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Posts de agosto 2012

Sala de Redação

31 de agosto de 2012 3

Ouça o Sala de Redação desta sexta-feira.

O irmão

30 de agosto de 2012 20

Meu amigo Silvio Ferreira enviou essa história verídica, que aconteceu com o pai dele:

Corria o final dos anos 50 na mesma velocidade em que Juscelino incrementava a indústria automobilística. O menino franzino recém chegado de Canoas aportou à beira do gramado do Campo do Reko, ali ao lado do triângulo da Assis Brasil, onde hoje repousa um pequeno Shopping Center. Tímido, o jovem observava o jogo que transcorria com a mesma fome de bola que costumava apresentar nos campinhos improvisados espalhados pelos terrenos baldios da Região Metropolitana.

Depois de algum tempo parado ali, olhar fixo no que acontecia dentro de um gramado tomado por tufos irregulares e careca nas duas grandes áreas, um senhor decide se aproximar do treinador para fazer uma recomendação.

- Coloca aquele guri pra jogar. Pode botar. É bom de bola. Eu garanto.

O treinador, sem muitas opções no banco de reservas e determinado a vencer a partida, resolve colocar o guri em campo. Quieto, pouca estatura e magrinho, o menino veste o calção, a camiseta, as meias e, por fim, as botinas – que era assim que se chamavam as chuteiras que hoje reluzem fosforecentes pelas arenas de todo o mundo –

, e ingressa no campo.

Deu certo. O garoto mostra grande intimidade com a bola. Além de boa técnica, dribla com facilidade e municia os companheiros com passes perfeitos utilizando as duas pernas – uma de cada vez – com uma desenvoltura espantosa. O time vence. O entusiasmo toma conta de todos.

Encerrada a partida, o empolgado técnico corre em direção ao garoto e pergunta.

- Fim de semana que vem, podes vir jogar com a gente de novo?

A resposta é afirmativa. A semana passa correndo e no sábado à tarde lá está o menino minguado à beira do Campo do Reko, ponto de referência do futebol de várzea nos anos 60 e 70, na Zona Norte de Porto Alegre. O treinador logo enxerga o candidato a craque do time e o chama. Entrega a camisa 10. Os olhos brilham.

Começa a partida. Algo está errado. O garoto não acerta um passe. Não dá um drible sequer. Tem uma dificuldade enorme para chutar com a perna direita. Com a esquerda nem pensar. Decepção geral. O menino joga mal, o time afunda, a derrota é vexatória. Encerrados os 90 minutos, ninguém entende nada. Todo mundo quer saber o que houve. A pergunta é uma só: o que aconteceu?

Então o garoto explica.

- É o seguinte. Aquele que veio jogar aqui na semana passada era o meu irmão, o Antenor, que não pode vir hoje. Eu sou o Agenor, o irmão mais novo…

Será que o Inter contratou o irmão do Diego Forlán?


O caminho do Grêmio

30 de agosto de 2012 45

O Grêmio está coeso. O time, pelo menos.

Ontem, em alguns lances, quatro jogadores cercavam o adversário para retomar a bola.

Some-se a isso o crescimento de peças importantes na hora mais importante:

Kléber, recuperado da lesão, voltou à antiga e boa forma.

Moreno está marcando gols.

Souza, recuado, encontrou o seu lugar.

Gilberto Silva, Elano e Zé Roberto usam a sabedoria da experiência.

E até os laterais foram enfim definidos, com Pará e Anderson Pico.

Ainda faltam 18 jogos, muita coisa. Tudo pode acontecer. O time, além de competência e concentração, precisa de sorte para não perder jogadores por lesão e suspensão. Mas o Grêmio está no bom caminho.


Inter repete erros

29 de agosto de 2012 39

Pedi para o Diretor do blog, Marco Souza, escrever sobre  o jogo do Inter. Veja a opinião:

O Inter de Fernandão é um time desequilibrado. Enquanto não há estabilidade entre os setores, fica fácil marcar as principais armas do Colorado. O Coritiba foi um time destruído pelos desfalques e mesmo assim conseguiu fazer um jogo equilibrado.

Além de raros rompantes individuais, não se vê organização ofensiva, mesmo que a cada entrevista coletiva Fernandão diga que esse é o objetivo do trabalho.

Café TVCOM

29 de agosto de 2012 0

Assista ao Café TVCOM do último sábado, 25/08/2012.

Sala de Redação

29 de agosto de 2012 2

Ouça o Sala de Redação desta quarta-feira.

De onde vem a força dos exércitos

28 de agosto de 2012 25

A palavra “ exército” vem de “ exercício”.
Por causa do exército romano, que o que mais fazia não era lutar, era se exercitar para a luta.
O legionário passava o dia treinando, repetindo movimentos sem cessar.
Durante esses ensaios, acontecia tudo o que aconteceria numa batalha de verdade, só que sem sangue e morte, o que, convenhamos, não é desprezível para quem está ensaiando.
Outra diferença era que o material carregado pelos soldados ( suas armas e suas armaduras) era duas vezes mais pesado do que o que eles empregariam em combate.
Foi assim, com trabalho duro e diário, mais do que com ferocidade e inspiração, que os romanos dominaram o mundo antigo.
É assim que o Grêmio de Luxemburgo está funcionando.
No Gre- Nal isso ficou nítido, principalmente nos momentos em que o Inter retomava a bola.
O lance ocorria, digamos, no lado esquerdo do campo.
E lá do outro lado, no direito, via- se os jogadores do Grêmio que não haviam participado daquela pequena escaramuça da partida correndo em direção ao campo de defesa.
Todos eles, desde os atacantes Kléber e Moreno até o menos ativo Marquinhos, todos voltavam para aquele lugar denominado “ atrás da linha da bola” a fim de fechar espaços na frente da área.
E então, no momento em que o Inter chegava às imediações da meia- lua, deparavase com uma cortina de jogadores de azul.
Não existiam frestas por onde entrar na área, onde as coisas realmente acontecem.
Aí os laterais ou os meias do Inter simplificavam a jogada, atiravam a bola por cima, e lá, na marca do pênalti, ou Grohe a afastava com um soco, ou Gilberto Silva dava- lhe uma testada para a intermediária.
Esse é o tipo de comportamento que constrói um time vencedor.
Mas não é algo que se forje de um dia para o outro.
Não.
É fruto de treino, de preparo diário.
Os jogadores do Grêmio SABIAM o que tinham de fazer em campo, porque já haviam feito antes.
E foi por isso que o Grêmio venceu o clássico.
Não foi por ter jogado bem, porque o time não jogou bem.
Foi porque o time se comportou como uma equipe, e uma equipe é coesa, é concentrada, é, sobretudo, consciente.
Porque já fez antes.
E sabe que vai dar certo.

A cavalaria invencível

Os romanos, com sua disciplina, foram submetendo os povos da Europa, e o fizeram até a Britânia.
Depois da Ilha, não havia muito mais a conquistar.
No outro lado, a leste, eles foram submetendo os asiáticos, e o fizeram até esbarrar nos partos.
Então pararam.
Os romanos simplesmente não conseguiam bater os partos.
É que esses povos ferozes tinham uma habilidade guerreira única e invencível.
Eles faziam a famosa“ carga parta”.
Consistia no seguinte: os guerreiros partos avançavam sobre o inimigo montados em cavalos velozes e fortes.
Quando chegavam a determinado ponto perto o bastante para o alcance de suas flechas, mas longe o bastante do embate pessoal, eles retesavam seus arcos e disparavam do alto das selas.
As flechas zuniam na direção dos alvos, ao mesmo tempo em que os partos davam meia- volta nos cavalos, faziam um U e retornavam para o ponto de partida.
Assim, eles fustigavam o inimigo em segurança.
Na hora do combate corpo a corpo, os partos estavam inteiros, e os inimigos assolados.
O grande general Crasso, que havia batido o exército de escravos de Espártaco, comandou uma temerária incursão contra os partos.
Foi derrotado e, o que é ainda mais desagradável, morto.
Cometeu um terrível erro, donde se originou a expressão“ erro crasso”.
Quer dizer: às vezes, nem a disciplina e o treino são suficientes para vencer um inimigo poderoso e igualmente disciplinado.
Portanto, pode- se dizer que o Grêmio de Luxemburgo terá boa sorte no Brasileirão, mas não se pode dizer que terá a melhor das sortes.

* Texto publicado nesta terça-feira, 28 de agosto

Sala de Redação

27 de agosto de 2012 11

Ouça o Sala de Redação desta segunda-feira

Os dois erros de Fernandão

27 de agosto de 2012 47

Fernandão errou ao escalar Kléber no meio-campo.

E errou ao tirá-lo do time.

Porque, embora Kléber não estivesse jogando bem, estava jogando como meio-campista. Assim, o Inter dominava o Gre-Nal, mesmo que sem organização. O Inter forçava, rondava a área e poderia, talvez, chegar ao empate.

Tirar Kléber, Fernandão poderia tirá-lo. Desde que o substituísse por um jogador que fizesse a função no meio. Não o fez. Terminou o jogo cheio de atacantes, e desta forma o Grêmio tomou o controle da partida. Em grande parte do segundo tempo, o Grêmio foi mais perigoso. Poderia ter ampliado, em vez de sofrer o gol.

O Grêmio fez o simples, e o simples, em geral, é o mais inteligente.

Fernandão errou no Gre-Nal

26 de agosto de 2012 72

É evidente que um gol no começo de um clássico determina o resto do jogo.
O Grêmio marcou aos sete minutos e decidiu que seguraria o resultado.
Segurou. Mas muito por causa de Fernandão.
O Inter estava conseguindo empacotar o Grêmio, dominava o jogo e, embora não penetrasse na área, dava impressão de que iria empatar. Aí Fernandão tirou Kléber e, com ele, suprimiu a força do meio-campo.
A partir dos 15 minutos do segundo tempo, o Grêmio controlou o jogo e poderia até aumentar o placar.
Fernandão errou, o Grêmio venceu jogando mal, e o Inter está fora da disputa do título.

Código David: Cem anos rodrigueanos

26 de agosto de 2012 10

Nelson Rodrigues completaria 100 anos agora, 23 de agosto.

Há quem o considere o maior cronista brasileiro de todos os tempos. Sempre digo que não existe isso de o maior ou o melhor em talento, inteligência ou beleza, porque tais valores são imensuráveis.

Mas, mesmo que sempre diga isso, gosto do exercício de fazer listas e classificações, ainda que,volta e meia, minhas listas e classificações sejam contraditórias – um dia digo que o maior pintor foi Van Gogh, noutro que foi Monet;  um dia declaro que a mulher mais linda do cinema foi Grace Kelly, noutro que é Angelina Jolie.

Enfim.

Com isso quero contestar os que consideram Nelson Rodrigues o maior cronista brasileiro de todos os tempos.

Para mim, o maior cronista brasileiro de todos os tempos vive e respira, sorve tintos franceses e é meu vizinho.

Chama-se Luis Fernando Veríssimo.

Tenho dito.

O melhor de Nelson

Mesmo assim, Nelson Rodrigues foi grande. Talvez tenha sido o segundo maior cronista brasileiro de todos os tempos.
Merece louvações em seu centenário, portanto. Só que não as farei, as louvações, por ter sido ele um cronista superior, e sim por ter sido um romancista superior.

“Asfalto Selvagem”, também intitulado Engraçadinha”, é um dos cinco melhores romances brasileiros de todos os tempos. Os outros quatro? Diga você qual é a sua lista.

É bom fazer listas!

O frasista

Nelson foi melhor frasista do que cronista. Repetia suas ideias, sublinhava-as a cada chance que surgia, e assim as consagrou. Tinha uma imagem não muito edulcorada do brasileiro. Algumas de suas frases mostram bem isso. A primeira e a segunda das que relaciono abaixo são um diagnóstico de alguns dos nossos tropeços olímpicos.

‘‘ O brasileiro não está preparado
para ser o maior do mundo em coisa
nenhuma. Ser o maior do mundo em
qualquer coisa, mesmo em cuspe
à distância, implica uma grave,
pesada e sufocante responsabilidade.

‘‘ Que Brasil formidável seria o
Brasil se o brasileiro gostasse
do brasileiro.

‘‘ O brasileiro, quando não é
canalha na véspera, é canalha
no dia seguinte.

‘‘ No Brasil, o marxismo adquiriu
uma forma difusa, volatizada,
atmosférica. É-se marxista sem
estudar, sem pensar, sem ler,
sem escrever, apenas respirando.

‘‘ No Brasil, só se é intelectual,
artista, cineasta, arquiteto, ciclista ou
mata-mosquito com a aquiescência,
com o aval das esquerdas.

‘‘ Está se deteriorando a bondade
brasileira. De quinze em quinze
minutos, aumenta
o desgaste da nossa delicadeza.

O QUE LER

Quando Ruy Castro lançou a biografia de Nelson Rodrigues, “O Anjo Pornográfico”, no começo dos anos 90, um amigo meu o abordoue comunicou, entusiasmado:

— Estou lendo o teu livro. É muito bom! O Ruy olhou para ele, perplexo, e perguntou:

— E conseguiu parar a leitura??? Uma imodéstia, mas com fundamento.

“O Anjo Pornográfico” é uma das melhores biografias já escritas no Brasil. Um livro alentado, mais de 400 páginas, que você lê em dois outrês dias devido, justamente, à cadência que o Ruy dá ao texto, uma cadência rodrigueana.  

Por que o título?

O próprio Nelson explica na página de rosto: “Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nascimenino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico”.

Leia.

Você não vai conseguir largar.

(Como os dias frios acabaram,
a série também acaba aqui)

A vingança

Todos os subalternos de Anselmo concordavam: ele era o pior chefe do mundo. Autoritário, prepotente, exigente em demasia, desconfiado, paranoico, inseguro, confuso, tudo de ruim que um chefe poderia ser, ele era. Os funcionários já não aguentavam mais.

– É falta de mulher – diagnosticava Otávio, com grande chance de estar certo, uma vez que Anselmo era feio, entediante e, embora fosse chefe, estava longe de ser rico, o que mantinha as mulheres a quilômetros dele.

Baseado nessa conclusão, o próprio Otávio gritou Eureka!, anunciando ter encontrado a solução para o problema:

– Vamos arrumar uma mulher para ele!

Os outros se entreolharam, não entendendo nada.

– Vamos procurar uma dessas damas da noite, uma linda, uma que ele jamais conseguiria por méritos próprios. Vamos
fazer uma vaquinha e pagar uma grana para ela mudar a vida dele, nem que seja por uma semana. Ele vai ficar apaixonado, vai ver que existe algo mais na vida além de trabalho!

Depois de alguma discussão, todos acharam boa ideia, reuniram o dinheiro e saíram à procura de uma moça capaz de
cumprir a tarefa. Encontraram Bárbara serpenteando numa das casas noturnas mais caras da cidade. Tratava-se de uma morena que fazia jus ao nome. Bárbara era isso mesmo.

E era também muito esperta.

Aproximou-se sutilmente de Anselmo e sutilmente o fisgou. Os funcionários notaram a diferença no comportamento
dele. Estava mais calmo, mais distraído, mais leve.

– O amor torna as pessoas leves no início– disse o Otávio.

O problema foi que aquela semana se passou, outras se passaram, e Anselmo continuava com Bárbara. Estavam namorando! Os funcionários da firma ficaram inquietos. Aquilo não podia dar certo. Pediram que Otávio fosse falar com ela.

Ele foi, muito preocupado. Que história era aquela? Por que ainda estavam juntos? Eles não iam mais lhe dar um centavo!

– Não quero o dinheiro de vocês – ela respondeu. – Vamos nos casar no fim do inverno.

– Mas não pode! – protestou o Otávio.

– Por que não? Ele gosta de mim. E já aviso: se ele descobrir algo, transformo a vida de vocês num inferno.

Ninguém contou nada a Anselmo. No fim do inverno, ele se casou com Bárbara. Na primavera, voltou a ser o pior chefe do mundo. Afinal, Otávio estava certo: o amor torna as pessoas leves no início.

Só no início…

Hoje, os funcionários têm duas aflições a lhes atormentar: o pior chefe do mundo e a dúvida se o que eles lhe deram foi uma vingança ou um prêmio

Túnel do Tempo: A comida de-li-ci-o-sa

25 de agosto de 2012 2

Aconteceu algo estranho com o meu nenê, ontem. Lá pelo meio da manhã, ele começou a chorar e não parou mais. Meu nenê não é de chorar. Faz cocô, não chora; faz xixi, não chora; bate com seu pequeno nariz na borda da mesinha, não chora também.

Macho, manja?

Mas, ontem, chorava às catadupas. Chorou uma hora inteira e ninguém sabia o que sucedia. Será fome? Providenciaram-lhe bananinha amassada, papinha, ele experimentou um bocado de ambas e refugou. Refugou! Estranho. Esse nenê não é de refugar comida. Sede? Vieram com um suco de alguma coisa, ele bebeu um pouco e prosseguiu com a choradeira, as lágrimas pulando no parquê como pingos de chuva. Quem sabe é um dentinho nascente que está a lhe rasgar a gengiva? Passaram-lhe Nenê Dent. Não adiantou. E agora? Com febre não estava. A garganta também parecia em ótimo estado, rosada como um salmão fresco. O que seria, Cristo???

Aí a Bia, a Superintendente de Administração Doméstica, sugeriu:

- Será que ele não quer leite?

Leite? Hm… Por que não tentar? Assim foi feito. Quando ele viu aquela mamadeirona, uau!, disse assim:

- Abu!

E foi uma festa. Bebeu tudo sofregamente e, logo depois, seu costumeiro bom humor estava de volta, ele ria do mundo atrás de suas bochechas rosadas e gordinhas.

Refleti muito a respeito deste caso caseiro. E concluí que entendo meu filhinho. Sou como ele. Ou melhor: ele é como eu. Quer ver? Tempos atrás, traçava cedilhas e tils, aqui na Redação, e sentia uma fome de gordo. Liguei para a Marcinha:
– Estou sentindo uma fome de gordo, vamos a algum restaurante comer gordamente?

Ela respondeu que não era necessário: na noite anterior havia recebido algumas amigas, o jantar sobrara e agora tinha uma comida de-li-ci-o-sa à disposição. Uma comida deliciosa. Era disso que eu precisava. Era, sim, senhor.

Em meia hora, cheguei em casa. A mesa estava posta, taças de cristal para o vinho, guardanapos de pano e tudo mais. Esfreguei as mãos:

- Agora, a comida de-li-ci-o-sa! Oh, rapaz, como quero uma comida de-li-ci-o-sa nesse momento!

Então, a Marcinha fez aterrissar na minha frente os seguintes pratos: musse de atum, quiche e alface. Comi em cinco minutos e fiquei esperando, a perna batendo de impaciência. A Marcinha me olhou:

- Que foi?

- Ué, estou esperando a comida de-li-ci-o-sa.

- Mas é essa!

- Qual?

Ela apontou para o musse e a alface e o quiche:

- Essa!

Abri a boca, pasmado. Cara, meu deu um mau humor, mas um mau humor… Nunca fico de mau humor, mas, se estou com fome e me prometem uma comida de-li-ci-o-sa e me servem musse de atum e alface e quiche, aí, por Deus, aí fico de mau humor. Transformo-me em um tigre com dor de dente.

Não falei nada, não reclamei, mas a Marcinha percebeu. Começou a chorar:

- Não gostou da comida de-li-ci-o-saaaaaa…

Não consegui mentir:

- É que pra mim isso não é comida, beibe.

Exatamente como meu filhinho: bananinha amassada, papinha, sopa, suquinho, nada disso para ele é comida. Comida, para ele, é leite! Ele não se contenta com qualquer coisa. Só se satisfaz com leite. Leite, entenderam! Leite!

O Flamengo também é como meu nenê e como o pai dele. O Flamengo ousa, busca grandes jogadores e, na sua torcida, vê-se uma faixa estendida, como se viu no jogo de sábado:

“Brasileiro é obrigação”.

Obrigação! O Campeonato Brasileiro! Nada desses paliativos como classificação para Libertadores ou Sul-Americana ou não cair para a Série B. O Flamengo quer o título. A taça. O leite!

Enquanto isso, diz-se que, no Beira-Rio, não existe pressão. Lá, o time pode perder à vontade que ninguém reclama. Uma pena. Porque, como bem sabe o meu nenê, quem não chora, não mama.

* Texto publicado em 28/05/2008

Sala de Redação

24 de agosto de 2012 4

Ouça o Sala de Redação desta sexta-feira.

Um pai com medo

24 de agosto de 2012 15

Carlos Stortti é um pai desesperado.
Dias atrás, ele enviou e- mail para um grupo de jornalistas a fim de expor seu desespero.
Muito apropriadamente, o Pedro Ernesto aproveitou para ler a mensagem no Sala de Redação no dia em que o coronel Freitas, da Brigada, visitava o programa.
O texto, simples porém comovente, dizia o seguinte: “ Medo total.
Meu filho de 15 anos já foi vítima de assalto três vezes em 2012.
Uma vez na saída do Shopping Total e duas vezes em praças à luz do dia.
Assaltos com armas – faca e arma de fogo.
O guri está traumatizado pelo resto da vida.
Quantos assaltos ainda sofrerá? Segurança zero.
Onde está a Brigada Militar? Onde está Polícia Civil? Onde está o governo? Parece que nos abandonaram”.
É claro que nós, brasileiros, temos vários problemas de segurança pública.
É claro que a culpa não é da Brigada Militar ou da Polícia Civil.
É claro que, com leis e governantes mais eficientes, a situação poderia melhorar.
Mas não foi nada disso que mais chamou a minha atenção no e- mail do pai angustiado.
O que mais chamou a minha atenção foi o topo do texto: “ Medo total”.
No momento, esse é o terrível problema desse pai e desse filho.
Não são os assaltos ou a chance de que ocorram de novo.
Não.
É o medo.
Do que o homem sente medo? Da possibilidade.
Coisas ruins podem estar à espreita ali adiante, na esquina ou numa curva fechada do tempo.
Não basta você estar bem agora, você quer TER CERTEZA de que estará bem no futuro.
Comecei a experimentar esta sensação depois que nasceu o meu filho.
Porque um filho, como bem sabe o pai que escreveu o e- mail, um filho é o futuro.
O futuro de pijama e cabelinho molhado, olhando para você e dizendo, sorridente, como o meu guri disse, outro dia: – O papai cuida de mim.
Aquela frase, em vez de me encher de júbilo, encheu- me de preocupação.
Sim, o papai cuida.
Tenta cuidar sempre.
Sempre tentará.
O Estado, que seria o pai de todos, também deveria tentar cuidar sempre.
Mas como cuidar sempre? O pai não vai estar na escola quando o valentão pedir briga, nem estará junto na balada dos fins de semana da adolescência, a polícia não estará vigiando em todas as ruas da cidade, e há a ameaça das doenças, dos acidentes de carro, dos amores frustrados, das dores da alma.
O papai cuida.
Mas não é o suficiente.
O que fazer, então? Não sentir medo.
Eis o desafio do pai que escreveu o e- mail, do filho que foi assaltado e de pais e filhos mundo afora: não sentir medo, a despeito dos perigos do mundo.
Porque um pouco de medo até é bom, para que você tome precauções.
Mas medo demais paralisa.
E o futuro virá sem falta.
Bom ou ruim.
Com ou sem medo.

* Texto publciado nesta sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Som de Sexta

24 de agosto de 2012 9

Nos velhos tempos nós chegávamos no Pimplus, ali na Getúlio, e o Cigano, no palco, começava: “Quando eu chego em casa nada me consola…”