Já comi muitos PFs.
Mas não foi desfrute.
Na época, não queria comer PF.
Trabalhava no Centro, em regime semi-escravocrata, batia o ponto de manhã cedíssimo, acordados só eu e os pardais.
Saía do trabalho com o sol já deitado no Guaíba e, na hora do almoço, não era uma hora que tinha: 45 minutos, talvez.
Comia correndinho, portanto, em um das dezenas de restaurantes do Centro, e odiava aquela comida com gosto de papelão.
Muitos anos depois do meu último PF, passava todos os dias em frente a um boteco, botecão mesmo, balcão de fórmica, potes de ovo em conserva nas prateleiras, três ou quatro mesinhas de plástico, e via os operários almoçando no boteco, e eles almoçavam essa instituição nacional.
No quadro em frente ao bar, o anúncio do prato: riscado a giz por R$ 5, o trabalhador tinha direito a arroz, feijão, salada, batata frita, ovo frito e dois tipos de carne.
Mais um refri.
Em nenhum país do mundo se come tão barato em um restaurante.
E uma comida nutritiva, substanciosa.
Uma comida que sustenta um homem durante um dia inteiro.
Cheguei a ficar emocionado com o PF.
Pensei que o PF é um símbolo.
Um PF é como a vida deveria ser.
Porque as pessoas não precisam de muito mais do que isso.
A maioria dos trabalhadores, essa gente que se espalha pelas vilas, pelos bairros pobres, pelos subúrbios, essa gente quer é dignidade.
E a dignidade pode ser uma casinha de madeira, uma porta, duas janelas, com uma pequena horta no quintal, um Fusca na garagem, um churrasco com os amigos no final de semana, um cineminha de vez em quando.
Um PF.
Olhei para o PF do boteco.
Um prato generoso, aquela montanha de arroz e feijão encimada por um ovo frito, a carne mais ou menos equilibrada num canto, a salada num pírex ao lado.
Os homens comiam com devoção, com autêntico prazer, comiam com voracidade, como se a comida fosse fugir, se eles se desconcentrassem.
É bonito de ver alguém comendo com vontade.
Os jornalistas do século 21, por exemplo, não comem com vontade.
Tempos atrás, íamos às quatro da manhã a uma churrascaria, pedíamos picanha e feijão mexido e ovo frito, e era bom.
Agora, o que comem os novos coleguinhas? Trio.
E fazem pilates.
Por favor! Ah, mas ver alguém comendo um Prato Feito transbordante é ver alguém vivo.
E o PF daquele boteco era um PF poderoso.
Devia ser uma delícia, pela forma como os homens o devoravam, porque era isso que faziam, não comiam; devoravam.
Decidi: comê-lo-ei! Em homenagem à vida como deveria ser, a vida que roda nos Fuscas e se diverte no Marinha do Brasil; à criatividade brasileira, que constrói um prato acessível e nutritivo; às pessoas que não renunciaram ao barro da existência; a todos os que têm vontade de viver; e em protesto contra as malditas barras de cereal, comê-lo-ei! Fui ao boteco.
Sentei-me a sorrir.
Pedi, com certo orgulho: – Pê efe! Em cinco minutos, o pratarrão aterrissou na minha frente.
Dei a primeira garfada.
Gosto de papelão.
É dura a vida do trabalhador.
*Texto publicado na Zero Hora em 08/06/2007





Caro, David. Caro Marco Souza.
Certamente a experiência teria sido menos dolorosa se tu tivesse ido a um local que serve um PF de qualidade. Sugiro que tu vá conhecer um bistrô chamado Mundo à Rolê (Mariante, 931 - ao lado do viaduto da Silva Só).
Depois de experimentar o PF de lá tu vai deixar o gosto de papelão apenas na memória...
Eu adoro um PF, mas com gostinho de comida caseira!
Tem o PF da Petiskeira, é bem caro, mas é bom!!
Caro David, logicamente aqui em Criciuma, tu comerias um PF de alta qualidade nas imediações da praça Nereu Ramos. Em tempo, quando eu penso que o final seria tu comeres com gula o PF, tu me decepcionou, ao comentar o tal do gosto de papelão.
auhuahhauha fechou muito bem a história, ri muito! ehehehe
Mas o duro é que é por ai mesmo... não da pra negar que tem muita comida barata, gostosa e nutritiva, mas que tem muita gente que tem que passar com cada "gororoba" a isso tbm tem de monte.
Davi, lendo tua cronica viajei no tempo, quando guri vendia ultima hora e depois a zero hora, lá pelas 13:30h ia no restaurante bar café rio, na voluntarios com vigario e municiava o dono com os trocos do dia de serviço, em troca ganhava um famoso PF, obrigado por me trazer a lembrança bons tempos que se perderam com a modernidade
Pessoal, o gosto do PF não interessa. O valor de 5 reais, que é o que um trabalhador pode pagar por uma refeição é que é o ponto central. A mágica de devorar um PF de 5 pila e achar gostoso isso é o retrato do trabalhador brasileiro explorado a cada dia.
Final já era esperado. Sem inspiração.