Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Túnel do tempo: O anão da rainha

09 de junho de 2012 0

Desde segunda-feira terçamos argumentos em ferozes debates, aqui na Redação: afinal, Luís XVI, rei decapitado da França, teria ou não micropênis? O Mário Marcos defende o rei.
Diz que Luís, quando casou com Maria Antonieta, era muito jovem, praticamente uma criança, e por isso não se interessou em consumar o matrimônio durante a lua-de-mel.
Já eu digo e repito: tinha micropênis! Tinha! Toda essa conversa, claro, dá-se por causa de Maria Antonieta, o filme.
As pessoas se excitam com as intrigas das cortes, sobretudo as dos Luíses de França.
Luís XIV, o Rei Sol, foi outro que casou ainda adolescente, com uma menina que não escolheu.
Normal: os casamentos eram políticos, na época.
Essa mulher do Rei Sol, Maria Tereza, recebeu a visita de um príncipe africano, certa feita.
O príncipe, muito atencioso, presenteou a rainha com um anão negro, mimo que causou sensação em Versalhes, nunca ninguém havia visto um anão negro por lá.
Nove meses depois, a rainha deu à luz uma menina negra como outro rei, o Pelé.
Diante da surpresa dos fidalgos, Maria Tereza alegou que o nenê nascera com aquela cor devido ao susto que ela, rainha, tomara ao deparar com o anão negro.
Os cortesãos ouviram aquilo e disseram: – Sei...
A essa altura, o príncipe africano já devia estar de volta à segurança da África.
Já a filha negra de Maria Tereza acabou sendo dada em adoção para uma família de negros e, ao se tornar adolescente, foi piamente internada em um mosteiro de onde nunca mais saiu.
Quanto ao rei, não o Pelé, mas o Sol, seu nobre coração encheu-se de amor no instante mesmo em que ele avistou uma moça chamada Françoise Rochechouart.
Não era para menos: Voltaire classificou Françoise como uma das três mulheres mais lindas da França.
As outras duas eram as irmãs dela.
Era bom, o pai das meninas Rochechouart! Françoise tinha cabelos louros encaracolados, pontilhados de pérolas, e sua pele, segundo Voltaire, era “ da cor e da textura dos lírios”.
Uau! Havia um único problema: Françoise era casada com um certo marquês.
Quando chegou a Versalhes e sentiu o olhar de cobiça de Luís XIV lhe lambendo a pele macia, ela se assustou e disse para o marido: – Vamos voltar para o Interior, que o rei quer fazer tudo comigo.
Tudo! O marquês, por amor à futilidade palaciana e excesso de autoconfiança, respondeu que não, que não havia perigo, que Paris era muito mais divertido e que ele confiava na virtude dela.
Uma noite, porém, o marquês teve de se ausentar de Versalhes.
Françoise dormia sozinha num apartamento contíguo ao do rei.
No meio da madrugada, sua alteza entrou no quarto dela, reclamando de insônia.
Queria fazer algo para se divertir, o rei.
Quem sabe jogar um xadrezinho...
No dia seguinte, toda Paris comentava que o rei e a marquesa haviam passado a noite chafurdando, espadanando e se refocilando no pecado.
O marquês, em protesto, vestiu luto, forrou sua carruagem de preto e adornou-a com dois enormes chifres.
Quer dizer: tratava-se de um corno que apreciava anunciar ao mundo sua cornice.
A famosa modalidade do corno propagandista, existe um aqui mesmo, em Porto Alegre.
Luís, por sua vez, não perdeu tempo: redigiu de próprio punho o divórcio do casal, fez uma doação em dinheiro ao marquês, a título de indenização, e ordenou que ele retornasse o quanto antes ao Interior.
O marquês não quis voltar com a mulher; voltou sem.
A fascinante vida nas cortes, como eu dizia.
Mas ela só é fascinante se existem cortes, se existem nobres, se existem reis.
Nossos reis do futebol não vivem mais entre nós.
Restou-nos fazer as crônicas de plebeus.
Que sina, a nossa.

Estamos tão carentes de fidalgos & aristocratas no futebol brasileiro que tecemos loas a quem só vemos pela TV a cabo.
Agora mesmo, a banda portoalegrense Fresno compôs um “ Soneto para Petr Cech”, goleiro do Chelsea, e virou assunto de um jornal checo.
O jornal publicou matéria com foto da banda e tudo.
Petr Cech, um goleiro nascido em Praga.
Que tem um acento circunflexo virado de cabeça para baixo em cima do C.
Que joga na Inglaterra.
Que os gaúchos jamais viram sobre os gramados do Olímpico ou do Beira-Rio.
E virou soneto de uma banda de Porto Alegre.
Ninguém fez soneto para Clemer, Galatto ou Saja.
Ninguém.
Temos que atravessar oceanos para ir buscar nossos heróis.

*Texto publicado na Zero Hora em 21/03/2007

Envie seu Comentário