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Código David: A Mulher-Gato que eu amava

10 de junho de 2012 3

A grande questão que desde sempre aflige o ser humano é: o que é o certo a fazer? Você precisa de alguém que lhe diga isso com convicção, ou que seja um modelo a seguir. Esse papel, evidentemente, caberia ao pai, mas os pais andam muito falíveis ultimamente. Então, as pessoas necessitam de pais substitutos. De heróis. De quem sempre saiba o que é o certo. Não é por acaso que homens como Fidel Castro e Hugo Chávez são populares – eles vivem reafirmando que sabem e-xa-ta-men-te o que é o certo. Essa certeza sólida é reconfortante. Poupa esforço e tempo. Você sabe qual é o caminho, fecha os olhos e vai. Por isso as pessoas seguem essas lideranças chamadas “carismáticas”.

É o princípio do sucesso do nazismo, do comunismo e da maioria das religiões.

Heróis, é disso que as pessoas sentem falta. Melhor ainda se forem super-heróis, com poderes sobre-humanos, capazes de produzir milagres. E é o que nossos modernos super-heróis da ficção fazem: milagres. São semideuses, como era Hércules da mitologia, só que a nosso serviço, prendendo bandidos e salvando o mundo.

Portanto, sei que é arrojado para uma empresa de histórias em quadrinhos fazer com que um super-herói se assuma como homossexual, caso recente do Lanterna Verde. Mas, ao mesmo tempo, identifico aí certa covardia. Porque o Lanterna Verde é um herói de segunda divisão. Nunca vi um menino vestido de Lanterna Verde. Super-Homem, Batman, Zorro, Hulk, Homem-Aranha, Capitão América, todos esses aparecem em festas infantis. Lanterna Verde, jamais.

O óbvio seria o Batman assumir seu relacionamento suspeito com o Robin, mas seria desiludir gerações inteiras de crianças que acreditaram na macheza dele.

Porque a assunção do homossexualismo, no caso do Homem Morcego, torná-lo-ia contraditório. Dizer que o Batman não é macho é o mesmo que dizer que o Cascão gosta de tomar banho. Melhor é a sugestão. Batman, evidentemente, tem problemas devido ao assassinato dos pais, que ele testemunhou na primeira infância. Trata-se de um enrustido. Um contido que canaliza suas frustrações espancando vilões.

Sempre soube que Batman enfrenta dilemas. Porque ele resistia às investidas da Mulher-Gato. Não qualquer Mulher-Gato, que houve várias, mas aquela que era a própria gata: a enlouquecedora Julie Newmar. Confesso: fui apaixonado por Julie. Foi minha primeira paixão, junto com Maria Cristina, colega de aula do Jardim à sétima série. Julie, Julie, houve algum dia mulher com uma cintura como a de Julie? Batman, às vezes, se deixava abalar por sua sinuosidade. Mas terminava por não ceder.

Tinha problemas, o Cruzado Encapuzado. Um dia, eles explodirão.

A verdade é que todos os homens têm uma Mulher-Gato de sua preferência.

Escolha a sua.

Anne Hathaway

















A nova gata, que estreia em 27 de julho. Estou ansioso para vê-la, mas já aviso que não trairei Julie.

Julie Newmar

















Usava uma roupa de lurex desenhada por ela mesma. Inspirou minha adolescência.

Lee Meriwether















Parecida com Julie. Substituiu-a. Também poderia amá-la, mas sou fiel.

Eartha Kitt








A primeira gata negra. Dava uma ronronada sensual que eletrizava o seriado.

Michelle Pfeiffer










Consagrou-se ao dar uma miada antes de uma explosão e uma lambida no Batman que me fez explodir.

Halle Berry











A segunda gata negra. Usava menos roupa e mais máscara. Gosto disso.





Anos dourados

É desconcertante rever o grande amor, diz o Chico naquela música. E é. Foi como ela se sentiu, desconcertada, ao ver a foto. Também ela se chamava Maria e também ela agora se via outra vez com ele, mas não numa foto tirada da caixa de sapatos, e sim postada no Facebook, e não era dezembro de um ano dourado, mas um junho outonal, e eles não dançavam bolero, só estavam vestidos de caipira, com copos de quentão nas mãos. Por que ele havia postado aquela foto, depois de tantos anos? Será que ainda pensava nela?
Maria não ligou afobada, deixando confissões no gravador. Enviou-lhe uma mensagem pelo Face. Ele respondeu de pronto. O coração dela disparou quando leu a resposta. Começaram a conversar pela internet. “Errei contigo”, ele admitiu. Parecia sincero. “Fiquei arrasada quando você disse que tinha outra, foi o pior dia da minha vida”, ela desabafou, certamente com toda a sinceridade. “Fiz aquilo, mas ainda te amava, nós devíamos ter ficado juntos, devíamos ter casado”, confessou ele, e ela se emocionou. Emocionados, trocaram mensagens madrugada adentro. Já era tarde quando ela perguntou se ele, depois de vinte e tantos anos, queria vê-la outra vez. Ele disse que sim, ela pediu o número do telefone dele e ficou de ligar no dia seguinte.
No resto da noite, debaixo do calor dos cobertores, sonhou com ele, e foram sonhos suaves. Não ligou logo pela manhã. Esperou. Esperou. Mal conteve a ansiedade. No meio da tarde, por fim, teclou o número dele. Esperava um alô sonoro, de quem ficara encantado com a ligação, mas o que ouviu foi uma voz impessoal, de quem atende um número desconhecido. Normal, concluiu ela, ele não deve saber que é o meu número. “Sou eu!”, ela disse, pingando um ponto de exclamação animado no final da frase. Só que ele não demonstrou nenhuma animação quando, depois de cinco segundos, quis saber: “Eu quem?” Ela tentou não mostrar sua decepção quando anunciou:
– Maria, ora!
Foi uma voz fria, não, pior, foi uma voz indiferente que avisou:
– Não posso atender agora. Estou dirigindo.
Ela desligou desculpando-se.
“Tudo bem, ligo mais tarde”.
E, suspirando, murmurou: teus beijos nunca mais, teus beijos nunca mais.


O Cagê é um cara antigo. Ele usa costeletas e tem coisas do Bob Dylan tatuadas pelo corpo. Ele usa carpins pretos que reluta em tirar mesmo depois que o calcanhar do carpim endureceu. Ele come torresmo. Os caras do PB dizem que ele está velho, mas o Cagê é o único que continua bebendo cerveja impunemente, como um Bukowski. Ou como um Humphrey Bogart, que o Cagê prefere velhos heróis. O Cagê ainda suspira pela Elizabeth Savalla, ainda acha a Beth Faria uma graça. E sua heroína preferida é Diana, a namorada do Fantasma Que Anda. Antigos hábitos e gostos são difíceis de se mudar.


Comentários (3)

  • L diz: 10 de junho de 2012

    David, eu sempre achei que a Michelle Pfeiffer foi a melhor mulher-gato. A Halle Barry é sexy, mas eu não a vejo muito como mulher-gato.

  • Genimar diz: 11 de junho de 2012

    "Inspirou minha adolescência" quer dizer aproximadamente o que?
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  • ZÉ FERNANDO diz: 11 de junho de 2012

    Cara, a Lee Meriwether e a Julie Newman são as grandes musas da infância de quem hoje tá com 40 e poucos anos!

    É brabo o cara dizer isso, parece que tá sendo nostálgico, mas a gurizada de hoje não tem uma inspiração dessas na sua vida, coisa triste.

    Quem teve a Mulher Gato do seriado na sua primeira infância não precisa ler Freud pra saber muito bem que a sexualidade humana é precoce. A gurizada já sentia um calor quando ela e seu ronronar apareciam na tela.

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