provável que não se sentisse empolgada com a perspectiva de ser deflorada pelo príncipe. Pedro era um feio. Fora vitimado pela varíola, que lhe deixara o rosto gretado. Acometera-lhe também uma calvície precoce, era magro como um espaguete e, nos quadros que lhe pintaram, aparece com um nada elegante ventre abaulado de chope. Ou, no caso, vodca. Bem. É verdade que muitas mulheres não colocam a beleza masculina entre os principais atributos que deve ter um homem para atraí-las. Basta que ele seja rico. Ou poderoso. Ou famoso. Algumas até se contentam com os inteligentes e bem-educados.

Pedro decerto que era rico e tudo indicava que um dia auferiria poder. O problema é que de inteligência e educação não possuía nada. Era infantiloide, passava o dia brincando com soldadinhos de chumbo e não se entusiasmava com as mulheres. Existe um debate entre os historiadores sobre se era homossexual mesmo ou se não passava de mero desinteressado.

Não faz diferença. O fato é que Catarina permaneceu horas aguardando por ele. Pedro só apareceu no quarto tarde da madrugada, trançando pernas, bêbado como um Boris Yeltsin. Balbuciou que ficara comemorando com os criados na cozinha, meteu-se entre os cobertores e, antes que Catarina pudesse dizer cucamonga, começou a roncar. Catarina não foi tocada pelo marido naquela noite. Nem na seguinte. Nem na outra. Ou na outra ou outra ou outraououtraououtraououtra. Durante nove anos, Pedro conservou sua mulher virgem como uma madre superiora. Quer dizer: virgem de Pedro. Catarina não demorou a providenciar um amante. E outro e outro e mais outro e outroutroutroutroutroutro. Acumulou dezenas deles com intensa devoção. Existem candentes relatos históricos sobre o desempenho da czarina de todas as Rússias entre lençóis. Não vou reproduzi-los porque coraria os leitores pudicos. Um dia, o embaixador da Inglaterra, para agradá-la, ofereceu-lhe um rapaz bonitão de presente. Catarina agradeceu, penhorada, levou o moço para cama e desfrutou dele por alguns anos. Como naquele tempo não havia pílula, Catarina teve vários filhos com os amantes. Pedro se conformava.

– Não faço a mínima ideia de como a minha mulher fica grávida, mas suponho que tenho de assumir os filhos – comentou, em meio a uma das tantas gestações.

Catarina seguiu somando amantes e filhos pelas estepes, até que traiu de verdade o marido: deu um
golpe de estado, mandou Pedro ir brincar com seus amiguinhos e reinou com radiosa luz sobre a Rússia. Seu vício, o sexo desenfreado, não a prejudicou nessa missão. Algum excesso, afinal, o ser humano pode cometer, de vez em quando. Deve, até. Walter aprecia comida calórica? Sem problemas, desde que apareça para treinar. Mário Fernandes é adepto do sono pela manhã? Que é que tem? Desde que, é claro, não faça samba e amor até mais tarde. Como fazia, e bem, a loira Catarina.

* Texto publicado em 07/03/2010.

Túnel do tempo: uma cerveja amarga

22 de fevereiro de 2012 8

Não é que tenha enganado minha namorada (antiga namorada, bom ressaltar, a fim de evitar violência doméstica). Pois não é que a tenha enganado. Foi tão-somente uma omissão. Porque, afinal, Carnaval não combina com namoro, noivado, casamento e quejandos. Principalmente os quejandos. E meus amigos todos, toda a vagabundagem, eles iam a uma grande festa de Carnaval, enquanto eu estava lá, vendo Sessão Coruja na casa da namorada, se não me engano passava um filme do
Charles Bronson.

Tinha que fazer alguma coisa. Apelei para a tática do sono. Primeiro, bocejei umas três ou quatro vezes. Depois comecei a cabecear. Ela:

– Tadinho. Trabalhou demais.

Eu:

– Pois é…

E mais uma pescada. Quando já estava próximo de simular ronco, ela intercedeu:

– Vai pra casa, amore. Descansar…

Eu, demonstrando resistência heroica, aprumei-me:

– Nã, nã, quero ficar mais um pouco contigo, querrrida.

Ela sorriu. Esperei mais uns cinco minutos. E, de novo, afrouxei o pescoço, a cabeça caiu para trás, pateticamente.

Ela:

– Ah, não! Tu tens que dormir! Não existe nada mais importante do que o sono! Lembra da Xuxa, que dorme 13 horas por dia?

Suspirei, relutante, e relutantemente concordei:

– Sei, sei, mas queria taaanto ficar…

– De jeito nenhum!

Suspirei outra vez, e suspirando saí. Quinze minutos depois, lá estava eu, indicadores apontando para o teto, cantando será que ele é bossa nova, será que ele é Maomé.

Cara, pejado confesso: engolesmeime naquela noite. Um fiasco. De manhã, sentia a boca pastosa, o mundo rodava mais que os casais, tudo era dor. E, Cristo!, tinha de ir a um almoço na casa da namorada. Cheguei lá indormido, amassado, parecia aquela jaqueta que tirei do cachorro, uma vez. Mas é claro que não podia dizer que havia bebido à noite, de jeito nenhum: eu saíra da casa dela para dormir, lembra?

Bom. A primeira coisa que a guria fez, quando sentei-me no sofá, mas a primeirona mesmo, foi vir lá da cozinha com uma garrafa de cerveja na mão. Bastou olhar para aquela garrafa para sentir uma quentura no estômago, uma tonteira, tudo ficou preto. Ela parou na minha frente, sorrindo, com a garrafa na mão. Tirou um grande copo de algum lugar, como se fosse o Toni Mágico. Sempre sorrindo, encheu o copo até a borda, vagarosamente. E estendeu-o para mim.

Tomei o copo, trêmulo. Fiz o possível para sorrir. Levei o copo até os lábios. E bebi. Aquela lágrima escorria pelo meu rosto, tinha vontade de morrer, mas bebi.

Foi um dia de sacrifícios, naquele distante Carnaval. Imagino um desses jogadores que bebe e, de manhã, não têm que enfrentar a namorada, mas têm que treinar. Solidarizo-me com eles. Poucas dores afligem tanto o homem como uma ressaca clandestina.

* Texto publicado em 29/04/2007.