Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts de fevereiro 2013

Sala de Redação

28 de fevereiro de 2013 3

Ouça o Sala de Redação desta quinta-feira.

Túnel do tempo: Eles sabem o que fazem

28 de fevereiro de 2013 7

Acho que foi na primeira vez em que os Beatles e os Rolling Stones se encontraram, deve ter sido. Os Stones mal começavam sua carreira eterna, eram fãs dos Beatles, estavam encantados em conhecê-los. Aí Paul MacCartney e John Lennon decidiram homenageá-los. Avisaram que iam fazer uma musiquinha para seus novos amigos. E foram para um canto, levando uma folha de papel e uma caneta, e começaram a escrever. Mick Jaegger e Keith Richards olharam, espantados. Um deles comentou:

– My God! Olha ali! I don’t believe!

Eles estão fazendo uma música neste momento! Agora mesmo! E nós estamos testemunhando tudo! Compreensível a admiração: eles assistiam ao momento sagrado da criação dos Beatles, e tudo era tão simples…

Isso na Velha Álbion. Por aqui, no lado de baixo do Equador, onde aliás não existe pecado, sucedeu o seguinte: Chico Buarque, Tom Jobim et caterva estavam numa festa na casa do Francis Hime, bebendo uísque. Era uma época de uísque na vida de Chico, Tom e Vinícius.

Mais tarde, Chico trocaria os destilados pelos fermentados, aderiu à cerveja para continuar vestindo a 9 do Politeama, o time de futebol sete dele. Politeama, por sinal, significa o seguinte, em bom grego: poli é igual a muitos; theama é igual a espetáculo. “Muitos espetáculos”, o nome do time.

Mas voltando à festa da turma: Francis Hime sentou-se ao piano e foi tirando uma melodia. Chico, parado ao lado, de pé, com um copo numa mão e uma Bic na outra, ouvia e escrevia a letra da música. Fácil assim, ouvindo e escrevendo. Só que, no meio da letra, o uísque acabou. Chico largou a caneta. Sem uísque, sem festa; sem festa, sem música. Foi-se embora e deixou a letra inacabada.

Francis Hime ficou com aquele pedaço de letra. Vez em quando, ligava para o Chico, pedia que ele concluísse a música. O Chico, nada. Preguiça, sabe como é. O tempo foi passando. Meses, anos, e a música na gaveta do Francis Hime. Um dia, Francis Hime decidiu tomar uma atitude: pediu para uma certa cantora gravar aquele naco de música e enviou a fita ao Chico, para ver se ele se animava a completá-la. O Chico ouviu a gravação:

Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei, eu te estranhei
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
Nos teus pelos, teu pijama
Nos teus pés, aos pés da cama…

Cara, era “Atrás da Porta”, e a voz era da Elis. Elis sempre cantava com alma, mas essa música em especial parecia vir direto de suas entranhas, do seu pâncreas, da sua vesícula, ela chorava em meio à poesia. O Chico, ouvindo-a, obviamente se emocionou. Finalizou a canção. Com a facilidade habitual, como se estivesse ao lado do piano do Francis Hime, exatamente como Lennon & MacCartney quando foram compor para os Stones. Por quê? Porque, para quem sabe, tudo é simples. Quem não sabe, olha e diz:

– É fácil!

Afinal, a música, o texto, o quadro, a escultura ou o gol são construídos com gestos econômicos, sem muito dispêndio de energia, quase que casualmente.

O Zé Pedro Goulart, que não é centroavante, disse, depois do jogo de quarta, que Ronaldo foi lento ao marcar o gol no Inter. Aí é que está: Ronaldo pareceu lento. Porque teve tanta capacidade para se livrar da marcação do Índio que lhe sobrou tempo para enquadrar o corpo e bater a gol da forma que mais lhe apeteceu. Ronaldo é como um Chico Buarque, é um Beatle da grande área. Simplifica tudo. E o genial é simples.

Mas agora, no dia 1º, o Inter também terá em campo alguém que sabe o que faz. Nilmar. Se Ronaldo é imbatível no logro do zagueiro e na conclusão indefensável, ninguém hoje, no Brasil, chega à bola antes de Nilmar. Não é à toa que Inter e Corinthians estão na final. Eles têm centroavantes. E mais importante: centroavantes que sabem o que fazem.

Sala de Redação

28 de fevereiro de 2013 0

Ouça o Sala de Redação desta quarta-feira.

Túnel do Tempo: Sunga ou bermuda?

27 de fevereiro de 2013 13

Sunga ou bermuda? O sempiterno dilema da vida praiana.

Não poucas mulheres professam ojeriza à sunga. Consideram um homem de sunga um exibicionista. Entendo o porquê. A sunga, por ser sumária e rente ao corpo, pode deixar em relevo os atributos masculinos.

Algumas mulheres sentem-se ultrajadas ao deparar com os volumes íntimos de um homem tornados públicos, e sou forçado a concordar com elas: há sungas indesculpáveis. Nenhuma mais do que a sunga branca. A sunga branca equivale à camisa aberta ao peito, à gargantilha, ao medalhão, ao carro com sistema de som de rave.

Conheço um sujeito que ficou estigmatizado por causa de uma sunga laranja. Usou-a uma única vez, em uma única tarde de um verão distante, mas foi o que bastou para certa moça da alta sociedade porto-alegrense avaliá-lo, julgá-lo e condená-lo: tratava-se, o gajo, de um caso típico e irrecorrível de “bico de chaleira”. A moça essa era muito conhecida em seu meio, muito influente e muito dada à divulgação de notícias — espécie de jornalista amadora. Divulgou para todas as amigas e conhecidas, e até para algumas nem tão conhecidas assim, que o rapaz da sunga laranja tinha dotes modestos, e assim ele se tornou célebre na cidade. Chegava a um lugar, e as pessoas cochichavam à sorrelfa sobre suas mínimas partes, e riam, e riam. Eu mesmo, sempre que o via, lembrava de imediato da fofoca, mas não sabia que a divulgadora jamais tivera contato primário com o órgão difamado.

Até certa noite. Naquela noite, ela teve. Ocorreu neste 2009 ainda de fresca lembrança. Tiveram um encontro casual, ele a cortejou, ela resolveu conferir in loco suas antigas impressões e deu-se o que se deu. Ao fim da noite, a moça voltou para casa positivamente impressionada. No dia seguinte, encontrou algumas amigas e suspirou:

— Guriiiias, eu estava enganada…

Tentou desfazer o mal feito, alegou que fora iludida pela sunga, mas de que adianta agora a retificação? Penas ao vento… O rapaz jamais deixará de ter a má fama que lhe foi imputada, ela lhe acompanhará pela existência toda, como o Estigma de Caim. Será que ele sabe disso? Melhor não. Mas, ontem mesmo, estava eu passeando pelas fímbrias espumantes do Mar Tenebroso e quem vejo? Nosso herói difamado. Vestia discreta bermuda de surfista, larga, espaçosa, que lhe descia aos joelhos. Teria consciência do prejuízo que lhe acarretou a sunga laranja? Até o fim da temporada, vou tomar coragem e perguntar.

Mas o importante é a conclusão a que se chega dessa triste história: a sunga pode ser, sim, problemática. Sem contar que as mulheres gaúchas, a exemplo das portenhas, consideram a bermuda mais elegante. Para nadadores diletantes como eu, no entanto, a sunga é uma necessidade.

Além do mais, a bermuda moderna, compridíssima, na prática as calças curtas redivivas, essa bermuda moderna pressupõe que o homem só sinta calor nas canelas. Ilógico. Mas ainda mais absurdo são as famigeradas calças Capri, que permitem única e tão-somente o arejamento dos tornozelos. Aí, não. Aí é demais.

Como sair de tal imbróglio? Eu, por precaução, tomei uma decisão salomônica, neste verão 2010: visto bermudas e tenho, sob elas, uma discreta sunga de nadador, que exponho só ao entrar na água. Mas preta. Invariavelmente preta. Cautelosamente preta.

Então, leitorinhos, o que vocês preferem??? Sunga ou bermuda? Comentem aqui no post!

Sala de Redação

26 de fevereiro de 2013 11

Ouça o Sala de Redação desta terça-feira.

O homem que não ri

26 de fevereiro de 2013 16

Dida não ria. Lembro-me dele na Seleção Brasileira. O ambiente da Seleção em geral é uma festa. Todos ali estão felizes com a convocação. Naquele momento, encontram-se juntos os profissionais reconhecidos como os melhores do país em sua atividade. Então, essa reunião de talentos é uma alegria, é o rejúbilo da consagração.

Mas Dida nunca dava mostras de estar contente, mesmo sendo titular, mesmo sendo reconhecido como um dos melhores do mundo. Passava o dia sério, quase não falava. Muitos jornalistas o julgavam antipático. Eu, não. Sempre respeitei sua reserva como um traço de personalidade. Alguns são mais calados, pronto. Isso não significa que sejam hostis.

Uma vez, já contei isso, mas vou contar de novo, porque cabe o exemplo, pois uma vez fui fazer uma matéria com o Olívio Dutra, quando ele era prefeito de Porto Alegre. Eu o acompanharia o dia inteiro. Olívio morava, e mora ainda, na Assis Brasil procelosa, num prédio modesto, moradia de trabalhadores, bancários como ele é, distante em tudo dos bairros elegantes da Capital. Ia todos os dias para a prefeitura de ônibus (hoje ele pedala uma bicicleta). O prefeito pingente de uma barra de metal do ônibus, aí estava um excelente mote para a reportagem.

De manhã cedinho, saí com o prefeito de seu prédio, entrei com ele no ônibus, seguimos impávidos até a Praça XV e saltamos no fim da linha. Enquanto ele caminhava, célere, em direção à prefeitura, o fotógrafo veio falar comigo:

– David, pede para ele sorrir, para sair bem na foto.

Fui lá falar com o Olívio, informei-lhe da solicitação do fotógrafo. Então, o prefeito olhou para mim e respondeu detrás do seu bigode, não sem candura:

– Mas eu não estou com vontade de sorrir…

Cara, adorei aquilo. Ali estava um homem autêntico. Ele sorria quando sentia vontade de sorrir e não por concessões à imagem exterior. Também não vejo mal em quem é de mais sorrisos, até prefiro, mas, se o homem não quer sorrir, que não sorria. Que não faça nada forçado.

Dida, suponho, não sorria por ser de fato uma pessoa grave. Talvez isso até o ajudasse na profissão de goleiro, sobretudo na hora de defender pênaltis, uma de suas especialidades. Imagino o atacante prestes a bater na bola, olhando para aquele gigante compenetrado, cenho fechado, até um pouco ameaçador. No momento do chute, o batedor tremia. E Dida fazia a defesa.

Cheguei a imaginar que a seriedade de Dida se devia às agruras do ofício. Porque o goleiro é o antifutebol, é o homem que luta para que não aconteça o que todos querem que aconteça: o gol. O goleiro, em essência, é a nêmesis da sua própria profissão. Então, a sisudez de Dida poderia ser filosófica. Ele não se iludia, por isso sofria em silêncio.

Tudo elucubração minha, claro. Mas o fato é que eu admirava a figura enigmática do Dida, por isso asseguro que não estou, agora, me posicionando atrás de uma das trincheiras erguidas ultimamente no Estado: a de Dida ou a de Marcelo Grohe. Nada disso, não estou alistado. Até porque esse confronto só existe na cabeça dos eventuais correligionários de um e outro. E, é evidente, por causa do conjunto de opiniões do Sant’Ana, que é visceralmente contra a titularidade do Grohe, tanto que indicou Dida ao clube. Reafirmo, pois: não estou contra o Dida, nem contra o Sant’Ana. No entanto, a atuação de Dida no Gre-Nal me faz pensar se ele não estaria mal preparado. Era um grande goleiro, nos tempos de Seleção, mas hoje passa insegurança. Errou em quatro escanteios, num deles saiu o gol do Inter, noutro a bola se chocou com o travessão. Não se portou como o velho Dida. Talvez precise de algum trabalho especial para se recuperar. E ele é capaz de conseguir tal recuperação. Um homem com sua seriedade é capaz de muito.

Sala de Redação

25 de fevereiro de 2013 9

Ouça o Sala de Redação desta segunda-feira.

Túnel do Tempo: Uma história de amor

25 de fevereiro de 2013 0

Adônis era um cara bonitão.

Todas as mulheres da Grécia queriam se cevar nos bíceps rijos dele.

A forma como nasceu já foi um acontecimento: sua mãe era uma princesa cipriota chamada Mirra. Por um ardil próprio dos deuses, ela se apaixonou pelo próprio pai, o rei. Por um ardil próprio das mulheres, conseguiu iludi-lo e repimpou-se com ele por 12 dias seguidos. Quando o rei descobriu o logro, pôs-se em perseguição à filha para executá-la por tê-lo induzido a cometer o crime do incesto. Mirra escapuliu com suas pernas longas, mas seria pega e morta, não fosse a interferência de Afrodite, a deusa do amor, que, penalizada, salvou-a do pai transformando-a em árvore.
Que me desculpem os ecologistas e vegetrianos, mas deve ser aborrecido virar árvore, sobretudo depois que se foi uma princesa fogosa como era Mirra. Mas ela não podia mais falar para reclamar, apenas ficou lá onde havia sido plantada, ela com suas raízes, folhas e galhos balouçantes. Existe ainda e se chama, bem, mirra. Sua essência foi dada ao menino Jesus por um dos três reis magos, junto com ouro e incenso, gostaria de saber o que foi feito do ouro.

Enfim.

Antes disso, Mirra, a primeira mirra, continuou quieta em seu lugar, como costumam fazer as árvores, até que seu tronco começou a ficar abaulado. Intumesceu preocupantemente, o tronco de Mirra, durante nove meses. Ao cabo deste período, rompeu-se e dele brotou… Adônis.
Era tão belo o garoto que encantou Afrodite. Ela convocou outra deusa, a misteriosa Perséfone, que vivia no mundo subterrâneo do inferno, e encarregou-a de tutelar o menino até a maturidade, quando devia ser devolvido a Afrodite, que pretendia usar e abusar dele de todas as formas. Adônis era um sortudo.
Ocorre que Adônis tornou-se um rapagão tão formoso que Perséfone decidiu não devolvê-lo. Queria-o todinho para ela. Adônis era mesmo um sortudo.

Começou a briga entre as deusas:
_ Ele é meu!
_ Não! É meu!
E Adônis no meio. É como se você fosse disputado por Scarlett Johansson e Megan Fox. Por quem você decidiria?

Adônis manteve-se nesse impasse, até que o Todo-Poderoso Zeus resolveu por ele: durante quatro meses do ano, Adônis iria se espadanar com Afrodite, nos outros quatro com Perséfone e os quatro últimos teria para ficar com quem bem entendesse, inclusive a Laisa do BBB. Bom juiz, esse Zeus.
Só que Adônis estava enlevado por Afrodite. Não por acaso _ ela era a deusa do amor! Então, ele passava oito meses com Scarlett, quer dizer, com Afrodite, e os outros quatro com Perséfone.
Tudo ia bem para o nosso galã, até que surgiu um corno brabo, o segundo pior tipo de corno que existe. O primeiro pior é o corno brabo e armado, exatamente o tipo de corno que era Ares, já que esse era ninguém menos do que o deus da guerra. Pois Ares arrastava uma asa divina para Afrodite, e ficou enciumado com o relacionamento dela com Adônis. Furioso, o deus se transformou em um feroz javali e investiu contra Adônis nas sombras de uma floresta grega. O rapaz foi ferido mortalmente. Scarlett-Afrodite, vendo a cena, desesperou-se e saiu correndo para acudir o amante, gritando, oh, não. Na pressa, rasgou a alva carne em um espinho de rosa, que, naquele tempo, era tão-somente uma flor branca. O sangue de Afrodite banhou as pétalas e, desde então, passaram a existir as rosas vermelhas da paixão, que a cada fim de semana são vendidas pelo Odorico nos bares de Porto Alegre, cinco reais cada.
Quanto a Adônis, ele morreu mesmo. Mas Zeus, compadecido com a linda história de amor, transformou-o em uma anêmona e permitiu que, durante quatro meses do ano, ele virasse homem novamente para satisfazer os apetites de Afrodite. É por isso que a anêmona é uma flor que vive só nos quatro meses primaveris, ao fim dos quais fenece e morre.
Agora você já sabe como os gregos explicam a existência de três plantas da natureza e compreende que certos predicados, como a beleza de Adônis, trazem mais complicações do que os defeitos de quem os possuem. Que é o caso de Mano Menezes. Cauteloso, ponderado e educado, está sofrendo contestação por estar fazendo as coisas com calma na Seleção. Acredito que as qualidades de Mano vão superar as dificuldades do cargo. Ele vai passar ainda muito tempo se repoltreando com a Scarlett-Afrodite que é a Seleção Brasileira vitoriosa.

Grêmio era mais valente, Inter teve mais futebol

24 de fevereiro de 2013 86

O Grêmio teve medo de perder com os titulares o Gre-Nal decisivo de Caxias do Sul. Perdeu com os reservas. Os ingressos estavam caros, entre R$ 70 e R$ 100. Resultado: imensos nacos de arquibancada vazios e gente assistindo ao clássico pendurada em telhados, no alto de ladeiras, de janelas de prédios e no cimo dos morros, ação facilitada pela situação geográfica do Estádio Centenário, incrustado no fundo de um vale da cidade. Não importa. Mesmo de longe, os caxienses puderam ver um jogo movimentado, atraente sobretudo para os que torciam para o Inter, que venceu por 2 a 1 com autoridade.

Essa autoridade o Inter demonstrou desde que seus jogadores fincaram as chuteiras na baixada do Centenário. Tratava-se de um time mais coerente. Não apenas porque estava com seus titulares, mas porque seu esquema era equilibrado. Havia ali um meio-campo com dois volantes atentos na marcação, Josimar e Ygor, um meia de muita movimentação, Fred, e outro posicionado para armar as jogadas para o ataque, D’Alessandro. Isso, esse meio-campo, foi a força do Inter no primeiro tempo.

Do outro lado, o Grêmio até tinha organização, no seu esquema com três zagueiros, o que não tinha era material para fazer o time funcionar. Em tese, o 3-5-2 é um sistema que libera os laterais. Bem, os laterais do Grêmio até que foram liberados, só que os laterais do Grêmio eram… Tony e Alex Telles. Muitas vezes eles receberam a bola em condições de ir à linha de fundo e cruzar, ou de entrar na área e chutar, ou de driblar, ou de tabelar com os meias, sabe-se lá, mas eles não conseguiram simplesmente porque não conseguem. Tony volta e meia chegou a pegar a bola e fazer menção de que partiria para o drible, mas entre a intenção e a execução havia sempre o pé do adversário. Alex Telles precisou se conter um pouco mais, porque o Inter vez em quando avançava pelo seu lado com Gabriel, mas, quando teve chance no ataque, tremeu. O velho medo de ser feliz.

Para fechar a roda de incapacidades do esquema gremista, os dois zagueiros que ladeavam Werley, Bressan e Grolli, são da estirpe de beques bem conhecidos da Serra Gaúcha. Não só pelos nomes de origem italiana, mas porque a jogada preferencial deles é o chutão para o alto. Nada contra a virilidade tradicional dos jogadores de defesa da Serra, mas, num 3-5-2, os zagueiros têm que saber jogar, e Bressan e Grolli não sabem.

Assim, o Grêmio dependia de algum lance fortuito, uma escapada, um contragolpe, uma bola parada. O Inter, não. O Inter pressionou com organização e logo no começo quase marcou. Aos quatro minutos, num escanteio da direita bem cobrado por Forlán, Dida escorregou e Juan cabeceou por cima. Três minutos depois, Dida falhou de novo, em novo escanteio, e Moledo, de puxeta, acertou a bola no travessão.

O Inter seguiu rondando a área do Grêmio, mas sem nela entrar. Adriano e Biteco faziam boa partida em frente à defesa, davam saída competente de jogo e, desta forma, aos poucos, o Grêmio foi equilibrando o jogo. Tanto que, aos 20, perdeu a melhor chance do primeiro tempo. Tony levantou a bola da direita e Welliton, sozinho, mas sozinho, mas sozinho mesmo, abaixou-se para cabecear e colocou para fora. Um minuto depois, o mesmo Welliton vacilou diante da defesa do Inter e desperdiçou outra boa oportunidade.

A torcida do Inter começou a se enervar. Fred errou um passe e foi vaiado, os murmúrios se espalhavam pela arquibancada. Aí o árbitro interrompeu a partida para que os jogadores bebessem água. O Grêmio demorou um pouco mais, Luxemburgo aproveitou para dar instruções. Na retomada do jogo, a bola de repente surgiu na área do Grêmio, Forlán correu paralelo à linha da grande área e Mateus Biteco, na tentativa de pará-lo, o derrubou. Pênalti. Forlán cobrou aos 28 minutos e marcou 1 a 0.

Talvez o Grêmio tenha se perturbado um tanto com o revés, porque aquele entusiasmo com que o time se comportava nos últimos 10 minutos pareceu arrefecido. O Inter voltou a dominar o jogo e aos 31 minutos D’Alessandro quase marcou, chutando forte de direita, a palmo e meio do travessão.

No intervalo, Luxemburgo mudou o time: Bertoglio entrou no lugar de Bressan e Willian José no de Moreno. Era o fim do esquema com três zagueiros. O problema é que, logo no primeiro minuto, Dida falhou em outra cobrança de escanteio de Forlán, e o Inter por pouco não ampliou o marcador. Aos 12, mais uma cobrança de escanteio em que Dida ficou assistindo e então Moledo tocou de cabeça: 2 a 0.

Luxemburgo, na premência de buscar resultado, colocou em campo o outro Biteco, Guilherme, e tirou Welliton. O time ficou mais animado. Mas a superioridade era do Inter, que tocava a bola, enquanto a torcida gritava olé das arquibancadas de pedra do Centenário. Então, numa cobrança de escanteio, ocorreu o lance fortuito que o Grêmio esperava: Josimar empurrou Douglas Grolli e o árbitro marcou pênalti. Willian José converteu: 2 a 1.

Com Guilherme Biteco e Bertoglio o Grêmio estava mais agressivo, mas o jogo ainda era do Inter, sobretudo graças à movimentação inteligente de Forlán, sempre um perigo à defesa gremista, insinuando-se principalmente pelo lado direito. Ironicamente, o Grêmio também tinha um jogador livre pelo lado direito, só que não devido à sua inteligência, e sim porque ele foi, na prática, esquecido pelos demais jogadores. Era Tony, que se posicionava na intermediária dentro das suas chuteiras amarelas sem que ninguém estivesse por perto. No entanto, ninguém lhe passava a bola. Quando passavam, ele não sabia o que fazer com ela.

O Grêmio dos Bitecos era mais valente, mas valentia não ganha jogo. O que ganha jogo é futebol. O Inter teve mais futebol. Ganhou. Mereceu ganhar.

Código David: “O Oscar dos Oscars””

24 de fevereiro de 2013 40

Talvez eu ache O Poderoso Chefão o melhor filme de todos os tempos. Talvez, não tenho certeza. Mas, se houvesse um Oscar dos Oscars, e eu fosse da Academia, votaria n’O Poderoso Chefão. Foi a conclusão a que cheguei depois de muito ponderar acerca dos melhores filmes de todos os tempos, agora, na véspera do Oscar, que será exibido neste domingo.

Passei a semana tentando escolher os melhores filmes que já vi. Mas como fazê-lo? Mulher, você tem uma mulher da sua vida. Ou pode ter. Ou deve, sei lá. Time, decerto que tem um só, e para sempre. Comida, há quem eleja uma única como preferida e, diante dela, rejeite todas as outras, mesmo que seja o feijão da mãe, não existe o que se compare ao feijão da mãe. Agora, filme? Complicado. Comecei tentando elaborar uma lista dos 10 primeiros. Não deu. Listei 20. Depois 30. Resolvi fechar em 50 redondos. Mas acabei ficando com 55. Você pode me ajudar a tirar cinco dessa lista?

1. O Poderoso Chefão

2. Era Uma Vez na América

3. Trainspotting

4. Perdidos na Noite

5. Os Bons Companheiros

6. O Banheiro do Papa

7. Um Estranho no Ninho

8. Platoon

9. Cidade de Deus

10. A Marca da Pantera

11. Pulp Fiction

12. Cinema Paradiso

13. O Exterminador do Futuro

14. Blade Runner

15. E.T.

16. Laranja Mecânica

17. Testemunha de Acusação

18. Veludo Azul

19. Golpe de Mestre

20. Fargo

21. O Silêncio dos Inocentes

22. Janela Indiscreta

23. Cleópatra

24. 300

25. Quo Vadis?

26. O Último Imperador

27. Pequeno Grande Homem

28. Spartacus

29. O Nome da Rosa

30. A Queda

31. O Exorcista

32. O Iluminado

33. O Bebê de Rosemary

34. O Sexto Sentido

35. Drácula de Bram Stoker

36. Frankenstein

37. Forrest Gump

38. Manhattan

39. As Vinhas da Ira

40. O Clube da Lua

41. Tubarão

42. Rain Man

43. O Jovem Frankenstein

44. Feitiço do Tempo

45. A Primeira Noite

de Um Homem

46. A Vida de Brian

47. Um Peixe Chamado Wanda

48. O Pecado Mora ao Lado

49. Se Meu Apartamento Falasse

50. Doutor Jivago

51. E o Vento Levou

52. A Bela da Tarde

53. Beleza Americana

54. Cidadão Kane

55. Um Conto Chinês

Duas deusas de gelo

Catherine Deneuve e Grace Kelly eram perfeitas. Mas eram belezas geladas, inatingíveis, estilo Greta Garbo com o seu “I want to be alone”. Emocionam-me mais as mulheres de beleza felina, como Nastassja Kinski em A Marca da Pantera, ou mesmo uma leoa de beleza agressiva como Angelina Jolie, ou os olhos lilases de Elizabeth Taylor, que, todo mundo sabe, é a verdadeira face de Cleópatra, sempre foi e sempre será, desde o ano 69 a.C., quando Cleópatra VII nasceu para a glória feminina eterna, ela que era linda, ao contrário do que querem afirmar alguns malditos detratores modernos, e que, não, não!, não era nariguda. A fama do nariz da mulher que seduziu César e Antônio originou-se 17 séculos depois da sua morte de picada de áspide, quando Pascal escreveu: “O mundo seria diferente, se o nariz de Cleópatra fosse menor”. E seria.

Também me encantaria uma Marylin, porque sabia exercer sua sensualidade ingênua, e uma nada ingênua Claudia Cardinale, que em Era Uma Vez no Oeste, aparece deitada de bruços na cama ao lado do vilão Henry Fonda. Suas ilhargas estão apenas cobertas pelo lençol macio e Fonda observa com gula a sua morenice. A seguir, pergunta, malicioso:

– Você faria tudo para sobreviver, não?

E ela, num meio sorriso:

– Tudo…

Belos momentos do cinema.

Veja e chore

Depois de ler este pequeno texto, você me faça um favor: vá ao YouTube e procure as cenas que descreverei. São as melhores cenas de dança do cinema, na opinião do degas aqui. Dança com mulheres, que nunca achei graça em Gene Kelly sapateando. Vamos lá:

Uma Thurman com John Travolta em Pulp Ficcion (foi quando Tarantino recuperou Travolta para o mundo).

Salma Hayek em cima da mesa em Drinque no Inferno (é de alucinar mosteiros).

Natalie Portman em Closer (não é bem uma dança, mas é quase e, bem, também alucina mosteiros).

Finalmente, uma dança em que o homem é protagonista, uma dança emocionante, que leva às lágrimas até os corações de pedra das mulheres que se sabem donas do mundo: Al Pacino interpretando um cego em Perfume de Mulher. Ele baila o mais lindo dos tangos, Por Una Cabeza, com uma inglesa deslumbrante, Gabrielle Anwar, que depois participou do seriado The Tudors. Corra para assistir. E chore.

Dois gigantes na banheira

Jack Nicholson e Marlon Brando eram os melhores amigos. Viviam em mansões vizinhas, em Beverly Hills. Faziam festas juntos, às vezes dentro da mesma banheira, que, suponho e espero, devia ser do tamanho de uma piscina. Partilhavam experiências profissionais, opiniões libertárias, diversões picantes e mulheres belas. Antes de morrer, Brando estabeleceu que Nicholson deveria dirigir sua cerimônia de cremação. Nicholson o fez e, depois, comprou a casa do amigo, para tê-lo sempre na lembrança.

Queria participar de uma festa com esses dois, os dois maiores atores do cinema. Aliás, poderia ter incluído na minha lista Duelo de Gigantes, o único filme em que eles contracenaram. Ótimo western, Duelo de Gigantes. Por sinal, poderia ter colocado também Três Homens em Conflito e Era uma Vez no Oeste, outros dois westerns históricos, ambos de um dos meus diretores preferidos, Sérgio Leone, uma das maiores inspirações do Tarantino, sobretudo neste último filme dele, Django, que é mais um que poderia estar na lista, acompanhado, é claro, de Cães de Aluguel, grande filme, com grandes atores, o que me faz lembrar de que esqueci de “sir” Laurence Olivier, um ator que bem poderia ombrear com Jack e Marlon, e aí lembro de Maratona da Morte, baita filme com sir Laurence, que tinha outro baita ator, Dustin Hoffman, que foi protagonista de Todos os Homens do Presidente, que também poderia ser listado e que tinha também Robert Redford, que fez… aaaah! Vou parar antes de chegar a 100.

Túnel do Tempo: As alegrias da renúncia

23 de fevereiro de 2013 4

As pessoas precisam de alguém que lhes diga o que fazer. Natural, a vida é mesmo complexa, muitas vezes contraditória. Então, se você tiver convicção, se você falar com segurança, logo terá um rebanho fiel a segui-lo e a balir de admiração por você. Donde o sucesso das religiões e das ideologias. Por que matar, roubar e cobiçar a mulher do próximo é errado? Por que, se os instintos do homem mandam que ele elimine eventuais adversários e tome o que tem vontade de possuir, seja um objeto, seja uma fêmea? Por que, repito a pergunta, tudo isso é proibido? Porque Deus disse que é. Deus! Existe autoridade maior para estabelecer o que é certo ou errado? DEUS diz que não pode, ponto. Sem discussão.

Por isso, é importante que as pessoas creiam em Deus.Porque,crendo Nele, elas O obedecerão. E, obedecendo-o, não matarão, não roubarão, não cobiçarão a mulher do próximo, mesmo que queiram muito. A dita vontade de Deus serve como uma força de coerção à vontade humana.

O problema é que Deus perdeu grande parte da sua credibilidade, para o que contribuíram a cobrança das indulgências, a tortura científica da Inquisição, as Cruzadas, as Guerras de Religião, a exigência do dízimo e por aí vai. Por consequência, as ideologias ganharam terreno. As duas grandes revoluções, a Francesa e a Russa, tentaram acabar com Deus, só que elas não resistiram aos seus próprios dilemas. Em algum tempo, Napoleão estava coroando a si mesmo e a Josefina na Notre-Dame, e a Coca- Cola era bebida bem gelada na Praça Vermelha, em Moscou.

De todos esses percalços, Deus e as ideologias saíram vivos, mas combalidos. Verdade que o Senhor está em melhor estado. Recuou para as fronteiras do Islã e homiziou-se em algumas ilhas de fundamentalismo cristão que boiam pelo Ocidente. Já o comunismo, o que Mao diria do que fizeram com seu comunismo, se estivesse vivo? O que ele diria da frase mais célebre do seu companheiro Deng Xiaoping,“enriquecer é glorioso”? E Fidel? O que será que Fidel diz de si para si, quando está sozinho dentro de seu abrigo e atrás do seu charuto, lá na Ilha? Mas o que dizer também do neoliberalismo, do Mercado Comum Europeu, da Nova Roma norte-americana, agora que os filhos dos países capitalistas estão de pires na mão, esmolando nas ruas?

Não há mais em quem ou em que acreditar. Não há mais quem diga com convicção o que se deve fazer ou deixar de fazer. Mas as pessoas precisam de algumas certezas, uma que seja. O problema é que os novos credos são superficiais. Por mais que os animais sejam amados, como resolver questões existencialistas garantindo boa vida para cachorros, gatinhos e micos-leões-dourados? A saída é a multiplicação de pequenas campanhas de coerção de comportamento. Um dia bradam os radicais do ciclismo, noutro os inimigos de morte das sacolas plásticas, mais adiante os fundamentalistas combatentes do álcool e do fumo, volta e meia os inflexíveis vigilantes do peso alheio. É preciso lutar por renúncias. Pela coerção ao instinto. Só com a coerção ao instinto pode haver merecimento. Só a renúncia pode dar a sensação de que existe algum sentido em viver.

Túnel do Tempo: A grandeza da tristeza

23 de fevereiro de 2013 2

As pessoas não veem grandeza na alegria. A alegria é franca, explode para o mundo, está ali de corpo inteiro, sem dissimulação. A tristeza, não. A tristeza sempre tem algo por trás, algo não dito, que parece maior do que a vida – só pode ser maior do que a vida, ou não a colocaria na sombra. Por isso, a tristeza parece profunda; a alegria, rasa.

Não existe mulher mais perigosa do que uma mulher muito linda e um pouco triste. Não deprimida, não mal-humorada: um pouco triste. Um olhar espiando o vazio. Um ar blasé. Um suspiro mudo. É o que basta. Aquela mulher conhece a vida, aquela mulher vai além das aparências. Ela é linda, ela podia ser dona do mundo, mas não, ela está vendo mais do que você vê, ela sabe da vida coisas que você não sabe, por isso se entristece, por isso é maior do que todas.

Um homem triste também parece acima dos outros homens. Aírton Senna era um homem triste. Era rico, famoso e bem-sucedido, namorava Xuxas e Galisteus, e, ainda assim, uma aragem de tristeza o envolvia permanentemente. O que o tornava maior. A tristeza no olhar de Senna dava-lhe grandeza. O fim trágico fez dele ainda maior, mais do que um vencedor, mais do que um herói. Fez dele o herói supremo: o herói triste.


O que torna um homem feliz

O homem que dribla não pode ser um triste. Ele dribla porque é alegre; fosse triste, não driblaria. Refiro-me ao driblador emérito, aquele que vê no drible a maior beleza do jogo. Certo dia, o pequeno Dener disse, num suspiro:

– Às vezes, o drible é mais bonito do que o gol.

Estava sendo politicamente correto. O que Dener pensava, na verdade, era que o drible SEMPRE é mais bonito do que o gol. Dener era craque, de um tipo de craqueza já extinta. Quem mais se parece com ele hoje é Ronaldinho. Tem a técnica pura de Dener, um dom que lhe foi presenteado pela genética, mas Ronaldinho já não dribla mais.Agora,dá estocadas na bola.Quando driblava, era mais alegre.

Rivellino era um artista do drible. Driblava parado, um drible de palmo e meio, do tamanho de um parquet, desconcertante,humilhante,quebrador de espinha. E foi o inventor do elástico, o mais belo drible do mundo. Disse,o Riva, que foi um japonês que inventou o elástico. Ele tinha visto o japonês fazer aquilo e o imitou até alcançar a perfeição. Como Dener, estava sendo politicamente correto. Estava sendo humilde. Um japonês até pode ter inventado o elástico, mas no papel, um drible de teoria:

– Que tal inventarmos um drible em que a bola vai para um lado e,de repente, se volta para o outro?

Rivellino achou boa ideia, foi lá e fez. Rivellino, Dener e Ronaldinho. Todos meias. Os meias são de bom drible. Lembro do Zico metendo a bola entre tornozelos fincados de um zagueiro tosco, lembro do Rivaldo arrepiando a franja de um volante anônimo com um chapeuzinho, lembro de tudo isso, mas os dribladores mesmo, os profissionais jogavam de pontas. O drible era instrumento de trabalho do ponta.

Outro dia o Luxemburgo, que foi lateral, que marcou muito ponta e muito foi driblado por ponta, pois o Luxemburgo lembrou do Cafuringa. Ponteiro-direito típico,driblador,ciscador,enjoado. Alguém um dia disse que o Cafuringa só marcou oito gols na vida. Pode ser, mas o que importa? Cafuringa,o que ele fazia, era driblar. Parava na frente do lateral, a bola entre as chuteiras e, quando o lateral esticava a perna, o Cafuringa dava o bote, ia para a linha de fundo. O lateral ia atrás e o Cafuringa o cortava de novo, desta vez para dentro. E o lateral insistia e ele o driblava outra vez, agora para fora. Torcia para que ele entrasse em campo só para vê-lo dançando com o beque. Cafuringa, Garrincha, Joãozinho, Nei, Edu, Zequinha, Denílson, o baixinho Osni. Homens dribladores. Homens felizes.

O homem mais triste do Brasil

O homem público mais triste da história brasileira talvez tenha sido o general Geisel. Nos anos 50,quando ainda era coronel, ele perdeu o filho de 16 anos, atropelado por um trem. Foi informado do acidente, viu o corpo, voltou para casa e comunicou a morte à família com circunspecção militar. Em alguns meses, todos os seus cabelos louros embranqueceram. Quando a mulher colocou a foto do filho em um porta-retratos de prata, Geisel pediu que ela o retirasse. Levou dez anos para pronunciar o nome do filho outra vez. Um dia, ele disse:

– Eu, ao longo da minha vida, fui um infeliz.

Sala de Redação

22 de fevereiro de 2013 2

Ouça o Sala de Redação desta sexta-feira.

Uma mulher

22 de fevereiro de 2013 20

Fiquei comovido com a foto da Dilma publicada ontem pelos jornais. É a segunda imagem dela que me comove, havendo espaço de bons 40 anos entre uma e outra.

A primeira foi o flagrante da jovem Dilma diante do tribunal militar, nos tempos cinzentos da repressão. Os juízes militares escondiam o rosto com as mãos, e Dilma, então com 22 anos, apresentava-se sentada numa cadeira à frente e abaixo deles. Ela havia acabado de sair de sessões de tortura, mas não parecia abalada. Ao contrário, parecia em paz. Também não afrontava os juízes, não os desafiava. Era, ali, apenas uma mulher, só que uma mulher inteira e íntegra. Dilma, uma pequena estudante que havia sido presa e torturada, uma quase menina desconhecida e insignificante, posta ante o Estado opressor, e continuava sendo uma pessoa completa, consciente. Era a imagem do ser humano digno, sem pretensões, sem petulância, sem arroubos e também sem submissões.

Agora, ontem, os jornais publicaram outra foto surpreendente de Dilma. Na verdade, um detalhe de foto. Ela recebia o primeiro-ministro russo em audiência no Palácio do Planalto. Estava instalada em uma poltrona colocada a dois passos de bandeiras do Brasil e da Rússia. Vestia a indefectível túnica vermelha, apoiava os cotovelos nos braços da poltrona e mantinha os tornozelos cruzados. E aí, abaixo dos tornozelos, o pormenor interessante: como havia machucado um dedo, calçava o pé esquerdo com sapato convencional e o direito com sandália de plástico.

Essa imagem diz muito sobre Dilma. Por que ela fez isso? Por que não calçou sandálias nos dois pés? Afinal, andar sobre calçados desiguais não é confortável e não prima exatamente pela elegância. Dilma optou por calçados diferentes, como optam quaisquer trabalhadores com o pé magoado, porque queria deixar claro que só não estava com sapato convencional porque não podia. Era uma justificativa, um pedido de desculpas. Olha, não estou vestida como deveria porque não posso. Mas eu queria!

Suponho que, hoje, tudo na imagem de Dilma deva ser calculado: a blusa vermelha, o cabelo armado, até o sorriso duro. Tudo isso deve ser produto de estudos de consultores, de especialistas. Mas não os sapatos desiguais. Não isso. Nenhum assessor lhe diria para ir a uma audiência formal com um pé com sandália e outro com sapato. Não, não, ali estava a Dilma em essência. Não a presidente, mas a jovem egressa dos porões da ditadura. Não a política. Não a estadista. A pessoa. O ser humano. Só. E não é pouco.

Som de Sexta

22 de fevereiro de 2013 1

Essa eu já publiquei, mas faz tempo.
Merece que você assista de novo.
Salma Haiek dança para Quentin Tarantino ao som dos mexicanos do Tito e Tarantula.
O som é ótimo e a performance de Salma melhor ainda.