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Posts de janeiro 2013

Sala de Redação

31 de janeiro de 2013 8

Ouça o Sala de Redação desta quinta-feira.

Nos pênaltis, Grêmio consegue classificação para a fase de grupos da Libertadores

31 de janeiro de 2013 32

O Grêmio venceu a primeira decisão da Arena. Foi dramático, foi tenso, foi emocionante, foi mais: foi o velho Grêmio. E foi a recuperação de um jogador que, de certa forma, havia sido injustiçado: Marcelo Grohe, que começou o ano na reserva, defendeu o pênalti que deu ao clube a classificação para a fase de grupos na Libertadores. Mas isso só aconteceu porque, no tempo normal, o Grêmio não soube se portar como deveria.

Um time, para fazer gols, tem que saber fazer gols. Tem que ter jogadores com aptidão para o gol. No Grêmio que pisou no ralo e duro gramado da Arena ontem à noite, só os atacantes sabem fazer gol. Mas um time não pode jogar com quatro, cinco, seis atacantes. Seria preciso que pelo menos um meia fosse mais agressivo e que um dos laterais abrisse o jogo pela ponta. Mas, não. Os dois meias do Grêmio, Elano e Zé Roberto, são muito habilidosos e inteligentes, mas jogam dois passos atrás da meia-lua, lado a lado, paradinhos como duas traves de goleira. Já os laterais, Pará e Alex Telles, são abnegados, são estivadores da bola, mas jamais passam do bico da área para a linha de fundo. Assim fica difícil. E foi assim que o Grêmio jogou no primeiro tempo.

O Grêmio parecia o Barcelona dominando o jogo. Ficava com a bola mais de 70% do tempo, trocava passes, mantinha suas forças de ocupação dentro do campo do adversário. Mas cadê a infiltração? Cadê o drible vertical? Cadê Messi, Xavi e Iniesta? Verdade que Vargas foi insinuante, partia a drible para cima dos zagueiros, se movimentava, abria espaços, mas quem, além dele? Ninguém. Moreno era sonolento e os demais só evoluíam até a linha da área, sem nunca entrar nela. Resultado: o Grêmio era dono do jogo, mas não do placar.

Chance de gol, mesmo, só com uma falta cobrada por Elano, aos 10 minutos. Afora isso, só esforço baldado. Luxemburgo apercebeu-se de todos esses defeitos do time e tentou corrigi-los drasticamente no segundo tempo. Como não dispunha de um meia goleador ou de um lateral ofensivo no banco de reservas, lançou mão de atacantes: tirou Moreno, colocou Willian José; tirou Fernando, colocou André Lima. Não era o ideal, mas era o que havia para o momento, até porque a LDU não atacava, só esperava o tempo passar.

Mesmo assim, o Grêmio não melhorou. Ao contrário, o time parecia mais nervoso, os jogadores levantavam a bola de uma intermediária a outra ou cometiam o abominável chuveirinho logo que cruzavam a linha divisória. Para marcar um gol, só mesmo num chute de fora da área, num escanteio, numa falta. E foi assim que aconteceu. Primeiro, aos 13 minutos, Elano quase fez numa cobrança de falta bem defendida pelo goleiro Domínguez. Na sequência, o jovem zagueiro Bressan perdeu na frente do gol. Mais um minuto e Elano dominou a bola na intermediária, a 30 metros do gol. enquadrou o corpo, engatilhou o chute e disparou o que os antigos cronistas chamariam de petardo. A bola voou em curva e entrou no ângulo direito do goleiro. Foi belíssimo, o primeiro gol oficial da Arena.

O Grêmio se acalmou um pouco depois de marcar, passou a dominar a partida com um pouco mais de racionalidade. Outra boa providência foi a entrada de Jean Dereth, enfim um meia de drible, de ingresso na área. E então o Grêmio só não ampliou porque o árbitro argentino provavelmente só assinalaria uma falta em caso de tiro. Hurtado só foi expulso porque aplicou um golpe de MMA em Dereth. O final em 1 a 0 acabou sendo, senão justo, lógico.

Nos pênaltis, os centroavantes André Lima e Willian José acertaram, mas o jovem zagueiro Saimon chutou fraco e o goleiro defendeu. Por sorte, Reasco acertou na trave. Três pênaltis para cada um, 2 a 2. No quarto, Pará bateu forte e marcou. Velez empatou: 3 a 3. No quinto pênalti, Vargas fez. E, no da LDU, Canuto também foi competente. Quatro a quatro. Na sequência, Alex Telles colocou no canto esquerdo e o goleiro quase pegou, mas a bola entrou. Finalmente, Morante chutou no meio e Marcelo Grohe defendeu. Grêmio classificado.

Grande Marcelo Grohe

31 de janeiro de 2013 96

A perseguição do Santana transformou o Marcelo Grohe em personagem do futebol gaúcho.
Some-se a isso o fato de ele ter perdido a posição depois de fazer um bom ano de 2012, algo que, de certa forma, foi inexplicável, sobretudo porque o novo titular, Dida, é um goleiro veteraníssimo, de 40 anos de idade.
Assim, a consagração de Marcelo Grohe na primeira decisão da Arena, ontem, foi ainda maior do que poderia ser. Foi uma sagração.
Marcelo Grohe, por ter sido injustiçado, já é o primeiro grande protagonista desta nova era da Arena.
Trata-se de um goleiro competente, que é dotado de uma qualidade fundamental: a rapidez. Além disso, sua reação aos ataques que recebe do mais importante colunista do Estado e ao seu rebaixamento à reserva mostra que ele é frio, que tem controle e que tem bom caráter.
Torço pelo Marcelo Grohe.

Sala de Redação

30 de janeiro de 2013 15

Ouça o Sala de Redação desta quarta-feira.

Túnel do Tempo: A gente vai levando

30 de janeiro de 2013 3

Nós vivemos no gerúndio. Nós brasileiros. Estamos sempre fazendo, sempre chegando, estamos quase lá, espere um pouquinho, já vai.

Nunca estamos prontos.

O Brasil nunca fica pronto.

É por isso que usamos tanto o gerúndio ao falar e ao escrever. Agimos como falamos; falamos como pensamos.

Os portugueses se espantam com o nosso abuso do gerúndio.
É curioso: empregamos a mesma língua, a última flor do Lácio inculta e bela, como diria Olavo Bilac. Mas não a empregamos da mesma forma. Exageramos no gerúndio e no diminutivo, e não é por acaso. Porque precisamos do diminutivo para amolentar as expectativas dos outros. Não queremos que os outros esperem e exijam tanto de nós. Afinal, vivemos no gerúndio. Estamos fazendo, estamos nos preparando, estamos indo. Calminha, queridinho.

-
O gerúndio invencível

Quando você liga para uma operadora de celular, por exemplo. A moça promete com aquela voz de alcachofra:

– Nós vamos estar disponibilizando.

Ela aparafusou dois verbos antes do gerúndio. O que significa isso? Significa que ela está com as orelhas entre fones de ouvido, lixando as unhas, vendo as fotos da Caras. Ela está fazendo tudo isso enquanto FINGE ouvir as suas reclamações.

Um gerúndio protegido por dois verbos é intransponível. Jamais deixará de ser gerúndio.

-
O gerúndio da vitória

Um amigo meu enfrenta com galhardia o gerúndio. É o seguinte: faz meses que ele cerca uma mulher casada. Trata-se de um amigo que tem preferências por assediar casadas. Diz ele que uma casada, quando se entrega, faz com que o sedutor se sinta um macho selvagem, um campeão do sexo, um príncipe das atividades interlençóis. Porque, por ser casada, ela não está mais acostumada a noitadas tórridas, tudo para ela é tépido, tudo é cinzento e baço feito um jogo do Grêmio. Então, o meu amigo toma uma casada nos braços e faz TUDO com ela. E ela diz:

– Que homem! Não existe homem como você!

Esqueceu-se, a casada infiel, que o próprio marido dela, um dia, antes de ser vitimado pela modorra do matrimônio, também foi fogoso, também foi selvagem, também foi um campeão.

Enfim.

O fato é que meu amigo está assediando há meses essa morena, alta, de pernas longas, nádegas sólidas como a defesa da Alemanha, seios agudos como um contra-ataque de Robben e, bem, você sabe que tipo de mulher. Ele tenta e tenta, e nada. Aí dia desses ele me procurou uivando de felicidade. Perguntei-lhe a razão. Ele respondeu:

– Ela disse que ESTÁ PENSANDO nas minhas propostas.

Ri:

– Pô, mas então você está no gerúndio…

Ele rebateu:

– Não: o casamento dela é que está no gerúndio.

Sábio, o meu amigo que adora casadas.

-
O gerúndio de pedra

Faça o seguinte: desça a Taquari, em direção à Zona Sul. Se você olhar para o seu lado direito, verá o Cristal. Com sorte, verá também alguns cavalos de garbo e porte, cauda empinada, cabeça erguida. Mas não pare, continue. Vá como quem vai para o Barra Shopping. Você terá que dobrar à direita no fim da rua. Neste cruzamento, vai deparar com umas obras da prefeitura. Estão sinalizadas por uns cones, um troço improvisado.

Sabe desde quando existe aquela improvisação?

Desde antes da inauguração do Barra Shopping. Há uns dois anos, portanto. Um relaxamento. Uma falta de capricho. Um gerúndio de plástico e concreto. Aquilo ali está sendo feito, está quase pronto, está saindo já, já.

Há gerúndios por todos os bairros de Porto Alegre.
Aquela calçada ali precisa de reforma, a rua não tem placa que lhe indique o nome, o asfalto está esburacado, uns tijolos e uns paralelepípedos rolam pelo meio-fio. Mas não fique nervoso, a solução está sendo providenciada. Vamos estar resolvendo, garantiu a prefeitura. Fique tranquilinho aí, amiguinho.

Esse é o nosso problema para sediar a Copa do Mundo. Vamos ter que sair do gerúndio. Vamos ter que ficar prontos. Em três anos!

Não será fácil. Não é fácil mudar velhos hábitos. Não é fácil sair do gerúndio.

Sala de Redação

29 de janeiro de 2013 3

Ouça o Sala de Redação desta terça-feira.

Não consigo esquecer

29 de janeiro de 2013 49

Vi uma menina em meio aos cadáveres, no ginásio de Santa Maria.

Não consigo esquecer aquela menina.

Eu estava caminhando pelos corredores de corpos das vítimas do incêndio na boate, estava angustiado com o cenário de horror. Na verdade, não sabia exatamente o que pensar nem o que sentir, e ainda estou pensando, ainda estou sentindo.

Então, avancei pelo corredor central, até onde haviam sido dispostas as mulheres, todas elas cobertas até a cintura por uma lona.

E a vi.

Ela estava deitada à direita do corredor principal, numa das fileiras frontais. Era uma moreninha de cabelos pretos e lisos que lhe escorriam até um palmo abaixo dos ombros. O que primeiro me chamou a atenção foram, exatamente, os cabelos. Pareciam estar penteados. Tinham brilho. Em seguida, olhei bem para seu rosto. Era bonita, de feições delicadas, boca e nariz pequenos. Os olhos escuros estavam semiabertos, como se ainda enxergassem ou estivessem se abrindo de um sono reparador. Era muito jovem. Quantos anos teria? Dezoito? Dezenove no máximo.

Eu ia para um lado e para outro, mas acabava voltando e olhando-a. Por algum motivo, precisava olhá-la. Pensei que parecia uma menina bem cuidada. Sim, uma menina tratada com doçura, como têm de ser tratadas as meninas. Devia ser o orgulho dos pais, a paixão dos avós. Provavelmente estudava nos semestres iniciais de alguma das faculdades de Santa Maria. Talvez Veterinária. Sim, aposto que era Veterinária, a menina devia adorar bichos.

Devia ser uma menina alegre, que iluminava os locais em que chegava. Devia estar no primeiro namorado, nos primeiros beijos, nas primeiras dores de amor. Espantoso como dela emanava serenidade. A impressão era de que logo se ergueria dali, sorridente e estremunhada do adormecer, e olharia para mim, e me cumprimentaria com leveza, e sairia daquele lugar macabro com passos de quem já foi bailarina.

Lembrei de uma história contada no Evangelho de São Marcos. Jesus chega ao velório de uma menina. Todos choram, e ele diz:

– Por que estão chorando? Ela não está morta, está apenas dormindo.

As pessoas caçoam de Jesus, mas ele se aproxima do corpo e ordena:

– Talita, cumi!

Ou seja:

– Menina, levanta!

E a menina se levantou para a vida.

Pensei que aquela menina de Santa Maria poderia se levantar para a vida naquele momento. Porque ela parecia, mesmo, viva. Tão bela, tão criança, tanto para fazer neste mundo. E aí olhei para ela e pensei: menina, levanta! E, por um momento, acreditei que ela pudesse, de fato, se levantar. Olhei, olhei, mas ela não se mexia. Como podia, aquela menina ali? Não podia. Não devia. E de novo pedi: menina, levanta! E a fitei, fixamente. Levanta, menina, pedi outra vez. Levanta. Levanta. Levanta. Levanta.

Sala de Redação

29 de janeiro de 2013 4

Ouça o Sala de Redação desta segunda-feira.

Túnel do Tempo: O brutamontes - final

28 de janeiro de 2013 4

Lá estava ele.

O grandão.

O monstro.

O assassino.

O celerado.

O lutador de jiu-jitsu.

O quebrador de ossos.

O brutamontes.

Continuava com seu corpanzil de peso pesado campeão dos três cinturões, continuava com sua cara homicida, continuava com o brilho do Mal faiscando nos olhos e continuava me fazendo aquela PUTZGRILLIBTMERDLOCASTROQUEPRIUZKREIDEVLOSKI daquela pergunta:

— O que você acha da minha mulher?

Olhei para ele, espantado. Olhei para Dona Zenaide, mais espantado ainda. Olhei em volta, procurando Silvinha pelo bar. Mas não havia Silvinha por ali. Não havia nada parecido com Silvinha e seus cabelos ensolarados e seus braços macios. Olhei de novo para Dona Zenaide. Balbuciei, sentindo os ossos se transformando em patê:

— S-s-s-sua mu-mulher?…

— É — repetiu ele, com certa impaciência. — O que você acha da minha mulher?

Uma bola de tênis de horror se formou em minha garganta e começou a rolar para cima, até a boca. Com alguma dificuldade, consegui balbuciar:

— Do… Do… Do… Dona Zenaide?

Então o maciste piscou. Atirou o olhar para trás do balcão. Fincou os olhos em Dona Zenaide.

E caiu na gargalhada.

Era um riso estrepitoso, bombardino, que rimbombava pelo bar. Embora aquela risada fosse algo como o som das mil hienas guardiãs da porta do inferno rindo em uníssono, serviu para me deixar um pouquinho mais relaxado. Parecia que ele ainda não ia me matar.

Ainda.

Esperei que parasse de rir. Parou enfim, enxugando uma lágrima que lhe corria pelas crateras do rosto.

— Não… — ele suspirou. — Não… Achei que você soubesse quem é a minha mulher. Achei que estivesse olhando para ela — e jogou a cabeça para o lado, indicando a ponta do balcão.

Então a reconheci. Ela. A mesma morena que estava no bar da Silvinha, ainda de vestido curto, ainda de cabelos longos, ainda na ponta do balcão, ainda sorrindo a observar a cena. Abri a boca.

— Sua mulher?…

— Minha mulher — o gigante sorria, divertindo-se com a minha confusão.

Olhei para ele e dele para ela e de novo para ele e outra vez para ela.

— Você quer saber o que eu acho… da sua… mulher?

Minha confusão aumentou. O que ele pretendia??? Será que achava que eu andava atrás da mulher dele de bar em bar? Puxa, a mulher dele não servia para feia, mas eu nem havia reparado nela! Estava pronto para dizer isso, quando ele se abaixou e aproximou a cabeçorra da minha. Falou baixinho no meu ouvido, o hálito quente batendo-me nos tímpanos, a malícia quente e pastosa escorrendo-me cérebro adentro:

— Você gostaria… de uma noite a três?

Rapidamente, imaginei a cena: eu pelado na cama com a morena e, de repente, aquele urso se achegando de algum lugar, querendo coisinhas comigo. A ideia me pareceu mais horrenda do que apanhar dele. Tamanho horror foi que me deu forças para tirar outra oncinha do bolso, fincá-la no balcão para pagar minha conta e dizer:

— Nem pensar!

Antes que ele respondesse, zuni para longe dali. Voltei correndo para o bar da Silvinha, a injustiçada. Que saudade, Silvinha. Desculpa, Silvinha.

Faltou espaço para tanta dor

27 de janeiro de 2013 27

Todas as formas de dores da alma humana estavam reunidas no Ginásio Farrezão, no final da tarde deste domingo, em Santa Maria. Num lado do ginásio, logo depois da porta de entrada, pouco antes da linha lateral da quadra, havia um velório coletivo. Caixões de madeira foram postos sobre cavaletes, com os nomes dos mortos escritos em etiquetas coladas nos tampos. Os amigos e familiares ficavam em volta, de pé, ou sentados em cadeiras de plástico. Não se passavam 10 minutos sem que alguma mãe ou avó desmaiasse de emoção. Elas caíam no chão de pedra e logo eram atendidas por médicos, psicólogos ou até freiras que lá estavam para prestar auxílio espiritual.

Do outro lado da quadra, passando a linha lateral oposta, pais e irmãos de vítimas aguardavam sentados em cadeiras ou nas arquibancadas. O sistema de som anunciava:

— Atenção, familiares de…

E citava um nome. Os parentes, então, se apresentavam e eram conduzidos ao salão ao lado, a outra quadra, em que estavam dispostos os corpos sobre lonas pretas. Nesse momento existia um fio delgado de esperança de que o nome chamado não correspondesse ao corpo, de que o filho ou filha estivesse vivo em algum hospital ou perdido pela cidade, sabe-se lá. É evidente que essa esperança, em geral, se esvaía em poucos minutos, e os pais e mães saíam do ginásio transidos de dor, prontos para passar à outra parte do lugar, para o setor que observavam do seu lado da quadra: o velório coletivo.

No salão em que estavam os corpos, o calor fazia efeito. O cheiro de carne em decomposição começava a pesar, e nem as máscaras cirúrgicas distribuídas na entrada evitavam a náusea. Não há frigoríficos para acomodar os corpos, nem há espaço no IML de Santa Maria, lá só existe capacidade para 10 corpos. Não havia caixões suficientes, funerárias de cidades vizinhas foram acionadas para suprir a demanda. E, nos corações do povo que se reunia de olhos vermelhos em volta do ginásio, não havia espaço para tanta dor.

Túnel do Tempo: O Brutamontes - terceira parte

27 de janeiro de 2013 0

Olhei bem para o brutamontes. Olhei-o nos olhos. A caratonha dele era do tamanho de um forno de microondas. Luzia-lhe nos olhos o fogo da fúria. Olhos que decerto já viram rostos humanos se desmanchando pela ação de seus punhos. Olhos que já viram… a morte.

Engoli, gulp, em seco.

Abri a boca para falar, esforçando-me para não chamá-lo de “seu grandão”, que era o que tinha vontade de fazer. Sim, confesso, pejado: sentia ganas de me humilhar, de rastejar e pedir:

- Não me mate! Não me mate!!!

Mas não o fiz. Tentei me controlar. Consegui, a custo. Respirei fundo, desenhei uma expressão grave no rosto, levei a mão ao bolso esquerdo do jeans e de lá puxei uma nota de cinquenta. Fi-la aterrissar sobre o balcão, a oncinha olhando para mim. O grandão olhou para ela também.

- Meu senhor – comecei. – Está aqui – bati com a ponta do indicador no focinho da onça – a importância mais do que suficiente para pagar o meu drinque. O seu também está pago. Tome outro por conta.

Ele piscou, confuso. Prossegui, aproveitando-me da sua perplexidade:

- Não vim aqui atrás de mulheres ou aventuras, meu senhor. Não, senhor! Estou aqui para relaxar. Apenas isso. Depois de um dia de trabalho duro, depois de tantas preocupações, depois de tomar decisões importantes para a comunidade, depois de deliberar sobre o futuro de outras pessoas, preciso relaxar. Mulheres? Não! Não mesmo. Mulheres são apenas incomodação num momento como este, meu senhor! São apenas… o vazio dos prazer, entende? Prazeres fúteis. Por isso, vou me retirar, meu senhor. Como já disse, aqui está o dinheiro para os drinques – bati outra vez na oncinha. – Passe bem!

E dei meia-volta, e parti em passo acelerado para a rua. Imaginei que meu discurso ia deixá-lo sem ação por alguns segundos e eram esses segundos com que contava para escapulir rumo à salvação da calçada. Avancei resoluto por entre as mesas sem nem sequer olhar para os outros fregueses. Cheguei à porta, botei a mão no trinco e então ouvi o vozeirão dele:

- Ei!

E, em seguida, a voz caramelada de Silvinha:

- Ei!

Não respondi, não virei para trás. Saí. E, na rua, não me envergonho de contar: deitei o cabelo. Corri como um Usain, como o Filho do Vento, como o primo-irmão do Raio, tchau mesmo!

Salvei-me. Ou, pelo menos, mantive a integridade física, embora não possa dizer o mesmo da dignidade.

Não voltei àquele lugar maldito. Escolhi outro bar para meus répi-auers, não muito longe dali, mas com uma senhora vetusta atrás do balcão. Dona Zenaide. Tratava-se de uma gorda. Tinha três queixos, uma braço da espessura da minha coxa, pneus de gordura em volta da cintura e pelancas penduradas por toda parte. E tinha cavanhaque. Por Deus. Pêlos que lhe saíam como serpentes finíssimas da ponta do queixo em direção ao solo. Não era algo bom de se olhar, mas pelo menos estava seguro. Sentia saudades de Silvinha, claro que sentia. De seus braços torneados, do sol em seu cabelo, do seu olhar de gata vadia, do seu sorriso fácil, das suas insinuações suaves, suas quase promessas. Silvinha, Silvinha, Silvinha, como podia ela refocilar-se com aquele monstro?

Olhava para Dona Zenaide e suspirava. Por que tinha que me submeter àquilo, meu Deus? Por quê??? Por que não podia apenas OLHAR para a pequena e meiga Silvinha?

Uma noite, pensava nesse drama com meus cotovelos ásperos espetados no balcão, sorvendo um uísque caubói, observando com amargura Dona Zenaide a se movimentar como um hipopótamo para lá e para cá, suspirando e suspirando, quando ouvi:

- O que você acha da minha mulher?

Engoli o uísque e a respiração. Fiquei paralisado. O sangue me empedrou nas veias. Olhei para o lado. E quase gritei de horror.


O que aconteceu?
Saiba loguito, no próximo capítulo de… O Brutamontes!!!

Código David: Um Gênio de Verdade

27 de janeiro de 2013 0

Dizer que Mozart era gênio é uma obviedade estrepitosa, embora as pessoas sejam demasiado pródigas em besuntar uns e outros com esse adjetivo. Um gênio, vou dizer o que é um gênio. É o seguinte: Mozart, aos quatraninhos de idade, via a sua irmã mais velha tomar lições de piano. Vendo-a, aprendeu a tocar esse que é talvez o mais sofisticado de todos os instrumentos musicais. Ou seja: não apenas dominou o piano aos quatro anos, como fez isso SOZINHO, antes de aprender a ler. Outra: aos cinco, o pequeno Mozart fez suas primeiras composições; aos seis, estava se apresentando pela Europa, encantando reis e rainhas. Gênio. Eis um gênio.

Uma das rainhas que se embeveceu com o menino Mozart foi Maria Tereza, da Áustria. Durante o recital que fez para ela e para a família real, ele escorregou e esparramou-se no chão. A filha da rainha, Antônia, que depois seria chamada de Maria Antonieta, casaria com Luis XVI e teria a cabeça separada do corpo pela guilhotina da Revolução Francesa, essa Antônia, que tinha sete anos de idade, juntou do chão o menino prodígio. Mozart, encantado com a doçura e a beleza loira da princesa, suspirou:

– És muito gentil. Quero casar contigo!

Sorrindo ante o arroubo da criança, a imperatriz pespegou-lhe um beijo no rosto e disse:

– Serás o rei dos músicos, meu querido. Poderá casar mais tarde, se quiser.

Então, Mozart pulou no colo de Maria Tereza e se derramou:

– Quero casar contigo também!

Mozart seguiu assim, arrebatado e sensível, pelo resto da vida. Existia para a música. Era dotado de ouvido absoluto, e por essa razão odiava todo som desarmônico. O trompete, por exemplo, ele não suportava. Um dia, seu pai forçou-o a ouvir um trompetista e o menino desmaiou de horror. Seu nascimento aconteceu num 27 de janeiro como o deste domingo; sua morte, 35 anos depois, por doença, provavelmente infecção intestinal. Mozart estava pobre e sozinho. Como chovia baldes, ninguém acompanhou o féretro. Foi enterrado numa cova de indigente que ninguém conseguiu encontrar depois. Triste, mas posso dizer que houve duas compensações para tanta tristeza: Mozart não estava vivo para ver Maria Antonieta ser decapitada dois anos depois e partiu deste mundo com a certeza de que seria lembrado pelos pósteros mesmo agora, 200 anos depois.

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O diário de Victoria

Victoria mora em Pelotas. Ela tem entre 15 e 16 anos de idade e é uma leitora assídua desta página.

Victoria mantém um diário eletrônico para o qual narra suas aventuras de adolescente. Ou pré-adolescente, como queiram. Ela me enviou alguns textos desse diário. Achei-os interessantíssimos e pedi autorização a ela para partilhá-los com os leitores. Autorização concedida, começo agora a publicação. Vamos ver até onde iremos, nós e Victoria:

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1º de Maio de 2012

Um guri me pediu em namoro essa semana…

Ele se chama Rodrigo. Eu não vou namorar com ele.

Ele é muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito feio, mas como vou dizer isso pra ele?

Sério, eu tenho muuuuuuuuuuuuuuita vontade de dizer isso… porém, tenho que avaliar o fato de que ele é uma pessoa e tem sentimentos, então não posso, simplesmente, soltar:

“Não, não quero, porque tu é um demônio, um raio…”

Imagina eu falar isso pro guri?! Não dá, né? Bem que eu tenho vontade, porque já estou que não aguento mais ele.

Nem entro mais no msn. Toda vez que entro ele vem falar comigo e fica me cercando.

Disse pra ele que gostava de outro guri (Zanella) e que não queria dar esperança nenhuma pra ele. Não menti… afinal isso é verdade. Se ele fosse bonito teria dito isso também.

Ele me perguntou se eu queria namorar com ele e eu disse que ia pensar. Tenho que pensar muito bem como vou dizer “não” pra ele sem machucar nem nada. Dias desses quase disse sem querer que achava ele feio e ele já ficou chateado.

Tive que mentir. Dizer que não era aquilo que queria dizer e tudo mais.

Aí ele acreditou. Acho que acreditou.

O Zanella teve na casa do Matheus… a Amanda me contou que foi pra falar de coisas de quartel.

Mas só que não vi ele.

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7 de Maio de 2012

Bah, não me aguentei. Falei pro guri que achava ele feio e que não queria namorar com ele.

Tá, tudo bem, era pra ter falado com mais jeito. Eu sou meio direta às vezes.

Pelo menos ele agradeceu por eu ter falado a verdade.

Ai, mas eu já estava que não aguentava mais.

Ai, graças a Deus! Pelo menos agora ele parou um pouco de falar comigo!

Agora vou poder entrar no meu msn de volta.

Faz tempo que não falo com a Amanda.

Tenho que falar com ela.

Se der tempo, porque ultimamente ando bem ocupada.

Amanhã tenho curso, aliás já ando sem vontade de ir.

Que novidade! Nem me surpreende.

O QUE LER

A vida de Mozart

Stendhal passou a vida inteira tentando alcançar sucesso literário. Não conseguiu. Tornou-se famoso só meio século após a sua morte, o que foi terrível para ele, mas não deixa de ser um consolo para mim – sempre posso dizer que o reconhecimento virá daqui a cem anos.

Stendhal foi autor de romances e biografias, entre elas uma de Mozart, um livro pequeno, que pode ser lido de um único gole. Foi editado em formato de bolso pela L&PM, 80 páginas. Leia e saiba mais sobre dois grandes homens que morreram tristes, mas que fizeram os pósteros felizes.

Abra agora o YouTube e escreva ali no espaço de busca: “Concerto para piano número 23, andante, Mozart”. Ouça em alto volume e altíssima concentração. E tenha uma experiência transcendental.

O QUE OUVIR

Abra agora o YouTube e escreva ali no espaço de busca:“Concerto para piano número 23,andante,Mozart”.Ouça em alto volume e altíssima concentração. E tenha uma experiência transcendental.

  • O diário de Victoria

    Victoria mora em Pelotas. Ela tem entre 15 e 16 anos de idade e é uma leitora assídua desta página.

    Victoria mantém um diário eletrônico para o qual narra suas aventuras de adolescente. Ou pré-adolescente, como queiram. Ela me enviou alguns textos desse diário. Achei-os interessantíssimos e pedi autorização a ela para partilhá-los com os leitores. Autorização concedida, começo agora a publicação. Vamos ver até onde iremos, nós e Victoria:

  • <!– Um guri me pediu em namoro essa semana…

    Ele se chama Rodrigo. Eu não vou namorar com ele.

    Ele é muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito feio, mas como vou dizer isso pra ele?

    Sério, eu tenho muuuuuuuuuuuuuuita vontade de dizer isso… porém, tenho que avaliar o fato de que ele é uma pessoa e tem sentimentos, então não posso, simplesmente, soltar:

    “Não, não quero, porque tu é um demônio, um raio…”

    Imagina eu falar isso pro guri?! Não dá, né? Bem que eu tenho vontade, porque já estou que não aguento mais ele.

    Nem entro mais no msn. Toda vez que entro ele vem falar comigo e fica me cercando.

    Disse pra ele que gostava de outro guri (Zanella) e que não queria dar esperança nenhuma pra ele. Não menti… afinal isso é verdade. Se ele fosse bonito teria dito isso também.

    Ele me perguntou se eu queria namorar com ele e eu disse que ia pensar. Tenho que pensar muito bem como vou dizer “não” pra ele sem machucar nem nada. Dias desses quase disse sem querer que achava ele feio e ele já ficou chateado.

    Tive que mentir. Dizer que não era aquilo que queria dizer e tudo mais.

    Aí ele acreditou. Acho que acreditou.

    O Zanella teve na casa do Matheus… a Amanda me contou que foi pra falar de coisas de quartel.

    Mas só que não vi ele.

    –>

  • 1º de Maio de 2012

    Um guri me pediu em namoro essa semana…

    Ele se chama Rodrigo. Eu não vou namorar com ele.

    Ele é muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito feio, mas como vou dizer isso pra ele?

    Sério, eu tenho muuuuuuuuuuuuuuita vontade de dizer isso… porém, tenho que avaliar o fato de que ele é uma pessoa e tem sentimentos, então não posso, simplesmente, soltar:

    “Não, não quero, porque tu é um demônio, um raio…”

    Imagina eu falar isso pro guri?! Não dá, né? Bem que eu tenho vontade, porque já estou que não aguento mais ele.

    Nem entro mais no msn. Toda vez que entro ele vem falar comigo e fica me cercando.

    Disse pra ele que gostava de outro guri (Zanella) e que não queria dar esperança nenhuma pra ele. Não menti… afinal isso é verdade. Se ele fosse bonito teria dito isso também.

    Ele me perguntou se eu queria namorar com ele e eu disse que ia pensar. Tenho que pensar muito bem como vou dizer “não” pra ele sem machucar nem nada. Dias desses quase disse sem querer que achava ele feio e ele já ficou chateado.

    Tive que mentir. Dizer que não era aquilo que queria dizer e tudo mais.

    Aí ele acreditou. Acho que acreditou.

    O Zanella teve na casa do Matheus… a Amanda me contou que foi pra falar de coisas de quartel.

    Mas só que não vi ele.

  • <!– Bah, não me aguentei. Falei pro guri que achava ele feio e que não queria namorar com ele.

    Tá, tudo bem, era pra ter falado com mais jeito. Eu sou meio direta às vezes.

    Pelo menos ele agradeceu por eu ter falado a verdade.

    Ai, mas eu já estava que não aguentava mais.

    Ai, graças a Deus! Pelo menos agora ele parou um pouco de falar comigo!

    Agora vou poder entrar no meu msn de volta.

    Faz tempo que não falo com a Amanda.

    Tenho que falar com ela.

    Se der tempo, porque ultimamente ando bem ocupada.

    Amanhã tenho curso, aliás já ando sem vontade de ir.

    Que novidade! Nem me surpreende.

    –>

  • 7 de Maio de 2012

    Bah, não me aguentei. Falei pro guri que achava ele feio e que não queria namorar com ele.

    Tá, tudo bem, era pra ter falado com mais jeito. Eu sou meio direta às vezes.

    Pelo menos ele agradeceu por eu ter falado a verdade.

    Ai, mas eu já estava que não aguentava mais.

    Ai, graças a Deus! Pelo menos agora ele parou um pouco de falar comigo!

    Agora vou poder entrar no meu msn de volta.

    Faz tempo que não falo com a Amanda.

    Tenho que falar com ela.

    Se der tempo, porque ultimamente ando bem ocupada.

    Amanhã tenho curso, aliás já ando sem vontade de ir.

    Que novidade! Nem me surpreende.

Túnel do Tempo: O Brutamontes - segunda parte

26 de janeiro de 2013 1

O instinto de sobrevivência injetou-me adrenalina nas veias. Meu corpo ficou retesado, pronto para empreender uma fuga magnífica bar afora. Tentei lembrar da geografia do local a fim de calcular as chances de escapar ileso: havia cadeiras, mesas e pessoas entre mim e a salvação da porta de saída. O grandalhão ao lado, o marido da Silvinha, ele era isso mesmo: um grandalhão. Seus braços e pernas não apenas eram musculosos, eram também compridos como os braços e as pernas da Lei. Alcançar-me-ia com alguma facilidade, como um guepardo alcança um gnu na savana.

Era precisamente como me sentia: como um gnu espreitado pelo bando de grandes felinos famintos. Foi um sorriso de gnu que enviei para o brutamontes. Resolvi fazer-me de desentendido — talvez houvesse uma possibilidade mínima de não ser comigo ou de ele desistir da briga antes que ela fosse consumada. Murmurei:

— Perdão? O senhor está falando comigo?

Agora sentia-me um covarde perfeito. Um pusilânime. Será que as outras pessoas estavam acompanhando aquele espetáculo deplorável? Olhei rapidamente em torno. Na ponta direita do balcão, uma morena magra, de uns 30 anos de idade, cabelos longos e vestido curto, acompanhava a cena e se divertia. Sorria sem pejo, decerto aguardando pelo meu massacre. Seria uma morena que talvez me interessasse, em circunstâncias mais favoráveis. Não queria que pensasse de mim o que, obviamente, estava pensando.

Enrubesci.

Na ponta esquerda, um casal ao menos dissimulava. Riam, e eu tinha quase certeza de que riam de mim, mas riam à socapa, baixinho, disfarçando o olhar de ironia. Fiquei ainda mais envergonhado de mim mesmo. Deveria reagir com galhardia, deveria mostrar que sou um homem, não um verme. Mas o medo era maior do que a dignidade. Sobretudo porque o monstro voltara a falar com seu vozeirão de quem gosta de esmagar ossos humanos com as próprias mãos:

— É com você mesmo. A pergunta foi: “O que você acha da minha mulher?”

Bem. Agora não havia mais dúvida nenhuma. O assassino perito em artes marciais claramente estava demarcando território. Na certa queria se exibir para Silvinha, mostrar como ele era capaz de reduzir a uma pasta de carne e sangue qualquer rival que se aproximasse dela.

Silvinha.

Tão frágil, tão formosa, tão linda e delicada, perdia-se todas as noites nos braços de aço daquele bruto.

Braços de aço…

Engoli em seco. Precisava ganhar tempo para pensar. Ri um riso que devia ser de descontração, despreoucupação e leveza, mas foi sem graça:

— Su-sua mulher?…

— É — confirmou ele, já sem muita paciência. — O que você acha da minha mulher?

Comecei a suar.

— Você quer que eu responda isso? O que acho da sua mulher?

— Quero. O que você acha da minha mulher?

Jesus Cristo amado! Como ele repetia aquela pergunta! Que situação.

Se dissesse que acho Silvinha uma delícia, que queria passar todos os dias acariciando-a e mordiscando-a, que tinha certeza de que poderia fazê-la feliz, que a intensidade do meu desejo por ela seria capaz de pôr o bar em chamas, quer dizer, se dissesse a verdade, ele transformaria minha cara em um xisbacon com ovo. E se dissesse que Silvinha é um jaburu, que não gosto de mulheres tísicas, que ela deve ter mau hálito, quer dizer, se mentisse, ele transformaria minha cara em um xisbacon sem ovo.

E agora?
O que deveria fazer???
Responda enquanto aguarda o novo capítulo de O Brutamontes!!!

Túnel do Tempo: O brutamontes

25 de janeiro de 2013 6

Silvinha era uma loirinha macia e dourada.

Bom, pelo menos eu achava que ela era macia. Dourada dava para ver que era. Como era.

Queria muito aquela loirinha. Ela atendia no balcão do bar, sempre atrás de um sorriso, sempre debaixo de seus cabelos de ouro derretido. Magrinha. Jeitosinha. Uns olhos de promessas.

Ia ao bar só por causa dela. Sentava-me ao balcão e ficava jogando conversa para o lado de lá. Ela sorria das minhas gracinhas, me chamava de bobo:

- Como você é bobo…

Adorava quando ela me chamava de bobo.

Uma noite estava lá, sentadão, tranquilão. Pedi um chope, ela se virou para ir buscar e fiquei olhando ela ir-se. Era bonito de se ver.

Aí aquele cara sentou-se ao meu lado.

Era um cara grande. Usava camiseta apertada. Beibe-lúqui. Acho que era uma camiseta de lutador de jiu-jitsu. Ele tinha umas bolotas de músculo no braço e no peito. Ele tinha um pescoço da largura de um pneu. Ele ficou me olhando. Não olhei para ele, mas senti que me olhava. Aquilo me chateou. Por que que um desgranido de um lutador de jiu-jitsu de um metro e noventa e cheio de músculos me olhava?

Chato.

Por via das dúvidas, não olhei para ele. Continuei atento aos movimentos da Silvinha.

Então ele perguntou:

- O que você acha da minha mulher?

Estremeci. Antes de me voltar para ele, já sabia de quem estava falando: Silvinha. O brutamontes era o marido da Silvinha!
-

E agora?

O que aconteceu?

Diga. Me ajude!

Sala de Redação

25 de janeiro de 2013 2

Ouça o Sala de Redação desta sexta-feira.