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Código David: Cem anos rodrigueanos

26 de agosto de 2012 10

Nelson Rodrigues completaria 100 anos agora, 23 de agosto.

Há quem o considere o maior cronista brasileiro de todos os tempos. Sempre digo que não existe isso de o maior ou o melhor em talento, inteligência ou beleza, porque tais valores são imensuráveis.

Mas, mesmo que sempre diga isso, gosto do exercício de fazer listas e classificações, ainda que,volta e meia, minhas listas e classificações sejam contraditórias – um dia digo que o maior pintor foi Van Gogh, noutro que foi Monet;  um dia declaro que a mulher mais linda do cinema foi Grace Kelly, noutro que é Angelina Jolie.

Enfim.

Com isso quero contestar os que consideram Nelson Rodrigues o maior cronista brasileiro de todos os tempos.

Para mim, o maior cronista brasileiro de todos os tempos vive e respira, sorve tintos franceses e é meu vizinho.

Chama-se Luis Fernando Veríssimo.

Tenho dito.

O melhor de Nelson

Mesmo assim, Nelson Rodrigues foi grande. Talvez tenha sido o segundo maior cronista brasileiro de todos os tempos.
Merece louvações em seu centenário, portanto. Só que não as farei, as louvações, por ter sido ele um cronista superior, e sim por ter sido um romancista superior.

“Asfalto Selvagem”, também intitulado Engraçadinha”, é um dos cinco melhores romances brasileiros de todos os tempos. Os outros quatro? Diga você qual é a sua lista.

É bom fazer listas!

O frasista

Nelson foi melhor frasista do que cronista. Repetia suas ideias, sublinhava-as a cada chance que surgia, e assim as consagrou. Tinha uma imagem não muito edulcorada do brasileiro. Algumas de suas frases mostram bem isso. A primeira e a segunda das que relaciono abaixo são um diagnóstico de alguns dos nossos tropeços olímpicos.

‘‘ O brasileiro não está preparado
para ser o maior do mundo em coisa
nenhuma. Ser o maior do mundo em
qualquer coisa, mesmo em cuspe
à distância, implica uma grave,
pesada e sufocante responsabilidade.

‘‘ Que Brasil formidável seria o
Brasil se o brasileiro gostasse
do brasileiro.

‘‘ O brasileiro, quando não é
canalha na véspera, é canalha
no dia seguinte.

‘‘ No Brasil, o marxismo adquiriu
uma forma difusa, volatizada,
atmosférica. É-se marxista sem
estudar, sem pensar, sem ler,
sem escrever, apenas respirando.

‘‘ No Brasil, só se é intelectual,
artista, cineasta, arquiteto, ciclista ou
mata-mosquito com a aquiescência,
com o aval das esquerdas.

‘‘ Está se deteriorando a bondade
brasileira. De quinze em quinze
minutos, aumenta
o desgaste da nossa delicadeza.

O QUE LER

Quando Ruy Castro lançou a biografia de Nelson Rodrigues, “O Anjo Pornográfico”, no começo dos anos 90, um amigo meu o abordoue comunicou, entusiasmado:

— Estou lendo o teu livro. É muito bom! O Ruy olhou para ele, perplexo, e perguntou:

— E conseguiu parar a leitura??? Uma imodéstia, mas com fundamento.

“O Anjo Pornográfico” é uma das melhores biografias já escritas no Brasil. Um livro alentado, mais de 400 páginas, que você lê em dois outrês dias devido, justamente, à cadência que o Ruy dá ao texto, uma cadência rodrigueana.  

Por que o título?

O próprio Nelson explica na página de rosto: “Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nascimenino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico”.

Leia.

Você não vai conseguir largar.

(Como os dias frios acabaram,
a série também acaba aqui)

A vingança

Todos os subalternos de Anselmo concordavam: ele era o pior chefe do mundo. Autoritário, prepotente, exigente em demasia, desconfiado, paranoico, inseguro, confuso, tudo de ruim que um chefe poderia ser, ele era. Os funcionários já não aguentavam mais.

– É falta de mulher – diagnosticava Otávio, com grande chance de estar certo, uma vez que Anselmo era feio, entediante e, embora fosse chefe, estava longe de ser rico, o que mantinha as mulheres a quilômetros dele.

Baseado nessa conclusão, o próprio Otávio gritou Eureka!, anunciando ter encontrado a solução para o problema:

– Vamos arrumar uma mulher para ele!

Os outros se entreolharam, não entendendo nada.

– Vamos procurar uma dessas damas da noite, uma linda, uma que ele jamais conseguiria por méritos próprios. Vamos
fazer uma vaquinha e pagar uma grana para ela mudar a vida dele, nem que seja por uma semana. Ele vai ficar apaixonado, vai ver que existe algo mais na vida além de trabalho!

Depois de alguma discussão, todos acharam boa ideia, reuniram o dinheiro e saíram à procura de uma moça capaz de
cumprir a tarefa. Encontraram Bárbara serpenteando numa das casas noturnas mais caras da cidade. Tratava-se de uma morena que fazia jus ao nome. Bárbara era isso mesmo.

E era também muito esperta.

Aproximou-se sutilmente de Anselmo e sutilmente o fisgou. Os funcionários notaram a diferença no comportamento
dele. Estava mais calmo, mais distraído, mais leve.

– O amor torna as pessoas leves no início– disse o Otávio.

O problema foi que aquela semana se passou, outras se passaram, e Anselmo continuava com Bárbara. Estavam namorando! Os funcionários da firma ficaram inquietos. Aquilo não podia dar certo. Pediram que Otávio fosse falar com ela.

Ele foi, muito preocupado. Que história era aquela? Por que ainda estavam juntos? Eles não iam mais lhe dar um centavo!

– Não quero o dinheiro de vocês – ela respondeu. – Vamos nos casar no fim do inverno.

– Mas não pode! – protestou o Otávio.

– Por que não? Ele gosta de mim. E já aviso: se ele descobrir algo, transformo a vida de vocês num inferno.

Ninguém contou nada a Anselmo. No fim do inverno, ele se casou com Bárbara. Na primavera, voltou a ser o pior chefe do mundo. Afinal, Otávio estava certo: o amor torna as pessoas leves no início.

Só no início…

Hoje, os funcionários têm duas aflições a lhes atormentar: o pior chefe do mundo e a dúvida se o que eles lhe deram foi uma vingança ou um prêmio

Comentários (10)

  • Luiz Carlos diz: 26 de agosto de 2012

    Pô David, já é ora de alguém ter coragem e dizer q este Sr, Nelson Rodrigues é uma grande ficção carioca. Uma grande mentira, em termos de qualidade literária, assim como é Paulo Coelho e q ninguem tem coragem de dizer, sob o preço de ser considerado diferente.Este referido autor não passa de um machista, frustrado sexualmente,reacionário,arrogante e pornográfico barato,de onde provém o seu “sucesso”. Assisti e reassisti a quase todas suas obras e hoje tenho absoluta certeza q não passam de mediocridades q um país sem cultura,continua a valorizar, por não ter nada melhor.Isso é nivelar por baixo.Há frase ridiculas deste cara, verdadeiras bobagens e os ignorantes derretem-se todo. Acho q o Wianey tem razão, quando diz q o ódio do Nelson pelas mulheres,ou pelo beijo,deve-se ao fato deste sr ter uma mulher muito feia em casa. Viva o Luiz Fernando Verissimo.
    Um barço.
    Luiz Carlos.

  • Daniel Aço diz: 26 de agosto de 2012

    A crônica e a bola de meia

    Também concordo que não se trata de ser o maior ou o melhor. A situação é o detalhe, o detalhe! – tal como gritaria Nelson Rodrigues. – O detalhe!

    Sim, Luis Fernando Verissimo é ótimo cronista. Nelson Rodrigues também o foi. Carlos Heitor Cony também o é, e assim por diante.

    Verissimo é bom para o humor e a análise do cotidiano, especialmente quanto aos costumes da classe média.

    Nelson Rodrigues foi mestre da tragicomédia contemporânea brasileira, uma espécie de Shakespeare grego tupiniquim, nomeadamente carioca.

    Já o Cony, só para analisar três grandes nomes, é bom quanto a certa pertinácia política e cultural.

    Quanto a Cony, aliás, penso tratar-se de maior escritor do que cronista. O existencialismo encontra, nas eloquentes obras de Cony, uma profundidade que desconheço, inclusive, em grande parte das obras filosóficas consagradas pela petulante Filosofia ocidental.

    Seja no humor, nas frases de efeito ou no manejo existencial dos costumes e dos vocábulos, creio que o Brasil sempre esteve bem servido de cronistas.

    Aqui na província, por exemplo, temos um certo David Coimbra. Ele é até um tanto folhetinesco, à semelhança do Nelson. Costuma falar de mulheres gostosas, literatura, História e futebol. Aliás, quanto a este, certamente já deve estar preparado para as ofensas dos fanáticos torcedores do iminente Gre-Nal.

    Os dementes da bola nem vão ler o que está escrito nestas linhas, até por abominarem tudo quanto não seja futebol.

    Parafraseando Nelson Rodrigues, utilizo-me de uma frase de efeito:

    “Torcedores futebolísticos da magnânima província, atentai bem: abdicai de vossos cérebros de ervilha em prol de uma bola de meia. Uma bola de meia! Que maravilha, uma bola de meia pensante!”.

  • Adilson Minossi diz: 26 de agosto de 2012

    Caro David,

    Em primeiro lugar, Nelson Rodrigues não escrevia para “lôrpas e pascácios” que é o que mais tem no Brasil. Exemplo, aqueles que se não tiverem em casa um CD do Caetano, do Gil e do Chico Buarque se sentem diminuídos culturalmente. Você, por exemplo, é infinitamente melhor do O LFV. Ele teve mais sorte, foi mais endeusado e faz aquele tipo de tímido e as pessoas adoram isso. O LFV não é tímido coisíssima nenhuma. E tem mais, gênio foi o pai dele, o grande Érico, de Cruz Alta.
    Os gaúchos são muito bairristas. Só quem sai do RS pra viver fora, como eu que já estou há 36 anos fora de Porto Alegre, onde nasci em 1943 e tantos outros que conheço, que sabem avaliar bem esse bairrismo. Por isso que não gostam de Nelson Rodrigues ou não o conseguem entender.
    Por isso, meu caro David, ninguém escreve no Brasil melhor do que você sobre o dia-dia da gente. Tuas estórias sobre o IAPI e sobre as mulheres são imbatíveis. Quase tão boas e algumas até melhores do que as do grande “Anjo Pornográfico”…
    Não te deprecies, guri! O LFV tem que comer muito feijão para se igualar a ti.

  • BAR DA DICA diz: 26 de agosto de 2012

    É que o Nelson Rodrigues dizia coisas desconcertantes para a época dele. Agora, com o aumento do número de pacientes nos consultórios dos analistas, ele, o Nelson, até que tá normal. A página do BAR DA DICA no facebook, no primeiro capítulo, já cita ele. Curta!!!

  • Tiago Lemos Lopes diz: 26 de agosto de 2012

    David, o assunto que vou escrever não tem muito a ver ao texto escrito aqui, hoje, mas ao escrito alguns dias antes. Falavas da imbecilidade humana pós-internet, do ser humano extrapolando seu lado mais sombrio através deste espaço virtual. Vemos constantemente manifestações (inclusive nos comentários aqui neste texto) de ódio regional e tal…Bem, aí não resisti. Estava dando uma navegada e encontrei um texto do Nelson Motta escrito num outro jornal. Vou transcrever, acho que vale cada frase:

    “Na Itália democrática de 1986, a anárquica Rádio Radicale queria saber o que pensavam seus ouvintes e ofereceu um número de telefone grátis, prometendo colocar no ar, sem cortes, todas as mensagens de um minuto que fossem gravadas anonimamente nas suas secretárias eletrônicas. Durante um mês, dia e noite, todo o país ouviu estupefato uma torrente dantesca de insultos, xingamentos, preconceitos, canalhices, palavrões, blasfêmias e covardias.

    Milaneses contra napolitanos, romanos esculachando sicilianos, napolitanos detonando florentinos, pobres amaldiçoando ricos, ricos debochando de pobres, fascistas achincalhando comunistas e vice-versa, mulheres barbarizando homens, gays, o papa, num vale tudo de todos contra todos, até a rádio ser fechada sob a acusação de vilipendiar as instituições e fazer apologia do fascismo.

    Para um estrangeiro como eu, o festival de ódio turbinado pela exuberante verve peninsular era de matar de rir, mas para meus amigos italianos era de matar de vergonha. Como se odiavam, como eram ressentidos, invejosos, intolerantes, apesar dos seus séculos de cultura e civilização, lamentavam os intelectuais. Os políticos tentavam minimizar como um “desabafo nacional” passageiro. O vero é que a combinação de liberdade e anonimato trouxe o pior dos italianos à tona, sem censura, do fundo do coração. E, como dizia minha avó, a boca fala das abundâncias do coração. Pelo menos eles perderam algumas velhas ilusões e ficaram se conhecendo melhor.

    Mas, nem o anarquista mais otimista poderia imaginar que era apenas uma modesta antecipação da plena liberdade de opinião na era da internet. Hoje, qualquer um pode descarregar anonimamente todos os seus ódios, insultos e maldições sobre quem ou o que quiser, em texto, áudio ou vídeo. Não apenas suas opiniões, crenças ou ideologias, mas todos os dejetos digitais que revelam mais do malfalante que do malfalado.

    Nelson Rodrigues dizia que, se todo mundo soubesse da vida sexual de todo mundo, ninguém falaria com ninguém. Imaginem se todos soubessem os nomes e as caras dos autores das mensagens de ódio na internet.”

    Abraços

  • Mauricio S diz: 26 de agosto de 2012

    Tiago, vc é um candidato nato ao Nobel da Paz!!!!! Vc quase levou-me às lágrimas!
    Abraço solidário! E abaixo as mensagens de ódio da internet, principalmente as de cunho sexual! Liberdade para as borboletas!

  • Marisa Oliveira diz: 27 de agosto de 2012

    O QUE ESTOU LENDO
    50 Contos de Machado de Assis.
    E tenho uma lista: o que gostaria de ler, o que estou tentando ler…

  • Marcal diz: 27 de agosto de 2012

    Caro David . Sou sepeense e moro há anos no Recife, mas nem por isto deixo de acompanhar-te todos os dias. Tua escolha do melhor cronista de todos os tempos. O impagável LUIZ FERNANDO VERÍSSIMIO, não poderia ter sido melhor. Parabens.

  • marçal gregorio diz: 27 de agosto de 2012

    Caro David. De há muito acompanho-te aqui do Recife onde resido, atraves da internet( sou gaúcho de São Sepé), e aprecio muitíssimo tuas crônicas e historietas. Parabens pela sua inteligente escolha de eleger como o melhor cronista de todos os tempos, nosso mui querido LUIZ FERNANDO VERÍSSIMO. Foste muito feliz em eleger este ícone da nossa literatura.

  • THAIS NÃO DESISTE NUNCA diz: 27 de agosto de 2012

    David, concordo em número e grau com a tua opinião, não por ser “puxa-saca” como outra opinião acima, mas simplesmente por eu ler o LFV desde os 14 anos e sempre falar para o meu pai, que eu queria o Luis F. como pai! eheheh coitado do meu coroa, mas realmente sempre amei o LFV.
    Inclusive um dia fui na Casa de Cultura Mario Quintana só pra ver o carequinha! Ele autografou um de meus livros e eu sai faceira! Sou mais das crônicas, apesar de tb apreciar um bom Machado de Assis ou o Érico.
    Um dos melhores, na minha humilde opinião é o Analista de Bagé.
    SIM PQ SOU BAIRRISTA MESMO E ESSE LIVRO É MUITO ENGRAÇADO. Ao contrário de outras opiniões acho lindo nosso bairrismo, só não podemos ser arrogantes, né?! :)
    Quanto ao Nelson, não o pude ver vivo (óbvio assim como o Machado, eheheh) mas ele era muito machista, me identifico um pouco com ofanatismo dele. Por amar muito meu Grêmio e defender meu time em outras querências!!! E viva o Bairrista!!

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