O que as pessoas fazem quando estão em um bar? Conversam, contam piadas, riem, namoram, comem, bebem.
As pessoas até podem brigar, quando estão em um bar, mas, em geral, não é por isso que elas estão lá.
Elas estão lá para se divertir, para ver outras pessoas, encontrar amigos ou amores.
Não são coisas ruins, portanto.
Ao contrário, são boas.
Em um bar, as pessoas exercem sua humanidade.
Uma grande cidade é grande também por seus bares, que são decisivos pontos de convivência.
Uma das medidas da importância de uma cidade é a intensidade da sua noite.
Não é à toa que os americanos se gabam de que Nova York é“ a cidade que nunca dorme”.
Já PortoAlegre vai dormir à uma da manhã durante a semana e às duas aos sábados, de acordo com o horário imposto à região da boemia.
Mas não estou criticando o toque de recolher.
Não.
Entendo que o limite é resultado da disputa ancestral entre o que Nietzsche chamaria de o dionisíaco e o apolíneo.
O dionisíaco é o espontâneo, o alegre, o festivo; apolíneo é o cerebral, a disciplina, a organização.
Prazer versus trabalho, em outras palavras.
E o trabalho sempre vence.
Porque, afinal, a nossa civilização ocidental foi ensinada a atormentar- se com a culpa quando sente prazer.
Esta semana mesmo, um leitor, ao elogiar uma matéria de ZH sobre a castidade entre os jovens, escreveu:“ Felizmente, depois da borrasca erótica que desaba sobre a sociedade, raia um arco- íris de pureza”.
E é isso: a castidade é a pureza; o sexo é impuro.
Prazer é igual a pecado.
Logo, um bar, que poderia ser visto como um local de prazer e de alegria, não raro é visto como um antro de pecado e de vício.
Só que mesmo o abstêmio mais santarrão precisa de uma válvula de escape para a sua ( a nossa, a minha) natureza selvagem.
Você necessita de um canal para sublimar seus instintos.
Então, você pode compor sinfonias ou pintar o pôr do sol, pode fazer gols ou correr a maratona, pode dissipar sua fortuna com as mulheres ou com os cavalos de carreira, pode tirar a vida de outros seres humanos ou lhes diminuir o patrimônio.
Ou beber com os amigos.
Algo você terá de fazer.
Por que teço toda essa argumentação? Porque só com justificativa filosófica para convencer as pessoas de que o poder público deveria classificar entre suas prioridades a criação de um espaço para a alta boemia porto- alegrense.
Só com muita teoria para convencer as pessoas de que nem sempre cultivar o prazer é se repoltrear no pecado.
E até faço uma sugestão: o Cais do Porto, há tantos anos esperando por grandes projetos, bem pode prescindir dos grandes e ficar com os pequenos.
Afinal, aquela não é uma área residencial, é de fácil acesso e poderia ser protegida sem problemas, com alguma vigilância em seus portões.
Os bares da Cidade Baixa poderiam ser estimulados a se mudar para lá e funcionar no horário que bem entendessem.
Até as operações da Balada Segura seriam facilitadas.
E, assim, a cidade daria a boemia aos boêmios e descanso aos trabalhadores, e, pelo menos às margens plácidas do rio, PortoAlegre também seria uma cidade que nunca dorme.
* Texto publicado na Zero Hora desta sexta-feira, 11/05/2012





David, tu é o porta-voz de uma geração...
Muito bom, analise perfeita, nesses tempos de intolerância!
Mandou bem véio ... é isso aí !!!! long live to soul&freewill!!!
show de bola adoro davi, abraços
Olá David,sou novo por aqui.Sempre que tenho a oportunidade de ler alguma cronica tua,travo lutas ferrenhas entre comentários e opiniões apenas comigo mesmo.Pois é;cansei!! Então lá vai...
Percebo que andas defendendo a vida noturna em nossa querida cidade.Concordo contigo em tudo;pra não me alongar muito.
Saiba que não raro saio com minha familia á procura de prazer (que não me traga culpa) que só a noite proporciona.E o que encontro? Pizzaria...Tudo pelo social...Xis...Refri 2litros à 7 pila...
Meu gosto e meu poder aquisitivo andam em direções opostas.
Vivi muito a João Alfredo,e lá tinha todos os gostos,preços,tribos,ritmos e Porto Alegre viva,pulsante e "sem dormir".
Na contramão vinha a competição insana entre donos de estabelecimentos que cada vez mais baixavam preços (que já eram baratos) que óbviamente acarretavam na deterioração da qualidade dos serviços prestados.
Penso eu,não seria melhor unirem-se??
Por outro lado,não vejo interesse do poder publico em tornar a noite porto alegrense prazerosa e atrativa.Acredito que aumentaria a arrecadação com impostos,empregos,multas de transito,etc,se tua idéia para o cais fosse adiante.
Um abraço
Achei FANTÁSTICA a tua ideia de transportar os bares (principalmente os da Cidade Baixa, que tanto ATORMENTAM os moradores) para o Cais do Porto. Sou moradora do bairro e não há limites NUNCA, independente de regras que se estabeleçam. Só sabe o que acontece aqui quem sofre com as algazarras dos outros, que acham que ninguém dorme, ninguém estuda, ninguém trabalha, ninguém precisa de sossego. Tu gostaria, David, de ter um carro com música no volume máximo às 3h da madrugada debaixo da tua janela?
A maioria dos países europeus tem restricao de horário para bares e casa noturnas e multas pesadas para barulho nas ruas, principalmente durante a semana quando cidadaos precisam dormir para ir traalhar ou estudar no dia seguinte. A sociedade precisa de ordem e diversao. No Brasil se deixam, vira bagunca total. A ideia do cais é ótima.
Perfeito David!
cara, como é fácil escrever! vendo tu fazer, parece que qualquer um faz! parabéns.
gostaria que você fizesse um esforço descomunal e de novo indicasse uns cinco livros bacanas, desses que você sempre elogia como "escorreito, fluente, vivo" e afins. porque se tu, que escreve assim, acha que alguem conseguiu escrever um livro incrivelmente articulado, é porque realmente deve ser o texto mais escorreito do mundo.
apenas cinco david, que o excesso confunde!
sabe o que acho que te falta pra ser o grande escritor brasileiro desse século, david? tu escrever um livro com uma maior profundidade filosófica. sabe esse livros que são permeados pelos sentimentos humanos mais arrebatadores, aqueles que não conseguimos explicar bem, mas que não tratam dos sentimentos em si e sim de situaçoes em que eles são identificaveis. um "crime e castigo", ou "o estrangeiro", ou "cem anos de solidão", ou até "1984".
eu acredito que você consegue, david.
Puerto Madero!!!Puerto Madero!!! Vamos copiar as coisas que deram certo em outros lugares né David???
Abraço
Quando começou essa história de fechar bares mais cedo, alguns donos de bares me diziam achar que isso se devia ao interesse de que o Cais do Porto se tornasse a nova zona boêmia de Porto Alegre. Bem sabemos que os donos da RBS, patrões do David Coimbra, possuem negócios no setor imobiliário, e interesses na pseudo-revitalização do Cais do Porto.
O que na época parecia teoria da conspiração, agora começa a ganhar contornos de verdade.
quanto a "limpar" a cidade baixa, tenho minhas restrições e algumas dúvidas. mas reforço a ideia de que o cais pode prescindir de grandes projetos. podemos ser mais simples, menos faraônicos e finalmente realizar algo ali. assim como ele está, já se enche de vida na feira do livro, na bienal, no brasil rural contemporâneo. obviamente, essas são instalações repousadas temporariamente sobre o cais, com algumas deficiências. mas não precisamos de um mega projeto para torná-lo útil. com o incentivo na área, a cidade baixa pode migrar parcialmente e ESPONTANEAMENTE para lá. desde que, claro, seja um local para a boemia. mas esse é outro papo.
Muito boa a sugestão!
Isso deveria ser levado a serio pela prefeitura!