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Posts de outubro 2012

Sala de Redação

31 de outubro de 2012 12

Ouça o Sala de Redação desta quarta-feira.

Túnel do Tempo: TENTAÇÃO - 9° capítulo

31 de outubro de 2012 4

Devolver o dinheiro??? Que idéia escalafobética era aquela de devolver o dinheiro???


— Não posso! — exclamei. — Não posso, Renata Inês! Como é que vou devolver o dinheiro, Renata Inês??? Por favor, Renata Inês!!!
— É a única saída, Rudi Orlando — ela estava realmente muito séria. Séria como uma vegetariana.
— Mas, pensa, Renata Inês. Pensa! Podemos ir para a Europa com esse dinheiro. Para as Ilhas Maldivas! Podemos passar a vida toda viajando e curtindo, comendo camarãozinho frito, bebendo quipe culer, limpando o suor da testa com lenços umedecidos. É muito dinheiro, Renata Inês!

Ela sorriu, enfim.
— Gostei disso — amaciou a voz, e sua frase seguinte saiu como se fosse um afago em meus tímpanos cansados: — Gostei de saber que você tem planos comigo. Mas agora pense: seríamos perseguidos por onde fôssemos. A empresa colocaria até a Interpol atrás de nós. Que vida levaríamos? De fugitivos? De desgarrados? De Bins Ladens? Não… — ela balançou a cabeça. — Não… Não quero levar essa vida. Quero tranqüilidade, Rudi Orlando. Eu quero uma casa no campo, onde eu possa ficar do tamanho da paz. É por isso que você tem que devolver o dinheiro, Rudi Orlando.

— De que jeito??? — comecei a ficar nervoso. Muito mais nervoso do que estava até então. — Se devolver o dinheiro, vou ser preso! Você não pensou nisso??? Eu no Presídio Central, com aqueles presidiários todos loucos por pegar uma carne nova. O que eles iam fazer comigo, Renata Inês?!? Eu ia virar mulherzinha deles, Renata Inês! E eu não quero ser mulherzinha…

— Claro que pensei nisso. Você não vai ser preso, Rudi Orlando.
— Como não??? – estava extremamente nervoso.
— Escuta meu plano: ficamos mais um dia aqui. Depois, voltamos a Porto Alegre. Na terça, bem cedinho, antes da empresa abrir, você vai lá, entra, coloca o dinheiro de volta no cofre e vai embora. Você tem a chave, ora! Não precisa mais trabalhar lá, não precisa nem dar explicação. Precisa apenas devolver o dinheiro. Eu vou junto com você. Depois que você fizer isso, vamos os dois para Pinhal. Direto para Pinhal! Tenho uma casa lá. Podemos viver com simplicidade em Pinhal. Você abre um pequeno escritório de contabilidade, eu vou fazer sanduíche de lombinho para vender na praia durante o verão. Faz o maior sucesso, o meu sanduíche de lombinho.

— Pinhal?… — A descrição que Renata Inês fizera do nosso futuro me seduzira um pouco. — Tenho uma casa em Pinhal…
— Pois é! Podemos vendê-la e usar o dinheiro para comprar um terreno que tem ao lado da minha. Podemos plantar uma horta, e tudo mais. Plantaremos brócolis, chicória… Não seria lindo?
— É… Nunca comi chicória…
— Mas aí você tem que devolver o dinheiro, Rudi Orlando!
— Aiaiai…
— É o certo a fazer, Rudi Orlando. O certo! Olha: essa nossa noite, esse nosso reencontro, toda essa coincidência me despertou muitos sentimentos. Acho que, ao reencontrar você, me reencontrei, Rudi Orlando. Por que não tentar? Vamos tentar! Vamos?

Respirei fundo. Sorri:
— Vamos!

Ela bateu palminhas de felicidade.
— Que maravilha! — festejou. — Iabadabadu!!!

E eu:
— Iabadabadu!!!

E nós dois:
— Iabadabadu!!!!!!

E pulou em cima de mim. Nua. Nua, nua, nua, a mulher mais nua de Punta del´Este.

Foram horas de amor como jamais havia experimentado. Ela fez até a famosa %22trançada à ioguslava%22, que loucura uma trançada à ioguslava. Uma sintonia toda especial tinha se estabelecido entre mim e Renata Inês.

Ah, Renata Inês.
Renata Inês, Renata Inês, Renata Inês…

Na terça-feira, bem cedo, nos encontrávamos em frente à empresa onde eu trabalhava. Na minha mão direita, a mala cheia de dinheiro. Na esquerda, a mão macia de Renata Inês.
— Vou ficar aqui na esquina, esperando por você — prometeu ela. E acrescentou, suavemente: — Vai lá. Vai…

Enchi os pulmões de ar. Apertei mais uma vez a mãozinha de Renata Inês. Larguei-a, em seguida. E atravessei a rua. Sentia o peso da mala repleta de dinheiro e pensava: %22Que vou fazer? Meu Deus, o que é que vou fazer?%22

O que ele vai fazer? Ahn??? Saiba no próximo e derradeiro capítulo de… TENTAÇÃO!!!

Texto publicado em 19/10/2007

Um Grêmio precário no Olímpico

30 de outubro de 2012 110

A vitória do Grêmio por 1 a 0 sobre o Millonarios, no Olímpico, foi um ótimo resultado.

Para o Millonarios.

Não sei se o Grêmio terá forças para segurar o resultado na Colômbia, no dia 15.

Certo, até lá tudo pode mudar, mas, hoje, o time do Grêmio, com seus desfalques, foi muito precário.

O melhor jogador em campo foi um zagueiro, Gilberto Silva. O segundo melhor, outro zagueiro: Naldo.

Os dois laterais, Pará e Anderson Pico, são, no máximo, medianos. Não sabem o que fazer com a bola, quando se surpreendem com ela no pé.

Leo Gago tem um chute forte, e só, mas esse chute só lhe vale quando ele acerta no gol, o que é raro.

Marco Antônio não é um reserva desprezível, mas é um reserva.

Moreno é um dos poucos jogadores do Grêmio que marca gols, mas é um atacante boliviano, que se comporta como atacante boliviano, algo que pode ser ótimo para os bolivianos, mas nem tanto para os brasileiros, que estão acostumados com um futebol mais refinado, mais decisivo, menos… boliviano.

Finalmente… Leandro… Vou ter que admitir que o Sant’Ana tem razão: Leandro, mesmo tendo força e velocidade, não é atacante para o Grêmio. Está muito abaixo do esperado.

O time do Grêmio, sem todas as peças titulares, fica torto, fica rengo, fica fraco.

Repito: não sei se conseguirá suportar a pressão na Colômbia.

Salvem os humanos!

30 de outubro de 2012 25

Recebi uma correspondência da Secretaria do Meio Ambiente a respeito do texto que escrevi sobre o urubu que fez um ninho numa sacada de um prédio da Bela Vista.

Um trecho interessante do texto, assinado por Soraya Ribeiro, Coordenadora da Equipe de Fauna Silvestre da Smam:

Urubus são comuns na cidade, são animais silvestres como qualquer outra ave colorida e bonita que apreciamos nos parques. Todo animal silvestre cumpre sua função no ambiente, por isto, é protegido pela Lei 9.605 de 1998, a lei de crimes ambientais. As urubus controlam a propagação de  animais que poderiam se tornar pragas na cidade. Também são animais que alimentam-se de matéria orgânica em decomposição.

 

Sobre ser mais fácil matar um fiscal da SMAM, realmente, as leis ambientais são leis mais rígidas em certo ponto sim, mas isto porque interferências sobre o meio ambiente causam danos a toda um população e não apenas ao indivíduo. Fiscais e técnicos de meio ambiente cumprem a função de manter o principio constitucional de “todos tem direito ao ambiente saudável”. Este comentário ficou muito na contramão da evolução ambiental e da ética que tanto almejamos.

Veja que espetáculo, prezado leitor. A Secretaria humana admitindo que é mais grave desalojar um animal de uma sacada de apartamento do que matar uma pessoa. A Secretaria humana em defesa do urubu.

Eu, por minha parte, nada tenho contra urubus nem contra quaisquer bichinhos, exceto bactérias nocivas, vírus e alguns vermes. No entanto, assistindo a todo esse debate, começo a pensar que deveríamos defender reservas naturais para seres humanos. Como, por exemplo, as cidades. Ou talvez nem tanto. Talvez apenas os apartamentos e casas em que vivam esses desamparados humanos. No caso deste habitante da Bela Vista, um urubu invadiu o seu habitat, mas não existe Secretaria para protegê-lo. O urubu, se tivesse seu ninho retirado da sacada, decerto que não desistiria de constituir família. Não, claro que não, urubus são muito ciosos da vida a dois, filhos e tudo mais. É provável que o urubu despejado fosse construir seu ninho em outro local mais adequado. Logo, a retirada do ninho seria plausível, seria aceitável, seria até… inteligente. Mas o problema é que nós, humanos, não temos Secretaria para cuidar de nós… Temos que nos contentar com a “evolução ambiental e a ética” que eles tanto almejam.

Vamos lutar por nossos direitos! Por uma Secretaria de Defesa do Meio Ambiente Humano já! Por reservas para seres humanos! Salvem-nos da extinção!!!

 

 

Túnel do Tempo: TENTAÇÃO - 8° capítulo

30 de outubro de 2012 1

Contei tudo. Mas tudo.


Só que, ao contrário do que esperava, não me senti aliviado. Senti-me apreensivo. Renata Inês fincou-me um olhar grave, enquanto eu narrava a história, e não me livrei da gravidade daquele olhar nem ao concluir a narrativa. Terminei, e ela ficou em silêncio. Pensando. Deu-me um aperto no peito. Um aperto cada vez mais forte, cada vez mais forte, que chegava a doer.

Renata Inês não me olhava, agora. Olhava para o vazio. Para algum ponto vago na parede branca. Estava nua e linda, e eu estava nu e indefeso. Era como me sentia: indefeso. Havia removido minhas defesas, tinha entregado minha alma a Renata Inês, e agora dependia dela. Da sua compreensão. Da sua boa vontade.

Renata Inês poderia sair dali naquele momento e me entregar à polícia, poderia chantagear-me, poderia abandonar-me e nunca mais falar comigo. Essas possibilidades me apavoravam. Precisava descobrir o que se passava pela cabeça dela. Precisava saber o que ela pensava de mim. Disse, com medo:
— Renata Inês…

E ela, balançando a cabeça, como em desaprovação, ainda sem me encarar:
— Rudi Orlando…

Eu, agora como se implorasse:
— Renata Inês!

Ela, ainda mais decidida na sua desaprovação:
— Rudi Orlando!


Eu havia estragado tudo. Oh, Deus, por que fui abrir a boca? Por quê? Idiota! Sempre falava demais! Esse era um dos meus maiores defeitos. Podia ter dito que o dinheiro era de uma herança, que não queria mais voltar ao Brasil por causa da minha mulher, que queria viajar com Renata Inês pela Europa, sei lá, poderia ter inventado qualquer história, menos contar a verdade. Fora burro. Como fora burro!

— Renata Inês — repeti, desesperado. — Por favor, diga alguma coisa.
— Vou dizer — ela ainda estava balançando a cabeça negativamente, ainda estava olhando para o nada.
— Diga, então.
— Vou dizer.
— Por favor.

Ela olhou para mim. Havia determinação em seu olhar. Seus olhos tingiram-se de verde-escuro, de uma tonalidade que jamais vira em Renata Inês. Despertou-me certo medo, mas também excitação. Confesso: a mutação de Renata Inês, sua expressão firme, a luz feroz em seus olhos, tudo isso deixou-me emocionado.

Ela suspirou, enfim, e enfim falou:
— Você vai ter que fazer uma coisa.
— O quê? O quê???
— Promete que vai fazer o que eu pedir?
— P-prometo.
— Jura?
— Juro!
— Pela minha morte?
— Pela minha.
— Não. Pela minha.
— Isso não.
— Jura!
— … — suspirei. — Tá bom. Eu juro.
— Pela minha morte.
— Juro pela sua morte.
— Que vai fazer o que eu pedir.
— Vou fazer o que você pedir.
— Diga!

Vacilei. Mas obedeci:
— Juro pela sua morte que vou fazer o que você pedir.
— Então…
— Então?…
— Então quero que você devolva esse dinheiro.


PUTZ!!! E agora? Rudi Orlando vai cumprir o prometido?
Saiba amanhã, em mais um capítulo de… TENTAÇÃO!!!

Texto publicado em 18/10/2012

Sala de Redação

30 de outubro de 2012 9

Ouça o Sala de Redação desta terça-feira.

Um urubu na sacada

30 de outubro de 2012 37

Um amigo meu tomava café da manhã, dia desses, quando viu um urubu olhando para ele. Um urubu, por Deus. Estava empoleirado na sacada do apartamento, com olhar atento, como atento é o olhar das aves, porém sereno, quase imóvel.

Você já viu um urubu de perto? É um bicho de aparência ameaçadora – grande e muito feio. Não tem a fama que tem à toa. Só a torcida do Flamengo gosta de urubu. Então, lá estava aquele urubu observando o meu amigo. O apartamento dele fica ali na Bela Vista. É novíssimo, meu amigo comprou não faz muito tempo. Ele é um homem bem postado na vida, é um ser urbano, não está acostumado com animais que não sejam convictamente domésticos, sobretudo se forem aves de rapina de bom porte.

O que fazer com aquele urubu? Se tentasse enxotá-lo, como ele reagiria? Um urubu, em situação de estresse, torna-se agressivo? Como enfrentar um urubu em fúria? O urubu o debicaria e lhe meteria as garras? Meu amigo não tinha arma em casa… Por via das dúvidas, optou pela segurança máxima. Escorregou até a porta da sacada e a fechou cuidadosamente, torcendo para que o urubu se transferisse para outra sacada ou galho de árvore, o que aconteceu mais tarde. Mas nos dias seguintes o urubu, ou algum amigo ou parente dele muito parecido, voltou.

Meu amigou tomou-se de aflição. Ele não sabia que a cidade era frequentada por urubus. Saiu pelo prédio a investigar o que estava ocorrendo. Por que um apreciador de carniça rondava seu prédio? Haveria alguma vaca morta nas vizinhanças? Acabou descobrindo. Ocorre que aquele é um prédio realmente novo. Muitos dos proprietários demoraram meses a se mudar.

Foi num desses apartamentos vazios que uma jovem família de urubus fez seu ninho. Quando o dono humano do apartamento chegou, deparou com aquele ninho de urubus instalado na sacada. Desagradável. Muito consciencioso, o ser humano decidiu que não iria simplesmente retirar o ninho e atirá-lo no lixo, como faria um homem que não respeitasse a Natureza e os animais e a vida, toda aquela coisa. Chamou a Secretaria do Meio Ambiente para que fosse adotado o procedimento correto. Decerto as autoridades saberiam o que fazer com um ninho de urubu construído em uma sacada de apartamento.

Resultado: a secretaria o notificou. Por algum motivo, os urubus são animais protegidos pela lei ambiental. Remover seus ninhos é crime. O dono humano do apartamento terá de conviver com os urubus até que os filhotinhos cresçam, se desenvolvam, ganhem independência e se mudem de lá por vontade própria, processo que a secretaria calcula que se dará em três ou quatro meses.

Seria menos grave dar um tiro no fiscal da secretaria do que remover a família de urubus da sua casa. É justo isso com o dono do apartamento? É correta tamanha atenção com urubus? Eles, os urubus, merecem toda essa consideração? Precisam ser preservados, afinal? E o investimento do ser humano no apartamento e a sua tranquilidade e o seu dia a dia e, afinal, a sua paz, isso tudo também não deve ser preservado? Como são delicadas essas questões legais…

No caso do gol com a mão de Barcos que a arbitragem anulou com auxílio da TV, o que vale mais: o Direito ou a Justiça? O que é legal? Ou o que é certo? A anulação do gol foi incorreta do ponto de vista técnico, mas pelo menos serviu para corrigir uma injustiça. Talvez seja ruim para a lei do futebol, mas foi bom para o futebol.

Sala de Redação

29 de outubro de 2012 31

Ouça o Sala de Redação desta segunda-feira.

Túnel do Tempo: TENTAÇÃO - 7° capítulo

29 de outubro de 2012 3

Estava enlevado por Renata Inês, estava mergulhado inteiro no verde aquoso dos olhos de Renata Inês, estava levitando em meio ao hálito de bombom Ouro Branco de Renata Inês, e vi que havia ternura entre nós. Será desta vez, Renata Inês? Será desta vez?


Oh, eu era um poeta com Renata Inês por perto. Sorri. Sabia que sorria bobamente, mas ainda assim sorri. Bobamente. Ela sorriu de volta. Lindamente.

— Eu tenho tanto pra te falar — confessei. — Mas com palavras não sei dizer. Como…
— Peraí! — interrompeu ela, levantando-se. — Ó! Estão chamando o meu vôo! Vamos nos encontrar no L%27Auberge?
— L%27Auberge?
— A nossa pousada! Esqueceu?
— Ah, é… Vamos. Amanhã de manhã? Posso pedir um café pra nós dois…
— Isso. Um amigo meu, o Constantin, disse que lá tem uns wafles deliciosos, com doce de leite Lapataia, conhece?
— Não conheço. Nem o Constantin nem o doce de leite Lapataia.
— Então pelo menos o doce de leite vamos conhecer lá, combinado?
— Combinado.
— Que horas você chega?
— Amanhã de manhã estarei lá com certeza.
— Nos vemos lá, então.
— Certo.

E lá se foi Renata Inês, espalhando sua beleza pelos corredores do Aeroporto Salgado Filho, deixando-me com meus suspiros. Pela primeira vez em semanas, sentia-me feliz. Sentia-me um passarinho. Rudi, o colibri do amor redescoberto!

Horas depois, mastigava o wafles famoso e olhava para o umbigo de Renata Inês. Que, a propósito, também era muito famoso. Todos na faculdade falavam daquele umbigo. Aquela barriga perfeita. E era. Juro. Era. Uma barriga morena, lisa e macia. Como gostaria de beijar aquela barriga, de imiscuir a língua pelos nós daquele umbigo. Ficaria 45 minutos só lambendo aquela barriga, por Deus!

Renata Inês sabia que me provocava com aquele umbigo exposto. Tenho certeza de que por isso o expusera. Ficamos conversando por horas. Horas lânguidas, horas doces, horas sensuais, deliciosamente lentas. Conversávamos comendo wafles e bebericando champanhe. Renata Inês me contou tudo sobre o que fizera nos anos em que não nos vimos. Contei a ela sobre Luísa, sobre minha desconfiança, sobre a saudade que sentira dos nossos anos de faculdade. Mas vacilei em contar-lhe sobre o roubo. Não tinha a certeza de como ela ia receber a informação.

Era noite, já, quando, estimulado pelo álcool, aproximei-me de Renata Inês, estendi a mão e alisei sua barriga pétrea. Renata Inês não protestou. Não retirou minha mão. Tampouco sorriu. Estava séria quando murmurou, apenas:
— Rudi Orlando.

Só isso. Nada mais. E bastou para me deixar arrepiado do calcanhar à nuca. Mergulhei no vale profundo dos olhos verdes dela e disse:
— Renata Inês.

E ela:
— Rudi Orlando.

E eu:
— Renata Inês.
— Rudi Orlando.
— Renata Inês.
— Rudi Orlando.
— Renata Inês. Renata Inês, Renata Inês, Renata Inês, Renata Inês, Renata Inês, Renata Inês.
— Rudi Orlando. Rudi Orlando, Rudi Orlando, Rudi Orlando, Rudi Orlando, Rudi Orlando.

E foi assim, entre Renatas Ineses e Rudis Orlandos, que rolamos pelo chão do bar do hotel e acabamos na cama king size do meu quarto, na mais estonteante noite de amor da minha vida, uma noite pela qual ansiei durante tantos anos e que, ao se realizar, compensou a minha espera.

De manhã, olhei para o corpo nu de Renata Inês e lhe disse o seguinte:
— Renata Inês.

E ela respondeu:
— Rudi Orlando.

E rimos e suspirei e falei:
— Tenho que te contar uma coisa.

Ela sorriu:
— O que é, meu bem?


Adorei que ela me chamou de meu bem. Suspirei de novo. Tomei coragem. Tasquei:
— Eu sou um ladrão.

Renata Inês riu alto. Não havia acreditado.
— Não estou brincando — repeti. — Eu sou um ladrão.

Renata Inês me encarou, agora séria, agora acreditando. Percebi que aquela informação lhe calara fundo na alma. Mas não ia voltar atrás. Ia contar tudo. Tudo. Ela podia me entregar, ela podia me rechaçar, ela podia sair correndo, mas eu não tinha como esconder nada de Renata Inês. Não depois daquela noite. Contaria tudo!!!


E agora? Como Renata Inês vai reagir? Ahn?
Saiba amanhã, em mais um capítulo trepidante e estimulante de… TENTAÇÃO!!!


Postado por David

Uma História do Mundo

29 de outubro de 2012 8

Toda sessão de autógrafos traz um dilema: as pessoas estão ali para ter algum contato com você, mas olhe para aquela fila… No sábado, na sessão de autógrafos do meu livro “Uma História do Mundo”, a fila serpenteava praça adentro. Então, eu tentava dar atenção para cada leitor que chegava, mas não por tempo em demasia, para não deixar os outros esperando além do tolerável. Houve gente que ficou mais de uma hora aguradando uma dedicatória. Houve gente que veio do Interior para colher um autógrafo. Cara, isso é emocionante. Isso faz com que as coisas valham a pena. Só tenho que agradecer pelo carinho dos leitores.

O livro já está na segunda edição. A primeira se foi antes mesmo do lançamento. Que venham outras!

O clima do domingo

28 de outubro de 2012 1

Eu, como a Elis e o Zé Rodrix, quero uma casa no campo, com o silêncio das línguas cansadas.

Código David: O casamento dos séculos

28 de outubro de 2012 0




Há 500 anos, um casamento mudou a SUA vida. Direi por quê. Esse casamento ocorreu num 28 de outubro como o deste domingo, por coincidência o dia em que, às margens da feérica Avenida Paulista, no peito pulsante das finanças do Brasil, realiza-se um não menos pulsante Festival de Noivas. Li sobre o Festival esta semana, e imagino as noivas em festa na Pauliceia.

Porém, nenhuma das futuras esposas que alegres circularão por São Paulo neste domingo haverá de protagonizar cerimônia semelhante à do casamento a que me refiro: o de Catarina de Médicis com Henrique II, mais tarde consagrados rei e rainha da França. Primeiro vamos falar da cerimônia. Naquele tempo, os padres não presidiam casamentos, mas o de Catarina teve a presença de ninguém menos do que o chefe de todos os padres, o papa, que era seu tio.

A festa durou dois dias. No segundo, uma bela cortesã de Marselha resolveu temperar o vinho dos convidados mergulhando seus seios nas taças cheias. As outras mulheres presentes gostaram da ideia e imitaram a marselhesa. Em alguns minutos, a festa virou orgia e como orgia seguiu madrugada afora. A essa altura, no entanto, os noivos já haviam sido conduzidos pelo pai de Henrique, o rei, para o quarto nupcial. O próprio rei os orientou como proceder. E eles procederam.

No dia seguinte, o papa visitou o quarto para conferir se haviam procedido. De fato, consummatun est. Ansioso para que a sobrinha engravidasse, ele permaneceu em Paris mais alguns dias, mas… nada. Muito prático, o santo padre sugeriu que ela experimentasse a fertilidade de outros homens, só que Catarina já estava apaixonada por Henrique e manteve-se fiel a ele, como continuaria por toda a vida. Mesmo um casamento por encomenda pode gerar amor verdadeiro.


A grande invenção de Catarina

A cerimônia pôde ser considerada no mínimo alegre, já sabemos, mas, afinal, por que aquele casamento foi tão importante? Arrá! Porque, transformada em rainha, Catarina transformou os franceses, que transformaram o mundo. Catarina não era francesa; era florentina.

Na época, Florença era a cidade mais sofisticada do mundo. Os franceses, em comparação com os florentinos, não passavam de grosseirões. Foi Catarina quem os ensinou modos à mesa. Hoje, você come com garfo por causa dela. Catarina, aliás, gostava bastante de comida. Depois dos 40 anos, engordou a tal ponto que, um dia, uma égua não suportou seu peso, desabou com ela sobre o lombo e faleceu. E aí está outro gosto de Catarina: cavalgar.

O problema é que, na época, as mulheres não usavam nada sob os amplos vestidos.Assim, quando elas iam montar, os homens em volta se divertiam com a paisagem de suas intimidades. Catarina, engenhosa, inventou algo para solucionar a questão: a calcinha, um pequeno pedaço de tecido para a região pudenda, mas um grande passo para a Humanidade. Catarina também instituiu o 1º de janeiro como primeiro dia do ano civil entre os franceses – antes dela, a Páscoa era comemorada nessa data. Um de seus filhos foi o disseminador do emocionante jogo de bilboquê.

E a outra inspirou um bom romance de Dumas, que inspirou um bom filme com a ótima Isabelle Adjani: a Rainha Margot. Não são motivos suficientes para comemorar a data do casamento de Catarina?


A gangorra

Um importante juiz de direito amigo meu disse outro dia uma frase que me ficou latejando no cérebro:

– Liberdade e segurança estão numa gangorra: quanto mais se tem uma, menos se tem a outra.

Perfeito. Uma sociedade madura, sabedora desta verdade, tem de buscar o equilíbrio, tem de compreender o momento em que uma tábua da gangorra deve estar mais alta e a outra mais baixa, e as razões disso. O indivíduo também precisa ter essa consciência. Na infância, a criança bem cuidada passa os dias obedecendo ordens dos adultos. Ela não tem liberdade, mas está protegida – tem segurança. Na adolescência, ela se rebela, ela cai no mundo, ela busca liberdade – e corre riscos, e tem menos segurança. O adulto, à medida que o tempo passa, vai lidando com essa gangorra. Ou, pelo menos, deveria saber lidar com ela. Em seu livro de viagens, a Martha Medeiros diz:“A liberdade é uma ilusão, eu sei. Ninguém é inteiramente livre, a não ser que não possua vínculos”. Exatamente: vínculos são laços afetivos, e laços prendem. O casamento tem essa função, de ser um laço, de unir. Donde, seu símbolo é uma aliança, que nada mais é do que um elo. Uma pessoa casada é menos livre, mas é mais segura.Você é que decide em que lado da gangorra vai sentar.


O que ler – Um lugar na janela

Li o novo livro da Martha Medeiros, Um lugar na janela – relatos de viagem, e depois fui conversar com ela. Então, a Martha, modesta como é, disse, com intenção de se menoscabar, que o texto do livro às vezes parece-lhe ter sido escrito por uma menina de 13 anos de idade. Dei um tapa na testa. Mas é isso mesmo! O livro é tão genuíno, tão puro, que dá a impressão de ser obra de uma menina. E é justamente por isso que “Um lugar na janela” é encantador. Esta é, precisamente, a palavra: encantador. Trata-se de um livro sem dissimulações, como todas as pessoas deveriam ser. Martha não esconde o seu deslumbramento com os lugares que visita e, assim, deslumbra o leitor. Mais do que isso: faz com que o leitor se sinta jovem, talvez com 13 anos. Uma bela idade para se ter.

Túnel do Tempo: TENTAÇÃO - 6° capítulo

28 de outubro de 2012 0

— Renata Inês!
— Rudi Orlando!

E ambos em coro, como se fosse ensaiado:
— Que surpreeeesa!!!

Renata Inês tinha sido minha colega de faculdade. Era uma das poucas pessoas que conhecia o meu nome completo. Rudi Orlando. Como tenho ojeriza a esse nome! Ela, claro, chamava-me assim para me provocar. Durante quatro anos Renata Inês me chamou de Rudi Orlando. Durante quatro anos, fui apaixonado por Renata Inês. Durante quatro anos, assediei Renata Inês. Durante quatro anos, Renata Inês me rechaçou com firme delicadeza. Quando lhe dizia, e dizia-lhe sempre:
— Te amo. Te amo, te amo, te amo. Teamoteamoteamoteamoteamoteamoteamo.

Quando dizia isso, ela respondia com a pior frase que um homem pode ouvir de uma mulher nessas circunstâncias:
— Você é meu melhor amigo.

Como odiava ouvir aquilo! E ouvia semanalmente. Eu e Renata Inês estávamos sempre juntos, na faculdade e fora dela. Éramos os melhores companheiros. Uma amizade bonita, mas nada além de amizade… E isso não era o pior. O pior é que Renata Inês era adepta do amor livre e fazia sexo com todo mundo, mas todo mundo mesmo.

Renata Inês repoltreou-se com metade do corpo discente da faculdade e com pelo menos um terço do corpo docente. Até com Josias, um caipira mineiro que nem completou o curso. Repimpou-se com boa parte das mulheres também. E com o dono da cantina, um gordo que usava bigode, onde já se viu transar com um cara de bigode…

Comigo, não.
Comigo Renata Inês tinha tão-somente amizade. Jamais beijei sua boca carnuda, jamais apalpei suas carnes rijas, jamais tive Renata Inês nos braços numa noite no Doutor Jeckyll, nós dançando Peter Frampton agarradinhos. Parecia que a cidade inteira conhecia Renata Inês biblicamente.

Menos eu.
Agora, ao contrário do que pode dar a impressão, a aparência de Renata Inês não era a de uma devoradora de homens. Não. Tratava-se de uma meiga, Renatinha. Seus olhos doces e verdes transmitiam a paz das hortênsias de Gramado. Caminhava pelo mundo do alto de pernas longas e suavemente torneadas, é verdade, mas jamais a vira expô-las como minha mulher Luísa fazia. Renata Inês nunca havia usado minissaias de quatro dedos de altura, como Luísa, nunca aprofundara os decotes em abismo, como Luísa, nunca se portara como uma pantera.

Mas era.
Era uma pantera.
Eu sabia disso, embora jamais houvesse experimentado uma porção disso.

Naquela noite, olhando para ela na sala de embarque do aeroporto, réstias da antiga paixão aqueceram meu peito. Porque, naquele momento, eu era um homem só. Um fugitivo. E um fugitivo que sabia que sua ausência não despertaria saudade em ninguém. Não tinha família, meus amigos eram raros, minha mulher me traíra.

Não podia nem desabafar com ninguém, não podia nem contar minhas angústias a qualquer ser humano. Mas ali estava uma pessoa que um dia gostara de mim. Que sentia amizade por mim. E que eu um dia amara.

Olhei para seu rostinho de querubim. Ela sorria.
— Você também vai para Punta! — falou, como se aquilo a encantasse.
— Vou!
— Vamos no mesmo vôo, então!
— Não… Na verdade, não. Vou passar em Buenos Aires antes…

Ela piscou:
— Por quê?
— Ah… Tenho que resolver alguns negócios lá. Mas amanhã de manhã estou em Punta. E nós ficaremos na mesma pousada, não é?
— É mesmo! Que coincidência feliz!

Feliz. Ela disse feliz! Aquela palavra me ouriçou todo. Tive vontade de gritar:
— Te amo. Te amo, te amo, te amo. Teamoteamoteamoteamoteamoteamoteamo.

Mas não gritei. Só suspirei baixinho.
— Você está indo sozinho? — perguntou, animada.

Vacilei. Pensei por alguns segundos.
— É… Me separei.
— Daquela loira?! Uma loira bonita…
— Pois é…
— Eu também me separei.
— Não me diz!
— Fui traída, acredita? — contou isso com um sorriso amargo que lhe ensombreou o rostinho perfeito. — Fui trocada por uma mulher mais velha, que até já tem dois filhos.
— Que coisa…
— É. E ela foi trocada por uma mais nova, olha só a ironia. Foi trocada por uma adolescente.
— Capaz!
— É. O marido dela, um advogado, largou a família por causa de uma ninfeta e mudou-se para o litoral. Aí ela deu em cima do meu marido e eu os flagrei.
— Que horror.
— Pois é. Vi os dois na cama. Na minha cama!
— Nossa…
— É… Agora estou aqui, indo para Punta para tentar recomeçar minha vida. Que bom que te encontrei…

Olhando para Renata Inês, para seus olhos infinitamente bondosos, para seus cabelos castanhos que lhe emolduravam o rosto delicado, olhando para seus gestos lentos e graciosos, lembrei da nossa amizade, de como ela era compreensiva e boa comigo, de como a amava no tempo da nossa juventude.

E ouvindo sua história, tão semelhante à minha, senti que éramos iguais, que viéramos do mesmo lugar, que tínhamos algo em comum. E me senti muito próximo de Renata Inês, e quis lhe retribuir a sinceridade, e pensei: aí está uma pessoa em quem confiar.

Para Renata Inês, posso contar tudo. Sim, ela vai me ouvir, vai partilhar dos meus problemas, vai me ajudar. Quem sabe não começamos uma vida nova, eu e Renata Inês? Quem sabe nosso caso enfim não dará certo, depois de tanto tempo, tantas desventuras, tantos sofrimento? Por que não?

Nós dois em Punta, longe de tudo e de todos. Pelo menos eu tinha alguém no mundo. Sim, eu tinha alguém! Renata Inês! Nela podia confiar! Com ela podia desabafar! Para ela podia contar tudo, tudo, tudo!


E agora?
Rudi Orlando contará tudo?
E como Renata Inês reagirá?
Saiba amanhã, em mais um capítulo de… TENTAÇÃO!!!


Texto publicado em 16/10/2007

Túnel do tempo - TENTAÇÃO - 5° capítulo

27 de outubro de 2012 2

Enquanto a maçaneta girava, empurrei a porta do cofre, dei um tapa na tampa da mala e me pus de pé, ofegante. Um vulto de quase dois metros de altura surgiu, devagar, bem devagar…

Retesei os músculos das costas, ansioso. Arregalei os olhos. Aí vi quem era.
— Tijolo!

O vigia Tijolo me olhou sem surpresa — não era a primeira vez que eu ficava até mais tarde.
— Tudo bem, seu Rudi? Estou fazendo uma rondinha para ver se está tudo certo.
— Tudo óquei, Tijolo.

Ele olhou para a minha mala no chão.
— O senhor vai viajar no feriadão?
— Er… Vou… Vou passar uns dias na minha casa em Pinhal.
— Pinhal? Minha irmã mora lá. O senhor conhece? Suzi.
— Suzi, Suzi, Suzi… Não… Acho que não conheço.
— Ela se casou com um advogado, um cara mais velho, e foram morar lá… — vi pelas reticências que o Tijolo não gostava do cunhado. Tive pena do cunhado. Prosseguiu, depois do último ponto das reticências:
— Que fazer, né, seu Rudi? Essas meninas fazem cada besteira…
— Pois é…
— Enfim… — suspirou. — Vou deixar o senhor trabalhar. Bom feriado.
— Obrigado. Pra você também, Tijolo.

Foi-se, arrastando o corpanzil pelo corredor. Suspirei. Limpei o suor da testa com a palma da mão. E atirei-me novamente para o cofre. Desta vez não vacilei, não tive medo, não rezei, apenas colhi todos os maços de dinheiro que encontrei, espalhei-os pela mala, acomodei-os entre as roupas, enfiei mais um tanto nos bolsos e me preparei para fugir, finalmente.

Fui até minha mesa. Saquei a passagem da gaveta. Conferi mais uma vez o horário. Tudo certo, tudo certo. Dei mais uma olhada no folder da pousada de Punta. Linda pousada. Tudo certo. Tomara que o avião não atrase. Essa maldita crise aérea. Que incompetência do governo! Coloquei a passagem no bolso do casaco. O folder no outro bolso. Suspirei mais uma vez. Ergui e abaixei os ombros em seqüência.

Saí.
Fechei a porta do escritório. Ouvia meu coração pulsando no pescoço e nas frontes. Virei-me para a rua. Comecei a caminhar em direção ao meu carro.
— Ei! – alguém gritou.

Estremeci.
O Tijolo, de novo. Cara chato.
— Se o senhor encontrar a minha irmã, manda um beijo pra ela! — pediu. — Suzi, não vai esquecer.
— Suzi, Suzi, Suzi. Pode deixar, Tijolo.

Abanei para ele. Baita mala. Entrei no carro. Arranquei. Em vinte minutos, encontrava-me no aeroporto, ainda nervoso. Muito nervoso. Lembrei-me do petista pego com dólares na cueca. Será que encontrariam meu dinheiro? Mas que droga, não eram dólares, eram simples reais!

Ao me acercar do raio xis, senti uma gota de suor despencar testa abaixo. Depositei a mala na esteira. Observei os dois agentes que manipulavam o aparelho.
— Quem será que faz o Clô? – perguntou um.
— Acho que é o Fetter.
— Acho que não. O Fetter não gosta do Clô.
— Teatro dele… É ele quem faz o Joãozinho, também.
— Não é possível.
— É, sim…
— E o Dudu?
— Um sarro, o Dudu.

Apanhei minha mala do outro lado. Felizmente, estavam distraídos com aquela conversa esquizofrênica. Fui para a sala de espera sentindo-me mais aliviado. Tudo ia dar certo, sim, tudo ia dar certo. Sentei-me numa das poltroninhas da sala de embarque, a mala entre minhas pernas. Suspirei.

Meti a mão no bolso interno do casaco e de lá tirei o folder da pousada de Punta. A moça da agência de viagens disse que era uma das melhores pousadas do Uruguai. Pelas fotos, realmente, tratava-se de coisa fina.

Então, aconteceu.
Aconteceu.

Naquele momento, o dedo de Deus, ou do Destino, ou do puro acaso, tocou a minha testa. A pessoa que estava sentada ao meu lado folheava um folder exatamente igual ao meu e, assim como eu me surpreendera com o folder que estava na sua mão, ela olhou espantada para o que estava na minha.

E nossos olhares se encontraram, e perdi o fôlego, e minha respiração ficou suspensa. Não acreditei no que vi. Não podia acreditar.

O que Rudi viu? Quem? Como, onde, por quê???
Saiba amanhã, no próximo capítulo de… TENTAÇÃO!!!

Texto publicado em 15/10/2007

Túnel do Tempo: TENTAÇÃO - 4° capítulo

26 de outubro de 2012 2

Ação.
Não existe melhor forma de dominar o nervosismo do que passar à ação.
Comecei a agir.


Previ cada um dos meus passos nos próximos dias. Anotei tudo em um caderno, metodicamente, como metódico deve ser um contador. Depois de muita pesquisa na Internet e consulta a agências de viagens, resolvi fazer uma tortuosa rota de fuga, a fim de não ser descoberto por futuras investigações policiais: iria de avião até Buenos Aires; lá, tomaria um barco até Montevidéu, uma hora para cruzar o Rio da Prata; de Montevidéu, viajaria outra hora de ônibus até Punta del Este. Em Punta, ficaria numa pousada cheia de estrelas, luxuosíssima, cercado de champanhes e lenços umedecidos — a vida escorre com facilidade, quando há lenços umedecidos por perto.

Passaria alguns dias lá, dourando-me ao sol uruguaio, mimado por garçons, depois decidiria para onde ir em definitivo. Perfeito. Não havia como dar errado: tinha a chave do escritório, tinha a chave do cofre. No final da tarde de quinta-feira, esperaria que todos fossem embora, abriria o cofre, encheria uma mala de dinheiro e… adiós, Porto Alegre; adiós, chefe garanhão; adiós, mulher infiel!

Não estava me sentindo mal com a idéia de me transformar em fora-da-lei. Ao contrário: sentia-me livre, sentia-me vivo. Pela primeira vez, protagonizaria um ato rebelde, um ato realmente rebelde. O comportamento de Luísa naqueles dias só reforçava a minha convicção de que fazia a coisa certa. Estava estranhamente alegre e distante.

Comprava roupas novas, com fendas e decotes, com tecidos diáfanos, com adereços sensuais, como uma sandália de salto alto com tiras trançadas até as canelas, adoro sandálias de salto alto com tiras trançadas até a canela. E o mais grave: cortou e pintou o cabelo. Tornou-se ruiva flamejante.

Uma mulher, quando muda radicalmente o cabelo, é porque sua cabeça mudou radicalmente por dentro. E porque a cabeça do marido também será mudada radicalmente. Ou já foi. Na quinta de manhã, antes de sair de casa, disse para Luísa que à noite iria à festa de despedida de solteiro do meu amigo Luciano Potter.
— Vou chegar tarde — e ressaltei: — bem tarde…

Fiquei observando sua reação.
— Tá — respondeu ela, casualmente, como se eu tivesse dito que iria jogar escova com minha tia.

E continuou avaliando no espelho a lingerie nova que comprara no dia anterior. Aquela mulher estava sempre se olhando no espelho.

Saí para o dia em que me transformaria em um ladrão.
Foi um longo dia. Não conseguia trabalhar direito, não conseguia me concentrar em nada. Só pensava no que teria de fazer no fim da tarde.
E o fim da tarde chegou.

Meus colegas foram saindo um a um. Clóvis falava ao telefone daquele jeito lascivo como vinha falando nos últimos tempos. Fiz o teste outra vez: liguei para casa. Telefone ocupado. Desgraçada. Odiava Luísa. Odiava Clóvis. Mas eles iam ver com quem lidavam. Ah, iam!

À noitinha, restavam apenas eu e Clóvis no escritório. Ele me olhou de trás da sua mesa, como se perguntasse por que eu ainda estava lá numa véspera de feriadão.  Sorri meu sorriso mais cínico.
— Tenho que adiantar um serviço — falei. — Vou ficar até mais tarde.

— Bom… — ele se levantou. — Já vou indo, então. Você vai direto daqui para a festa do Potter?

Senti o sangue inundar-me o pescoço e o rosto. Como ele sabia que eu ia à despedida de solteiro do Potter? Eu não havia falado nada no trabalho! Não havia falado nada para ele! Encarei-o por alguns segundos. Uma leve perturbação passou pelo seu rosto. Teria percebido que notei que ele se traiu?

Tentei responder com naturalidade:
— Vou… Vou direto. Vai ser um festão.
— Legal – ele sorriu. – Boa festa, então. Até terça.
— Até.

Saiu, deixando-me só no escritório. Meu coração começou a bater mais forte. Minhas pernas perderam a firmeza. Respirei fundo. Fechei os olhos. Fiz uma oração silenciosa. Fazia muito tempo que não rezava. Me ajuda, pedi. Me ajuda!

Olhei para o cofre. Respirei fundo outra vez. Tirei a mala debaixo da minha mesa.

Fui até o cofre. Me ajuda, me ajuda! Sabia a combinação de cabeça. Os números mágicos. Me ajuda! Levei a mão à maçaneta. Ouvi o clic. A porta se abriu.

Dentro do cofre escuro, o futuro me esperava. Tomei um maço de notas na mão. Respirei fundo. Me ajuda, me ajuda, me ajuda a ter coragem! Coloquei o primeiro maço no fundo da mala. Peguei outro e outro e outro, cada vez mais rápido, mais rápido, respirando pesadamente, mais rápido, me ajuda, me ajuda, ofegava, resfolegava, me ajuda, me ajuda, me ajuda, e então ouvi um barulho na maçaneta da porta do escritório.


Quem estava à porta? O que aconteceu com Rudi?
Saiba no próximo capítulo de… TENTAÇÃO!!!!!!!


Texto publicado em 14/10/2007

Postado por David