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Posts de junho 2012

Túnel do Tempo: Você já trabalhou de babô?

30 de junho de 2012 1

Havia quatro mulheres à roda de uma mesa no bar onde estávamos, noite dessas.
Todas elas vistosas, todas elas morenas, quatro matizes diferentes de pele, um ton sur ton que avançava da cútis de leite até o chocolate luzidio.
Bebiam cerveja, as quatro.
Nenhuma bebericava clericot, nenhuma empunhava um drinque com sombrinha.
Guaraná light, nem pensar.
Cerveja.
Pegavam na garganta da garrafa, enchiam os copos até a espuma lamber a borda, engoliam golões, estalavam os lábios, riam à larga.
Tempos atrás, mulheres não bebiam cerveja desse jeito.
Não um grupo só com mulheres, ao menos.
A maioria das mulheres nem gostava muito de cerveja, era mais de daiquiri, quando muito um Martini.
Uma dessas morenas, uma alta, magra, parecendo uma Bündchen, essa morena tinha um pé delgado.
Pé elegante, sabe? Fino mesmo, de propaganda de sandália.
Ela usava sandália, aliás, o que não é incomum, os pés das mulheres estão sempre expostos, ainda que esteja frio de bater molares.
Por algum motivo, elas gostam de mostrar os pés.
É legal.
Mas o pé daquela morena.
Havia estrelinhas impressas ali.
Estrelas delicadas, do tamanho de saúvas, como deviam ser quaisquer estrelas de decoração de pés de mulher.
Bem.
Em certo momento, a morena curvou-se na cadeira, abaixou o braço e levou a mão até a parte de trás do pé.
E começou a escarafunchar o calcanhar.
Volta e meia, parava.
Erguia o braço.
Bebia mais cerveja.
Ria.
E tornava a escarvar o calcanhar.
Não parou até tirar algo de lá, uma fatia de pele morta, talvez, não sei, sei que era um pé de aparência macia e imaculada, um pé à vista do mundo, o qual ela manipulava em público, sem pejo, sem hesitação, com plena segurança.
Quer dizer: era uma mulher completamente à vontade naquele bar.
Sentia-se na sala de casa, ela e sua cerveja e suas amigas risonhas e trigueiras.
E seu pé.
Em um passado até recente, as mulheres não demonstravam tamanha naturalidade diante de uma garrafa de cerveja.
Era um comportamento considerado masculino.
Meiguinhas, como aquelas morenas, no máximo sorviam kir royal e cruzavam as pernas e iam retocar o ruge no toalete.
Mas hoje as mulheres se empenham em provar que podem fazer tudo o que um homem faz.
Dirigem Scanias.
Usam gravata.
Presidem clubes de futebol.
Agora me diga: alguma vez você já viu um pedicuro? Um manicuro? Você já viu um recepcionisto? Já viu um doméstico? Telefonisto eu conheço um só, trabalha aqui na Zero Hora e é irritante quando ele vem de camisa regata.
Professor de escolinha de bebê também parece que existe um único, tão solitário que mereceu matéria de jornal.
Mas e babô, o masculino de babá, há algum por aí? Rei de bateria.
Em qual Carnaval fez sucesso algum rei de bateria? Ou príncipe? Ou conde, que seja? Aí é que está.
Nós homens não ficamos tentando nos imiscuir no mundo das mulheres.
Alguém dirá que isso é machismo.
Mas, e se fosse feminismo, seria bom? Mesmo assim, garanto que não é machismo.
Não tenho nada contra a atuação das mulheres em qualquer campo da atividade humana.
As redações, inclusive, ficaram muito mais floridas com mulheres adejando por entre as mesas, escrevendo reportagens, editando páginas, dando ordens de dedo em riste, comentando sobre o BBB.
Que sejam protagonistas em todas as áreas, pois.
Menos em uma.
Menos no futebol.
Detesto assistir futebol feminino.
Já assisti à final do Pan no Maracanã, já assisti à final da Olimpíada da China, com Marta em campo e tudo mais.
Foi uma maçada, como diria Machado de Assis.
Quase dormi apoiado na Bic.
Querem jogar bola? Joguem.
Mas não me peçam para estar na arquibancada.

*Texto publicado na Zero Hora em 14/03/2010

Túnel do Tempo: Cem anos atrás

30 de junho de 2012 7

J á houve touradas e execuções de pena de morte em Porto Alegre.
Os touros eram mortos numa arena que existia mais ou menos onde hoje fica a Redenção; os homens, numa praça localizada em frente à Igreja das Dores, no Centro, por esse motivo denominada de “ Largo da Forca”.
Por que se acabaram as touradas e a pena de morte? A pena de morte, devido ao fim da escravidão.
Quase todos os condenados, no país, eram escravos, a maioria deles rebelados que haviam atacado seus senhores.
Como a história da escravidão no Brasil é praticamente clandestina, poucos sabem que os escravos não raro se revoltavam contra os maus tratos, reagiam, agrediam os senhores e às vezes os assassinavam.
Um dos últimos escravos executados no Largo da Forca foi aquele que, jurando inocência até o momento em que lhe cingiram o pescoço com a corda, lançou um derradeiro olhar para a Igreja das Dores, na época em obras, e rogou uma maldição: a torre do templo jamais seria terminada.
De fato, as obras ficaram inconclusas por todo um século.
Já as touradas deixaram de acontecer por razões menos humanitárias.
É que Porto Alegre se “ germanizou”.
Até o século 19, a cidade e o Estado sofriam grande influência ibérica.
A partir de 1824, os alemães começaram a chegar.
No princípio do século 20, Porto Alegre era uma cidade de típica ascendência alemã, o que lhe restou inscrito no corpo e na alma.
Está na gastronomia.
O Chalé da Praça 15 é um remanescente de tantos bares e restaurantes alemães que se espalharam pela cidade.
Alguns ainda vigem, resistindo bravamente com seus chopes cremosos e dourados, seus sanduíches abertos de lombinho, seus hamschnitzels, seus praetzels, seus hackepetters, como é bom dizer HACKEPETTER.
Já o Moinhos de Vento é um testemunho de pedra da arquitetura alemã, com seu casario elegante e suas ruas arborizadas.
Finalmente, os clubes de Porto Alegre, em sua grande parte, são produto da cultura associativa dos alemães.
Mal chegados aqui, eles passaram a fundar associações.
O Leopoldina Juvenil, a Sogipa, o Clube dos Atiradores e tantos outros.
Eu, quando nasci, meu avô me associou ao Centro Cultural Alemão 25 de Julho.
Meu avô, claro, era alemão.
No amanhecer do século 20, a cidade esfervilhava de novidades.
Porto Alegre era uma festa.
Em 1903, nasceram seis novos jornais e dois clubes de futebol, os primeiros da Capital.
Ambos no mesmo dia, 15 de setembro.
Um deles, você já sabe, ainda viceja: é o Grêmio, que hoje completa 107 anos.
Outro foi o Fuss-Ball, alemão em todas as suas consoantes dobradas.
Os pormenores da fundação do Grêmio dizem muito a respeito da história de Porto Alegre e do futebol gaúcho.
Porque não foi o acaso que fez o Grêmio e o Fuss-Ball serem concebidos no mesmo dia.
É que na semana anterior, no feriado da Independência, o primeiro clube de futebol do Estado, o Rio Grande, fez uma apresentação em Porto Alegre.
Os futuros fundadores do Grêmio e do Fuss-Ball assistiam a essa partida, time A do Rio Grande versus time B.
A folhas tantas, a bola do jogo, BUF, estourou.
Não havia outra.
E agora? A salvação estava nas mãos de Cândido Dias, um jovem comerciante paulista que havia ganho uma bola de couro de presente de seus parentes de São Paulo, muito provavelmente a primeira bola de futebol que um dia rolou em Porto Alegre.
Cândido concordou em emprestar a bola, com a condição de os rio-grandinos ensinarem a ele e a seus amigos como jogar futebol.
Feito o acordo, a partida prosseguiu.
Oito dias depois, o Grêmio foi fundado nas mesas do velho restaurante Dona Maria, na José Montauri.
Eis aí uma informação decisiva para se compreender o começo do futebol porto-alegrense: os gremistas originais não fundaram um clube para disputar campeonatos ou amistosos com outros clubes simplesmente porque não havia campeonatos e os outros clubes eram apenas um, o Fuss-Ball.
O futebol, naquele tempo, era praticado entre amigos, os sócios do clube se enfrentavam.
Mais ou menos como acontece com os times de firma hoje em dia.
Foi essa a singela razão pela qual o Grêmio não aceitou a associação dos também paulistas Poppe, seis anos depois.
Porque, se entrassem mais jogadores no clube, haveria menos vagas nos times.
Os Poppe, então, fundaram o Inter.
E como já havia outros clubes sendo fundados na cidade, um ano mais tarde, em 1910, foi organizado o primeiro campeonato da região, o Citadino.
O novo torneio fez com que a cidade se mobilizasse em torno do novo esporte.
Ninguém mais queria saber de touradas, só de bola.
E tudo mudou.
Há exatos cem anos, o que importa, em Porto Alegre, é saber quem será o campeão.

*Texto publicado na Zero Hora em 15/09/2010

Enriquecer é glorioso

29 de junho de 2012 21

Depois que Mao morreu, no fim dos anos 70, seu sucessor, Deng Xiaoping, pronunciou uma frase que mudaria o mundo: “ Enriquecer é glorioso”.
Essa sentença foi mais do que a liberação dos chineses para o capitalismo.
Trata- se de um conceito comportamental.
Uma filosofia.
Uma ideia próxima da lógica calvinista, que prega que o rico é rico porque merece, porque recebeu as bênçãos do Senhor devido à sua bondade.
No caso chinês, o Senhor é substituído pelo Estado, e o melhor: um Estado comunista.
Se enriquecer é glorioso, não existe culpa no enriquecimento.
Exatamente o contrário do que se pensa aqui, do lado de baixo do Equador.
Para a América católica em peso, enriquecer é quase vergonhoso.
Em vez do princípio calvinista, exalta- se a advertência de Jesus de que“ é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus”.
O rico, para a América católica, é sempre suspeito de algum ilícito.
Porque a civilização de origem ideológica judaico- cristã, ao contrário da chinesa, ceva- se na culpa.
O que leva ao Reino dos Céus é o jejum, o sacrifício e a dor, nunca a alegria e a fortuna.
O homem sofre agora para obter a recompensa mais tarde, no Além.
Assim, as soluções da América católica para atenuar o padecimento deste mundo em geral são de subtração, não de soma.
Os culpados pela vida precária dos que não têm, obviamente, são os que têm.
Lugo caiu, no Paraguai, porque queria tirar dos brasiguaios o que eles têm.
Lugo identificou nos brasiguaios as razões dos males dos paraguaios.
Estive no Paraguai, em algumas coberturas jornalísticas.
Conheci alguns desses brasiguaios.
São pessoas que foram para o Paraguai há décadas, que lá tiveram filhos, que lá moram, trabalham e consomem.
Não são estrangeiros usurpadores.
Não sei se a derrubada de Lugo será boa ou ruim para o Paraguai, não tenho certeza de ter sido legítima, mas sei que sua verdadeira causa, o assaque aos brasiguaios, vem precisamente desse conceito latino- americano de que existe culpa na fortuna.
Onde está o Mal? Está nos grandes, nos poderosos, nos ricos.
A solução, portanto, está em tirar deles.
Você não cria riqueza, você divide a riqueza.
Para o governante da América católica, o que há é o que existe.
Está posto.
Pronto.
É impossível fazer algo maior a partir do que já foi realizado.
A riqueza das nações não pode ser aumentada.
Muito menos a dos indivíduos.
Afinal, tornar as pessoas ricas seria uma demasia.
Seria suspeito, e jamais, jamais!, glorioso.

* Texto publicado na Zero Hora desta sexta-feira, 29/06/2012

Sala de Redação

29 de junho de 2012 0

Ouça o Sala de Redação desta sexta-feira.

Assalto em frente à escolinha

29 de junho de 2012 16

Recebi esse email de um leitor relatando um fato comum em Porto Alegre, mas que não deveria ser comum; deveria ser um escândalo: um assalto à mão armada em frente a uma escolinha para crianças da primeira infância:

DAVID, bom dia.

Meu neto estuda na Escolinha do Pato, ali no Menino Deus. Ontem, em torno de 17h45, minha filha foi buscá-lo, como sempre. Acabava de estacionar junto à calçada oposta à da Escola, quando foi surpreendida por dois “elementos” armados, de aparência jovem, que exigiram a entrega das chaves do carro, e do celular.

Instintivamente, resistiu em entregar as chaves, e começou a gritar, tendo os demais pais e mães que estavam em frente à Escola ouvido e percebido o que estava acontecendo. Mas, nada puderam fazer. Um dos assaltantes torceu o braço e forçou a entrega das chaves, tendo então entrado no carro e “fugido” com o mesmo, na direção do Morro Santa Tereza.

A Diretora da Escola pediu que, feita a ocorrência, fosse entregue cópia, para instruir novo pedido de policiamento à Brigada Militar, especialmente nos horários de entrada e saída das crianças.

 

O carro que foi levado era uma CRV HONDA, placas: IRK-9473, cor preta, ano e modelo 2010.

 Acontece sempre, não é? Crianças a poucos metros de distância de bandidos armados.

Não deveria acontecer.

Som de Sexta

29 de junho de 2012 1

Cara, eu era fã do Premê.
Mataram o Luis Fernando, aquele porco jóia, pra fazer uma feijoada completa.
Preste atenção na letra, velhinho.

Sala de Redação

28 de junho de 2012 3

Ouça o Sala de Redação desta quinta-feira.

Corinthians foi grande na Bombonera

28 de junho de 2012 66

É muito propalada e incensada a capacidade do Boca de jogar em qualquer estádio “sem sentir a pressão do ambiente”. Mas, ontem, quem não sentiu pressão alguma foi o Corinthians.

O Corinthians não apenas portou-se com naturalidade na Bombonera, como dominou a partida.

Merecia ter vencido.

O Boca foi só upa-upa, só correria e pontapé.

Isso que é chamado de “garra” às vezes confunde os futebolistas. Garra é não fugir da dividida, sim, é entrar em cada lance para vencê-lo, sim, é estar concentrado no jogo o tempo todo, claro que sim, mas não é agredir o adversário ou promover desordem. Isso não ganha jogo. O Boca, quando ganhou, era porque jogava. Mostrava futebol. Bola. Ontem  não mostrou. Ontem quem mostrou foi o Corinthians do grande Tite.

O Corinthians de Tite joga como um campeão.

Café TVCOM

27 de junho de 2012 5

Assista ao Café TVCOM do último sábado, 27/06/2012.

Sala de Redação

27 de junho de 2012 4

Ouça o Sala de Redação desta quarta-feira.

Túnel do Tempo: Coça, coça, coça

26 de junho de 2012 5

M eu olho está coçando.
Nunca senti tanta coceira no olho.
Coça, coça, coça.
O olho direito e o olho esquerdo.
Agora mesmo, no exato momento em que escrevo o ele e o agá de olho, meu olho coça.
E não posso coçá-lo.
A gripe suína e tal.
Passo o dia me controlando para não encostar o dedo no olho, nem no nariz, nem na boca para não ser contaminado pelo maldito H1N1.
Uma angústia.
Desde que comecei a pensar isso, desde que se desencadeou a epidemia e a coçada de olho foi vetada, percebi que sinto muita coceira no olho, que várias vezes por dia tenho vontade de coçar o olho e que é uma delícia coçar o olho.
Cara, coçar o olho é um dos prazeres da existência.
Como queria poder coçar meu olho.
Mas não coço, se esse é o preço a ser pago para não pegar a gripe suína.
E lavo as mãos a toda hora e tenho um tubinho de álcool em gel no carro e não vou a lugares fechados onde haja gente demais.
Não que seja hipocondríaco nem nada, mas temo passar essa moléstia para o meu filhinho.
Há mais gente com essa gripe do que se pensa, acredite.
O Piangers, do Pretinho Básico, pegou.
A coisa se complicou, transformou-se em pneumonia, o Piangers passou 15 dias em cima de um colchão, fazendo ouou.
Quando voltou para a rádio, sentiu outras e inesperadas consequências da gripe: as pessoas o evitavam.
Ninguém queria apertar sua mão, falavam com ele a dois metros de distância, se ameaçasse tossir, todo mundo saía correndo.
No ar mesmo, durante o programa, o Piangers reclamou: – Vocês estão me tratando como um…
Ele ia dizer aidético, mas o Porã assoprou que se dissesse aidético seria preconceituoso.
Além disso ninguém mais fala aidético, acrescentou o Fetter, fala-se portador de HIV ou soropositivo.
Então o Piangers não disse aidético, disse: – Estão me tratando como um…
Quase falou leproso, mas o Maurício Amaral advertiu que falar leproso também seria preconceituoso e que, como no caso do aidético, ninguém mais diz leproso, diz-se portador de hanseníase.
Aí o Piangers socou a própria mão, feito um Robin, e concluiu: – Vocês estão me tratando como se eu fosse um senador! Todos nós concordamos que não podíamos fazer isso com o nosso amigo e o abraçamos afetuosamente.
O Piangers não está mais contaminado, qualquer um pode abraçá-lo sem medo.
O Senado, sim.
Não apenas o Senado, claro, e o noticiário de cada dia mostra que muitos dos estamentos da sociedade estão putrefatos.
Mas há que se tomar o Senado como um símbolo.
O voto nulo para senador não é um voto desperdiçado.
O voto nulo para senador é válido porque é um grito.
É um protesto.
É dizer chega e pingar um ponto de exclamação depois do a.
Não aceito mais escolher o menos ruim.
Não vou me satisfazer com qualquer opção que me ofereçam.
Até poderia escolher o deputado mais ou menos, o presidente mais ou menos.
Para o Senado, não.
Não tenho mais paciência para com o Senado.
Meu voto para senador será o voto mais eloquente que já dei.
Um voto nulo.
Um voto que diz não.
Anular o voto para senador e coçar o olho.
Os deleites da vida são mesmo os mais simples.

*Texto publicado na Zero Hora em 14/09/2009

Sala de Redação

26 de junho de 2012 1

Ouça o Sala de Redação desta terça-feira.

Os vira-casacas

26 de junho de 2012 31

Numa manhã do inverno de 1932, Santos Dumont caminhou até o armário do hotel em que estava vivendo, na Praia de Santos, tirou duas gravatas da gaveta e, com elas nas mãos, dirigiu- se para o banheiro.
Atou uma gravata à outra.
Subiu num banquinho.
Amarrou uma ponta da corda improvisada ao cano do chuveiro.
Enfiou o laço no pescoço.
E saltou para a morte.
Foi esse o fim do chamado “ pai da aviação” e não um “ colapso cardíaco”, como se noticiou na época.
Isso se deu em 1932, em meio à Revolução Constitucionalista.
Conta- se que, na noite anterior ao suicídio, Santos Dumont deprimiu- se ao ouvir o ronco dos aviões que voavam sobre o hotel rumo a São Paulo, com o objetivo de bombardear a capital.
Dumont se entristecera com a maneira como os homens estavam usando a sua invenção – para a guerra, não para a paz.
Sempre achei estranha essa explicação para o suicídio do “ brasileiro voador”, como o classificou Márcio Souza em um bom romance dos anos 80.
Afinal, quando ele se matou já fazia um bom tempo que o avião era usado para a paz.
A Varig, inclusive, contava com cinco anos de existência.
Mas outro episódio da história da aviação e da história do futebol reunidas prova que os aparelhos voadores não eram tão comuns assim nos céus brasileiros.
Aconteceu em Porto Alegre, terra da pioneira Varig, em 1935, três anos após a morte de Dumont.
Grêmio e Inter disputavam um renhido Gre- Nal pelo famoso “ Campeonato Farroupilha”.
O Inter vencia por 1 a 0.
O ponta- esquerda Castilho, do Grêmio, estava com a bola de couro entre os pés.
Então, um teco- teco assomou no céu da Avenida Silveiro, de onde se erguia o Estádio dos Eucaliptos e hoje há só lembrança.
Tratava- se de uma novidade tão espantosa um avião aparecer por ali que o goleiro Penha e os zagueiros Natal e Risada, ou seja, toda a defesa do Inter levantou a cabeça para admirar o pássaro de prata.
O atacante Castilho, porém, talvez fosse um homem mais acostumado com as novas tecnologias, porque ele não deu atenção ao avião.
Ao contrário: mirou no gol desguarnecido e chutou.
Empatou o jogo, que, empatado, escorreu até o fim.
Esse clássico tornou- se conhecido como o“ Gre- Nal do Avião”.
Depois desse gol único na história do futebol mundial em todos os tempos, curiosamente, Castilho não foi mais visto na cidade e em parte alguma.
Só reapareceu no ano seguinte…
no Inter! Aí o mistério se desfez: os dirigentes colorados seduziram Castilho com promessas de contos de réis à mancheia, e ele mudou- se da Baixada para os Eucaliptos.
Castilho foi um dos poucos casos de apostasia direta de um jogador da Dupla.
Em geral, eles saem de um clube, passam uma quarentena purificadora em um terceiro e só depois é que trocam de trincheira.
Se for confirmada a transferência reta de Sandro Silva do Inter para o Grêmio, portanto, estaremos diante de uma raridade.
Batista fez isso, nos anos 80, tempo da Lei do Passe: saiu do Inter e foi para o Grêmio.
O Inter não quis renovar com ele, o Grêmio foi lá, depositou um milhão na Federação e o levou para o Olímpico.
E Batista, mesmo acusado de trânsfuga pelos colorados, foi importante para a campanha do Grêmio rumo ao campeonato mundial.
Mais ou menos por aquele tempo, ocorreu outro caso ilustrativo neste âmbito, só que pelo lado reverso.
Iúra, o“ Passarinho”, era uma espécie de símbolo de jogador identificado com o Grêmio.
Lembro dele caindo de joelhos em meio a um Gre- Nal e socando a grama de raiva porque o juiz não havia marcado um pênalti a favor do Grêmio.
Lembro dele dando uma voadora com os dois pés no peito de Falcão.
Iúra perdia três quilos por jogo, de tanto que corria de intermediária a intermediária, suando pelo Tricolor.
Era um bravo.
No fim da carreira, transferiuse para o Criciúma.
Foi de lá que o Inter o buscou.
Iúra faria provavelmente o melhor contrato da sua vida, no que seria um golpe duro para o Grêmio.
Os dirigentes colorados o receberam festivamente no Beira- Rio.
Momentos antes da assinatura do contrato, apresentaram- lhe a camisa vermelha a fim de que posasse para as fotos.
Iúra tomou- a nas mãos.
Fez menção de enfiá- la pela cabeça.
E desistiu.
Devolveu a camisa aos dirigentes, com um constrangido pedido de desculpas, e emendou: – Não consigo vestir essa camisa.
Hoje é conselheiro do Grêmio.
Nelson Rodrigues dizia que o dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro.
Nem sempre.


* Texto publicado na Zero Hora desta terça-feira, 26/06/2012

Sala de Redação

25 de junho de 2012 3

Ouça o Sala de Redação desta segunda-feira.

Código David: Mistérios de São João

24 de junho de 2012 14




Dia 24 de junho, o Dia de São João, é dia de vestir camisa xadrez. Isso sempre me intrigou. O que a camisa xadrez tem a ver com o pio homenageado? Ainda era criança quando essa dúvida primacial levou-me a pesquisar a respeito do santo.

Primeiro, achava que o João em questão fosse o apóstolo preferido de Jesus, o homem para quem, do alto da cruz, Jesus olhou, dizendo para Maria: “Mulher, eis teu filho”. Aquele que, no fim da vida, por volta do ano 100, escreveu o enigmático e poderoso livro do Apocalipse. Tenho simpatia por esse João. Nem tanto pelo conteúdo… bem… apocalíptico da sua obra, mas pelo estilo.

Um cara que escreve “Ide, e derramai sobre a Terra as sete taças da ira de Deus!”, esse cara tem verve, entende? Ele escreve com as entranhas. Portanto, torcia que o grande santo de junho fosse esse João. Não é. É o Batista, o primo de Jesus, que teve a cabeça separada do corpo devido a uma ondulante dança da jovem e, suponho, sedutora Salomé.

Certo. Investiguei acerca do Batista e não encontrei vestígios das razões da camisa xadrez. Hum. Entenda: hoje em dia, as pessoas até estão usando camisa xadrez impunemente, mas houve um tempo em que era brega. Tecido xadrez, só em toalha de cantina italiana. Alguém dirá que a Festa de São João é típica de áreas rurais, onde se usa camisa xadrez.

Certo.

Agora pense: todo o resto do aparato rural da festa é compreensível.

Pinhão, quentão, pipoca e amendoim são acepipes de inverno. A fogueira é por causa do frio. As botas são usadas no campo como proteção contra os animais rastejantes e o chapéu de palha como proteção contra o sol escaldante.

Mas por que a camisa tem que ser xadrez???

Por que o homem do Interior, seja das franjas do São Francisco ou do Mississipi, tem de usar camisa xadrez?

Respostas para este e-mail.






Dádiva do inverno

Schimitão decidiu tomar um chocolate quente na loja de conveniências do posto, para atenuar o frio da primeira semana de inverno. Quando o segundo gole desceu-lhe garganta abaixo, viu a cena. O casal estava parado de pé, ambos encostados na traseira de um carro. Mantinham-se abraçados, o abraço não se desfazia. Schimitão podia ver os rostos dos dois através do vidro da loja. Notou a emoção dele e a resignação dela. Ela não parecia aborrecida – dava a óbvia impressão de que aquele momento, para ela, significava menos do que para ele. Ele, sim, rondava a fronteira do pranto, respirava fundo, suspirava, tentava se conter. Era ele quem não a largava, que a apertava forte, que sustentava o abraço.
Depois de algum tempo, muito tempo, finalmente se apartaram. Olharam-se nos olhos. Os dele, marejados, quase desesperados; os dela, tristes, mas não muito. Schimitão entendeu que era uma despedida. De fato: o namorado, ou ex, abaixou a cabeça, virou-se e caminhou devagar para a porta do carro. Entrou. Sentou-se atrás do volante. Ela se afastou, dando passagem. Ele arrancou, olhando-a sempre, detrás do para-brisa. Rodou uma grande meia-lua em direção à saída. Sumiu do posto. Schimitão acreditou ter visto uma lágrima despencando-lhe do queixo. Ela sorveu o ar gelado da rua e andou até seu próprio carro. Abriu a porta. Sentou-se. Foi então que Schimitão se levantou e saiu correndo da loja. Não podia perder aquela oportunidade. Alcançou-a quando o carro já estava saindo. Bateu no vidro da janela, pediu que ela abrisse. Ela abriu, com desconfiança.
– Desculpe! – disse o Schimitão. – Mas você parece triste, parece estar com frio no corpo e na alma, e eu queria oferecer um chocolate quente e uma conversa rápida para ajudar a aquecer os dois.
Ela ergueu uma sobrancelha. Encarou-o por alguns segundos. Pensou.
– Está bem – disse, afinal.
E desligou o carro.
O Schimitão pensou que o inverno é dadivoso para quem não perde oportunidades.







A Gabriela de Sônia ou de Juliana?

Traçamos árduo debate no Pretinho Básico desta semana a fim de responder:

Quem é a melhor Gabriela: Sônia Braga ou Juliana Paes?

Os saudosistas, como o Cagê e o Mister Pi, escolheram Sônia. Os demais ficaram com Juliana. Preferi assistir aos primeiros capítulos para me decidir. Foi ilustrativo. Ali estão as marcas de duas épocas. Juliana Paes é, digamos assim, mais possante do que Sônia Braga. Juliana é toda carnes duras e dentes brancos. Sônia é pequena, perto dela. Sônia tem seios de laranja do céu e feições acabocladas. Mas a Gabriela de Sônia Braga transmitia inocência em sua sensualidade. Ela era maliciosa sem o saber. Era uma criança linda que perturbava os adultos, exatamente como Jorge Amado descreveu.
A Gabriela de Juliana Paes, ao contrário, é ostensivamente provocante. Ela lança olhares de promessa para os homens. Ela atiça conscientemente. Não existe nenhuma sutileza nessa Gabriela, não há nada escondido sob sua morenice. Talvez porque Juliana Paes não saiba fazê-lo. Mas a maior tragédia da minissérie é o turco Nacib. A Globo escalou o ex-descamisado Humberto Martins para suceder ao craque Armando Bógus. E Humberto Martins… ele simplesmente não consegue. Não há nenhuma profundidade em seu Nacib, ele não deixa nada subentendido. Não é culpa dele, nem de Juliana Paes. É culpa da época. Esta é uma época que não compreende subentendidos.

O que ler

Como fez grande sucesso a lista de livros que apresentei na edição passada, vou sugerir alguns outros a partir de hoje. Agora, de não ficção.

Mais do que pedir, SUPLICO a você que leia A História da Arte, do Professor Gombrich, um vienense que foi agraciado com o título de sir na Velha Álbion. Mas leia a edição ilustrada da LTC, um tão alentado quanto saboroso cartapácio muito fácil de deglutir. O Professor Gombrich também escreveu um comovente livro sobre a história do mundo para crianças, e esse também vale a pena ler.
Em A História da Arte, ele ensina que “não existem razões erradas para se gostar de uma obra de arte, mas existem razões erradas para não se gostar de uma obra de arte”. Sempre lembro disso quando deparo com alguma peça de arte contemporânea, e penso que, realmente, o Professor Gombrich era um homem tolerante.