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A noite do tomate gaúcho

10 de março de 2012 17

A noite porto-alegrense já se erguia a razoável altura e estávamos famintos e sedentos, eu e o Ivan Pinheiro Machado, e então resolvemos matar a fome e saciar a sede com a cozinha honesta do Bar do Beto.

Entramos, nos aboletamos a uma mesa de canto, o velho garçom Dinarte se aproximou com seu velho sorriso e eu:

– Dinarte, o que é que tem de bom aí para dois homens que sentem fome?

O Dinarte não titubeou. Baixou a voz, inclinou-se para mais perto dos nossos ouvidos curiosos e recomendou, como se segredasse:

– Tem um tomate gaúcho ali na cozinha que está es-pe-ta-cu-lar.

Olhei espantado para o Ivan, e o olhar que ele me devolveu não parecia menos espantado. Era a primeira vez que um garçom me oferecia tomates. Não tomates, aliás: tomate. Um deles, um único em especial, que o Dinarte devia estar observando há horas, sempre que incursionava pela região conflagrada da cozinha.

Não sou homem de comer saladas, francamente, prefiro animais mortos, mas a sugestão do Dinarte me comoveu pela especificidade, pelo pormenor que só é percebido por quem se interessa pelo que está fazendo. Outro garçom, menos atento, jamais daria atenção a um tomate solitário na cozinha do restaurante e nem o indicaria como a joia da coroa da casa. Decidi-me. Dei um soco na mesa:

– Traga esse tomate, meu bom Dinarte! E alguma coisa mais.

O Dinarte se foi, satisfeito, e, quando voltou, trouxe com ele, esparramado em fatias numa travessa prateada, como se fosse Cleópatra se oferecendo a Júlio César, um tomate do tamanho de um melão, rubro feito pudor de virgem, luzidio como luzidias são as pernas da Megan Fox, de aparência suculenta, como suculentos são os lábios de Scarlett Johansson. Como coadjuvantes, vinham aqueles que, em outras circunstâncias, seriam atores principais: uma panela de carreteiro de charque e uma porção alentada de feijão mexido, bem temperado com salsinha, óbvio.

Dois minutos depois, distribuí no prato branco três colheres de carreteiro de charque e, ao lado, deitei uma de feijão mexido. Duas fatias do tomate gaúcho, cada qual com o diâmetro de um pires, foram suficientes para cobrir esses dois amáveis outeiros. Piquei-as com critério, espargi sobre tudo molho de pimenta e quatro fios de azeite de oliva, e pronto.

Sim, senhor.

O tomate gaúcho estava es-pe-ta-cu-lar.

Foi o melhor tomate que já comi na vida, e duvido que venha a provar outro igual, enquanto estiver mastigando pelos bares do mundo. Claro, tudo graças ao zelo do Dinarte. Ao seu capricho. O que me faz lembrar do meu avô, que vivia sempre a repetir:

– Capricho, David. A gente tem que fazer as coisas com capricho.

É fácil distinguir o capricho. Uma cidade que é cuidada com capricho, por exemplo, não pode ter outdoors e cartazes publicitários empanando a visão dos cidadãos. Não falo só de outdoors irregulares, que são milhares. Não falo só de outdoors voadores, um deles tendo atingido mortalmente o passageiro de um veículo, dias atrás. Não. Falo de TODOS os outdoors. É feio. É relaxamento. Não teríamos de conviver com esses pequenos monstrengos, se houvesse mais Dinartes por aí.

Comentários (17)

  • Machiavellirs diz: 10 de março de 2012

    CAPRICHOS

    Aprovo a retirada dos crucifixos dos Tribunais e das Casas Legislativas e Executivas assim como aprovo a retirada desses outdoors que poluem visualmente a cidade.

    Sobre os outdoors não falo porque o David já disse tudo.

    Relativamente aos crucifixos sou da opinião de que a própria Igreja Católica deveria pedir a retirada deles de todo lugar que abriga um Judiciário, um Legislativo ou um Executivo. Esses lugares não são lugares para crucifixos. Como diria Cristo, esses lugares são “cavernas de ladrões” que nenhum compromisso tem com o dinheiro público nem com o bem comum. Lugar de crucifixo é dentro das igrejas e das casas que respeitam eles e suas verdades.

    Sobre isso, em Mateus 21.12-13 está escrito: “Jesus entrou no templo e expulsou dali todos aqueles que se entregavam ao comércio. Derrubou as mesas dos cambistas e os bancos dos negociantes de pombas e disse-lhes: Minha casa é uma casa de oração, mas vós fizestes dela uma caverna de ladrões”.

    Então, um crucifixo que representa, antes de tudo, a honestidade, a coragem, a dignidade a moralidade e a justiça, não pode ficar pendurado nas paredes de lugares conhecidos pela desonestidade, pela covardia, pela indignidade, pela imoralidade e pela injustiça.

    Se eu fosse o Papa mandava retirar os crucifixos desses antros de corrupções sem maiores delongas e dava um pé-na-bunda – tipo FIFA — nessas instituições de merda, como diria o Lula, sem nenhum capricho.

  • Daniel Aço diz: 10 de março de 2012

    Alucinação

    O homem mora ao lado da igreja. Esta, a quem muito de pede e com nome de santa, bastante se ergue sobre as rasas casas vizinhas.

    Cedo madruga o homem. Em paralelo à janela branca de ladrilhos longos, levanta-se trôpego no ambiente sinistramente iluminado. Com vagar e êxtase, antecipa o café que lhe tostará a língua grossa.

    Calça as sandálias modernas cujo desenho é também bíblico. O gorducho gato Félix já o aguarda no sofá, de onde mia faceiro e abana o longo rabo.

    Adentra na cozinha e liga a cafeteira elétrica. Come dois biscoitos de nata e vê Félix estufar-se após longa madrugada sem ração. Enquanto é filtrada a última gota do café negro, o homem de nome Paulo abre a janela da sala.

    Sem ter bebido na noite anterior, estranha um vulto que caminha pela rua. Pelo portão da igreja saía um homenzarrão embrulhado em espessa vestimenta escura de frade, roupa típica de filmes ambientados na Idade Média. Paulo mal acredita no que pensa e julga ver.

    Ao lado de Félix, cujo sorriso de orelha a orelha está para a deserta rua, o dorminhoco de nome bíblico imagina ater-se a uma alucinação. De fato, à alucinação do frade estofado em grossa lã.

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    Fonte: http://www.protexto.com.br/texto.php?cod_texto=2344 (conto do escritor Daniel Aço)
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  • Daniel Aço diz: 10 de março de 2012

    Corrigindo: “Esta, a quem muito se pede…”

  • Orlando Blomescalde diz: 10 de março de 2012

    É isto que dá querer transformar uma saladinha de tomates, acompanhada de um indefectível arroz carreteiro com feijão mexido -aliás, como é rico e variado o cardápio gaúcho!!! – em assunto para um post! Puxa! Acordou o velho chatonildo e o louco pernóstico e gongórico, que aqui acorreram na ânsia do vômito matinal. Haja saco!!!!!! Mas, esta janta inédita ( rindo muito!) terá sido bem melhor q qualquer gororoba insossa, temperada apenas com um tablete de caldo de carne e queijo ralado por cima, como as preparadas pelo gourmet, anônimo de ruim, da tv local. O mesmo que prepara lasanha, sem lasanha. Bacalhoada sem bacalhau. Mocotó sem mocotó. Molho bechamel como um mingau de maisena insuportável…Que pobreza cultural! A culinária gaucheba é tão imutável e restrita quanto seus leitores, meu caro! Lamento!

  • ADEMAR LUIZ POSTAY diz: 10 de março de 2012

    DAVID FALASTE UMA BOBAGEM TÃO GRANDE NO SALA EM RELAÇÃO QUANTO AOS GOLS DO NEYMAR,QUE ELE É EXCESSÃO,FOI DE UM AMADORISMO POR PARTE DO MOLEDO GUINASU TINGA,PORQUE NÃO ACONTECIA MESMO LANCE COM INDIO,TU FILOSOFIA É DE BOTEQUIM,SABE LEI DA GRAVIDADE UM SUJEITO CORRENDO EM ALTA VELOCIDADE SOFRENDO UMA OBSTRUÇÃO,PODIA DE ARGUMENTAR 15 SITUAÇÕES DO JOGO,PARA TE DIZER,QUE É UMA POBRZA DE ARGUMENTOS,VOU TE FAZER UMA PERGUNTINHA QUNDO ELTOM INTERCEPOU UMA BOLA ANTES DE CHEGAR NO NEYMAR,AGORA ELE COM ESPAÇO PARA DOMINAR BOLA,SAGUEIRO CORRENDO DE COSTA,NA MINHA ÓTICA COM TODO RESPEITO AO SER HUMANO DAVID ACHO QUE NUNCA JOGASTE PELADA,ELE FEZ ALGUMA JOGADA CONTUNTENTE EM CIMA DO BOLIVAR ,QUE FOI INJUSTIÇADO POR UM PENALTE ENIXISTENTE ,TENHO 50 ANOS JOGO COM MOLEGADA DE 23 E TE DIGO FOI DESPLICENCIA,ORGANIZAÇÃO TÁTICA.DISCUTEM UM JOGO DESSE COM MINELLI,OLHA OS VIDIOS DO MAESTRO ENIO ANDRADE,NÃO SOU TORCEDOR PASSSIONAL,TU TAS TE EQUIPARANDO AO GRENALISMO DO CACALO,QUE PENA.

  • ADEMAR LUIZ POSTAY diz: 10 de março de 2012

    ONDE DIZ BOLIVAR É INDIO,SOBRE OS LANCES CAPITAIS.

  • ADEMAR LUIZ POSTAY diz: 10 de março de 2012

    ONDE USA NOME DE BOLIVAR O CARA DA VEZ É INDIO.

  • Joel diz: 10 de março de 2012

    Que saco esses palhaços que ninguém lê poluindo um espaço que deveria ser de comentários. É brabo.

  • Vinicius diz: 10 de março de 2012

    David, sempre competente.
    Mas tu devia ter guardado esta analogia do capricho para uma crônica de futebol. Daria um belo paralelo com um cruzamento daqueles estilo Renato, ou uma falta bem batida estilo Éder…

    Em Los Angeles, proibiram há dois anos o uso de outdoors pintados na fachada de prédios. Prudente, porque a proliferação disso caminhava a passos largos.

    Em Porto Alegre, se limparem o lixo das ruas e apararem a grama dos canteiros, já seria revolucionário. Outdoors então, um sonho.

  • Marisa Oliveira diz: 10 de março de 2012

    Foi visto um tomate parecido com esse, dessa espécie, lá no litoral. Estava num churrasco, coberto de farinha branca. Uma delícia mesmo.

  • ANA diz: 11 de março de 2012

    OLHA, EU NÃO QUERIA… MAS DEPOIS DE LER ESSES COLORADOS RIDÍCULOS TIVE QUE FAZER ALGUMAS ASSOCIAÇÕES DO INTERNACINALZINHO COM O TOMATE GAÚCHO E COM A POLUIÇÃO DOS OUTDOORS… É DIFÍCIL, MAS VC ACHA UM BOM TOMATE GAÚCHO, ASSIM COMO É DIFÍCL DE ACREDITAR, MAS NOS DIAS DE HOJE AINDA SE ACHA CLUBES METIDOS A GRANDE FAZENDO REMENDAÇOS, UMA POLUIÇÃO VISUAL PARA MASCARAR UMA ESTRUTURA FRÁGIL E VENCIDA!!!

  • Jeferson diz: 11 de março de 2012

    A ortografia e gramática do meu colega colorado acima, infelizmente, vai de “ADEMAR” a pior…

  • clovis henrique diz: 11 de março de 2012

    COMENTARIO MAIS SEM GRAÇA DESSE GUAMPUDO DO ORLANDO BLOMESCALDE, É MAIS UM QUE TEM DOR DE COTOVELO POR NÃO TER NASCIDO NO RS, NÃO SENDO GAUCHO, DETURPA A CULTURA RICA DE UM POVO QUE MUITO CONTRIBUI PARA O PROGRESSO DESSE PAÍS, DIGO QUE POBRE É A TUA VIRTUDE DISCRIMINATORIA QUANDO VC OFENDE O POVO GAÚCHO, TEMOS ORGULHO DE SER GAÚCHO E NÃO PRECISAMOS DA SUA OPINIÃO BARATA E RACISTA, CUIDE DE SUAS GUAMPAS, FILOSOFO DE ZONA,O RIO GRANDE MERECE RESPEITO, INDEFECTÍVEL DEVE SER SUA PERSONALIDADE, SE É QUE TEM.

  • Carlos diz: 11 de março de 2012

    Caro David, moro no Rio há cerca de 20 anos, mas lembro das noites da gurizada do Menino Deus e, àquela época, já existia o Bar do Beto. No início não tão vistoso como hoje, os tempos mudaram (para melhor), mas ele ainda continua a ser referência de comida honesta e pela simpatia dos garçons. No ano passado, levei minha esposa (carioca) para comer uma “coisinha qualquer” e tomar um chopp. Pedimos uma das belas opções de carne, e ela conheceu o sabor da minha juventude…e o Dinarte.

  • Eder Leite diz: 11 de março de 2012

    Também sou fã do tomate gaucho, cortado em rodelas de 1 cm de espessura.
    Não compreendo porque ele é tão caro nos mercados de Porto Alegre, pois lá no Capão do Leão (próximoa a Pelotas), ele é vendido por R$1,50 o kg.

  • Matheus diz: 12 de março de 2012

    Os comentarios são sempre ótimos, ainda mais os de chingamento, eles contem uma verdade tão grande que, nem aos fake perdoa!! Mas… para não parecer mais um revolucionario raivozo virtual devo dizer que, ainda que lamentando, me alinho pela primeira vez ( que eu me lembre ) ao primeiro (sic) comentarista (argh)!!!

  • Dinarte Valentini diz: 12 de março de 2012

    ESTIMADO, SENSACIONA….. GRACIAS

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