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Posts de abril 2013

Túnel do tempo: Querem castrar o Foguinho

30 de abril de 2013 3

A minha mãe, por exemplo. Ela quer castrar o Foguinho. Castrar! Sou contra. Muito contra.

Foguinho é o gato dela. Um gato jovem. Na puberdade, ainda. Amarelo. Dizem que os gatos amarelos são os piores. Os mais brabos. O Foguinho é. Brabíssimo. Bem, talvez nem seja tão brabo. Ele é mais é brincalhão. Aí, sabe como são as brincadeiras de gato. Arranhão. Mordida, principalmente.

Sabia que um tigre, se ele tem problemas dentários, ele não pode fazer sexo? É que o tigre, quando vai namorar com a tigresa, segura-a com os dentes. Crava-lhe os incisivos no cangote e vai lá.

É assim, mordida de gato muitas vezes é carinho.

O Foguinho talvez seja excessivamente carinhoso. Morde. Brinca. Pula. Mia um monte. Minha mãe não agüenta mais conter tanta energia. Então quer castrar o pobre. Quando me opus, ela contou que o veterinário disse que o Foguinho será muito mais feliz castrado. Hm. Não sei se confio plenamente nesse aval científico. Como o veterinário pode saber? Afinal, quem vai ficar sem suas gônadas é o Foguinho, não ele. E o fato de o Foguinho ficar mais quieto não quer dizer que fique mais contente.

Agora, isso não quer dizer que não compreenda o raciocínio do veterinário. A idéia da castração é eliminar a fonte do desejo. Pois não estão aí a raiz, o caule, as folhas e principalmente os galhos de todos os nossos problemas?

Desejo.

Digamos, as mulheres. Se você não as desejasse, elas não lhe acarretariam problema algum. Vamos supor que você esteja apaixonado. Ou seja: deseja intensa e aflitivamente uma mulher. Deseja-a com o coração, a mente, a garganta, deseja-a com o pâncreas e a vesícula. Mas ela não quer nada com você. Seu coração encolhe no peito. Você não acha graça em mais nada. O mundo perdeu a cor. Você sofre.

Qual a saída?

Há duas possíveis: ou você faz com que ela o deseje, ou você deixa de desejá-la.

Certo, certo, e para que ela o deseje, rapaz, você pode cortar o cabelo meiataça, usar aquele perfume patioli, fazer, pufpuf!, mais abdominais, comprar uma fatiota. E mesmo assim é bem provável que não adiante nada! Ela não está a fim. Pronto.

Então você precisa deixar de desejá-la. Destrua a imagem airosa que tem dela. Pense em seus defeitos – como ela gosta de conversar de manhã cedo, como ela vive falando “estou confusa” e “sou complicada”, como ela diz aquelas coisas horríveis tipo “tenho muito carinho por ti”. Pense nela exercendo as atividades baixas que todo ser humano exerce. Gases, excrescências. Essas coisas.

Mas não garanto que vá dar certo.

Comida também. Dia desses eu estava ali no bar da Redação saboreando uma espiral de coco. É tããão bom espiral de coco. Estava encostado ao balcão, concentrado na minha espiral de coco, quando me senti observado. Olhei para os lados. E vi Aline. Ela é auxiliar, estudante de jornalismo. Morena, uns 20 anos. Alta. Taluda. Fitava-me com volúpia. Sorri de lado. Quase disse:

– Puxa, Aline…

Mas percebi que as flechas de volúpia eram endereçadas à minha espiral de coco. Fiquei um pouco desapontado, a princípio. Até entender que possuía um trunfo. Levantei uma sobrancelha. Aproximeime de Aline. Bem perto, bem perto. Levei a espiral de coco a centímetros do rosto dela, tão próximo que ela podia sentir-lhe o cheiro adocicado. Tão, mas tão, que a calda caramelada por pouco não lhe besuntava o nariz. Ela estremeceu. Suspirou. Eu disse, voz rouca:

– Queeerrr?

E ela, desesperada:

– Não, David! Oh, por favor, não!

Aline estava enlouquecida de desejo. Está bem: pela minha espiral de coco.

Se ela não desejasse minha espiral, eu não teria nenhum poder sobre ela. E ela não sofreria. É assim. Desejo igual a paixão, paixão igual a sofrimento. Logo, se você não deseja, não sofre. É o caso do Gre-Nal de amanhã. Olhando assim assim, não parece que um dos dois, Grêmio ou Inter, deseje de fato a vitória. Parecem mais preocupados em não perder. E, para ganhar Gre-Nal, tem que se QUERER muito.

Grêmio e Inter temem o desejo de vitória. Porque temem sofrer. Você pode viver assim, se quiser.

Você não anseia por belas mulheres, viagens de sonho, conhecer novas pessoas, viver dias diferentes. Porque você não deseja. Está cansado de arriscar. Castrou suas emoções. E castrar é uma palavra adequada, pois todo desejo tem alicerce sexual. Não que todo desejo seja de sexo, mas a natureza dele é.

Até o desejo de vitória em um Gre-Nal. Um desejo tipicamente de dominador. De conquistador. Um desejo de macho subjugando a fêmea. Tomando-a. Possuindo-a. Claro, a conquista pode acabar frustrada. É quando o pretenso conquistador sofre. Grêmio e Inter não querem sofrer. Prefeririam empatar amanhã. Não é muito bom, mas também não é muito ruim.

É uma opção. Fosse eu, arriscaria. Tentaria a vitória. Prefiro a angústia pulsante do que a monotonia gorda e pachorrenta dos que não tentam, não expressam sua opinião, não se apaixonam, não jogam tudo para cima, não embarcam no avião e não atacam. Prefiro jogar com um único volante. Prefiro mergulhar numa escolha. Nada de castrar o Foguinho!

Sala de Redação

30 de abril de 2013 0

Ouça o Sala de Redação desta terça-feira.

O que traz felicidade

30 de abril de 2013 14

A história de Marilyn Monroe e seu triste fim, nua na cama, sozinha, o corpo sinuoso sem vida devido às dezenas de barbitúricos que lhe explodiram no estômago, esse fim é a prova definitiva de que beleza, sensualidade, dinheiro à mancheia, reconhecimento público, fama planetária, sucesso imorredouro, talento luminoso, juventude, viver na maior cidade do mundo, morar confortavelmente, comer bem, fazer sexo livre e relacionar-se com as pessoas mais inteligentes, como Truman Capote, e mais poderosas da Terra, como os Kennedy, não traz felicidade.

Mas então eu pergunto: que PTZGRILLWOFREMBAERCRSTNAKLIMBASTINHUGUI@$@#%¨&*((%–@***BLUMCLENVIST traz felicidade?

Aí é que está: a felicidade não depende de nada do que está fora de você; depende exclusivamente do que você leva por dentro.

Como auxílio luxuoso, vou valer-me do apoio do velho e bom alemão Schopenhauer:

“Para o bem-estar do homem, para todo o modo de sua existência, a coisa principal é, manifestamente, o que se encontra ou acontece dentro dele mesmo. Com efeito, é nisso que reside imediatamente o seu contentamento íntimo, ou descontentamento, que é antes o resultado do seu sentir, querer e pensar; enquanto tudo o que se situa na exterioridade tem apenas uma influência mediata. Por isso, os mesmos acontecimentos, ou situações exteriores, afetam de modo diverso cada pessoa e, em igual ambiente, cada um vive num mundo diferente”.

Vou repetir, frisar e sublinhar essa frase do lobo solitário de Frankfurt:

“Em igual ambiente, cada um vive num mundo diferente”.

É aquela história de dois irmãos, criados da mesma forma, pelos mesmos pais, na mesma casa, dispondo das mesmas condições, saírem completamente desiguais.

Por que isso?

Porque o mundo todo está dentro de você, não fora. O mundo depende de você, e não você do mundo.

Desta maneira, um clube pode dispor de um dos mais modernos estádios do mundo, como é a Arena; pode ter no time o melhor centromédio do Brasil, como é Fernando, e o melhor armador, como é Zé Roberto; pode ter também o atacante veloz que fustigou a Seleção Brasileira, como é Vargas; e, de resto, bons jogadores para cada posição e até reservas preciosos, como é Kleber; um clube pode ter a seu serviço o técnico de melhor currículo do Brasil, como é Luxemburgo, um técnico que, em dezembro do ano passado, contava com quase 100% de aprovação da torcida, essa torcida que é uma das mais fiéis, vibrantes e emocionadas do país; um clube ainda pode ser comandado pelo mais experiente e ladino dos dirigentes, como é Fábio Koff; pode ter todos esses predicados, esse clube, e ainda assim fracassar.

Por quê?

Porque o sucesso de um clube de futebol, bem como a felicidade do ser humano, está no espírito, não na reunião de qualidades exteriores.

Tão simples. E tão perigosamente delicado.

A fórmula do sucesso

Uma vez ouvi a voz rouca de Fábio Koff ensinar:

“Um time tem que ter uma ideia. Não interessa qual seja, mas precisa ter uma ideia”.

E é isso mesmo. Não existe uma única fórmula de sucesso, mas um time há de ter uma fórmula. Os dirigentes, o técnico, os jogadores, todos têm de identificar essa fórmula, caso contrário, cada um vai para um lado.

O Grêmio tem uma fórmula?

Isso é a felicidade

O Inter definiu com clareza seu objetivo no primeiro semestre: ganhar o Gauchão e ir adiante na Copa do Brasil. Objetivos simples, para os quais foram encontradas soluções simples.

É muito mais fácil ser feliz na simplicidade do que na busca por beleza, sensualidade, dinheiro à mancheia, reconhecimento público, fama planetária, sucesso imorredouro, talento luminoso…

Luxemburgo tem de ficar

30 de abril de 2013 67

Luxemburgo é um dos melhores técnicos de futebol do Brasil.
Senão o melhor.
Provou isso no ano passado, ao arrumar o time do Grêmio, arrancá-lo das profundezas da tabela e conduzi-lo aos píncaros da classificação à Libertadores.
Tem cometido erros este ano? Tem, mas quem não os comete?
A nova direção do Grêmio renovou seu contrato por insuportável pressão da torcida no fim do ano. Agora, precisa dar força a ele. Luxemburgo há de ficar, mesmo que seja desclassificado da Libertadores. Trata-se de um profissional que, pelo que se nota por sua postura, ainda não desistiu de fazer sucesso com o trabalho.
Em meio à crise é que a serenidade vale mais.

Sala de Redação

29 de abril de 2013 7

Ouça o Sala de Redação desta segunda-feira.

Túnel do tempo: O teste de Cibele

29 de abril de 2013 0

Durante a maior parte da história do mundo, Deus não era Deus; era Deusa. Primeiro porque os seres humanos demoraram milhões de anos para compreender o papel do homem na reprodução. Sabiam que os nenês se desenvolviam na barriga da mulher e, chegado o tempo, blop, dela saíam protestando.

Mas como tinham ido parar lá?

Talvez nossos mais remotos ancestrais até intuíssem que havia alguma contribuição da atividade sexual na concepção, mas não podiam ter certeza de que o filho de uma mulher era de um só homem. Afinal, não existia casamento, nem o conceito de fidelidade conjugal. Ninguém era de ninguém nos velhos e bons tempos. Uma mulher se repoltreava, chafurdava e espadanava com vários homens, às vezes todos os da tribo, que alegria.

Assim, a mulher era o veículo da vida. A mãe. Natural que fosse venerada.

Mais tarde, provavelmente observando os animais enfim domesticados, as pessoas compreenderam que os machos também faziam filhos.

A maneira como os seres humanos viam o homem estava mudando.

Mas a Deusa manteve seu prestígio, porque os homens pouco se importavam com sua descendência. Por um simples motivo: os humanos primitivos eram nômades,não tinham propriedade, a não ser pequenos pertences que podiam carregar ao se transferir de um acampamento para outro. Se os homens não tinham propriedade, não tinham herança. Se não havia herança, qual era o sentido de“preservar a descendência”?

Com a invenção da agricultura é que foi inventada a propriedade. Em suma, com a invenção da agricultura foi inventado o capitalismo. Então, o homem queria deixar sua terra para o seu filho. E sua casa. E suas posses. E seu poder. E, por consequência, seu nome.

Entenda o que escrevi acima: “Por consequência”, não“por causa”. Os nomes e dinastias se formaram a partir da propriedade e do poder, não o contrário.

Bem. Mas como saber que o filho era do homem proprietário e poderoso? Não havia teste de DNA. A mãe era aquela ali, ninguém duvidava, o filho fora cuspido de seu ventre. Mas o pai… Como saber quem era o pai, se ninguém era de ninguém?

Foi essa angústia que gerou a instituição do casamento, da monogamia, da fidelidade conjugal, da família e de todos os nossos problemas. Alguém precisava ser de alguém. A partir de agora, o homem virava proprietário não apenas das suas terras, mas de seus filhos e da sua mulher. O homem cresceu em importância na comunidade. E a Deusa foi trocada pelo Deus. Os hebreus se encarregaram disso. Substituíram a Deusa Mãe pelo Deus Pai. O judaísmo e seus derivados, o cristianismo e o islamismo, são religiões masculinas e capitalistas. Religiões sombrias, eivadas da noção de pecado. Religiões que falam de posse e poder.

A antiga religião, da Deusa Cibele, era uma religião orgiástica, de celebração da existência, uma religião sem culpas. Mas que tinha suas normas. Para se tornar sacerdote da Deusa Cibele, o homem precisava passar por algumas provas. Uma delas se constituía no seguinte: o sujeito devia atravessar uma extensa ponte que ficava tomada por anciãos sentados à esquerda e à direita, encostados nos parapeitos, formando uma espécie de corredor polonês. O candidato a sacerdote passava por entre os anciãos, que o insultavam. Diziam tudo de ruim que sabiam a respeito dele, inventavam ofensas, xingavamno à exaustão. Se o pobre difamado conseguisse chegar ao outro lado da ponte sem se abalar, estava aprovado.

A internet é mais ou menos assim. Emails, tuíter, comentários de blog, tudo é quase instantâneo, a pessoa sentase diante de um teclado e desabafa suas frustrações pela ponta dos dedos. Quem lida com esse instrumento tem de entendê-lo. É como se fosse uma provação.Um exercício de humildade. A pessoa pública,como os jogadores de futebol,não pode se deixar levar pelas provocações. O torcedor, irracional, apaixonado e irresponsável, esse pode dizer o que bem entender. E diz. Como diz. O profissional, não. O profissional tem de se conter. Ou será reprovado no teste.

Inter já é o campeão de 2013

28 de abril de 2013 61

O Inter é o campeão gaúcho de 2013. Não é uma temeridade nem uma ousadia fazer essa afirmação quando se está apenas às franjas da decisão do returno.
É a lógica.
Porque o Inter até pode perder a decisão da taça para o Juventude, isso não seria absurdo, mas, depois, o Juventude teria de superar o Inter em uma final dividida em duas partidas. Ou seja: o Juventude tem de se dar bem em duas, de três vezes. Isso é improvável, quase impossível.
O Inter montou um time sem brilhaturas, mas eficiente. Os jogadores estão sempre atentos à marcação e fazem algo que o desanimado time do Grêmio não faz: deslocam-se para receber a bola e abrir espaços na defesa adversária.
Isso de se deslocar parece acaciano. Neném Prancha já dizia: “Quem se desloca recebe; quem pede tem preferência”. Só que não é tão simples assim. Deslocar-se cansa. O jogador tem que correr sem a bola, enfiar-se no espaço vazio, chamar a atenção do zagueiro inimigo e, às vezes, faz todo esse trabalho e não recebe a bola. É chato. Porém, sua movimentação é que criou luz onde só havia escuridão. Os jogadores do Grêmio não têm disposição para empreender essa tarefa. Tocam a bola e ficam observando para ver como o colega se sai sozinho.
Ontem, contra o Juventude, ocorreu um lance que mostra com clareza essa (falta de) disposição dos jogadores do Grêmio: o bom atacante Vargas toma uma bola no ataque e dribla um e dribla dois e dribla três adversários, até que, abandonado, perde a bola. Ninguém foi lá para ajudá-lo. Quase se ouvia Vargas gritando:
_ Amigos! Amigos!
Ninguém acudiu.
Por isso o Grêmio é lento. Por isso o Grêmio não vence. Por isso o Inter será campeão. Noveletto, pode mandar fazer as faixas.

O Grêmio tem tudo, menos uma coisa

28 de abril de 2013 80

O presidente do Grêmio é uma velha raposa do futebol, talvez o dirigente mais hábil da história recente do esporte no Brasil.
O técnico do Grêmio é um dos profissionais com o currículo mais bem fornido do país, um multicampeão que já treinou Seleção Brasileira e Real Madrid.
Os jogadores do Grêmio são atletas de ponta, caríssimos, o time tem pelo menos um excelente jogador em cada posição, além de reservas de luxo, como Kléber.
O estádio do Grêmio é flamante de novo, e é um dos melhores do mundo.
E o Grêmio não funciona. O Grêmio tem tudo para vencer, mas não vence.
Por quê?
É difícil de diagnosticar, assim, à distância. Mas posso assegurar que colocar a culpa no juiz não leva à resposta correta. A direção do Grêmio tem que olhar para dentro do clube, se quiser encontrar a solução de seus problemas.

Código David: Nesta data querida, a história de DONA ALICE

28 de abril de 2013 1

Hoje é o dia de falar de Alice. Dona Alice. A sogra do meu amigo, o… Digamos que ele se chame Luís Carlos.

É que 28 de abril é o lampeiro Dia da Sogra, data da qual jamais esqueço e que a cada ano comemoro com fervor, como se fosse um dia santo. Quanto a Dona Alice, asseguro que não se tratava de uma sogra comum. Não mesmo.

Dona Alice já não era mais uma jovenzinha, que nenhuma sogra o é. Mas se tratava de bela unidade de mulher. O tempo havia sido bondoso com ela. Mais até: ao arredondar docemente as formas, tornara-a mais atraente do que jamais fora – tornara-a abundante, sem ser excessiva.

Luís Carlos não era indiferente aos predicados de Dona Alice. Ao contrário, olhava para sua namorada, a Aninha, tão magrinha, tão diáfana, e a imaginava na glória do futuro, opulenta como a mãe.

– Vale o investimento – dizia aos amigos.

Não esperava, porém, o que ocorreu numa das tradicionais galinhadas de domingo: depois de algumas taças de bom tinto da Serra, quando haviam passado a fronteira do licor de ovos e até a do arroz de leite, Dona Alice lhe enviou olhares à sorrelfa. Alguém pode dizer que olhares à sorrelfa são subjetivos, mas aqueles, os de Dona Alice, não foram. Além disso, Luís Carlos orgulhava-se de saber bem identificar os olhares à sorrelfa e a malícia de uma mulher, quando se transformava em alvo deles. E, naquele dia, ele estava sendo alvo. Ah, estava. O sogrão já meio que dormitava atrás do bigode, Aninha andava ocupada com o cachorro no pátio e Dona Alice lhe pespegou um par de olhares que lhe amoleceu os ossos, lhe formigou a virilha e lhe latejou as têmporas. Não era possível. Dona Alice! Era sorte demais. Afinal, que homem não sonha em se repoltrear com mãe e filha, sendo ambas lindas como eram Dona Alice e Aninha?

Logo Aninha voltou do pátio, mas Luís Carlos permaneceu atento feito um perdigueiro. E, realmente, durante todo o dia, passando pelo jogo do Gauchão, pelo Faustão e pelo Domingo Maior, durante todo o dia Dona Alice lambeu-o com o olhar de promessas, feito uma gata no cio. Luís Carlos não dormiu naquela noite, pensando na sogra. Dona Alice. Ele não acreditava. Dona Alice!

No meio da semana havia um feriado: 1° de maio. Ele sabia que veria a sogra de novo. De fato, a viu. Quando chegou ao pátio, encontrou-a de biquíni, tomando sol à beira da piscina de plástico da família.

– O-oi – cumprimentou, olhando aquele corpo, que corpo!, dourando-se lentamente, reluzindo como uma lontra.

– Oi, Lu – era a primeira vez que ela o chamava de Lu. Que delícia!

O feriado inteiro foi Lu à esquerda, Lu à direita, Lu em cima, Lu embaixo, e a cada Lu um sorriso, a cada Lu um olhar à sorrelfa. Luís Carlos queria morrer. Ele sabia, sim, reconhecer olhares à sorrelfa e malícia de mulher.

O feriado terminou, a sexta chegou e depois dela, como sói acontecer, veio o sábado. Luís Carlos tinha sido convidado para jantar na casa dos sogros. Dona Alice o recebeu dentro de um vestido leve, que subia acima dos seus joelhos redondos. Joelhos de Scarlett Johansson. Em meio ao jantar (arroz de bacalhau que ela fez com suas próprias mãos, divino, tudo nela era divino!) os olhares continuaram. Luís Carlos já não aguentava mais. Até que ela o chamou da porta da cozinha:

– Lu, deixa o pessoal aí vendo Supercine e vem me ajudar com a louça.

Ele foi, o coração batendo feito o bumbo da banda do Colégio São João. Ao chegar, ela se debruçou na pia e miou:

– Vem. Vem, Lu, vem…

Ele compreendeu o código: pulou em cima da sogra com sofreguidão, agarrando-a pelas carnes fartas das ilhargas, fazendo biquinho para beijá-la e gemendo:

– Dona Alice! Dona Alice!

Ato contínuo, introduziu sua língua por entre os dentes fortes dela e sentindo-lhe o céu da boca e as gengivas róseas sentiu também o gosto do bacalhau recente e da saliva perfumada, e gemeu de novo:

– Ddddona Alice!

Ela parecia ceder, parecia entregar-se, mas, então se deu: emitindo um grito de horror, TARADO!, Dona Alice o empurrou com força com as duas mãos e, enquanto ele batia com as costas na borda da mesa, ela repetiu:

– TARADO!!!

Acudiram o sogro, Aninha e o cachorro. Viram Dona Alice amarfanhada e Luís Carlos descomposto, vermelho, arfante, a culpa chispando no olhar.

– Ele me agarrou – acusou Dona Alice. – Me agarrou!

– Lu! – uivou Aninha, já começando a chorar.

– Desgraçado! – xingou o sogro, já se armando com uma faca de cozinha, que, minutos antes, partira uma posta de bacalhau ao meio.

Foi o fim do namoro de Luís Carlos. O fim do futuro com Aninha e do sonho com Dona Alice. E até hoje meu amigo não sabe se, afinal, ele sabe ou não identificar olhares à sorrelfa e a malícia das mulheres.

A pior profissão

Lá nos Estados Unidos, que é uma terra de estatísticas e rankings, eles montaram um ranking das melhores e piores profissões do mundo. Listaram 200 profissões. Pois sabe qual é a pior? A última? A ducentésima?

A minha.

Repórter de jornal.

Sim, porque, na essência, eu sou um repórter de jornal, com muito orguuuulho, com muito amoooor.

Acima de repórter de jornal, a número 199, está a de lenhador. Aquele cara que fica dando machadadas num tronco, de camisa xadrez, aquele cara vive melhor que repórter de jornal.

Também acima estão o leiteiro (195), o leitor de água e luz (194) e o carteiro (193). Essas três profissões são parecidas: o sujeito passa o dia de casa em casa, podendo ser mal recebido, ter que enfrentar cães brabos, essas coisas desagradáveis. A propósito, lembro de um grande livro do Bukowski, “Cartas na Rua”, em que ele se vale do seu alterego para contar seu tempo como carteiro. Leia. É ótimo.

Mas, voltando às profissões, surpreendeu-me que o agente penitenciário está bem acima do repórter (189), o que atesta em favor dos presídios americanos, e também o lavador de pratos (187), o que é muito bom para os emigrantes brasileiros, bem como o faxineiro (153), e isso que eles não dispõem das leis protetivas que temos por aqui.

Lá em cima, em primeiro lugar, está o atuário, e confesso que não sei o que faz um atuário americano. Compreensível: sou um repórter de jornal, estou no fundo, no rés do chão, distante das alturas dos felizes atuários. Como sofremos, nós, repórteres de jornal.

Túnel do tempo: Como se comportar no século 16

27 de abril de 2013 1

As regras de etiqueta não são de agora, não, senhor. Vou relacionar abaixo alguns códigos de conduta do século 16, elaborados pela Célia Ribeiro da época. Extraí de uma biografia da rainha Catarina de Médicis, texto agradável e bem humorado de Bruno Astudo, você devia ler. Aí vai:

1. Pode-se assoar o nariz à mesa com os dedos, desde que se tenha o cuidado de pisar sobre aquilo que se acaba de expulsar.


2. Não tire meleca com o dedo nu. Use uma luva.


3. Os homens devem palitar os dentes para mantê-los limpos; nunca usar facas ou unhas para tanto. As mulheres podem servir-se de pó para clareá-los.


4. Não coce a cabeça à mesa, nem cate pulgas ou piolhos.


5. Evite flatulências juntando as nádegas e apertando-as bem.


6. Cumprimente as mulheres dobrando o joelho direito e contorcendo docemente o corpo. Tire o chapéu com a mão direita e mantenha-o embaixo, à esquerda e, com a mão esquerda, segure as luvar à altura do estômago.


7. Homens cumprimentam seus superiores enlaçando-os sob os braços. Quanto mais baixo os abraçamos, maior é seu nível social. Quando encontrar um semelhante, o homem deve abraçá-lo enlaçando um braço sob o ombro e outro sobre o correspondente.

Códigos de etiqueta como esses, tão afrancesados, foram na verdade criados pelos italianos. Os franceses só os conheceram durante algumas escaramuças entre os dois países. E adoraram, que os franceses adoram esses troços.

Os hábitos são diferentes de época para época, como se percebe. As regras também. O luzidio repórter Diogo Olivier, por exemplo, se jacta de ter aprendido com a Célia Ribeiro (a do século 21) a comer uma azeitona e lhe extrair o respectivo caroço sem que ninguém veja, uma rara habilidade muito apreciada hoje em dia, mas sem a menor popularidade nos idos de 1500. Porque, repito, os costumes mudam demais.
Os gostos idem. No mesmo livro esse da Catarina de Médicis há uma descrição do modelo de beleza feminina de 450 anos atrás. Leia. E conclua que a Gisele Bündchen seria um jaburu, naquela época:

1. Mãos, pernas e cabelos longos.


2. Pescoço, mãos e dentes brancos.


3. Pescoço e braços redondos.


4. Dentes, boca, queixo, orelhas, pés e seios pequenos.


5. Testa, ancas e torso largos.


6. Altura, braços e coxas grandes, mas proporcionais.


7. Supercílios, dedos e lábios finos.


8. Supercílios e olhos negros.


9. Bochechas, lábios e mamilos vermelhos.

Andei refletindo a respeito. Bochechas vermelhas, por exemplo. Dia desses, vi algo que me deixou espantado. Aconteceu no banheiro do Lilliput. É um banheiro misto, preciso que se esclareça. Pois uma moça – alta, esbelta, atraente, uma luz de malícia faiscando no olhar – estacionou diante do espelho da ante-sala do banheiro e começou a se analisar, como costumam fazer as moças em frente a espelhos. Conferiu o empinado das nádegas, as madeixas loiras que deveriam cair num acaso calculado sobre a testa, o carmim da boca. Então tirou um tubo de batom da bolsa. Retocou os lábios e, em seguida, para minha surpresa, passou o batom vermelho nas maçãs do rosto. Espalhou bem espalhadinho e saiu, corada e saudável, pronta para novo chope. Não sabia que as mulheres passavam batom nas faces.

Quer dizer: bochechas vermelhas ainda fazem sucesso. Já houve época em que o bonito era a palidez, a melancolia. Agora, o que se quer é sangue quente fervendo nas veias.

Tudo muda. Costumes. Prazeres. Quereres. De tempos em tempos, uns voltam, para logo em seguida serem esquecidos outra vez.

Só o centroavante permanece. Olhe para Alberto, Guilherme, Romário e Ronaldo, e concorde comigo. Já quiseram acabar com o centroavante. Não conseguiram. Jamais conseguirão. Os centroavantes são eternos.

Especial anos 70 - 10

27 de abril de 2013 2

Esse é o cara. O cara!

Especial anos 70 - 9

27 de abril de 2013 2

Essa tinha que estar:

Especial anos 70 - 8

27 de abril de 2013 1

Pode botar essa na reúna dançante, que dá certo:

Especial anos 70 - 7

27 de abril de 2013 0

Esse inglês aí fez um sucessão, apesar da aparência estranha:

Especial anos 70 - 6

27 de abril de 2013 0

Esses carinhas aí os americanos criaram para rivalizar com os Beatles.
Como você vê, não deu muito certo.