Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

A correnteza humana

17 de agosto de 2012 6

A conteceu algo comigo em Londres que não contei nos textos da Olimpíada.
Foi depois da cerimônia de abertura.
Saí tarde do estádio porque tinha de enviar o material para PortoAlegre.
Então, não havia mais trem, nem encontrava táxis nas imediações.
Tinha de conseguir um ônibus para voltar ao hotel.
Caminhava ao lado do Estádio Olímpico, o laptop pesando dentro da mochila pendurada nos ombros.
A certa altura, percebi que, a poucos metros de distância, num corredor formado por cavaletes de metal, os atletas que haviam participado da cerimônia andavam em direção aos prédios daVila Olímpica.
Todos os atletas juntos, fluindo como um rio para o mesmo local.
Não resisti.
Decidi que precisava me juntar a eles.
Foi o que fiz.
Aproveitei uma brecha entre dois cavaletes e me misturei à correnteza humana.
E naquele instante me vi em meio a pessoas de 204 países.
Havia muçulmanas cobertas com o xador da cabeça aos pés, havia indianos de turbante, havia asiáticos de olhos amendoados, havia negros africanos de dois metros de altura e alemães de cabelo loiro e holandeses de camisa laranja e mexicanos de pele morena e homens e mulheres de todos os tamanhos e cores e eles falavam português, inglês, espanhol, chinês, japonês, malaio, eles falavam todas as línguas.
Pensei que aquele era um momento único.
Pessoas de mais de 200 países caminhando todas na mesma direção, convivendo em paz, rindo, brincando, sem nenhum problema entre elas.
Elas não eram diferentes, naquele momento, simplesmente porque as pessoas, na essência, não são diferentes.
Todas sentem as mesmas necessidades básicas, que, em resumo, são duas: segurança e amor.
E, se todos querem o mesmo, por que não caminhar na mesma direção? Era uma imagem óbvia, reconheço.
Mas ali, naquela amena noite do verão londrino, tive a certeza de que, às vezes, nada é mais importante do que compreender o óbvio.

* Texto publicado nesta sexta-feira em Zero Hora.

Comentários (6)

  • Sandra Anflor diz: 17 de agosto de 2012

    Cara, que texto bonito. Li na Zero e fiz questão de me conectar pra te dizer isso aqui blog e compartilhar no Face. Valeu.

  • Vitor Hugo Rinter diz: 18 de agosto de 2012

    Parabéns David, pelo belo texto. Como sempre, com muita sensibilidade. Realmente, essa multidão de raças, línguas e costumes tão diversos, pode viver em paz, mas só em determinadas circunstâncias. Lamentavelmente a realidade não é esta, somos beligerantes por natureza, brigamos por bandeiras, fronteiras, ideologias, até por um palmo de terra a mais. Somos capazes de escravizar nossos semelhantes, persegui-los até a morte, somos capazes de requintes de crueldade, matamos por nada e sem motivo aparente. Sabe quando isto vai mudar? Nunca…

  • Marisa Oliveira diz: 18 de agosto de 2012

    Uma correnteza humana como um rio com volume precioso e linguagens secretas, que se diluem numa única tradução, legível a todos: o amor. Genial.

  • Marina diz: 18 de agosto de 2012

    Yo me siento emocionada sólo de leer que tú estabas ahí, imagino lo que sentiste. Yo siempre me conmovi mucho con multitudes, como cuando cantan el himno en el estadio, o en el acto de la escuela de mi hijo. O en una paseata con algun objetivo cualquiera, siempre me emociona, la mayoría de las veces a las lágrimas. Entonces comprendo que ir en un río de personas del mundo todo caminando hacia el mismo lugar, debe ser lo más cerca que se puede estar del sueño de ver un mundo en paz. Lo más cerca de la mayor utopía de la humanidad.

  • Elza Mary Cardoso diz: 18 de agosto de 2012

    Pô, que mensagem legal! As vezes a gente lê artigos super filosóficos que não atingem tanto como esse seu caso real, sentido em sua própria pele, tão bem escrito que nos faz parar para pensar. Peço licença para compartilha-lo na minha página do FB.
    Um grande abraço
    Elza

  • Machiavellirs diz: 20 de agosto de 2012

    Que singelo! Belo texto! Lindo texto! Que correnteza humana de leitores delicadinhos e sinceros! Este blog, sem dúvidas, enaltece a “curtura” gaúcha e a personalidade cosmopolita e atenta desta sociedade sem jaça!Estou todo arrepiado!

Envie seu Comentário