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Túnel do Tempo: O Brutamontes - terceira parte

27 de janeiro de 2013 0

Olhei bem para o brutamontes. Olhei-o nos olhos. A caratonha dele era do tamanho de um forno de microondas. Luzia-lhe nos olhos o fogo da fúria. Olhos que decerto já viram rostos humanos se desmanchando pela ação de seus punhos. Olhos que já viram… a morte.

Engoli, gulp, em seco.

Abri a boca para falar, esforçando-me para não chamá-lo de “seu grandão”, que era o que tinha vontade de fazer. Sim, confesso, pejado: sentia ganas de me humilhar, de rastejar e pedir:

- Não me mate! Não me mate!!!

Mas não o fiz. Tentei me controlar. Consegui, a custo. Respirei fundo, desenhei uma expressão grave no rosto, levei a mão ao bolso esquerdo do jeans e de lá puxei uma nota de cinquenta. Fi-la aterrissar sobre o balcão, a oncinha olhando para mim. O grandão olhou para ela também.

- Meu senhor – comecei. – Está aqui – bati com a ponta do indicador no focinho da onça – a importância mais do que suficiente para pagar o meu drinque. O seu também está pago. Tome outro por conta.

Ele piscou, confuso. Prossegui, aproveitando-me da sua perplexidade:

- Não vim aqui atrás de mulheres ou aventuras, meu senhor. Não, senhor! Estou aqui para relaxar. Apenas isso. Depois de um dia de trabalho duro, depois de tantas preocupações, depois de tomar decisões importantes para a comunidade, depois de deliberar sobre o futuro de outras pessoas, preciso relaxar. Mulheres? Não! Não mesmo. Mulheres são apenas incomodação num momento como este, meu senhor! São apenas… o vazio dos prazer, entende? Prazeres fúteis. Por isso, vou me retirar, meu senhor. Como já disse, aqui está o dinheiro para os drinques – bati outra vez na oncinha. – Passe bem!

E dei meia-volta, e parti em passo acelerado para a rua. Imaginei que meu discurso ia deixá-lo sem ação por alguns segundos e eram esses segundos com que contava para escapulir rumo à salvação da calçada. Avancei resoluto por entre as mesas sem nem sequer olhar para os outros fregueses. Cheguei à porta, botei a mão no trinco e então ouvi o vozeirão dele:

- Ei!

E, em seguida, a voz caramelada de Silvinha:

- Ei!

Não respondi, não virei para trás. Saí. E, na rua, não me envergonho de contar: deitei o cabelo. Corri como um Usain, como o Filho do Vento, como o primo-irmão do Raio, tchau mesmo!

Salvei-me. Ou, pelo menos, mantive a integridade física, embora não possa dizer o mesmo da dignidade.

Não voltei àquele lugar maldito. Escolhi outro bar para meus répi-auers, não muito longe dali, mas com uma senhora vetusta atrás do balcão. Dona Zenaide. Tratava-se de uma gorda. Tinha três queixos, uma braço da espessura da minha coxa, pneus de gordura em volta da cintura e pelancas penduradas por toda parte. E tinha cavanhaque. Por Deus. Pêlos que lhe saíam como serpentes finíssimas da ponta do queixo em direção ao solo. Não era algo bom de se olhar, mas pelo menos estava seguro. Sentia saudades de Silvinha, claro que sentia. De seus braços torneados, do sol em seu cabelo, do seu olhar de gata vadia, do seu sorriso fácil, das suas insinuações suaves, suas quase promessas. Silvinha, Silvinha, Silvinha, como podia ela refocilar-se com aquele monstro?

Olhava para Dona Zenaide e suspirava. Por que tinha que me submeter àquilo, meu Deus? Por quê??? Por que não podia apenas OLHAR para a pequena e meiga Silvinha?

Uma noite, pensava nesse drama com meus cotovelos ásperos espetados no balcão, sorvendo um uísque caubói, observando com amargura Dona Zenaide a se movimentar como um hipopótamo para lá e para cá, suspirando e suspirando, quando ouvi:

- O que você acha da minha mulher?

Engoli o uísque e a respiração. Fiquei paralisado. O sangue me empedrou nas veias. Olhei para o lado. E quase gritei de horror.


O que aconteceu?
Saiba loguito, no próximo capítulo de… O Brutamontes!!!

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