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Uma chance que se perde

17 de março de 2012 31

Você vai se tornar um velho algum dia, se tiver sorte. Uma pessoa velha significa uma pessoa vitoriosa do ponto de vista biológico e até do ponto de vista filosófico. Afinal, tudo na vida nasce, cresce, amadurece, fenece e morre, se a sequência não for interrompida por um ser humano mal-intencionado e armado,ou um micro-organismo predador, ou por golpes da natureza indomável, ou por um pedaço de satélite desativado que despenque do céu.

O fato é que esse é o ciclo natural, é assim que as coisas funcionam. O mundo e as pessoas mudam, estão mudando a cada minuto, inexoravelmente.

Mas mudança não é necessariamente evolução. A passagem de um ciclo para outro não significa melhora.

Lembro de uma moça que conheci. Fomos amigos desde a infância, e na adolescência chegamos a manter certo intercurso. Era uma menina exuberante,linda,viçosa e cheia de espírito. Tinha resposta para tudo, pisava sobre a superfície da Terra com confiança, como se os outros seres humanos fossem seus súditos. E, de fato, era uma princesa pronta para se transformar em rainha. Que mulher ela será,eu pensava. Os homens rastejarão a seus pés!

A vida nos apartou, que a vida aparta as pessoas, e fui encontrá-la já adulta, no tempo que deveria ser o tempo da sua glória. E ali estava, em na minha frente, uma mulher sem lustro, pequena de espírito, não exatamente vulgar, mas desprovida de qualquer sutileza, sem qualquer mistério. Não foi a decadência física que a afetou – se você examinasse uma foto dela, a acharia muito bonita; foi a decadência espiritual. A personalidade dela perdeu o vigor. Era como se tivesse sido congelada em 1977.

Também já aconteceu o contrário. Já conheci pessoas absolutamente sem graça na adolescência,que,adultas,se converteram em seres humanos interessantes,talentosos,líderes verdadeiros.

Quer dizer:juventude não é sinônimo de exuberância;maturidade não é sinônimo de desenvolvimento;velhice não é decrepitude, mas também não é,forçosamente, sabedoria; e a felicidade pode não estar incrustada na infância.

Assim é um país. Nas eleições, os candidatos sempre se dizem arautos da mudança. A ideia é que, se a situação mudar, irá melhorar. O Brasil vem mudando com rapidez. De Itamar Franco para cá, parece ter ingressado em um ciclo evolutivo irrefreável. Realmente,há mais dinheiro no Brasil. O país ficou rico, embora a maioria de seus habitantes continue pobre. As pessoas têm mais dinheiro para gastar, e estão gastando mais, comprando mais, fazendo com que se produza mais.

Mas o dinheiro você ganha e perde. A Europa, hoje empobrecida, era rica até anteontem. Há algo,porém,que nenhuma crise vai tirar da Europa: o espírito. A cultura e a educação que forjaram a civilização europeia, base da civilização ocidental, continuarão entranhados na alma de seus cidadãos, nas pedras das ruas de suas cidades, na sua forma como o cidadão encara a existência. Onde é melhor de se viver? Na pujança do Brasil, da Rússia, da Índia e da China ou em meio à crise europeia?

O Brasil que hoje se refocila no dinheiro está perdendo uma chance preciosa de evoluir. Não há projeto para o país, salvo o de crescimento material. Como a minha velha amiga, o Brasil corre o risco de só melhorar fisicamente e, mais tarde, quando deveria usufruir sua glória, não passar de algo que um dia quase foi, mas que nunca será.

* Texto publicado na Zero Hora de ontem, 16/03/2012.

Comentários (31)

  • Christiano Volken Nunes diz: 17 de março de 2012

    Brizola tinha razão!

  • ALTAIR diz: 17 de março de 2012

    Bom dia David… maravilhoso texto.

  • Edson diz: 17 de março de 2012

    Muito boa síntese David! Ontem mesmo conversava com um amigo a respeito de um tema relacionado diretamente a isso, me parece que o grande problema do Brasil são os próprios brasileiros. Quando me parece que já vi tudo do “jeitinho brasileiro” sou novamente surpeendido, é incrível como está intrínseco em nosso meio a futilidade e a desvalorização quase que absoluta de valores essenciais no ser humano. Talvez isso mude algum dia, mas certamente não estaremos mais aqui para presenciar isso.

  • Bruno Barrufi diz: 17 de março de 2012

    muito boa essa coluna.. e voce tem razão..

  • Itamar Terra Oliveira diz: 17 de março de 2012

    Magnífíco texto parabéns David;só que os meios de comunicação em massa tem uma responsabilidade muito grande neste crescimento. Imagina só se os meios de comunicação gastassem o mesmo tempo que gastaram fazendo pressão sobre o governo para a assinatura do contrato com a AG, fosse gasto fazendo pressão para fins assim como:saúde,educação etc… seria muito mais fácil não seria?novamente parabéns.

  • Fabio Heer diz: 17 de março de 2012

    Muito bom . Diria mais, sem qualquer preconceito, a classe hoje dominante, a nova classe C, deixará, para as futuras gerações, um triste legado de comportamento e relacionamento entre indivíduos. Em qualquer lugar que se vá, notadamente no trânsito de automóveis, o que mais se observa é o individualismo, ausência de cortesia, a pouca educação.
    Estamos evoluindo, conforme o autor, no lado material. No mais, é pura involução.

    Parabéns pelo texto.

  • Gerson Daniel diz: 17 de março de 2012

    Excelente analogia, David, nem tudo é o que parecer ser… O povo no país continua sem educação e saúde!

  • Guilherme diz: 17 de março de 2012

    David, concordo plenamente.
    Não temos um planejamento, nem investimento em cultura, educação. Assim como as mulheres nesse caso também não têm.
    O que deixa as duas coisas desinteressantes com o tempo.

    Como sempre me disse meu pai: a única coisa que não tiram de ti é o conhecimento. Infelizmente, as pessoas estão consumindo desenfreadamente, sem saber por que. Vamos nos transformar nos Estados Unidos do Brasil, assim como José Serra achou que já nos chamávamos esses dias (candidato a presidente… só no Brasil acontece essas coisas). Um país que é a maior economia do mundo à base de um consumo sem sentido e desperdício de energia ($$$) que vai pelo ralo das guerras e dos supérfluos.

  • José Bonetti diz: 17 de março de 2012

    ESPETACULAR TEU TEXTO….ESPETACULAR……..A MIDIA É IMPORTANTE PARA ELEVARMOS NOSSO ESPIRITO (EDUCAÇÃO)…PRECISAMOS….

  • Jorge Churras diz: 17 de março de 2012

    O fato, David, é que o Brasil literalmente é um riquinho emergente, ou um pobre com dinheiro.
    Com esse tipo de mentalidade, a grana vai rapidinho embora.
    A civilização européia tem encrustada a mentalidade nobre, que a faz merecer a riqueza.
    A pobreza na Europa nasceu em um país, a Grécia, e se alastrou. O governo da Grécia agiu como o governo brasileiro, em menores proporções.
    Achou que a pujança era eterna e se meteu a organizar uma Olimpíada – que foi muito bem organizada, mas que hoje se vê que estava fora dos padrões reais de sustentação da riqueza daquele país.
    E o Brasil? Bota uns troquinhos no bolso e chama pra si a responsabilidade dos dois maiores eventos esportivos do mundo, comprometendo uma considerável quantidade de recursos nisso.
    É como aquele cara que paga aluguel o ano inteiro, anda de carro pagando prestação, e se ganha um bônus no final do ano, pega a família e se manda pra Disney. Supérfluos.
    Vamos rezar para que nosso destino não seja o mesmo dos gregos!!

  • Mauricio S diz: 17 de março de 2012

    Há muito tempo vc ñ vai à Europa, não? Ou nunca passou uma longa temporada por lá. Conhece, de fato, a França, a Alemanha, a Itália, a Espanha, Portugal, Reino-Unido? Já foi à Irlanda? A Europa é um continente com uma história muito diferente das Américas. Somos os depositários de suas imperfeições. A Europa é como a samambaia e nós fomos o xaxim do qual ela se nutria. Agora que o xaxim é politicamente incorreto e proibido, a Europa está se ferrando…Vá viver por lá! O que o prende aqui? Seja um correspondente da rbs no Velho Mundo e se refocile
    na velha e classuda Europa, como mais um imigrante odiado e discriminado. Vc muito aprenderá – que as pessoas aprendem- mesmo as mais renitentes e capadócias.

  • Daniel Aço diz: 17 de março de 2012

    Humanidade

    Sob uma árvore impossível de ser identificada, um retalho de homem e um resto de cão contemplam o horror com olhos vidrados. A árvore, cuja queima é igual a tudo ao redor, já está despida de folhas e frutos. Apenas escassos galhos tortuosos e capengas são grotescamente vistos.

    Sabe-se lá como o homem sobreviveu. Nem mesmo ele, em sua prejudicada reflexão, acredita estar vivo. O cão, recentemente adotado por ele, deve igualmente ter viajado anos sem rumo, à deriva das intempéries provocadas e dos desatinos ditos humanos.

    Europa, Berlim, 1945. No que resta desta cidade após as monstruosidades da Segunda Guerra Mundial, um homem sem identidade e um cão sozinho perambulam entre prédios de fogo, ares insuportáveis de fumaça, praças desnudas, ruas reviradas, corpos e mais corpos espalhados pelo solo desvirginado.

    A Humanidade expõe, para a eternidade, sua hemorragia.

    A árvore não tem água, o homem não se alimenta e nem o cão pode comer. Após a ferocidade acumulada de anos, apenas a dantesca mortalha humana se amontoa crua. As maiores barbáries, cometidas pelos mais incríveis absurdos, naquele momento emergem do chão assassinado, a terra rubra ensanguentada.

    Calcula-se que mais de cinquenta milhões de pessoas foram mortas na Segunda Guerra Mundial. Como em todas as barbáries, inclusive nas silenciosas de hoje, nenhuma distinção foi feita: homens, mulheres, velhos, jovens, crianças, judeus, ciganos, cristãos, maçons, comunistas, ateus, intelectuais, soldados, homossexuais, heterossexuais, assexuados, crentes, descrentes, homens de bem e de mal.

    Em comum a todos os vitimados: o espírito de cada qual foi roubado, as boas crenças foram corrompidas e o senso do humano foi arruinado.

    Ainda assim, há quem creia que o Holocausto não tenha existido nem tenha sido do modo como foi. Ainda assim, há quem não veja nem queira ver o Holocausto subliminar de nossos dias.

    Sempre sobra para todos.

    _______________________________

    Fonte: http://www.protexto.com.br/texto.php?cod_texto=2363 (crônica do escritor Daniel Aço)

  • rafael b. diz: 17 de março de 2012

    E as frases doa dia? não publica mais?

  • Leonardo diz: 17 de março de 2012

    Excelenteo comentário. Moro em Berlim, cidade com muitos desempregados, mas nunca voltaria para o Brasil, exatamente pelo descrito no texto. E tenho amigos que pensam o mesmo morando em Paris, Braga, Londres, Bruxelas…

  • Prof. Palazzo diz: 17 de março de 2012

    Felicitações pelo comentário. Coloquei una referência em meu blog (procurem com o Google pois este blog não aceita apontadores) pois encontraste um assunto crítico. Tenho amplo conhecimento e vivência na Europa, não adianta comentários raivosos como o anterior temos que reconhecer que estamos naquela fase de “novos ricos” sem cultura e sem educação. Basta – para quem quiser comparar – ir para a praia em um sexta de tarde na autoestrada, ultrapassagens pela esquerda, caminhões a 140 por hora. Falta muito para sermos um pais do primeiro mundo.

  • Marcio diz: 17 de março de 2012

    Otimo texto.
    Quanto a esse senhor Mauricio S., só tenho a lamentar, leu toda a coluna e não entendeu nada. O próprio texto fala de pessoas como você, sem cultura e educação.

  • luiz santos diz: 17 de março de 2012

    para Maurício, claro que vc vai detestar eternamente os polidos ,vc e da classe que venera a democracia cubana,bolivariana de hugo chaves,ira,correia do norte,cartel petroleiro da rússia,a riqueza da china etc………… e viva o pt

  • Demian diz: 17 de março de 2012

    Falou e disse, David!!!!!! E X C E L E N T E ! ! ! ! ! ! !

  • Jorge Chaim diz: 17 de março de 2012

    Vc está coberto de razão, Mauricio. Veja como reagiram os descendentes dos Andreazas, dos Médicis, dos Geisels, hoje estacionados numa miserabilidade que os enche de mágoa, de rancor pelo Brasil. Descendentes fracassados de imigrantes europeus que aqui chegaram mortos de fome e vergados pela vergonha por serem uns derrotados, hoje desdenham da terra que os abrigou e que lhes paga aposentadoria rural! Os perdedores, os incapazes, os pobretões culpam o Brasil por suas próprias derrotas perante a vida! Os vira-latas miseráveis precisam de desculpas para suas vidas sem vitórias, sem progresso. Se tivessem tv a cabo, teriam a chance de assistir programas populares ingleses, franceses, italianos, espanhóis, portugueses e saberiam que o povo europeu é tão burro e idiota como o povo americano. Que vomitem suas neuras neste espaço e que se sintam menos infelizes! Nem todo mundo nasceu para brilhar!

  • Luiz Carlos diz: 17 de março de 2012

    Excelente o texto. Agora, me diga se você acha possível os governantes brasileiros investirem em educação, em ensino e em controle de natalidade. A saída do Brasil passa pela educação e pelo controle de natalidade mas, os políticos precisam de bastante idiotas para neles votarem. Quando houve a ditadura, qual foi uma das primeiras providências dos militares? Acabarem com o ensino de filosofia no ensino médio. Filosofia faz pensar…

  • Marisa Oliveira diz: 17 de março de 2012

    Alguém sentiu falta da frase do dia, sinto falta da frase da noite.

  • Vitor Hugo Severo diz: 17 de março de 2012

    Mto inteligentte seu blog hoje Davi, mto bom mesmo! Parabéns, concordo plenamente, pior que até o nosso povo gaúcho começa a dar ar de decepção.
    Concordo com o Itamar Oliveira, a imprensa deveria dar mais ênfase em educação e saúde e menos se a AG iria fazer ou não o Dilmão.
    Abraços.

  • Ronaldo diz: 17 de março de 2012

    Lindo texto!
    O avô da minha namorada sempre diz:
    Eu aprendi o verdadeiro valor da vida quando ficamos em meio a ruínas durante a segunda guerra mundial. Na Polônia o dinheiro era um simples pedaço de papel diante da destruição de Varsóvia! Os homens e mulheres tornaram-se seres humanos depois do ocorrido.

  • Dario diz: 17 de março de 2012

    Perfeito.

  • Rubens Corrêa diz: 17 de março de 2012

    Ainda carregamos o peso dos desatinos que nosso período colonial nos delegou. Queremos reparar todos os erros históricos passando a mão por cima da ética, da tolerância desmedida e da perpetuação do síndrome do vira-lata. Enquanto não percebermos que esse processo passa pela educação, continuaremos sem espirito próprio. Parabéns pela coluna.

  • PAULO diz: 17 de março de 2012

    Acredito que a melhoria material seja sim necessária pois nos dá a base mas, o que fará a diferença será a nossa evolução como seres humanos, o que fizemos pelos outros,se buscamos nosso esclarecimento,buscando a otimização de nossas ações. Se deixarmos de lado tantas bobagens que valorizamos no nosso cotidiano, materialismo excessivo,sexualidade mal direcionada, estaremos melhorando o mundo através da nossa melhora.Já ouvi tantas vezes que o exemplo é o maior legado e confio muito que assim seja.

  • mandrake diz: 17 de março de 2012

    VELHO NOVO GIGANTE

    David meu velho, como vc consegue concentrar tanto baba-ovo ao seu redor, incrível babaovice alheia.
    Li atentamente seu texto, e vc tem toda razão entre o velho e o novo.
    Vejamos o nosso velho Beira Rio, agora restaurado como um patrimônio histórico, lindo e formoso.
    A quem diga que o vinho quanto mais velho melhor.
    Ou então a famosa panela velha…aquela que faz comida boa.
    Como pode, nosso Beira Rio tão velhusco, ter sido sempre a primeira opção para nossas autoridades, sábias autoridades.
    E a dona Arena, tão novinha, tão zerada, tão badalada, e mesmo assim não ser escolhida nem como segunda opção por nossas autoridades.
    Incrível como a experiência nessas horas é fundamental.

    1950 2014
    SOMOS LOUCOS POR COPAS!

  • Eloy do Prado Severo diz: 17 de março de 2012

    Ótimo têxto David. Eloy Severo

  • Tagor diz: 18 de março de 2012

    Como sempre David, Baita Texto. Mas nota-se que o Brasil além de ter Pseudoricos emergindo a cada dia, também existem pseudointelectuais, que tentam escrever com vocabulário requintado para disfarçar que as suas idéias são as mesmas idéias vazias de “pensadores” esquerdistas. No fim das contas acho que nem mesmo eles entendem o que escreveram, vide 2 ou 3 comentários de pessoas acima. Sou grande fã teu, forte abraço.

  • rodrigo diz: 18 de março de 2012

    belo texto. Somos um povo ricos emergentes, mas pobre de cultura. E dalee Gremio!!!!

  • Silvane diz: 18 de março de 2012

    Texto maravilhosos. “A cultura e a educação que forjaram a civilização europeia, base da civilização ocidental, continuarão entranhados na alma de seus cidadãos, nas pedras das ruas de suas cidades, na sua forma como o cidadão encara a existência.”
    E aqui os professores fazendo mobilização NACIONAL para receber um piso de R$ 1.450,00. É muito triste um professor não ter recursos nem para comprar um bom livro sem comprometer o orçamento…

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