Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts de dezembro 2012

Túnel do Tempo: Por um grito de dignidade

31 de dezembro de 2012 4

Lembro de quando li o livro de Howard Fast sobre o escravo gladiador Espártaco. Fiquei muito envolvido pelo romance. Durante dias experimentei as sensações que a história passava: o sentimento de que o ser humano está sempre sendo oprimido pelos outros seres humanos, de que a liberdade individual e a dignidade do homem são bens que fazem a luta valer a pena, mesmo quando se é derrotado. Mais ou menos na mesma época assisti ao filme que Stanley Kubrick realizou baseado, exatamente, no romance de Howard Fast. O filme não me decepcionou. Ao contrário, lá estava um Espártaco enérgico vivido por Kirk Douglas, lá estavam Tony Curtis, Peter Ustinov e outros grandes do cinema, entre eles “sir”Laurence Olivier interpretando Crasso, o general que enfim derrota o escravo rebelde e que, mais tarde, em um episódio não narrado pelo livro ou pelo filme, seria morto ao cometer um erro terrível, donde a expressão “erro crasso”.

As cenas finais do filme transmitem com genialidade essa ideia elevada de que as derrotas não são todas iguais. De que um homem pode ser amplamente batido, mas ainda assim continuar íntegro, reto e vertical graças à sua vontade indômita. Porque o exército de escravos fugidos de Espártaco já havia sido submetido por Crasso, e agora o general romano pretendia liquidar moralmente o líder da rebelião. Matar Espártaco e trucidá-lo à vista de todos seria a vitória cabal sobre os escravos. Porque Espártaco,tendo liderado a sublevação dos servos,tendo derrotado cinco legiões romanas em sucessão, tendo posto em pânico os cidadãos da Cidade Eterna,era,ele próprio, um símbolo incômodo de liberdade. Ou de ânsia de liberdade, o que é ainda mais poderoso. O império precisava acabar com ele e com tudo o que representava.

Então Crasso, ou sir Laurence Olivier, chega à frente de seus legionários ao local onde estão os prisioneiros de guerra, e eles estão rojados ao chão,abatidos,andrajosos,feridos e humilhados. Tinha,Crasso,de identificar Espártaco para exterminá-lo de vez. O oficial que o ladeia anuncia-lhe a presença, avisa que o general está buscando Espártaco e adverte que, se o líder não for entregue, todos os cativos serão crucificados.Espártaco,ou Kirk Douglas, olha desanimado. Sabe que é seu fim. Está acorrentado a outro escravo, vivido por Tony Curtis. Prepara-se para se levantar e identificar-se, mas Curtis ergue-se antes dele e grita, para sua surpresa:

– Eu sou Espártaco!

O verdadeiro Espártaco vai protestar,mas,lá atrás, outro escravo se põe de pé e lança o brado:

– Eu sou Espártaco!

E outro ao lado também se levanta:

– Eu sou Espártaco!

E logo todos os escravos estão repetindo:

– Eu sou Espártaco! Eu sou Espártaco! Eu sou Espártaco!

Crasso observa,impotente,do alto do seu cavalo e da autoridade de Roma, enquanto uma lágrima rola pelo rosto duro do escravo que, na derrota final, obteve sua maior vitória. A cena imortal tem um significado que ultrapassa os limites do filme e da história: todos ali eram Espártaco,e todos somos, em algum momento da vida: oprimidos, sim; submetidos, talvez; vez em quando até humilhados; mas isso não importa, desde que estejamos inteiros, desde que tenhamos tentado, desde que, mesmo diante da crucificação iminente, possamos ter emitido um último grito de liberdade:

– Eu sou Espártaco!

É assim que se perde, e não como perdeu o Santos no último domingo, no Japão. Os jogadores do Santos não demonstraram um laivo de indignação, de hombridade ou de insubmissão pelo que lhes era imposto. Aceitaram passivos o domínio das forças superiores do Barcelona. Foram seviciados sem um grito, sem um protesto, quase com alegria. Nem sequer falta cometiam, assistiam ao adversário jogar, entregues e reverenciais.

Um jogador de futebol não precisa dar pontapé para interromper uma jogada com falta. Pode interpor o corpo ao adversário, pode dar um ombraço,um golpe de ilhargas, pode até jogar-se aos pés dele. Mas não pode ser uma bandeirante omissa como foram os milionários jogadores do Santos no domingo.

Foi ridículo.

E mais ridículo ainda foi como se comportou a torcida nas arquibancadas, gritando o nome do clube sem parar, como se lá embaixo, na arena, não estivesse se desenrolando aquele espetáculo constrangedor. O que saudavam os torcedores do Santos? O salário nababesco do seu técnico emburrado ou o do seu atacante de cabelo arrepiado? Eram essas as únicas valências do Santos. Ali não havia ninguém com uma réstia de indignação na alma, ninguém capaz de se rebelar, ninguém que ousasse enfrentar o destino, erguer-se dos escombros da derrota e gritar, como um homem:

– Eu sou Espártaco!

Túnel do Tempo: O melhor de todos não existe

30 de dezembro de 2012 1

Citius, altius, fortius. O mais rápido, o mais alto, o mais forte. O lema dos Jogos Olímpicos que o Barão de Coubertin tomou emprestado de um frasista amigo seu, o Padre Didon, este lema que vige até hoje nos Jogos é, de resto, a razão de ser de quaisquer jogos esportivos. Um jogo pretende sempre apurar quem é O Melhor. Mas esse anseio é irrealizável. Não existe nem nunca existiu nem jamais existirá O Melhor no que quer que seja.

A prova do que digo é fornecida, exatamente, pelo esporte.Você pega o futebol, por exemplo. O mais popular dos jogos esportivos. O futebol fornece uma série de exemplos clássicos de que é impossível apontar quem é O Melhor. O Maracanazo de 50, a derrota acachapante da Hungria de Puskas para a Alemanha em 54, a mesma Alemanha batendo a Holanda de Cruyff 20 anos mais tarde, o fracasso do Brasil de Telê em 82, o estranho desfalecimento de Ronaldo que levou a Seleção Brasileira à falência na França em 98. Exemplos mundiais, notórios, exemplos do tamanho de uma Copa do Mundo. E todas as semanas explodem outros, menores, mas igualmente expressivos, de favoritos se desmanchando diante de inimigos pretensamente inofensivos.

Isso poderia significar a frustração absoluta do esporte, já que o principal objetivo da atividade não é atingido. Mas não é o que acontece.Ao contrário, até: o esporte acaba alcançando plenamente o seu objetivo através de dois caminhos opostos:

1. O esporte, mesmo que não apure quem é O Melhor, fornece a ilusão de que apurou quem é O Melhor. Pelo menos momentaneamente, pelo menos ao fim de uma temporada. Essa ilusão é um consolo para as pessoas. Elas se enganam pensando que é possível haver alguém ou algo que seja O Melhor, e aí a vida se torna mais simples, organizada e compreensível.Ali está O Melhor, depois dele vem o segundo melhor, a seguir o terceiro melhor e, lá adiante, o pior de todos. Está tudo classificado, rotulado e arquivado. Não é preciso mais pensar no assunto. Isso é tão conveniente. Dá a confortadora ideia de que a existência é previsível.

2. Exatamente, e contraditoriamente, por não conseguir jamais apurar quem é O Melhor, por apresentar vez em quando uma surpresa chocante, o esporte fascina as pessoas. Porque elas percebem que ali está a representação da vida, as incongruências, incoerências e imprevistos da vida. Os dramas, as comédias, as tragédias, as alegrias e tristezas todas da existência são reproduzidas pelo esporte em escala inofensiva.A vida não é reta e o esporte mostra isso a cada torneio, assim como o mundo mostra isso todos os dias.

São sentimentos conflitantes, mas que acabam se completando e se encaixando à perfeição: no esporte, as pessoas anseiam por apurar quem é O Melhor e acreditam que vão apurar quem é O Melhor. Mas, ao não conseguirem, ao serem surpreendidas entendem que a vida é assim mesmo, que há circunstâncias imponderáveis em tudo e em todos, e isso termina sendo a grande lição do esporte.A beleza do jogo esportivo é precisamente essa incapacidade de atingir seus próprios objetivos.

O esporte tenta demonstrar quem é o mais forte, mas acaba demonstrando que, mesmo que exista alguém muito forte, sempre haverá alguém ainda mais forte. O esperto sempre encontra alguém mais esperto, a mais bela sempre encontra alguém mais bela.A espetacular variedade da vida. Por isso, a derrota é fascinante. Dias atrás, um bom amigo meu proferiu, no bar da Redação, uma frase aparentemente casual, mas na verdade profunda, que me tocou:

– Eu sempre admirei meu pai – disse o meu amigo, com um copo de café na mão. – Mas só fui amá-lo quando vi que ele também errava.

Aí está. Perder é fundamental.A derrota faz parte da essência humana. Não é por acaso que times derrotados forjam torcidas fanáticas.A massa vibrante do Corinthians cresceu no fermento dos 23 anos sem um único título do clube, período interrompido pelo gol de Basílio em 1977. O inchaço da maior torcida do Brasil, a do Flamengo, ocorreu nos anos 60, década mais pobre de títulos da história do clube. E agora, nas séries subalternas do Brasileirão, o Santa Cruz dá um show nas arquibancadas. Por que o amor floresce nas horas ruins? Porque a vida é feita também de horas ruins. Campeões invencíveis não são humanos. Campeões invencíveis podem até ser admirados, mas amados nunca serão.

Túnel do tempo: O Rio Grande é uma ficção

29 de dezembro de 2012 11

O Rio Grande do Sul não existe. Nem Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina. Os Estados brasileiros foram abolidos na prática por Getúlio Vargas e a Constituição Polaca, em 1937. Hoje subsistem como peso para o contribuinte e como vaga abstração cultural. Verdade que nem todos. Só Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio, Minas e Bahia têm identidade cultural. Ceará um pouquinho. O resto é Brasil.

Getúlio Vargas extinguiu os Estados, tributariamente falando, e tentou fazê-lo, digamos, ideologicamente. Queimou as bandeiras, obrigou o ensino do português em todas as escolas do país e instituiu a Hora do Brasil, o primeiro jornal nacional. Conseguiu enfraquecer as identidades regionais, mas não matá-las. Quem fez o serviço foi a Rede Globo.

A Rede Globo realizou o sonho de unificação do Brasil de Getúlio Vargas. Com o Jornal Nacional, com as novelas, com as transmissões via satélite. O Brasil tornou-se um só, enfim.

A prova é o gandula. Não havia isso de gandula, aqui na província. Gandula era no Riosãopaulo. Aqui era marrecão, só. Hoje, nenhum torcedor com menos de 30 anos sabe que marrecão um dia foi algo além de uma ave frequentadora de rios, lagos e banhados. A linguagem do futebol, a verdadeira linguagem de massa do Brasil, demonstra: a Rede Globo transformou-nos, a todos, em brasileiros. Para o bem e para o mal.

Túnel do Tempo: Os patriotas

29 de dezembro de 2012 6

Foram tantos os pedidos, tão sinceros, tão sentidos, que decidi escrever sobre o gauchismo e quejandos, candente assunto do Sala de Redação de quarta-feira passada. Que foi o Lauro Quadros encerrar o programa e já começaram a desaguar mensagens por todas as vias de comunicação possíveis. Gente me criticando, gente me apoiando, gente ponderando. O debate era sobre a execução ou não do Hino Rio-Grandense nos estádios. Disse, e repito, que expressões de nacionalismo e patriotismo são em primeira instância ingênuas e, em segunda, nocivas.

O nacionalismo nasceu, de fato, com a Revolução Francesa. Desde então é que foram implantados os hinos, as bandeiras e a noção de fidelidade a um lugar interfronteiras. Antes, devia-se fidelidade ao rei ou a um senhor feudal. Os casos mais próximos do patriotismo moderno eram os das cidades-estados gregas e da república romana. Havia, nesses casos, fidelidade à classe, à condição de cidadão.

As mais sangrentas guerras do mundo se originaram do nacionalismo. As maiores atrocidades cometidas no mundo se originaram do nacionalismo. Porque o nacionalismo, naturalmente, desvia-se para a exclusão. Você cultua o lugar em que nasceu, as suas tradições, os hábitos dos seus conterrâneos, e logo está achando que o seu lugar, as suas tradições e os seus hábitos são melhores do que os dos outros.

Isso não significa, obviamente, que você não deva respeitar, entender e estudar o seu lugar, as suas tradições e os seus hábitos. Sou um entusiasta da História com agá maiúsculo. Se você conhece a História, você entende o seu passado e, se você entende o seu passado, sabe o porquê das ocorrências do seu presente. É um dos princípios da psicanálise. Mas a História é diferente da tradição e do folclore. A tradição e o folclore invadem o terreno da mitologia. Donde, a propriedade do verbo “cultuar”, quando se fala em tradição e folclore. O “culto”, a “veneração” dos heróis pátrios. A tradição está repleta de heróis. A História, se estiver repleta de heróis, talvez não seja mais História, seja lenda.

Há que se respeitar as tradições, mas o verdadeiro civismo é o respeito às pessoas. É compreender que todas as pessoas são iguais, mesmo que nasçam em lugares diferentes, tenham cores diferentes, religiões diferentes e que cantem hinos de letras diferentes. Aliás, gosto dos hinos porque, se você estudar as letras deles, de quaisquer hinos de quaisquer países, constatará que todos ressaltam as qualidades guerreiras dos povos. Todos são bravos, são corajosos, são impávidos colossos, todos cometem façanhas que servem de modelo a toda a Terra. E, se todos são assim tão valentes, todos, afinal, são iguais.

De certa forma, esse amor-próprio elevadíssimo é positivo. Nós aqui, no Rio Grande, nos ufanamos de ter a mulher mais bonita do mundo, o clássico de futebol com a maior rivalidade do mundo, o mais belo pôr do sol do mundo, o melhor centroavante do mundo e, agora, a mais linda rua do mundo. Pode ser tudo bobagem fátua, mas não faz mal acreditar. O mal se faz quando a tradição prende o homem ao passado e, pior, a um passado que nunca existiu. O mal se faz quando o regionalismo se transforma em exclusivismo cego. O mal se faz quando não se percebe que há muito para se ver lá fora e que, aqui dentro, é preciso olhar para frente, não para trás.

Sala de Redação

28 de dezembro de 2012 0

Ouça o Sala de Redação desta sexta-feira.

Túnel do tempo: Não me venham com borboletas!

28 de dezembro de 2012 0

Título do imeil: “A lição da borboleta”. Minha inclinação foi de clicar no iconezinho de “excluir” e mandar o troço direto ao purgatório para onde vão os imeils que são excluídos, em algum lugarsombrio do fundo do computador. A lição da borboleta, francamente. Sei que os animaizinhos e as plantinhas da Natureza podem nos fornecer inúmeros ensinamentos e patati, mas duvido que isso possa ocorrer pela via estreita e pouco profunda do imeil. Então, quando recebo imeils com arco-íris, ou bichinhos peposos, ou crianças rechonchudas, ou florzinhas, qualquer coisa assim mimosa, ou se é algo pio e alvo, como uma ilustração de Jesus Cristo com o coração vermelho exposto no peito aberto, ou aqueles raios passando pelo meio das nuvens prenunciando a voz potente do Senhor, quando recebo isso, ainda que só tenha a agradecer ao Senhor e tudo mais, quando recebo, realmente, clico no excluir sem vacilação.

Mas esse imeil, “A lição da borboleta”, era um imeil de um velho conhecido. O Cabral. Não, o Cabral não é qualquer um.

Ele é mau.

Jogava de zagueiro. Nunca riu em campo, nem sequer sorriu. Isso é que é importante: o zagueiro não ri. O zagueiro não se perde em considerações, não negocia, não tergiversa. O zagueiro resolve. Pronto. De uma só vez. Decidido como a mulher que vai embora. Firme como seios siliconados. Reto como o caminho da virtude.

Olhe para um Pereirão. Para um Evaldo. Um Bolívar. Eles só mostram os dentes para trinchar uma costela borrachuda ou para rosnar para um centroavante saçaricante. Nada a ver com aquela alegre irresponsabilidade do ataque. Logo, aquele imeil não deveria ter nada a ver com as borboletas que voejam coloridas entre as begônias azuis. Deveria ser sacanagem, e sacanagem, tudo bem, sacanagem eu abro.

Abri. Lá estava aquela paisagem paradisíaca e a frase: “Um dia, num pequeno arbusto, surgiu um casulo…” Ah, não! Excluir! Excluir! Mas o que é que o Cabral está pensando, ao me mandar um imeil sobre borboletas que voejam coloridas entre as begônias azuis???

Isso demonstra duas coisas:

1. Que o Cabral está ficando perigosamente sensível.

2. Que não pode mais jogar de zagueiro.

Assim nossos zagueiros malvados da Dupla. Se um deles pintar o cabelo, amarrar trancinhas, pendurar brinco na orelha ou, pior, se começar a rir por aí, cuidado: passem-no para as amenidades do meio-campo. Ele que vá se arreganhar no grande círculo.

Sala de Redação

27 de dezembro de 2012 1

Ouça o Sala de Redação desta quinta-feira:

Túnel do tempo: Algumas pessoas têm sorte

27 de dezembro de 2012 3

Cara, algumas pessoas realmente têm sorte. Uma moça que conheci, ela se gabava de ter sorte de achar vaga para estacionar. Sexta-feira, dez da noite, Calçada da Fama fazendo blub, todo mundo dando voltas na quadra para conseguir uma vaguinha, ela chega com o carro dela e, por milagre, surge uma brecha bem em frente ao bar. Como aconteceu isso? Foi Deus que lhe abriu aquela vaga, como fez com o Mar Vermelho para permitir que os hebreus o atravessassem? Ou foi o Destino? Ou Nossa Senhora a abençoou do alto das nuvens de algodão-doce:

– Até o fim dos tempos essa moça encontrará vaga para estacionar!

Um mistério.

Lá no colégio tinha um sujeito, o Máximo, que fazia jus ao nome. Mas não só pela sorte que o abençoava. Era inteligente, só tirava 10. Uma vez ganhou um daquele concursos de química. Química! Hidrocarbonetos, polímeros, monossacarídeos. O Máximo sabia tudo disso. E matemática também. E falava inglês como um Churchill discursando na Câmara dos Comuns. Outra coisa: jogava muita bola. Meia-esquerda, chute forte, drible curto, tão curto que podia aplicar em cima de um único parquê. As gurias o adoravam, inclusive as das séries mais altas. Dizem até que passou uma noite se cevando nas carnes tenras da Neuzinha Nescau, ah, a Neuzinha Nescau…

Pois bem. Os anos passaram em cardumes sem que visse o Máximo novamente. Até que, dias atrás, o encontrei. Reconheci-o na hora:

– Não! O Máximo!

Depois de alguns minutos de conversa animada, perguntei o que ele fazia. Ele pareceu meio entristecido ao responder:

– Sou proctologista.

Fiquei pensando: por que o Máximo teria respondido daquela forma, como se seu trabalho o deprimisse? Mais tarde, comentei o episódio com Valéria V., que diagnosticou:

– O homem passa o dia inteiro com o indicador enterrado no reto alheio, como pode ser feliz?

Antes que a Associação de Proctologia me processe, quero deixar claro que não concordo com VV. Considero a proctologia uma bonita profissão, e acho que os proctologistas podem encontrar prazer em sua atividade diária, e que eles são responsáveis pelo salvamento de milhares, quiçá milhões, de vidas. Ah, também não concordo com o que VV vive a repetir:

– O proctologista é um sádico.

Não concordo mesmo. Mas talvez o Máximo esteja se sentindo assim, caso contrário não se mostraria tão abatido ao se referir a sua profissão. Seja como for, o encontro com Máximo me fez concluir que a sorte pode se esgotar. Por isso, o homem ungido pela sorte deve aproveitá-la intensamente. Por isso Ronaldo Nazário está certo quando casa em castelos, descasa, namora com modelos estonteantes, casa de novo, tem filhos, tudo isso sem se apoquentar com remorsos ou considerações morais. Tem sorte, esse Ronaldo Nazário. Tem mais é que sorvê-la com gosto. Enquanto dure.

Mulheres, churrascaria e corneta em "Gre-Nal é Gre-Nal"

27 de dezembro de 2012 0

Lance Final Especial (após o Tele Domingo, 23h40min) desta semana apresenta, na RBS TV, em alta definição, “Gre-Nal é Gre-Nal” com a história “Fominha é Fominha”, baseada nos textos de David Coimbra.

Se na vida real, técnicos são demitidos e jogadores dispensados, na ficção tudo acaba na maior corneta entre os fanáticos pelo Grêmio e Internacional.

Num supermercado em dia de Gre-Nal, gremistas e colorados fazem as compras para o churrasco de domingo. Na fila do caixa, eles lembram de histórias que acabaram num grande fiasco do rival. Uma é sobre o gremista tentando abrir um vidro de pepinos para a loira mais gostosa do condomínio; a outra é a desastrada história de um garçom colorado que trabalhava numa churrascaria. No elenco, Rafael Guerra (o gremista), Eduardo Mendonça (o colorado), Thaís Siegle, Nydia Gutierres, Rafael Régoli e Rafael Albuquerque.

Sala de Redação

26 de dezembro de 2012 2

Ouça o Sala de Redação desta quarta-feira.

Túnel do Tempo: O Supositório

26 de dezembro de 2012 17

O Bernardo foi botar supositório. Quer dizer: foram botar supositório nele. Fiquei tenso. Minha primeira reação de pai cioso foi tentar evitar a coisa.
— Isso é realmente necessário? — perguntei. — É re-al-men-te necessário?

Era.

Suspirei. Que fazer? Temos de nos submeter aos médicos e aos técnicos de informática. Eles falam, nós acreditamos. Não há outra saída. Olhei para meu filhinho. Lá estava ele, deitado de costas, balançando as pernotas sem sequer desconfiar do que ia acontecer.

Suspirei de novo. Por que o mundo tem de ser assim? Meu menino tem poucos dias de idade e já vão introduzir-lhe um supositório no, bem, no local onde se introduzem supositórios.

Foi a essa altura das minhas doloridas reflexões que pensei na outra possibilidade: a de ele gostar da, bem, introdução supositorial. E então fiquei realmente aflito. Agora surge a necessidade de uma explicação politicamente correta: nada contra quem gosta dessas introduções, só que, sei lá, penso em outro futuro para meu filho. Coisas de pai tradicional, sou um pai tradicional…

Enfim. O fato é que pus-me em estado de grande apreensão. Encostei-me à parede do quarto para observar a ação. Como reagiria o Bernardo, o futuro desembargador?

Acercaram-se elas todas, mãe, babá, avó, da vítima. Ele olhava-as com seus grandes olhos inocentes. Senti um aperto no peito. Despiram-no, e o fizeram com a destreza dos torturadores dos regimes de ferro. Bernardo balançava a cabeça para lá e para cá, sem protestar. Duas delas o seguraram por mãos e pés. Covardes! A terceira, a mais cruel delas, apanhou um imenso e ameaçador supositório. Meu coração murchou no peito. Então… Então… Então…

Então ela fez. Colocou o supositório! Joguei o corpo para frente para olhar. Bernardo arregalou os olhos de espanto. Notei que havia ficado perplexo com aquele ataque à sorrelfa. Analisei bem o rostinho dele. Aproximei-me para fazê-lo. Bernardo piscou. Abriu a boca. E, finalmente, esgoelou-se de tanto chorar.

Sorri. Saí do quarto mais leve. A gente nunca sabe…

Texto publicado em 22/10/2007

Sala de Redação

25 de dezembro de 2012 0

Ouça o Sala de Redação desta terça-feira.

Prosa de verão: A diversão está em outro lugar

25 de dezembro de 2012 4

O grande problema da praia é que a praia é um lugar em que você vai apenas para se divertir. Ou, no mínimo, para relaxar. Algumas pessoas ficam lá só sentadas naquelas cadeirinhas, olhando o mar detrás de óculos escuros. Ficam horas e horas olhando o mar que vai e vem e as pessoas que passam seminuas. Às vezes é legal ver pessoas seminuas. Às vezes, não. Já vi o Pedro Ernesto na praia.

A questão é que você é OBRIGADO a se divertir ou a relaxar, se estiver na praia. Caso não esteja completamente relaxado ou em fremente divertimento, você é que é o problema. Então, se você está diante do Pedro Ernesto de sunga ou se acaba aborrecido olhando o mar ir e vir, você não consegue relaxar. O que você terá de fazer? Divertir-se.

Aí é que está. Divertir-se é muito mais complexo do que relaxar. Veja aquelas propagandas de cerveja. As pessoas sempre estão na praia, bebendo e se divertindo. Todos gargalham gostosamente, mulheres longilíneas correm de biquíni branco, há um clima de erotismo saudável no ar marinho. E é exatamente por isso que a gente vai à praia. Para viver essas delícias da existência. Mas, se você não está naquela turma em que há cardumes de mulheres que saltitam pela areia como cabritos monteses de biquíni de lacinho, se você não está lá, então você está no lugar errado. Você não está se divertindo de verdade. Eles é que estão! Eles, daquela turma dos comerciais de cerveja. Tudo vai acontecer naquela turma, enquanto você, o que você tem de fazer, na praia, é carregar a cadeirinha da sua mulher. Nesse momento crucial da sua vida, você percebe que a diversão está sempre em outro lugar. Você está aqui e as coisas realmente emocionantes estão acontecendo em outra parte.

Por isso a praia é estressante. Se você não está se divertindo MUITO, você não passa de um fracassado. Você assiste à TV quando está na praia? Você é um fracassado. Sua mãe está na areia junto com você, sentada de maiô ali debaixo do guarda-sol? Você é um fracassado. Sua mulher está acima do peso e não para de reclamar que você olhou para aquela morena cheia de dentes brancos? Fracassado.

Agora, o teste definitivo do fracasso praiano é a festa da sua rua. Há festa na sua rua e você não está nela. Terrível, mas acontece. No entanto, se você, em vez de tentar entrar na festa, reclamou do barulho e, o mais grave, chamou a polícia, bem, rapaz, você, evidentemente, é um fracassado. Volte para as aflições da cidade grande, que é o seu lugar. A praia é para se divertir, e diversão não é para qualquer um.

Não é, definitivamente, para você.

Publicado na Zero Hora desta ter;a-feira.

Túnel do Tempo: O verão de 98

24 de dezembro de 2012 0

Genaro Joner, Banco de Dados
Era assim que nos referíamos àquele tempo: O Verão de 98. Com maiúsculas. Falávamos, em meio a suspiros: %22Ah, O Verão de 98…%22, embora ainda estivéssemos em meio ao Verão de 98. Falávamos com nostalgia daquela época porque sabíamos que ela nos traria saudades. Como trouxe.


No aniversário do Professor Juninho, em janeiro, tomamos a calçada do Lilliput de ponta a ponta. Nunca ninguém descobriu quantos passaram por ali naquela noite histórica. Chegamos em 20, logo éramos 40, talvez 60. Alguns saíam e depois voltavam, outros saíam e ligavam para saber se ainda estávamos lá. Estávamos. Ficamos até de manhã, consumimos 600 chopes. Seiscentos! Casamentos foram atados e desatados naquela noite, muitos amigos foram para a cama com amigas e pelo menos um relacionamento homossexual estourou na última curva da madrugada.

Fomos nós que inventamos aquilo, a Calçada da Fama, a noite da Padre Chagas. Nós, modestamente: eu, o Ricardo Carle, o Degô, o Professor Juninho, a Cris, a Ju, a Magrela. Não havia nada naquela região, exceto casinhas bucólicas, senhoras bem fornidas com seus pequineses e um único bar, o Jazz Café, do nosso amigo Dirceu Russi. Justamente pelo Dirceu ser nosso amigo que rumávamos para lá, logo que fossem pingados os pontos finais de nossas matérias na Zero. Partíamos em dois carros, o do Degô e o do Juninho, que eu e o Ricardo Carle não guiávamos auto.

Noites hilárias, algumas dantescas. Numa delas, o Ricardo Carle brigou com o gordo Damiani, um dos donos do Lilliput. O que o Damiani disse, não sei; o que o Ricardo fez, sei: atirou-lhe uma cadeira, a cadeira voou pelo bar, passou por cima das cabeças de um casal de namorados e se espatifou em uma pilastra. O casal de namorados foi embora, o gordo Damiani criticou a pontaria do Ricardo Carle, o Ricardo Carle pediu outro chope.

Doutra vez, a noite estava amena, nada acontecia, eu e o Ricardo bebíamos em silêncio, o Professor Juninho sorria para a sua última namoradinha e aí deu-se o que se deu: uma ex-namorada do Juninho se materializou ao seu lado, egressa das sombras da rua. Olhei para ela, aterrorizado, todos olhamos. Ela rosnava. Rosnando, debruçou-se sobre a mesa, esbofeteou o Professor Juninho uma vez e sua acompanhante quatro (quatro!) vezes. Feito isso, desapareceu nas trevas, como se a terra a tivesse engolido. O bar silenciou. Era possível ouvir a evaporação dos chopes. Um carro da Brigada passou pela rua. Comentei, tentando descontrair o ambiente:

— A polícia nunca aparece quando a gente precisa…

O ambiente não descontraiu.

Sim, nós fundamos aquele pedaço da noite porto-alegrense. E agora o Juremir Machado da Silva escreveu um livro sobre outro pedaço, o do Bom Fim, e o dedicou ao Ricardo Carle. Bastou uma tarde para ler o livro e menos ainda para me emocionar, talvez por lembrar do tempo em que entramos juntos na faculdade, eu, o Juremir e o Ricardo, talvez por saber que, como prevíamos em 98, nada mais é como foi.

Alguns de nós temos filhos com pessoas que não eram da turma daquela época, outros se mudaram, o Damiani morreu e Ricardo Carle também. Tudo mudou. Mas, volta e meia, alguns de nós ainda nos reunimos no Jazz Café, e pedimos alguns chopes, e erguemos nossos copos, e brindamos. Ao Ricardo Carle, é claro.

Sala de Redação

24 de dezembro de 2012 2

Ouça o Sala de Redação desta segunda-feira.