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Túnel do Tempo: O Brutamontes - segunda parte

26 de janeiro de 2013 1

O instinto de sobrevivência injetou-me adrenalina nas veias. Meu corpo ficou retesado, pronto para empreender uma fuga magnífica bar afora. Tentei lembrar da geografia do local a fim de calcular as chances de escapar ileso: havia cadeiras, mesas e pessoas entre mim e a salvação da porta de saída. O grandalhão ao lado, o marido da Silvinha, ele era isso mesmo: um grandalhão. Seus braços e pernas não apenas eram musculosos, eram também compridos como os braços e as pernas da Lei. Alcançar-me-ia com alguma facilidade, como um guepardo alcança um gnu na savana.

Era precisamente como me sentia: como um gnu espreitado pelo bando de grandes felinos famintos. Foi um sorriso de gnu que enviei para o brutamontes. Resolvi fazer-me de desentendido — talvez houvesse uma possibilidade mínima de não ser comigo ou de ele desistir da briga antes que ela fosse consumada. Murmurei:

— Perdão? O senhor está falando comigo?

Agora sentia-me um covarde perfeito. Um pusilânime. Será que as outras pessoas estavam acompanhando aquele espetáculo deplorável? Olhei rapidamente em torno. Na ponta direita do balcão, uma morena magra, de uns 30 anos de idade, cabelos longos e vestido curto, acompanhava a cena e se divertia. Sorria sem pejo, decerto aguardando pelo meu massacre. Seria uma morena que talvez me interessasse, em circunstâncias mais favoráveis. Não queria que pensasse de mim o que, obviamente, estava pensando.

Enrubesci.

Na ponta esquerda, um casal ao menos dissimulava. Riam, e eu tinha quase certeza de que riam de mim, mas riam à socapa, baixinho, disfarçando o olhar de ironia. Fiquei ainda mais envergonhado de mim mesmo. Deveria reagir com galhardia, deveria mostrar que sou um homem, não um verme. Mas o medo era maior do que a dignidade. Sobretudo porque o monstro voltara a falar com seu vozeirão de quem gosta de esmagar ossos humanos com as próprias mãos:

— É com você mesmo. A pergunta foi: “O que você acha da minha mulher?”

Bem. Agora não havia mais dúvida nenhuma. O assassino perito em artes marciais claramente estava demarcando território. Na certa queria se exibir para Silvinha, mostrar como ele era capaz de reduzir a uma pasta de carne e sangue qualquer rival que se aproximasse dela.

Silvinha.

Tão frágil, tão formosa, tão linda e delicada, perdia-se todas as noites nos braços de aço daquele bruto.

Braços de aço…

Engoli em seco. Precisava ganhar tempo para pensar. Ri um riso que devia ser de descontração, despreoucupação e leveza, mas foi sem graça:

— Su-sua mulher?…

— É — confirmou ele, já sem muita paciência. — O que você acha da minha mulher?

Comecei a suar.

— Você quer que eu responda isso? O que acho da sua mulher?

— Quero. O que você acha da minha mulher?

Jesus Cristo amado! Como ele repetia aquela pergunta! Que situação.

Se dissesse que acho Silvinha uma delícia, que queria passar todos os dias acariciando-a e mordiscando-a, que tinha certeza de que poderia fazê-la feliz, que a intensidade do meu desejo por ela seria capaz de pôr o bar em chamas, quer dizer, se dissesse a verdade, ele transformaria minha cara em um xisbacon com ovo. E se dissesse que Silvinha é um jaburu, que não gosto de mulheres tísicas, que ela deve ter mau hálito, quer dizer, se mentisse, ele transformaria minha cara em um xisbacon sem ovo.

E agora?
O que deveria fazer???
Responda enquanto aguarda o novo capítulo de O Brutamontes!!!

Comentários (1)

  • leonardo diz: 26 de janeiro de 2013

    putz!..o negócio é perguntar: Mas quem é sua mulher?…daria mais uns 15 min de vida….rsrs

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