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Código David: Solidão é lava

19 de agosto de 2012 2

Todos os que viveram a Olimpíada em Londres voltaram encantados com a cidade. Não vi ninguém falar mal. Quero finalizar as histórias londrinas com algumas informações que dizem bem o que é aquele lugar.

Um dado importante: Londres é uma cidade de solitários. Um terço dos londrinos vive só, e 50% dos que se casam acabam se separando. Donde, o sucesso dos pubs. Como existem bares naquelas ruas planas. Trata-se de um item de primeira necessidade. As pessoas têm de se encontrar em algum lugar. Os bares e as pints atenuam a solidão.

As águas do Tâmisa

As cidades, em geral, são construídas às margens dos rios. Muito natural. Água. O ser humano é feito de água, mais do que qualquer outra coisa. Londres cresceu ao longo do Tâmisa coleante. Ótimo para os londrinos, péssimo para o rio. No século 17, o Tâmisa já estava poluído. No 19, estava morto. Chamavam-no de “O Grande Fedor”. Um dia, as águas podres do rio começaram a se infiltrar nas tábuas dos soalhos das residências dos ricos, a tudo empestear, a transformar a cidade em uma pocilga. Londres, então, reagiu. Construiu o primeiro sistema de esgotos do mundo. E começou a despoluir o rio.

Lembro de quando tinha 12 anos de idade e o professor de inglês chegou à aula anunciando que haviam pescado um salmão nas águas do Tâmisa. Era objeto de comemoração para o teatcher, anglófilo militante que era. Hoje, o Tâmisa é limpo, está cheio de peixes e orgulha a cidade. A força da natureza é maior, se tiver ajuda.

Plante plátanos

Sabe o que os ingleses fizeram para limpar a poluição do ar?

Plantaram plátanos.

Há plátanos por toda a cidade. Por uma razão singela: o plátano “suga” a sujeira do ar e a expele pela casca. Além disso, a cidade fica bonita, assim, toda arborizada. Muito engenhosos, os ingleses.

O que não ler

Já viajei carregando 20 livros. Ia ficar muito tempo fora, três meses no estrangeiro. Foi uma demasia. A mala tornou-se uma mala mesmo. Depois disso, me contive: dava preferência aos pockets, e levava menos volumes. Se me faltasse livro, comprava, ora.

Nesta viagem a Londres, fui controlado em excesso, se é que isso é possível. Levei três livros. Então, tive de encarar o terceiro, “O Historiador”, da americana Elizabeth Kostova. Tinham falado bem deste livro. Enganaram-me. Como não quero que você seja enganado também, escrevo sobre.

Se você aprecia histórias de terror, pode ler. Trata-se de uma historinha de terror. Mistura Vlad, o Empalador, personagem que realmente existiu na Baixa Idade Média, com Drácula, personagem criado pelo irlandês Bram Stoker. Uma bobice. O livro até poderia ser melhor, se a autora não apelasse para a enrolação a fim de criar suspense. Ficou tolo. Mas tem quem goste. Se for o seu caso, vá em frente. Se não for, você já sabe o que não ler.




O canalha

Ester só gostava dos canalhas. Certo dia percebeu isso e, primeiro, decepcionou-se consigo mesma, depois se conformou. Era uma espécie de distorção de caráter. Um vício. Até que Carlão apareceu. Bonitão como um Pitt, cheio de ginga como um Portaluppi, sorridente como um Eike, fazia boa figura com as mulheres. A ala feminina da turma o recebeu com entusiasmo, a masculina com reticências. Num fim de semana especialmente gelado, foram ao Vale dos Vinhedos, e Carlão impressionou a todas com seus conhecimentos sobre vinhos. Ester se encantou. Naquela noite, se repoltrearam no pecado. No dia seguinte, começaram a namorar.

Esvaiu-se o inverno, floriu a primavera, o verão rugiu, as folhas amarelas desabaram no outono, outro inverno começou e eles continuavam juntos. Porém, Ester desconfiava de que havia algo errado. Carlão era muito atencioso, muito assíduo, muito romântico.

Um dia, um dos casais da turma resolveu oficializar sua relação com pompa e cerimônia. As mulheres organizaram um chá de panela; os homens, uma despedida de solteiro. Ester ficou inquieta ao saber da despedida de solteiro, mas preferiu agir em silêncio. Traçou um plano. Era solerte, era vil, mas ela tinha de fazê-lo. Seu futuro dependia disso. Afinal, estava planejando passar o resto da vida com Carlão, ter filhos, toda aquela coisa. Então, Ester fez. Sim, ela fez: contratou um detetive particular. Em troca de um punhado de reais, o homem se comprometeu a seguir Carlão durante toda a noite da despedida de solteiro. Ester queria saber tudo, os detalhes mais escabrosos, TUDO.

De fato, foi uma despedida de solteiro forte. Os homens se encontraram para o happy hour e só voltaram para casa ao amanhecer. O próprio detetive teve de dormir toda a manhã antes de se reunir com Ester. No fim da tarde, o homem foi a sua casa. Ester torcia as mãos em expectativa. Ele aprontara um relatório minucioso, com fotos e gravações. Apresentou-o a Ester e arrematou:

_ Parabéns. Ele não fez nada.

Ester abriu a boca:

_ Como assim, “nada”?

_ Nada, nada. Todos os outros pegaram mulheres das casas noturnas, mas ele se conteve. Parecia até intimidado. Participou do happy hour, comeu o churrasco, passou em um bar e depois deu uma desculpa e voltou para casa. Eu o segui. Ele foi para casa mesmo. Voltei para acompanhar a festa achando que ele poderia reaparecer, mas que nada. Ele rechaçou todas as mulheres que se aproximaram dele. O homem é um santo.

_ Um santo?… Quer dizer que ele não é canalha?

_ Definitivamente, não.

_ Quer dizer… _ Ester levou a mão ao queixo. _ Que ele só se faz de canalha? É um disfarce… Para parecer mais macho, algo assim?

_ É claro! O homem é um santo! Um santo!

Ester afundou na poltrona. Naquele momento, seu romance acabou. Horas depois, terminou com Carlão. Ester, realmente, só gostava de canalhas.

Comentários (2)

  • Simone diz: 19 de agosto de 2012

    Triste e que as grandes cidades do mundo, Brasil principalmente, repetiram o erro de Londres com seu rio. Primeiro apodrecem, depois despoluem.

  • Marina diz: 23 de agosto de 2012

    Para mi los plátanos son expectaculares, pq dan un gran espectáculo en la ciudades. Montevideo es una ciudad árbolada, en su 90% plátanos, lo deben haber plantado los ingleses. Sabías que ellos tuvieron el dominio de los ferrocarriles por décadas en Uruguay, por eso hay muchas cosas inglesas en nuestra capital, edificios de todas las estaciones, puentes, puertos, casas y barrios donde estos vivían, y claro principalmente la mayor herencia que nos dejaron el fútbol. Como vos obvio sabrás nuestro querido carbónero (Peñarol) nació en los ferrocarriles ingleses. Bueno, volviendo a los plátanos, quería contarte que este año, en abril, yo y mi marido recorrimos la cierra gaucha en moto, y ahí vimos que en llá vuelva de los parrales de vino había plátanos plantados, muchos, pero casi todos podados, cuando pregunte porque eso que nunca había visto, me explicaron que es pq el plátano permite la poda completa y no muere, por eso es ideal para hacer de soporte de las parras, en ellos agarran los alambres que sostienen toneladas de uvas en la espoca de la vendimia. Eso lo trajeron los italianos, no los ingleses.

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