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Posts de maio 2013

Som de Sexta

31 de maio de 2013 0

Esta música o Paulinho da Viola compôs para uma dama que o abrigou no Recife, quando ele se escondia da repressão da ditadura militar.
Era a música que Dilma contou que ouviu quando estava presa nos porões da mesma ditadura.

O rei das empregadas domésticas

31 de maio de 2013 8

As pessoas não compreenderam o significado do que disse o Amado Batista. O Amado Batista é um cantor que, há uns 20 ou 30 anos, era chamado de “rei das empregadas domésticas”, num óbvio preconceito contra as empregadas domésticas e numa óbvia sacanagem ao Amado Batista. Um de seus sucessos estrepitosos narrava que, no hospital, na sala de cirurgia, pela vidraça ele via a sua amada “sofrendo a sorrir”. E o sorriso aos poucos foi se desfazendo, então ele a viu morrendo, sem poder se despedir.

Isso, claro, porque naquele hospital as pessoas assistiam a cirurgias através de vidraças, o que é bem raro hoje em dia.
Pois agora, em entrevista a Marília Gabriela, Amado Batista contou que foi torturado durante a repressão. Permaneceu dois meses preso e saiu tão traumatizado, que chegou a pensar em tornar-se andarilho, mendigo, algo que o valha.

Hoje, no entanto, acredita que os torturadores ESTAVAM CERTOS, porque ele apoiava gente que queria transformar o Brasil numa Cuba e por isso merecia um corretivo, tal qual uma mãe aplica num filho desobediente, aquela história.
Marília Gabriela ficou espantada. Os defensores da ditadura festejaram, afirmando que até alguns torturados compreenderam que estavam errados. A maioria dos brasileiros o censurou dizendo que Amado Batista não passa de um ingênuo que nem sabia o que fazia naquele momento difícil do país.

Não é nada disso. O que acontece é que Amado Batista PRECISA achar que os torturadores tinham razão. É fundamental, para ele, acreditar nisso. É a forma que tem de manter íntegra a sua estrutura psicológica. Porque, se Amado Batista reconhecer que foi seviciado barbaramente POR NADA, que o Estado foi capaz de prendê-lo, espancá-lo e humilhá-lo sem razão alguma, se Amado Batista compreender que foi vítima de um crime monstruoso praticado pelas autoridades do país, em que irá acreditar? Como é que homens podem cometer tais atrocidades com outros homens? Isso tem que ter alguma razão. Não pode ser só injustiça crua. Não, não, se isso pode acontecer, onde estão a Lei e o Estado? Onde está Deus?

Amado Batista não é um idealista. Ele é um homem que canta a dor de ver sua amada morrendo na sala de cirurgia. É um artista popular. Ou seja: também não tem a ideologia a sustentá-lo. Não poderia se consolar cevando-se no ódio ao inimigo, jamais acharia que lutava do lado do Bem contra as forças do Mal. Então, como explicar tamanha crueldade, tamanha injustiça? Se esse absurdo fosse possível, Amado Batista não seria possível. Não haveria o rei das domésticas. Haveria só o vagabundo anônimo, louco pelas ruas, como tantos outros.

A tortura é tão vil por isso. Porque não machuca apenas o corpo do torturado. Porque lhe mutila a alma até convencê-lo de que, se está sofrendo, é porque merece.

* Texto publicado na Zero Hora desta sexta-feira, 31/05/2013.

Inter fez o que tinha de fazer

30 de maio de 2013 22

Eu, que sou um fã do Tigre, faço o alerta: o Criciúma estava com meio time reserva.
Mas tudo bem, o Inter é melhor mesmo, provavelmente venceria mesmo com o Tigre completo, sobretudo devido às características das duas equipes.
O Tigre é um time com vocação ofensiva, Vadão gosta do 3-5-2, gosta de laterais que sejam alas, gosta de três atacantes.
E o Inter gosta de times que joguem abertos. Gosta de jogar aproveitando-se das falhas dos adversários.
Resultado: no meio do primeiro tempo já estava 2 a 0 para o Inter, e o 2 a 0 se manteve até o fim.
O Inter fez o que tinha de fazer. O Criciúma, não. O Criciúma talvez tenha calculado mal a força do inimigo.

Sala de Redação

30 de maio de 2013 1

Ouça o Sala de Redação desta quinta-feira.

Túnel do Tempo: Como nasceu a cidade

30 de maio de 2013 2

Vou contar como tudo começou. No princípio, nada era como hoje é. Ao amanhecer da Civilização, as pessoas viviam em comunidades agrícolas auto-suficientes. Plantavam o que comiam, cosiam as roupas de vestir, levantavam elas mesmas as paredes das casas em que iam se abrigar, fabricavam as ferramentas com as quais trabalhavam. Todas mourejavam nas lides do campo, com exceção das mães, que ficavam em casa, velando pelos filhos.

Mas, certo dia, um dos filhos de um agricultor demonstrou habilidade especial em fabricar… enxadas, talvez. Ninguém fazia uma enxada como ele. A família toda pedia-lhe enxadas, e ele as produzia com gosto. Logo sua fama espalhou-se pela região e os vizinhos também passaram a fazer encomendas. Trocavam uma enxada por uma saca de cereal, ou por um manto de lã que o aquecesse no inverno, quem sabe por um barril de dourada cerveja de trigo. Eram tantos os pedidos que o rapaz foi apartado do trabalho na terra. Sua função, agora, era fabricar enxadas.

Quando ele enfim conheceu uma beldade do neolítico e decidiu casar-se, saiu da casa dos pais. Mas não procurou terra para plantar. Montou uma casinha mais ou menos próxima das comunidades agrícolas do entorno e anunciou que viveria do fabrico de enxadas. Quem quisesse revolver a terra com a melhor enxada das cercanias, que o procurasse e oferecesse algum produto em troca. Era bom para ele, que assim sustentava sua família, e era bom para os agricultores, que tinham mais tempo para arar e colher, sem precisar produzir eles mesmos suas enxadas.

O filho de outro agricultor, admirando o sucesso do fabricante de enxadas, resolveu imitá-lo. Mas não para concorrer com ele: esse outro rapaz era um ótimo construtor de casas, e foi assim que se estabeleceu em uma propriedade contígua à do fabricante de enxadas – afinal, aquele lugar era estratégico, dava fácil acesso aos agricultores da área. Em algum tempo, outros especialistas foram se instalando naquele local: um velocíssimo cavador de poços, um ferreiro incomparável, um hábil construtor de carroças populares. E, depois deles, uma jovem viúva, que não tinha mais nem terra para cultivar nem marido que a provesse, passou a ceder o corpo tenro à volúpia masculina, aceitando como paga qualquer coisa à toa, uma noitada boa ou um corte de cetim. A prostituição, como se vê, não é a mais antiga profissão do mundo.

Para facilitar o comércio entre si, os profissionais pioneiros abriram caminhos que ligavam uma casa a outra, e suas casas às propriedades dos agricultores. À noite, reuniam-se no mesmo lugar para cultuar seus deuses primitivos. Um deles comandava os ritos, organizava as liturgias, e por este serviço também passou a pedir produtos de que necessitava para viver. Assim foram rasgadas as primeiras ruas e estradas, assim surgiram os primeiros sacerdotes.

Assim nasceu a cidade.

A natureza da cidade, portanto, é dupla: ela surgiu da reunião de muitas pessoas em um só lugar, sim, mas antes disso surgiu da especialização de tarefas. Da diferença entre os talentos dos homens.

E, à medida que uma cidade vai se sofisticando, as atividades vão se tornando mais especializadas. Uma cidade moderna tem de um tudo, é capaz de suprir as necessidades mais específicas. Em uma cidade pessoas ganham a vida trabalhando como terapeutas ocupacionais, engenheiros de alimentos, designers de doces. E como consultores de RH, que sobrevivem impingindo a adultos atividades de recreação de jardim da infância.

Chegamos a esse ponto, nas cidades. Tudo culpa daquele fazedor de enxadas.

* Texto publicado em 25/03/2010

Sala de Redação

29 de maio de 2013 0

Ouça o Sala de Redação desta quarta-feira.

Túnel do Tempo: O segredo do Besouro-Assassino

29 de maio de 2013 4

A Tarântula também é chamada, não por acaso, de “Golias”. Estou falando aqui da maior aranha do mundo, um monstro com corpo de nove centímetros e patas de 25, do tamanho de um prato de jantar de restaurante francês, capaz de devorar um passarinho inteiro, que é o pitéu preferido dela, canoro ou não. A gigante Tarântula rasteja pela América do Sul, você pode deparar com uma delas por aí. Cuidado, se tiver passarinho.

Já a menor aranha de todas tem o simpático nome de Patu Marplesi, ela vive na Samoa e seu corpitcho não passa de 0,5 milímetro. Ou seja, menor do que o ponto no fim desta linha, ó: .

Apesar de as aranhas terem até quatro pares de olhos, a maioria enxerga mal.

Você deve estar se perguntando, assim como me perguntei, de que forma os cientistas descobriram esse problema de visão das aranhas. Eu, o doutor Xavier só diagnosticou a minha miopia quando achei que o B na terceira linha do quadro na parede era um P. Qual foi o teste que os oftalmologistas fizeram com as aranhas? Isso alguém algum dia vai ter que me dizer.

Mas o fato é que a maioria delas não vê bem. Exceto a caçadora noturna Aranha-Lobo, que tem olhos poderosos que brilham no escuro. Se você vir uns olhinhos pequenos brilhando no escuro, saia correndo: é a Aranha-Lobo caçando.

Além de possuir oito olhos, a aranha possui oito patas.Assim como você tem dois olhos e duas pernas. Se uma aranha jovem perder uma delas em algum acidente, a pata poderá crescer novamente. Quanto às aranhas velhas, essas ficarão lastimavelmente mancas, coitadas. E depois chamam a velhice de melhor idade…

Se um homem fosse capaz de saltar na proporção de uma pulga, ele daria um pulo de 174 metros de altura, o que seria muito conveniente nas jogadas de bola aérea, sobretudo em escanteios.

As baratas podem correr a 4,8 quilômetros por hora. Parece pouco porque a barata é pequena. Se os seres humanos corressem tanto quanto elas, fariam de zero a 100 quilômetros por hora em um segundo. Seria muito bom para chegar cedo ao serviço, mas imagine uma pechada entre duas gordas a 100 por hora.

O Besouro-Assassino, ao capturar uma vítima, injeta-lhe saliva venenosa nas entranhas. Quando ela está imobilizada, o Assassino suga-lhe os líquidos até deixá-la seca. Há mulheres que fazem isso com a gente.

O Escaravelho, sabe do que o escaravelho mais gosta? Fezes. Tanto que bota seus ovos dentro de um nojento bolo de fezes, do qual seus filhinhos saem se esgueirando depois de nascer. Por isso, saiba que, se você pegar um escaravelho, estará pegando cocô.

As borboletas Flambeau vivem nas aprazíveis Ilhas Caiman e se alimentam das lágrimas do jacaré. Sem nenhum medo de levar uma mordida, elas pousam nos olhos do bicho e bebemlhe as lágrimas. Felizmente para as borboletas Flambeau, o jacaré é bastante emotivo e está sempre chorando, apesar da aparência de durão.

Há borboletas que, pousadas na flor, se disfarçam de excremento de passarinho. Um disfarce decerto desagradável para os borboletos, mas útil para afugentar eventuais predadores. Pela mesma razão, algumas aranhas se fazem de formiga. O predador olha e pensa: formiga não é gostoso, o que eu queria agora era uma boa aranha. E vai-se embora.

Isso tudo aprendi num livro que comprei para o Pocolino na Feira, dias atrás. Estava em dúvida entre livros sobre a Dupla Gre-Nal e esse de aranhas e insetos. Pensei nas brigas entre colorados e gremistas e na amargura destilada todos os dias pelos torcedores dos dois clubes e decidi: aranhas e insetos. Sim, senhor: aranhas e insetos são muito menos peçonhentos.

Sala de Redação

28 de maio de 2013 3

Ouça o Sala de Redação desta terça-feira.

Não mande flores para a cova do inimigo

28 de maio de 2013 21

O ideal de um clube da dupla Gre-Nal é se importar tanto com o arqui-inimigo até o ponto em que não precise mais se importar tanto com o arqui-inimigo.

Porque só o que interessa para os gremistas são os colorados, e só o que interessa para os colorados são os gremistas.

Fernando Carvalho compreendeu isso. Estabeleceu metas para a sua gestão no Inter. A primeira de todas: deixar de perder Gre-Nal. Foi assim que pavimentou o caminho do Inter vencedor do quinquênio 2005-2010. Foi assim que mudou o Inter para sempre.

Fernando Carvalho sabe que a medida do Inter é o Grêmio; e vice-versa. Sabe que, como canta o velho Belchior, não se deve mandar flores para a cova do inimigo.

O jogo mais importante

O Grêmio confundiu-se ao estabelecer as estratégias de enfrentamento dos seus três últimos clássicos, justamente em momentos em que estava melhor do que o Inter. No ano passado, não empenhou-se para vencer um jogo ganho; neste ano, escalou reservas em duas oportunidades.

Erro primário.

Talvez pudesse vencer os jogos, aliviar-se com o bálsamo do Campeonato Gaúcho e fazer o rival espadanar na crise. Ao contrário, comprometeu seu começo de temporada, fortaleceu o Inter e, agora, quem se repoltreia na desconfiança é ele, Grêmio.

A verdade mais que centenária nunca deve ser esquecida: para Grêmio e Inter, o jogo mais importante do mundo é, e sempre será, o Gre-Nal.

Tempo de amadurecer

Fernando Carvalho é um admirador do futebol do Fred. Considera-o um novo Tinga, um jogador que, com sua movimentação, dá dinamismo ao time.

Eu sempre fui desconfiado de meias que não sabem fazer gol, mas, ao ver essa última atuação de Fred contra o Vitória, tenho de concordar. Se jogar sempre com essa disposição, Fred se tornará fundamental ao time do Inter.

Um detalhe: Fred só está podendo se tornar o que é porque está tendo tempo para amadurecer. Porque o Inter passou um semestre inteiro na bonança. Porque o Grêmio desprezou o Gre-Nal.

Aprendendo com Nietzsche

Fred está se tornando quem ele é. É a base de toda a filosofia e de toda a psicanálise. “Torna-te quem tu és”, escreveu Nietzsche.

Não se trata de tarefa fácil.

Nietzsche também dizia que cada um deve saber o quanto de verdade sobre si mesmo é capaz de suportar.

É por isso que, muitas vezes, ir tão fundo talvez não seja o ideal. Talvez o melhor seja deixar que a vida o conduza. Aprender e fazer ao mesmo tempo. Pensar enquanto age. Como Fred. Ele vai jogando, ele vai se adaptando às exigências da realidade e, aos poucos, vai se encontrando, vai descobrindo como se sente melhor e onde se sente melhor e de que forma se sente melhor. Está se tornando quem ele é.

* Texto publicado na Zero Hora desta terça-feira, 28/05/13.

Sala de Redação

27 de maio de 2013 0

Ouça o Sala de Redação desta segunda-feira.

Túnel do Tempo: Cueca Lilás. Carpins Pretos

27 de maio de 2013 3

Contos do livro “O Mundo é uma Bola“, uma reunião de cronistas que a Editora Ática fez tempos atrás.

Esse seu criado assina o livro junto com Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Luis Fernando Veríssimo, Millôr Fernandes, Paulo mendes Campos, Rachel de Queiroz, Rubem braga, Stanislaw Ponte Preta, Moacyr Scliar, José Roberto Torero e Lourenço Diaféria. Estou em boa companhia ou não estou???

Os meus contos são: Cueca lilás. Carpins Pretos, A rua de tendinha e Era tudo bagaceirada

Cueca Lilás. Carpins Pretos

Débora era o nome dela. Débora. Pronunciávamos num suspiro: “Déboraah…”, com reticências no fim. Você sabe como são as mulheres com nomes proparoxítonas. Você sabe. Nomes proparoxítonos, vogais explosivas, só podia dar no que deu: uma mulher serpente, com curvas e aclives de pista de rali. E ruiva, ainda por cima. Déboraah… Pensei nela por causa do Antônio Lopes.

Você vai achar estranho eu pensando na Débora por causa do Antônio Lopes. Bem, é que, na verdade, não foi exatamente na Débora que pensei em primeiro lugar. Não. Foi no Odone Carpim. Pois lá estava o Antônio Lopes, no Japão, com sua camisa da sorte, suas calças da sorte, seu sapato da sorte. Então lembrei do Odone Carpim. Justamente devido a isso de roupa da sorte.

Está certo, é comum no futebol essa história de roupa da sorte. O Foguinho tinha uma. Um colete. Torcedores e jogadores acreditavam que, quando o Foguinho usava seu colete, o Grêmio não perdia. Acontece que o colete era de lã, quente, e Foguinho tinha de usá-lo mesmo no verão. Uma vez, o Grêmio ia jogar no Interior, o ônibus da delegação já deixara a cidade, quando Foguinho, remexendo na mala, comentou, distraído:

- Esqueci meu colete…

Num repente, todo o bulício dos jogadores, as risadas, os gritos, os jogos de cachetinha, tudo cessou. As respirações ficaram em suspenso. O silêncio se tornou tão pesado que ameaçou estourar os pneus do ônibus. Os olhares se voltaram para o técnico. Esqueceu? Meia-volta. Todos à casa de Foguinho, atrás do colete.

Times vencedores cultivam superstições. O Inter de 75. Os jogadores entravam e saíam do ônibus sempre na mesma ordem, sentavam nos mesmos lugares. E havia o perfume. O massagista Moura borrifava as camisetas com um perfume odor alfazema que dizia ser mágico. O time entrava em campo todo cheiroso, intrigando os adversários.

Um amigo meu, o Jorge Barnabé, acreditava ardentemente que o Grêmio só vencia se ele fosse ao jogo com uma certa cueca lilás. Empenhado na conquista do campeonato, ele não perdia uma partida. O pessoal se encontrava com ele na arquibancada e nem dava boa-tarde:

- Tá com a cueca? Tá com a cueca?

E ele, sorridente, puxava uma ponta de pano lilás do lado das calças e mostrava:

- Oh! – todos suspiravam de alívio.

O brabo é que a cueca essa era daquelas “cuecas machão”, lembra? Um tecido furadinho, quadriculado, baratíssimo, vinham várias delas dentro de um cilindro plástico vendido a parcos centavos. Chegava uma hora que as tais cuecas começavam a pinicar a pele do usuário. Aí, o Jorge ficava inquieto na arquibancada, sentado de lado, levantando, incomodando a torcida ao redor.

Aquelas cuecas se gastavam rapidamente. Certa feita, a mãe do Jorge, vendo o estado lamentável da cueca lilás dele, atirou-a no lixo. No dia do jogo o Jorge procurou a cueca e não a encontrou. Revirou as gavetas, o cesto de roupa suja. Nada. Pressentindo a tragédia, correu para a cozinha:

- Mãe! – berrava. – Cadê a minha cueca lilás?

Agora você sabe por que o Grêmio perdeu tantos campeonatos na década de 70.

Mas a história que interessa é a do Odone Carpim. Como você é esperto, já adivinhou que a roupa da sorte do Odone Carpim era, exatamente, um par de carpins. Pretos. Comuns. Meia canela. Em outras rodas consagradas como “peúga”.

Olha, o Odone não venceria nenhum concurso de mister elegância com seus carpins, mas parecia ter sorte mesmo. No futebol, a bola batia na canela dele e entrava. Sorteio, ganhava todos. Vivia achando dinheiro na rua. A todas essas, repetia: é o carpim, é o carpim.

Odone usava os carpins quase todos os dias. Resultado: os carpins começaram a gastar. Ficaram puídos, desbotados. Até que chegou um tempo em que ele foi deixando de usá-los. Não sem se lamentar pungentemente:

– Sou um comum sem o carpim. Um comum.

O curioso é que a sua sorte realmente mudava. As coisas não davam mais tão certo para ele. Talvez porque sua confiança diminuísse sem os carpins. Foi então que surgiu Débora. A Débora proparoxítona. Todos nos apaixonamos pela Débora. Todos a assediávamos. Ela nem bola.

Uma tarde, a Débora estava perto do campinho do IAPI com três amigas. Nós cochichávamos a alguns passos. Sobre ela, claro. “Como é exibida, nem olha pra gente”. Então, o Odone bradou:

- Vou dar um jeito nisso.

E saiu correndo. Foi em casa. Voltou de bermudas.

E carpins. Os velhos carpins da sorte. Veio gingando, sorrindo, em nossa direção. Subitamente, desviou para o lado das meninas. Óbvio: ia apresentar os carpins para a Débora. Tensão. Daria certo? Débora se apaixonaria pelo Odone por causa dos malditos carpins? Odone chegou perto dela. Bem perto. A roda das meninas também silenciou. Aí, ele se abaixou, ajeitou os carpins demoradamente, chamando a atenção para eles. Todos, inclusive a Débora, olhamos para os carpins. Ele olhou para trás, para nós. Sorria maliciosamente. Sorrindo ainda, olhou para cima. Para Débora. Ergueu-se. Ficou diante dela, sorrindo. Então deu-se o inacreditável. Débora sorriu para ele. Era a primeira vez que sorria para alguém da turma. Dissemos: “Oooh”. O Odone olhou para trás, vitorioso. E Débora, incrível!, falou com ele. Disse assim:

- Tu que és o Odone Carpim?

Ele, orgulhoso:

- Eu mesmo.

Ela, ainda sorrindo, mas desta vez olhando para as outras meninas:

- Vocês têm razão: é um nojo.

Ao que deu as costas para Odone e foi embora.

Moral da história: superstição só funciona no futebol.

Grêmio vence, mas precisa de sangue novo

26 de maio de 2013 44

O Grêmio venceu, mas não jogou bem.
Fez 2 a 0 num adversário fraco, o Náutico, que deve se repoltrear na zona de rebaixamento o campeonato inteiro.
O Grêmio é um time pesado, lento, com jogadores que não se deslocam, que não se esforçam para abrir o adversário.
Melhora quando entra um Biteco, que, se não é um Messi, pelo menos avança para receber a bola depois de dar um passe. É o básico, mas o Grêmio não faz o básico.
Luxemburgo precisa investir nos jovens. Alex Telles é um ganho em relação a Fábio Aurélio e André Santos. Bressan é outro ganho em relação a Cris. Os Bitecos, Lucas Coelho, Yuri Mamute e tantos mais têm de ser aproveitados aos poucos.
O Grêmio necessita urgentemente de sangue novo.

O Inter devia ter sido mais Fred

26 de maio de 2013 4

A dedicação de Fred salvou o Inter na Bahia. Fazia tempo que não via um jogador tão entregue a uma causa como vi Fred, ontem. Estava jogando preferencialmente na esquerda, mas acabava se deslocando por todos os lados, combatendo sempre, lutando pela bola, deslocando-se, dando alternativas de passe aos seus colegas de time. Foi graças a ele que o Inter se impôs ao Vitória.
Aliás, frágil Vitória.
Caio Junior continua o mesmo. Seu time marca à distância, por Sedex. Os meio-campistas e atacantes do Inter nunca tiveram tanto espaço para jogar. Podriam ter vencido facilmente, se tivessem um pouco mais de ambição. Se fossem mais Freds.
Não foram. Foram resignados. Ficaram com o 2 a 2, que parece razoável, já que o Inter perdia por 2 a 0, mas que não é. É ruim. O Inter deixou dois pontos na Bahia.

Código David: Sócrates, caixas industriais, hienas e a Deborah Secco de calcinha

26 de maio de 2013 3

Mas como é que nós vivíamos sem internet? Que mundo árido era aquele. Um mundo de trevas.

Eu, todos os dias, bebo da sabedoria que me chega por esse caudaloso rio virtual. Um Nilo da boa informação. A variedade humana inunda-me sem que precise me erguer da cadeira de espaldar baixo onde apoio as costas cansadas. Note, por exemplo, o caso das hienas. Outro dia escrevi sobre elas e, de pronto, os leitores passaram a despejar torrentes de dados preciosos a respeito desses quadrúpedes na minha caixa de correio.

Fiquei sabendo que o pai de todas as hienas, bem como de todos os carnívoros chamados pelo poético nome de “patas de veludo”, que são aquelas almofadinhas dos pés dos gatos e dos cachorros, pois esse pai ancestral foi o miacid, bicho parecido com a doninha, do tamanho de um pitbull. O miacid fez suas estripulias pelo planeta logo depois do desaparecimento dos dinossauros, mais de 55 milhões de anos atrás. Ele foi se desenvolvendo lenta e inexoravelmente até que, há 22 milhões de anos, surgiu, gloriosa, a primeira de todas as hienas. E há apenas 18 mil anos, quando nós, homo sapiens, já caçávamos bisontes, existia uma hiena gigante, temível, do porte de uma leoa, capaz de triturar ossos de elefantes com os molares.

Gostei de aprender isso e até já estou simpatizando mais com as hienas, eu que as desprezava.

Também me chegaram informações sobre os ídolos do rugby nacional, e eu nem sabia que eles existiam. Quase ao mesmo tempo, descobri que o tapete Nomad, com maior absorção de água, possui tecnologia antiderrapante. E o melhor: especialistas do feng shui me fizeram advertências acerca das cores, como:

O branco – Uma pessoa que passa muito tempo em um lugar totalmente branco tem a sensação de frieza, vazio e hostilidade.

O preto – Uma sala preta pode transmitir a sensação de angústia por lembrar o luto.

O lilás e o violeta – Em excesso podem causar depressão e ansiedade.

O azul – Tem efeito calmante, mas um ambiente azul demais dá sono.

O vermelho – No quarto do casal, ativa a sexualidade, mas também provoca brigas, confusões e explosões de humor.

Acesse a internet e saiba: há que se tomar cuidado com as cores.

Mas por que alguém me enviou um e-mail a respeito de caixas industriais? Li atentamente o e-mail. Existem caixas industriais com capacidade de 4,5 litros, 15,5 litros e 35 litros. Hm. Um dia posso usar essa informação.

Muita gente manda e-mails com pensamentos. Esses dias recebi o seguinte: “Deve-se temer mais o amor de uma mulher do que o ódio de um homem – Sócrates”. Será que Sócrates realmente disse isso? Como Maomé e Jesus, ele nunca escreveu nada na vida. Quem escrevia para os três eram seus discípulos. Verdade que a mulher de Sócrates, Xantipa, entrou para a História devido ao seu mau humor. Contam que um dia ele aconselhou a um de seus alunos: “Case-se. Se você tiver uma boa mulher, será feliz. Se tiver uma mulher como a minha, será filósofo”.

De qualquer forma, apreciei a suposta frase de Sócrates, assim como a promoção de pizza grande que me ofereceram: uma pizza de 35 centímetros e dois sabores por R$ 18. Boa pizza, bom preço.

Agora preciso contar algo que me intriga. Todos os dias, mas todos os dias!, recebo e-mail de um sujeito que vende facas. Ele sempre oferece uma única faca e, para isso, utiliza uma linguagem estranha. Estou achando que se trata de algum tipo de código. Afinal, por que alguém pensaria que todos os dias eu preciso comprar uma faca? Leia um trecho do e-mail dele e me diga o que significa e se devo ficar preocupado:

“Lâmina: de construção integral, uma única peça; forjada em aço damasco composto de dois tipos diferentes de aço, 5160 e 15n20. Eles foram caldeados em barras de 25 camadas, sendo 13 de 5160 e 12 de 15n20. O bloco foi cortado em três partes. Estas barras foram recaldeadas, dando origem a um bloco com 75 camadas. Depois este bloco foi cortado em duas partes e recaldeado, dando origem a um bloco com 150 camadas, que foi forjado para o formato final da lâmina integral. Depois de forjado ele foi recortado, dando origem ao padrão final de desenho. O padrão do desenho é chamado de laeder curvo. O desenho do aço é revelado com percloreto férrico, e depois tratado com um banho de fosfato de manganês”.

Não é enigmático? Todos os dias, todos os dias. Tenho medo desse e-mail da faca.

Depois de recebê-lo, só descontraio um pouco ao ler os e-mails com vírus. Adoro os e-mails com vírus. “Fotos da Deborah Secco só de calcinha”. “Cheque devolvido”. “Solicitação de regularização imediata de conta vencida”. “Veja as fotos que você pediu”. “As fotos da nossa festa de sexta à noite”.”Por que você fez isso comigo?” “Vou falar a verdade: eu te amo”.

Não é comovente o esforço que eles fazem para chamar a minha atenção?

Preciso abrir um desses e-mails algum dia. Não sei mesmo como vivíamos sem as delícias da internet.

Túnel do Tempo: O povo não é novo

25 de maio de 2013 0

Steve Jobs, há pouco desencarnado, não fazia parte do meu rol de admirações. Não o considerava um gênio inventivo; no máximo, um empresário genial. Mas houve algo que ele disse, do tanto que disse, que me arrancou um sorriso de satisfação quando ouvi (ou li). Jobs contou que não encomendava pesquisas de opinião para a sua empresa, que nunca se baseava na opinião da maioria. Porque ele queria inovar, ele queria ser pioneiro, e a massa jamais inova, jamais é pioneira.

É lógico. A maioria sempre é conservadora, simplesmente porque a maioria sempre olha para trás. Não que todas as maiorias sejam obtusas, não, mas porque a capacidade de ver algo onde nada existe é uma capacidade de poucos. Como uma massa de pessoas teria condições de, em conjunto, conceber uma novidade? Impossível. A criatividade é um dom que se exercita individualmente.

Qualquer coisa absolutamente nova choca a maioria. Afinal, a mudança é uma violência, mesmo que seja uma mudança para melhor. A tendência das pessoas é continuar na inércia, no confortável movimento retilíneo uniforme. Uma parada ou uma aceleração fazem com que você seja impulsionado para frente ou para trás e, às vezes, caia.

A pesquisa de opinião, a enquete, o grito das ruas, a vaia ou o aplauso do estádio, o senso comum, enfim, deve ser apenas um dado, só mais um dado entre tantos que o líder reúne para tomar sua decisão.

Nessa categoria está a escolha de um técnico de time de massa, como o Grêmio ou o Inter. Um bom técnico não é necessariamente um técnico popular. Um bom técnico às vezes é o técnico do dirigente, do líder, não o da torcida. O líder, volta e meia, tem a obrigação de enfrentar a torcida. E ser, como a torcida espera, superior a ela.


O caso da cueca


O Bernardo jogou a cueca dele pela janela. Foi ontem de manhã isso. Ele está na fase de ter que tirar a fralda, mas quem diz que quer tirar a fralda? Então, quando ele viu aquela cueca saindo da gaveta na mão da babá, protestou:

– Cueca, não!

E saiu correndo feito um ratinho. Mimi, a babá, saiu correndo atrás dele, brandindo a cueca. Ele urrava como se fosse um porco indo para o abate:

– Cueca, não! Cueca, não!

Mas a brava Mimi não desistiu. Com denodo e astúcia, encurralou-o num canto do quarto. Ele não tinha mais saída, era parede à esquerda, parede à direita e Mimi à frente. Teria que botar a cueca! A Mimi foi se aproximando, se aproximando, encurvada como um goleiro esperando a cobrança do pênalti…Aí, quando ela estava bem pertinho, ele puxou rapidamente a cueca da mão dela e, tchun!, atirou-a pela janela.

Cinco minutos depois, lá estava o otário aqui subindo numa escada com uma vassoura na mão a fim de puxar a desgranida da cueca do telhado. É o que falo das mudanças. Ninguém gosta de mudanças.

* Texto publicado na Zero Hora de 25/10/2011.