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Posts de abril 2012

Sala de Redação

30 de abril de 2012 23

Ouça o Sala de Redação desta segunda-feira.

Crônica do Gre-Nal

30 de abril de 2012 88

O time com argentinos de verdade foi o que venceu o Gre-Nal por 2 a 1 e conquistou a Taça Farroupilha, ontem à tarde, no Beira-Rio: o Inter.

Já o time com argentinos genéricos, o Grêmio, está fora da decisão do Gauchão e agora só tem a Copa do Brasil com que se preocupar no resto do semestre.

Por argentinos “de verdade” compreenda-se os que são imbuídos dos tradicionais predicados dos irmãos do Prata: a vibração, a entrega, a inconformidade. Guiñazu e Dátolo, os argentinos que o Inter teve em campo ontem, possuem essas qualidades e as demonstraram de sobejo no gramado do Beira-Rio.

Os argentinos do Grêmio não mostraram nenhuma “argentinidade”. Bertoglio e Miralles foram a imagem do desânimo, da falta de altivez. Um lance aos 30 minutos do primeiro tempo pode ser escolhido como emblema desses dois lados do mesmo jogo: a bola havia sido lançada na direção de Bertoglio. Ele podia alcançá-la, se desse um “sprint”, mas, das trevas da grande área, surgiu o zagueiro Moledo correndo resoluto em linha reta, os ombros duros, o olhar vidrado, como se avisasse que desconsideraria qualquer objeto que se interpusesse entre ele e a bola. Bertoglio entendeu a mensagem e diminuiu a passada. Deixou a bola escorrer para fora tristemente. Vanderlei Luxemburgo percebeu o vacilo de seu atacante e chamou sua atenção acintosamente à beira do gramado. Um argentino “pipocando”? Onde estava a “alma castelhana”? Era um sinal do que estava por acontecer.

Até então, o jogo era igual. O Grêmio tinha três atacantes: seus dois argentinos e mais André Lima. O Inter, para contê-los, tinha Jackson, um zagueiro na lateral-direita. Funcionou. Embora o Grêmio retivesse mais a bola, não construía um único ataque agudo, não chutava em gol, não entrava na área. O Inter é que atacava com maior contundência, valendo-se, sobretudo, das arrancadas de Jajá, um jogador que, se não é um virtuose, se não é um velocista, é um pernalta decidido, que coloca o corpo na frente do adversário, atira a bola para frente e quase sempre consegue abrir espaços até a meia-lua.

No meio da área, Damião não obtinha vantagem com a bola entre os pés, mas, pelo alto, aproveitou-se da já histórica deficiência dos zagueiros do Grêmio, conseguiu cabecear a bola duas vezes e duas vezes Victor defendeu com muita competência. Mas, aos 36, depois de um levantamento de Tinga, a bola bateu no peito de Damião, Gabriel errou ao tentar afastar e ela sobrou para Dátolo, que chutou rasteiro e fez 1 a 0.

Luxemburgo fez duas trocas no intervalo: tirou Miralles, que só apareceu quando errou passes, e colocou Moreno; tirou André Lima, que brigava muito, mas produzia pouco, e colocou Marquinhos. O time melhorou. Ao três minutos, o ativo Pará passou por Jackson e chutou por cima. Era a primeira finalização do Grêmio no jogo. Aos sete, Marquinhos bateu cruzado e a zaga afastou. Aos nove, Dátolo errou um passe, Moledo se complicou e Moreno tomou a frente. Ia entrando na área, ia marcar o gol. Moledo o derrubou. Na cobrança da falta, aos 10 minutos, Fernando, um dos melhores em campo, acertou na trave. No rebote, Werley empatou a partida.

O Grêmio estava melhor e parecia prestes a virar o placar. Muito por causa de seu treinador, que mudou o time no intervalo e que lhe passava a gana que estivera em falta no primeiro tempo. Era tal a vontade de vencer de Luxemburgo que, aos 18 minutos, ele se envolveu em um discussão com um gandula do Inter. O rapaz, um homem robusto, de óculos, tentou repor a bola rapidamente num escanteio e Luxemburgo correu para protestar. Ambos, ele e o gandula, foram expulsos pelo árbitro.

Mas o Grêmio seguiu melhor. Aos 29, Pará entrou a drible na área pela esquerda e passou para trás. Marquinhos chutou fraco e perdeu o gol. Só que, aos 31, numa cobrança de escanteio de Jajá, Fabrício antecipou-se aos zagueiros, voou a um metro e meio do chão, na linha da primeira trave, e testou a bola para marcar o 2 a 1.

Quase ao mesmo tempo, Luxemburgo sacou o último de seus argentinos esmorecidos, o pequeno Bertoglio, e botou Leandro. Mas aí outro argentino verdadeiro do Inter, Guiñazu, já havia se assenhoreado do meio-campo e, com a combatividade de hábito, mascava o jogo, retinha a bola, protegia-a, esperava pela falta e pelo passar do tempo. E o tempo passou sem que o Grêmio encontrasse solução para sua falta de talento já crônica. O Inter vai para a final contra o Caxias porque, neste clássico, por menos que apresentasse, nunca deixou de apresentar autenticidade.

Código David: como conquistar sua sogra

29 de abril de 2012 11

Adquiri certa experiência com sogras. Sei como são injustiçadas. Conflitos interfamiliares em geral ocorrem entre a mulher e a mãe do homem, não entre o homem e a mãe da mulher. Sempre tive relacionamento carinhoso com minhas sogras (foram algumas, mas não simultâneas), exceto uma que me fazia comer galinha todos os dias. Galinha, galinha, galinha. Por isso, jamais deixo de comemorar o 28 de abril, o Dia da Sogra, efeméride que coloriu o fim de semana.
Alguns homens, porém, não têm tanta sorte e ainda lutam para arrebatar o afeto de suas sogras. É a esses que me dirijo agora. O que fazer para conquistar a mãe, uma vez que você já tem a filha?

Vamos lá:

1 – O decisivo acerca da natureza da sogra é que ela, ainda que não pareça, é uma mulher. Não esqueça disso, mesmo que sua sogra esteja em adiantado estado de putrefação.

2 - Ora, do que uma mulher gosta? De elogio. Enalteça as qualidades dela, ela deve ter alguma, pense. Mas, sobretudo, ressalte sua invejável forma física e sua beleza resistente.

3 – Lembre-se: as pessoas em geral e as mulheres em particular não têm certeza sobre sua própria aparência. Você pode mentir à vontade, ela vai acreditar.

4 – Não exagere. Se você disser que ela é mais linda que a Meguinha, ela desconfiará. Asseste elogios pontuais e substantivos, tipo:
– A senhora está mais magra. Anda malhando?
– Com quantos anos a senhora teve a sua filha? Quinze?

5 – Tenha em mente a seguinte equação:
Três coisas que as mulheres querem ter a mais: doce, dinheiro e filho.
Três coisas que as mulheres querem ter a menos: peso, idade e celulite.

6 – Mario Quintana certa feita poetou, em Da Amizade Entre as Mulheres:
“Dizem-se amigas… Beijam-se… Mas qual! / Haverá quem nisso creia! Salvo se uma das duas, por sinal, For muito velha, ou muito feia…”
Isto é: a rivalidade entre elas é poderosa, mesmo entre irmãs, ou mãe e filha. Logo, se você insinuar que ela, a mãe, é superior à filha em algum quesito, ela ficará encantada.
– Ah, se a Lu soubesse preparar um estrogonofe parecido com esse, eu seria um homem mais feliz, Dona Mirtes.
Pronto. Agora você já está munido do arsenal básico para conquistá-la. Bom Fim de Semana da Sogra.






De todas as muitas coisas que oValdir odeia na sogra dele, o que ele mais odeia é a mania que ela tem de se referir a sua família como um grupo uniforme, uma entidade com características próprias.
Todas positivas, claro, e todas em oposição aos supostos defeitos dele.
OValdir está bicando uma cervejinha e vendo o jogo, e a velha: – Nós, os Teixeira, não gostamos de quem bebe de dia.
OValdir dorme até mais tarde no sábado, e ela comenta: – Nós, os Teixeira, acordamos cedo.
Os Teixeira, os Teixeira.
OValdir passou a odiar os Teixeira e tudo que se refere a eles.
Odeia o ex- presidente da CBF, odeia Arroio Teixeira, odeia as músicas do Teixeirinha.
Quando o filho doValdir nasceu, ele levou- o até os parentes, no corredor do hospital.
A sogra olhou para o nenê e uivou: – Ele tem o nariz dos Teixeira! Naquele momento, Valdir imaginouse socando os narizes de todos os possíveis Teixeira do planeta, um a um, até transformá- los numa pasta informe de carne, ranho e sangue.
O tempo tem passado, desde então, e oValdir a cada dia olha para o nariz do menino, desconfiado.
Que ele seja o que bem entender na vida, pode ser até pagodeiro, mas que não lhe apareça com um maldito nariz dos Teixeira!

O exame

Em homenagem a essa data querida, vou contar a história da sogra do meu amigo Niltão.
Embora gostasse dela, como sói acontecer com genros, o Niltão mantinha íntegro o senso crítico a seu respeito.
Achava- a presunçosa, com “ nariz de defunto”.
Nas palavras dele: “ Tão cheia que fazia xixi de perna cruzada”.
Bom.
Um dia, a sogra do Niltão viu- se acometida de um mal qualquer e o médico pediu- lhe exames de fezes e urina.
Muito disciplinada, ela foi ao laboratório, pegou os potes de plástico e, no dia seguinte, colheu o material.
Mas uma mulher de escol como ela não podia sair à rua sobraçando aquelas intimidades à vista do povo maledicente.
Então, embrulhou os potes em dois pacotinhos muito bem amarrados em laço de fita colorida, uma belezura.
No entanto, mal saiu à rua para dirigir- se ao laboratório, um ladrão solerte pulou detrás de uma árvore e, antes que ela pudesse gritar um ai Jesus!, tomou- lhe os embrulhos das mãos e se foi com eles rua abaixo, em desabalada carreira.
A sogra do Niltão ficou chateada.
Nem tanto por agora integrar as estatísticas dos assaltados, mas por ter de fazer todo o trabalho de novo.
E fez.
Mas embrulhou os potes em um saco de súper vulgar.





A Rodaika é uma mulher braba.
O homem deve se manter afastado de mulheres brabas e que moram longe, mas o Fetter não obedeceu a essa máxima e casou- se com ela.
Ótimo, porque o Fetter precisava mesmo de uma mulher que lhe contivesse os arroubos.
O PB também não seguiu essa máxima, ela está entre nós.
Ótimo, que a turma também precisa de quem lhe contenha os arroubos.
A Rodaika é a única do programa que pode ser sogra.
Quando for, o que acontecerá? Óbvio: o amor pelo genro lhe amolentará e ela deixará de ser braba.
Ótimo.
Ela precisa mesmo de quem lhe contenha os arroubos.
Se você se casar com a Yasmin, esta será a sua sogra.
Vale a pena tentar conquistá- la, não é?

Inter vence por seus argentinos

29 de abril de 2012 48

O Inter tem argentinos de verdade.

Guiñazu e Dátolo, hoje, foram vibrantes, sanguíneos, concentrados e combativos como se espera que seja um argentino.

Os argentinos do Grêmio são paraguaios.

Bertoglio e Miralles foram desanimados, conformados, não tiveram vontade de jogar.

Foi por aí que passou a vitória do Inter, 2 a 1, no Gre-Nal que decidiu a Taça Farroupilha.

Os dois times estavam desfalcados, e bem desfalcados. O Inter sem Oscar, D’Alessandro, Nei, Kleber e Dagoberto. O Grêmio sem Kléber, Mario Fernandes, Leo Gago, Julio César e Saimon, e com Moreno voltando de longa parada. Os dois times completos se equivalem, mas, com deficiências, o grupo do Inter se destaca. O Inter tem bons reservas.

Sai D’Alessandro, Dátolo entra, joga bem e faz gol.

Sai Kleber, Fabrício entra, joga bem e faz gol.

No Grêmio, sai Kléber e entra… Miralles.

Sai Moreno e entra… Bertoglio.

O Inter merece a vitória porque investe nela.

Venho batendo a tua porta há algum tempo

28 de abril de 2012 7

A participação nessa canção do grande Jorge Drexler é a melhor coisa que Maria Rita já fez:

Túnel do Tempo: E então abriu-se a porta do elevador

28 de abril de 2012 3

– O que é que tu acha da minha mulher? Alfredo estremeceu ao ouvir a pergunta.
A voz que a formulara era grave e tonitruante, uma voz de Konan, o Bárbaro; uma voz de gênio da lâmpada.
Alfredo conhecia a garganta que a produzira – já ouvira aquela voz em outras circunstâncias e, ainda que ela nunca antes tivesse se dirigido a ele, a temia.
Todos a temiam.
Zulu, chamava-se o dono da garganta e da voz.
Era, é óbvio, um negro de pele reluzente e músculos do tamanho de paralelepípedos.
Seu cabelo black power elevava-se a dois metros do chão, ele calçava 48 bico largo e jogava no meio da área do Huracán, onde se celebrizou por trincar tíbias e perônios de centroavantes de todos os times, cores e credos.
Ninguém desafiava Zulu, o zagueirão-central do Huracán.
E agora Zulu falava com ele, Alfredo, mais conhecido como Alfredinho, ele que tinha um porte de Romário.
Só que mais magro.
Alfredinho olhou para cima, para a caratonha hostil de Zulu. 
Os olhos negros o fitavam do fundo daquele rosto negro.
Alfredinho sentiu o coração saltar do peito para a garganta.
Teceu uma prece silenciosa a todas as Nossas Senhoras que conhecia para que estivesse ocorrendo o improvável e a pergunta não fosse dirigida a ele.
Fez-se de desentendido: – Ahn…
O senhor está falando comigo? – O que é que tu acha da minha mulher? – repetiu o Zulu, e agora não havia mais dúvida.
Era com ele mesmo.
Até porque só estavam os dois ali, em frente aos elevadores da firma.
O que Alfredinho achava da mulher do Zulu? Por favor! Karina, a dita cuja, trabalhava como ascensorista no prédio.
Era a coisa mais luminosa, mais angustiantemente bela, mais suave e, ao mesmo tempo, mais feroz que Alfredinho já vira na vida.
Os cabelos longos da cor das tardes de verão, os olhos d’ água da cor das manhãs de primavera, Karina enfeitiçara Alfredinho desde a primeira vez em que ela surgiu atrás da porta do elevador perguntando: – Desce? Miseravelmente, Alfredinho ia subir.
Não fez aquela viagem com Karina como condutora.
Mas decidiu que faria todas as outras.
Todas.
Para sempre.
Assim, nas semanas que se sucederam, subia e descia 10, 15, 20 vezes por dia no elevador manejado por Karina.
Ela sempre sorria ao saudá-lo, ele sempre se emocionava com seu sorriso, ela sempre lhe fazia as mesmas perguntas.
Duas: – Desce? Ou: – Sobe? E Alfredinho descia, se ela estivesse descendo.
Ou subia, se ela estivesse subindo.
Ia junto, feliz como um cachorrinho, bebendo da beleza dela enquanto os andares passavam pela porta, ouvindo o próprio coração ribombar como se fossem comanches anunciando guerra.
Depois, descia ou subia pelas escadas para onde realmente pretendia ir.
Com o tempo, Karina entrou no jogo.
Não perguntava mais “ sobe” ou “ desce”.
Afirmava: – Subimos, não? E ele, arfante de alegria: – Subimos, subimos! Ou o contrário: – Descemos, não? – Descemos, descemos! Era lindo, aquilo.
Aquela intimidade entre eles.
Algo único.
Uma deferência que ela lhe fazia.
Uma brincadeirinha maliciosa, prenhe de promessas não ditas.
Alfredinho sonhava com aqueles momentos e imaginava como evoluiriam.
Mas não esperava ouvir o que ouviu, nem de quem ouviu: – O que é que tu acha da minha mulher? E agora? Que tipo de pergunta era aquela? Zulu, é claro, desconfiava dele.
Afinal, não era possível que quisesse de fato saber a opinião de Alfredinho sobre sua esposa.
O que Alfredinho deveria responder? Se dissesse que Karina era uma imperatriz, que era a mulher mais linda da cidade, Zulu, evidentemente, transformaria sua cara em xis-bacon ali mesmo, na frente da porta do elevador.
Deveria dizer que Karina era feia? Não.
Isso talvez o enfurecesse ainda mais.
Além do que, era uma mentira muito descarada.
Impossível alguém achar Karina feia.
O que deveria dizer? O quê??? Zulu o encarava, esperando a resposta.
Alfredinho suava.
Estavam os dois nesse impasse quando se abriu a porta do elevador.
Karina fez sua aparição gloriosa.
Foi como se o sol resplandecesse na parede fria do corredor.
Olhou direto para Alfredinho, como se esperasse vê-lo.
E perguntou com sua voz de leite condensado: – Subimos, não? Alfedinho emudeceu.
– Oi, amor – rugiu o Zulu, dando um passo gigantesco para dentro do elevador.
– Oi, Zu – disse ela, como se só então o visse.
Virando-se para Alfredinho, Zulu rosnou lá de dentro: – Subimos, não? Alfredinho olhou para Karina.
Ela o encarava, séria, expectante.
Olhou para Zulu.
Que parecia ainda mais sério.
Alfredinho suspirou.
Baixou a cabeça.
Miou: – Eu desço, eu desço.
E levou sua humilhação escadarias abaixo, rumo ao estacionamento, pensando que ninguém desafiava Zulu, zagueirão-central do Huracán.

Túnel do Tempo: A compra de um só botão

28 de abril de 2012 3

U m dia, minha avó saiu de casa para comprar um botão.
Um único botão.
Minha avó era assim, mobilizava-se para comprar um só botão, comprava-o e voltava para casa.
Ou então ia ao súper e de lá trazia uma maçã solitária, uma minúscula caixa de fósforo, um pãozinho de nada.
Gostava de ir ao supermercado, verdade.
Era um passeio para ela.
Ia e retornava narrando as delícias das amostrasgrátis, comentando horrorizada quanto havia aumentado o preço do açúcar.
Mas também é verdade que essa prática fazia parte do método que minha avó desenvolveu para economizar.
Comprando aos poucos, ela comprava menos.
Funcionava.
Recebia uma pensão de meio salário mínimo e ainda assim sempre tinha dinheiro.
Mais do que eu.
Uma época, não essa época em que ela saiu de casa para comprar tão-somente um botão, outra época, uma época em que eu trabalhava na Sulina, nessa época a Sulina concedia-nos vales às sextas-feiras.
Uma maravilha.
Passava o fim de semana abastecido de notas de 50, podia pagar jantares e cinemas para eventuais namoradas.
O problema é que na segundafeira os recursos já tinham se evanescido, e na sexta seguinte lá ia eu pedir vale de novo e no dia do pagamento, maldição!, o salário vinha desse tamanhinho.
Então, andava sempre duro, durango kig.
Num desses dias de dureza, almoçava na casa da minha avó e me queixava das parcas condições financeiras.
Ela disse: – Eu resolvo isso, David.
E tirou de uma estante uma latinha e abriu a tampa da latinha e lá de dentro puxou um maço de notas amarradas em atilho e me estendeu: – Ó.
Recuei: – Não, vó!!! Não ia pegar o dinheiro que minha avó economizava comprando um botão de cada vez.
Como naquele dia em que ela saiu de casa junto comigo para comprar aquele único botão.
Estávamos na casa dos meus pais no Parque Minuano e eu devia ter, sei lá, uns cinco anos, faz tempo, mas não me esqueci do que aconteceu.
Lá fomos nós, eu levado pela mão dela, caminhando devagar entre as ruas modorrentas do bairro.
Fomos a uma vendinha.
Dessas que ainda há no subúrbio, com uma caderneta onde o dono da venda anota o fiado dos fregueses.
Minha mãe ia quase todos os dias a essa vendinha e registrava suas compras na caderneta.
Uma tarde, saindo do lugar com a minha mãe, perguntei: – Não tem que pagar? Ela: – Não.
É só botar na caderneta.
Fiquei encantado.
Todos os acepipes e guloseimas que rebrilhavam nos balcões de vidro da venda estavam ao meu alcance.
Bastava que anotasse na caderneta.
No dia seguinte, reuni meus amigos.
Uns 15 ou 20.
– Vamos todos pra vendinha! – gritei.
– Hoje tem bala e chocolate de graça pra todo mundo! Fomos.
Fizemos um rancho de Choco Branco e Preto e Diamante Negro, balas Gasosa, Quebra-queixo e Sete Belo, Beijo de Moça e Beijo Africano, Amor Carioca e Sonho de Valsa.
Minha mãe só não foi à falência porque o dono da venda desconfiou e a avisou.
Ela conseguiu recuperar a metade dos doces e os devolveu, para a consternação da turma.
Era nessa mesma caderneta mágica que a minha avó pretendia anotar a compra do único botão que ela pretendia adquirir naquele dia.
Então, chegamos à vendinha e deu-se o seguinte diálogo.
Minha avó para o bodegueiro: – Quanto é o botão? O bodegueiro: – Cinquenta centavos.
– Cinquenta centavos?!? – É.
– Muito caro! – Mas custa cinquenta centavos.
– Então não vou levar! E a minha avó saiu da vendinha sem o botão que queria comprar.
No caminho de volta, levantei o queixo e questionei: – Vó, cinquenta centavos não é barato? Ela, olhando para frente: – Não para um botão.
– Por que não? – Mais tarde, quando crescer, tu vais aprender o que é caro e o que é barato.
Detestava quando um adulto fazia isso, quando não me explicavam as coisas e diziam que eu ia aprender ao crescer.
Mas, de fato, aprendi.
Às vezes, algo custa 50 centavos e é caro.
Às vezes custa milhões, e é barato.
Quinze milhões por um centroavante como Nilmar, por exemplo, é tão barato que podia ser anotado numa caderneta de vendinha lá do bom e velho subúrbio do Parque Minuano.

*Texto publicado na Zero Hora em 22/07/2009.

Sala de Redação

27 de abril de 2012 0

Ouça o Sala de Redação desta sexta-feira.

Com primeiro pedido negado, Inter tenta reverter situação de Oscar na CBF

27 de abril de 2012 160


O Diretor do blog, Marco Souza, apurou uma informação importante para a torcida do Inter. Leia abaixo:

Segundo o presidente da Federação Gaúcha de Futebol, Francisco Novelletto, Oscar poderá não voltar a vestir a camisa do Inter no clássico Gre-Nal de domingo. Uma reunião na CBF envolvendo um representante do clube, um da FGF e o diretor de registros e transferências da CBF, Luiz Gustavo Vieira de Castro, negou a primeira solicitação de que o contrato antigo do meia fosse revalidado.

Segundo Noveletto, apenas com essa autorização o jogador terá condições de jogo. Apesar da primeira solicitação ter sido negada, o clube acredita que poderá reverter a primeira decisão.

O Inter ainda vai apelar para que a CBF publique no BID ainda hoje o vínculo antigo reconhecido com o clube novamente.

Eu, ditador

27 de abril de 2012 18

A quela cidade americana, Cincinnati, ganhou esse nome para homenagear, quem diria?, um ditador.
O homem viveu cinco séculos antes da nossa era e se chamava Cincinatus.
A ditadura era uma instituição prevista nas leis romanas.
Em caso de crise, um cidadão podia ser escolhido como ditador e devia ocupar o cargo por seis meses.
Depois de resolvido o problema, tinha de devolver o poder.
Esse Cincinatus era agricultor.
Quando estourou uma guerra dura contra duas tribos bárbaras mais aguerridas, os senadores foram procurá- lo em suas terras.
Encontraram- no na lida, com o arado nas mãos.
Cincinatus largou tudo, assumiu o poder, derrotou os inimigos em menos de um mês e voltou para o trabalho no campo.
Mais tarde, houve nova crise.
Cincinatus foi chamado, largou tudo, solucionou a questão e voltou mais uma vez para suas terras.
Bem.
Digamos que eu me tornasse ditador do Estado para resolver o problema da Educação em seis meses.
Minhas duas primeiras medidas seriam as seguintes, pela ordem:

1. Estatizar TODAS as escolas do Rio Grande do Sul.
2. Privatizar TODAS as escolas do Rio Grande do Sul.

No momento em que reprivatizasse as escolas, seus antigos donos poderiam continuar com elas, com uma condição: desde que assumissem alguma escola que antes era pública.
Assim, os donos do Anchieta, do Farroupilha e do João XXIII, por exemplo, teriam de assumir escolinhas naVila Cruzeiro, no Morro da Cruz e no interior profundo do Sarandi.
Eu seria um ditador muito generoso.
Não cobraria um único real por nenhuma escola: entregá- las- ia de graça para que os empresários se locupletassem com elas alegremente.
Em contrapartida, eles teriam de assumir alguns poucos compromissos:

1. Oferecer bolsas de estudo integrais para todos os alunos que o Estado identificasse como carentes.
2. Seguir um currículo mínimo estabelecido pelo Estado.
3. Pagar aos professores um salário mínimo de R$ 5 mil.

Note: o salário MÍNIMO seria de R$ 5 mil, mas minha intenção, como ditador, seria pagar muito mais aos professores.
Queria que os professores fossem os melhores entre os melhores, o Ivan Izquierdo dando aula de ciências, o Peninha dando aula de história do Brasil, oVerissimo ensinando a escrever.
Claro, os professores teriam de abrir mão da estabilidade no emprego e de outros direitos de funcionário público.
Teriam de se submeter às tais leis do mercado, com a vigilância do Estado regulador.
Imagine: os professores ganhariam bem e todos os alunos teriam boa escola.
Mas só funcionaria se eu fosse um ditador, nem que temporário, como foi Cincinatus.
Se fosse um governante eleito, teria de enfrentar os frêmitos da oposição, os protestos do Cpers e a eventual hostilidade de promotores e juízes.
Parte da comunidade seria contra, mesmo que a maioria fosse a favor.
Tudo seria conflituado e turvo, eu seria insultado e processado, teria de responder a perguntas agressivas de repórteres e ofensivas de eleitores, teria de participar de reuniões contraproducentes e debates desgastantes.
Ao fim do meu mandato, estaria estafado, sentindo- me 20 anos mais velho, frustrado e derrotado.
Não conseguiria fazer nada, qualquer avanço seria mínimo, qualquer compreensão seria pontuada por ressalvas.
A democracia é um bem em si, isso nós aprendemos no Ocidente, neste século 21.
Mas a democracia nem sempre é o melhor método para se fazer o que é melhor.

* Texto publicado na Zero Hora desta sexta-feira, 27/04/2012

Som de Sexta - 2

27 de abril de 2012 0

O velho Tom, nos velhos tempos, cantando sobre velhos sapatos:

Som de Sexta

27 de abril de 2012 2

O velho Tom no programa do Letterman, mandando ver:

Sala de Redação

26 de abril de 2012 0

Ouça o Sala de Redação desta quinta-feira.

Wagner, um meia pretendido pelo Grêmio

26 de abril de 2012 25

O Diretor do blog, Marco Souza, apurou uma informação que pode dar esperança a torcida do Grêmio. Leia abaixo:


Uma dupla que teve muito bom desempenho na Libertadores de 2009 pode se reencontrar no estádio Olímpico. Kleber Gladiador foi um dos destaques do Cruzeiro na equipe que era comandada por um camisa 10 canhoto. O meia Wagner, 27 anos, estava em Porto Alegre juntamente com o Fluminense para o confronto contra o Inter pela Libertadores da última quarta-feira. Apesar do investimento do clube carioca para adquirir o jogador no final do ano passado, Wagner não foi nem relacionado para ficar no banco pelo técnico Abel Braga. O jogador agrada a comissão técnica do Grêmio, mas o negócio é muito difícil de ser realizado.

O Fluminense sabe que precisará de grupo para o Brasileiro, e como no planejamento carioca a equipe vai disputar o título da Libertadores, a sua saída não será facilitada. Justamente outro meia que jogou no Grêmio complica a negociação. Com a saída de Souza para o Cruzeiro, Abel Braga não quer ficar sem opções para a armação de jogadas.  As primeira consultas já foram feitas, mas até agora o clube carioca não se mostra favorável em liberar Wagner.

Inter, agora, precisa ser inteligente

26 de abril de 2012 19

Se o primeiro tempo do Inter foi humilhante, contra o Fluminense, o segundo foi estimulante.

No primeiro tempo, o Inter nem parecia estar jogando no Beira-Rio. Foi um time dominado, envolvido, pequeno. A medida de um time se dá pela vibração da torcida. A torcida do Inter, ontem, no primeiro tempo, vibrava com desarmes…

No segundo, sim, no segundo tempo o Inter se assenhoreou do jogo e fez por vencer. Não venceu por detalhe e por alguma falha técnica dos atacantes.

Curiosamente, as defecções de Dagoberto e Kleber fizeram bem ao Inter. Jajá e Fabrício jogaram muito bem.

O zero a zero dá a possibilidade de empate no Rio. Não é pouca coisa. Agora, há que se jogar com inteligência.