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Túnel do Tempo: O velho Machado

16 de junho de 2012 1

As vésperas do longínquo século 20, Machado de Assis escreveu um texto delicioso, como soíam ser os textos de Machado de Assis, sobre seu começo profissional.
No início da crônica, que era uma crônica, ele descreve Quintino Bocaiúva, que em1860 o procurou para um chá: “ Era então uma gentil figura de rapaz, delgado, tez macia, fino bigode e olhos serenos.
Já então tinha os gestos lentos de hoje, e um pouco daquele ar distante que Taine achou em Mérimée”.
Foi esse Bocaiúva que, durante o chá, convidou o jovem Machado a trabalhar no Diário do Rio, na cobertura do Senado do Império.
Machado aceitou e, aos 20 anos, tornou-se repórter de política.
No restante do texto, Machado discorre a respeito de seus colegas setoristas e de como eles viam o Senado e os senadores.
Por exemplo: a folhas tantas, o antigo repórter relembra de um discurso proferido pelo senador Paranhos.
Eram 13 horas quando o senador postou-se na tribuna.
“ Paranhos costumava falar com moderação e pausa”, contou Machado.
“ Firmava os dedos, erguia-os para o gesto lento e sóbrio, ou então para chamar os punhos da camisa, e a voz ia saindo meditada e colorida.
Naquele dia, porém, a ânsia de produzir a defesa era tal, que as primeiras palavras foram antes bradadas que ditas: ‘ Não a vaidade, senhor presidente!’ Daí a um instante a voz tornava ao diapasão habitual, e o discurso continuou como nos outros dias.
Eram nove horas da noite, quando ele acabou; estava como no princípio, nenhum sinal de fadiga nele nem no auditório, que o aplaudiu.
Foi uma das mais fundas impressões que me deixou a eloquência parlamentar”.
Lendo esse texto precioso, lembrei-me de quando fui trabalhar na Assembléia como setorista, 130 anos depois de Machado.
Não quero me comparar a Machado de Assis, é evidente, seria um despautério.
Quero comparar a Assembléia com o Senado do Império.
O que talvez também seja um despautério, mas vou fazê-lo assim mesmo.
Havia de um tudo na Assembléia.
Um dos deputados, sua característica mais marcante era o mau hálito, um bafo miasmático que podia ser sentido a quatro metros de distância.
Evitávamos falar com ele.
Mas um dia o colega Gustavo Motta foi pautado para entrevistá-lo.
Dei meus pêsames a Gustavo.
Na hora da entrevista, passei por perto.
Gustavo tinha um ar infeliz, estava com o braço estendido ao máximo, o gravador na mão tremente, uma lágrima escorrendo-lhe rosto abaixo.
Outro deputado, homem bem inteligente, por sinal, esse dormia durante as sessões.
Enfarou-se da rotina parlamentar.
Um terceiro, que sofria de priapismo, cevava casos com quatro assessoras simultaneamente, enquanto que um amigo dele, homossexual não declarado, celebrizou-se por suas incursões no submundo noturno da cidade.
E ainda ocorreu o tão falado caso do banheiro do quarto andar, que fez trepidar os alicerces do Palácio Farroupilha.
Havia também aqueles cujos nomes posso citar, e até devo: Flávio Koutzii, com sua verve incandescente; Glênio Scherer e sua cortesia inabalável; Guilherme Villela e sua retidão; o bravo Carlos Araújo; o dedicado Jarbas Lima.
O fato é que estávamos, nós, gaúchos, todos representados na Assembléia, desde o pústula, biltre, poltrão ao candidato a beato.
Isso é óbvio, mas é preciso repetir: não é o parlamento que faz a sociedade; é a sociedade que faz o parlamento.
Por isso, é preocupante quando as pessoas atacam genericamente “ os políticos”.
Um deputado custa R$ 100 mil por mês, li.
É barato.
Os políticos têm de ganhar bem.
Têm de ser preservados.
Porque as alternativas aos políticos são alternativas à democracia, e nós já conhecemos as alternativas à democracia.

*Texto publicado na Zero Hora em 07/06/2007

Comentários (1)

  • Sensato diz: 18 de junho de 2012

    muito bem, David.
    em tempos de total descontrole em relação aos ataques aos ocupantes de funções públicas, é corajoso da tua parte lembrar que existem políticos honestos e dedicados.
    talvez estejam rareando cada vez mais.
    mas existem.
    e sofrem com essa generalização babaca.

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