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Túnel do Tempo: A doçura de um tratamento de canal

15 de agosto de 2012 7


Às vezes me dá uma saudade de fazer um tratamento de canal… Por causa do Doutor Vuaden. Dois dentistas mudaram minha vida, o Doutor Ramão e o Doutor Vuaden. O Doutor Ramão aplica uma anestesia que é como se você tivesse a boca beijada pela Megan Fox. Manja a Megan Fox, a nova Mulher-Gato? Oh, quantas fantasias infanto-juvenis tive com a Mulher-Gato, quantos sonhos sensuais irrealizados, e agora ela será encarnada pela Megan Fox. Megan Fox, maaan. Procure no Google Imagens.

É doce assim uma anestesia aplicada pelo Doutor Ramão. E um tratamento de canal feito pelo Doutor Vuaden, Cristo!, que prazer! O Doutor Vuaden é um homem que, à primeira vista, pode assustar. Um alemão de quase dois metros de altura, poderia ser quarto-zagueiro do Bayer Munich. No entanto, o Doutor Vuaden é todo discrição. Sua voz é ronronada, seus movimentos são suaves e a mão com que ele torce o nervo de um canino é uma mão de Cinderela, com artelhos de fadinha, com falanges, falanginhas e até falangetas delicadas como as de uma debutante. Um tratamento de canal do Doutor Vuaden é um afago de mãe.

Mas o que mais me faz sentir saudade do Doutor Vuaden e do Doutor Ramão é a filosofia. Porque, quando me instalo numa cadeira de dentista, sou um Platão, um Spinoza, um Kant. Ali, de boca aberta, com o sugador pendurado na comissura dos lábios, compreendo a verdadeira dimensão da existência. Ali sei o que é o ser humano: é um ser eminentemente físico.

Físico, nada mais do que isso.

Não me venha com teorias sofisticadas, não me venha com lógicas intricadas, não me venha com toda a psicologia de Freud e Lacan, com as reflexões de Schopenhauer, com os dilemas sociais de Marx e Engels ou com a literatura de Balzac e Dostoievski, não me venha com nada disso se eu estiver com uma dor de dente. Eis a realidade: se você está com um pré-molar inflamado, aquela pequena área de meio centímetro quadrado é o centro do universo, é todo o seu ser. Nada mais importa, nada vale, nenhuma consideração é procedente, se você está sentindo dor física. A moral, o espírito, a inteligência são meros acessórios. O mundo só voltará a ser belo quando passar a enxaqueca.

Tudo é muito simples, afinal. O mundo é simples. É físico, em sua essência. É com esse raciocínio reto e liso que se tira proveito da luz de cada dia. Uma alegoria? O futebol. O futebol sempre se presta a alegorias. Lembro do sistema de jogo do Huracán, nosso time do IAPI. Dois zagueiros brabos lá atrás, o Larri e o Manga. Todo mundo tinha medo do Larri e do Manga. Quando algum desavisado vinha para cima de nós em qualquer viela entre o Cemitério São João e a Zivi-Hércules, bastava dizer:

– Nós somos amigos do Larri e do Manga.

Pronto. Sem problemas. Ser amigo do Larri e do Manga era salvo-conduto.

Antes do Larri e do Manga, debaixo do travessão, tínhamos um goleiro de dois metros de altura e bigode, o Raimundão. O Raimundão, quando ia jogar, levava junto uma capanga. Entrava em campo todo fardado de goleiro, com a capanga debaixo do braço. Colocava a capanga no fundo da rede. Os adversários ficavam olhando aquilo. Sabiam que, dentro da capanga, dormia um trezoitão cano longo.

Os outros integrantes do sistema defensivo, entre eles o degas aqui, eram menos relevantes no esquema técnico-tático da equipe. Minha função, basicamente, era marcar algum meia e esticar a bola para a direita, por onde zanzava o Jorge Barnabé. O busílis da questão era precisamente esse: a velocidade do Jorge Barnabé. Quando ele atirava a bola para frente, ninguém o alcançava. O Barnabé zunia rumo à linha de fundo, tzzzzimmm!, e cruzava para a área, ou entrava em diagonal e mandava um chute seco, rente ao capim ou a palmo e meio de altura, feito o Vento Sul. Uma gazela de chuteiras, o Barnabé. Um perigo para as defesas. Então, nosso esquema era simples: todo mundo lá atrás, com duas missões: tomar a bola e lançá-la ao rapidinho do time. Todo time tem que ter um rapidinho. Era isso que tinha o Inter. Nilmar era o rapidinho. Quando o Inter se fechava, com quatro zagueiros e três centromédios, o Inter vencia. Por quê? Porque era objetivo. Reto e liso. Todo mundo lá atrás e o rapidinho na frente, esperando. Que Rolo Compressor, que nada: Huracán. O Inter jogava como o velho Huracán. De um jeito simples, mas prático. Como as melhores coisas da vida.

* Texto publicado em 29/08/2009.

Comentários (7)

  • SEMPRENAPRIMEIRA diz: 15 de agosto de 2012

    É UMA CASA PORTUGUESA COM CERTEZA, COM CERTEZA É UMA CASA PORTUGUESA. JÁ FOI CULPA JUIZ!!!!!!!!!!

  • Alex diz: 16 de agosto de 2012

    Megan Fox não é a nova mulher-gato.

    Mas o restante do texto tá valendo. rs

  • Alberto/Colorado diz: 16 de agosto de 2012

    FICA ODONE – FICA CACALO – FICA GLADIADOR! Parabéns SANT’ANA!

  • Ronaldo diz: 16 de agosto de 2012

    Lamentável o início do sala de hoje… Vocês não deveriam ter esse tipo de discussão ao vivo. Quem ouve fica triste! Hoje percebi como nós somos cheios de vaidades. Um quer ser mais que o outro. A opinião de fulano vale mais que a do cicrano… Bobagem! Da boca de todos saem algumas besteiras em determinados momentos, nenhuma pessoa é completamente melhor que a outra. Pergunta pro Cacalo se ele não ficou triste e magoado quando fez duras críticas ao Odone chamando-o de perdedor no ar???

  • ana diz: 16 de agosto de 2012

    oi david!
    bem vindo de volta à terrinha.
    me diz uma coisa, tu não vai postar o sala de hoje?
    queria te pedir um favor. fala para o sant’ana que a forma como ele expõe a contrariedade dele com o marcelo no gol do grêmio tá chata demais. ele tem todo direito de achar que o marcelo não pode ser o goleiro titular do grêmio, mas ele não tem o direito de ficar esculhambando ele sucessivamente, sem dó nem piedade. tem que ter respeito pela pessoa.
    eu adoro o sant’ana, mas sério, essa pegação no pé do marcelo tá estranha e irritante demais. parece que ele só vai ao programa para detonar o grohe. quando ele faz grandes defesas e garante o resultado, como no jogo contra o são paulo (e em outros também), o sant’ana não fala nada, né? assim não dá. todo goleiro falha de vez em quando, não dá para tirar pra cristo porque foi mal ontem.

  • Matheus diz: 16 de agosto de 2012

    Vc voltou antes do encerramento das Olimpiadas David?? Ainda ontem teve jogo da Seleção Portuguesa!!!

  • Marcelo diz: 23 de agosto de 2012

    Ao “SEMPRENAPRIMEIRA”: Olha a casa Portuguesa, um dia pedra, n’outro vidraça. Agora chora, demente…

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