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Posts de junho 2013

Código David: A mãe, o menino, a bola e o mar

30 de junho de 2013 6

A praia do Leme estava vazia de gente. A paisagem era feita apenas de sol ameno, areia morna e as ondas do mar que iam e vinham, iam e vinham. Só havia ali uma jovem mãe e seu filhinho de uns cinco anos de idade. Ela, de biquíni listrado, parada de pé, de costas para o oceano, as mãos à cintura, olhando para o menino.

O menino olhava para uma bola.

Uma goleira, que no Rio eles chamam de baliza, tinha sido plantada a alguns metros do menino e da bola. Havia uma bicicleta encostada na trave esquerda da goleira. O menino recuou alguns passos da bola, sempre olhando para ela. Como a mãe, também pôs as mãos à cintura.

Ia bater um pênalti.

A bicicleta apoiada na trave me inquietou. Pelo menos metade da bicicleta, uma grande bicicleta decerto usada pela mãe para levar o filho até a praia em pedaladas preguiçosas, pois pelo menos metade da bicicleta invadia a goleira. Se o menino chutasse para a esquerda, era grande a chance de acertar a bicicleta e não marcar o gol. Por que eles não apoiaram a bicicleta em outra coisa?

Mas não havia nada onde apoiá-la. Havia só a areia morna, o sol ameno e as ondas que iam e vinham. A bicicleta provavelmente não era dotada daquelas pequenas alavancas que deixam bicicletas de pé. Ou ficava encostada em uma das traves da goleira ou jazia ao chão, como que abandonada. Não, uma mãe ciosa não deixaria a bicicleta abandonada. Uma mãe não larga as coisas no chão. Assim, o risco de o menino errar o pênalti era real.

A mãe o observava, e não ria. O menino continuava com o olhar fixo na bola. E também não ria. Então, respirou fundo. Partiria para o chute. A mãe esticou o pescoço levemente para frente, supus que apreensiva. Ele arrancou em direção à bola. Pela forma como enquadrou o corpo, percebi que era destro. Correu com a convicção de quem está acostumado a correr na areia. Correu, correu e parou. Fincou o pé esquerdo ao lado da bola e, com o direito, bateu de chapa, com o ossinho do lado de dentro, feito um Zico, e a bola alçou voo mais ou menos à altura da cabeça dele, e viajou, rápida e macia, para o canto certo, o canto direito, e aninhou-se no fundo da rede. Gol.

Gol!

A mãe ergueu os braços e gritou:

– Gol!

Ele saiu pulando e rindo, gritando:

– Gol!

Buscou a bola no fundo da rede, enquanto a mãe lhe dava as costas e caminhava rumo ao mar. Ela parou e sentou-se na areia. O menino a alcançou e sentou-se ao lado dela, em cima da bola. E ficaram os dois olhando em silêncio para as ondas que iam e vinham, iam e vinham.

A vantagem do Brasil

Há um fator bastante favorável ao Brasil na decisão deste domingo. É o seguinte: nunca vi a Seleção Brasileira perder um jogo em que entra como zebra.

Nunca vi.

É claro que o melhor seria a Espanha ter goleado a Itália. Não foi assim, ao contrário, a Itália mostrou que cachorro grande sempre late grosso. A dureza do jogo semifinal faz com que a Espanha entre no Maracanã meio que sob suspeita, mas, mesmo com alguma dúvida, ela ainda é a favorita.

Pois esse favoritismo é o que pode fazer o Brasil crescer. Nunca houve, não há nem jamais haverá time no mundo que pise num campo de futebol sem temer o enfrentamento com a Seleção Brasileira.

O peixe

Na ponta da Praia do Leme existe o Caminho dos Pescadores. É um caminho esculpido na pedra do morro, que vai circundando a encosta e invade o mar. O parapeito é mínimo, coisa de meio metro de altura, algum incauto já deve ter desabado nas ondas lá embaixo, e aquelas são ondas ameaçadoras, arremetem nos recifes e rugem como leões na noite da savana.

Outro dia, vi uma pescadora puxar do mar um grande peixe, grande pelo menos para mim: era um peixe do tamanho de um cachorro, não sei de que tipo, eu que só conheço peixes quando eles vêm mortos, no prato, de preferência com molho bechamel.

Aquele peixe, de qualquer forma, era um belo exemplar de peixe. Uma magnífica criatura prateada e reluzente, um animal cheio de vigor, que parecia espantado por ter sido arrancado de seu meio. Ele arfava com ânsia de vida, respirava com gana e se debatia com tamanha teimosia que parecia ter esperança de salvação. Cheguei a pensar: vou ali, compro o peixe e o devolvo ao mar. Mas não o fiz.

Caminhei mais um pouco, até a ponta do Caminho dos Pescadores. Olhei para o Cristo lá adiante, atrás dos edifícios, atirei o olhar no oceano imenso, ouvi o bramido das ondas. E a imagem do peixe em agonia não me saía da cabeça. Voltei em direção à praia, esperando ver de novo a pescadora. E, de fato, lá estava ela, lá adiante. Estava agachada, lidando com algo posto no chão. Seria o peixe?

Apressei o passo. Fui me aproximando. Aproximando. Quando cheguei perto, vi que, realmente, ela segurava o peixe com uma mão e, com a outra, manuseava uma faca. Havia aberto a barriga do peixe e, enquanto trabalhava eviscerando-o, ria e conversava com outros pescadores. Fazia isso não com frieza; com naturalidade. Aquele peixe, tão ansioso de vida, morrera sem um olhar de piedade, sem qualquer ponderação.

Eu devia saber. O mundo não faz ponderações.

* Texto publicado na Zero Hora deste domingo, 30/06/2013.

Túnel do Tempo: O rei do bar

29 de junho de 2013 8

Nos anos 80, Renato Portaluppi era o rei do Água na Boca.
Certo dia, na casa da mãe dele, na Zona Sul, Renato contou-me algumas de suas aventuras noturnas ocorridas, justamente, no palco penumbroso do “ Água”, como os antigos freqüentadores ainda chamam o bar, entre suspiros.

Muitas impublicáveis, claro.

Uma, mais leve, aconteceu com uma loirinha que era uma daquelas loirinhas.
Mas era uma loirinha! Meiga, doce, quase diáfana.
E com namorado.
Loirinhas que tais sempre estão com namorados.
Aquela loirinha tinha um namorado grandão e tudo mais, só que não parava de olhar para o Renato.

Até que o Renato fez um gesto de cabeça para ela e ela o seguiu para os fundos do bar.
Lá, entregaram-se a alguns minutos de travessuras, que acabaram em feroz felação, ao cabo da qual, Renato sussurrou-lhe ao ouvido: – Agora, quero que tu voltes ao bar e beije teu namorado na boca.
Ela obedeceu.
Renato era o Rei do Água, de fato.



*Texto publicado na Zero Hora em 26/12/2007.

Sorte grande

29 de junho de 2013 5

O vendedor de loteria ofereceu-me um bilhete na calçada de Copacabana. Recusei num menear de cabeça e ele tentou o velho truque, e foi como se recuasse no tempo.

O truque é tão pueril que chega a comover: o vendedor simplesmente deixa um bilhete cair da mão, como se fosse distração, e vira-se, já indo embora. A ideia é que você, para quem ele ofereceu o bilhete, agache-se e junte o caído para devolvê-lo ao vendedor. Então, ele exclama:

— É a sorte que está procurando por você! Este bilhete é seu! Ele quer ficar com você!

Se você diz que não quer comprar e insiste em devolvê-lo, ele não aceita:

— É seu! É seu! Pode ficar com ele de graça. Não se brinca com a sorte. Você vai ficar rico. Rico!

Aí você se comove e não apenas paga pelo bilhete erguido do solo como compra os outros pedaços.

Não chega a ser um golpe, é mais um truque, e é antiquíssimo. Por isso recuei no tempo vendo aquele bilhete fazer volutas no ar, como uma folha seca despegada da árvore. Porque lembrei de um dia em que, menino, andava por uma rua de Porto Alegre de mão com meu avô. Na nossa frente, um vendedor de loteria fez o mesmo gesto do vendedor de Copacabana, oferecendo-nos o que na época se chamava Sorte Grande, e meu avô, como eu, recusou num balançar de cabeça, e o bilhete se soltou da mão do vendedor e aterrissou suavemente na calçada. Então, meu avô fez algo que jamais esperaria dele: não se abaixou para colher o bilhete, apenas apontou-o com o bico do sapato e avisou:

— Teu bilhete.

E saiu andando, puxando-me pela mão. Perguntei por que ele fizera assim, ele que era sempre tão gentil com todos, e ele:

— É golpe, é golpe.

Fiquei muito apreensivo por ter sido uma quase vítima de golpe. Olhei para o vendedor, reconhecendo nele um terrível vigarista, e até tive medo, e talvez tenha sugerido ao meu avô que chamássemos a polícia, algo do gênero. Mas, agora, vendo o vendedor carioca repetir um truque tão antigo e singelo, pensei que isso só poderia acontecer aqui, nesse bairro envelhecido do Rio, que é Copacabana, e até senti simpatia pelo sujeito. Parei de caminhar e olhei para ele. Era parecido com o vendedor de loteria da minha infância. Podia se o mesmo homem, com o mesmo bigode, a mesma postura de apoiar o corpo num pé só, o mesmo ar solícito. Lembrei do meu avô. Deu-me uma nostalgia, uma saudade.

O vendedor sorriu para mim, esticando o braço com o bilhete.

— É seu! — dizia. — É seu!

A Sorte Grande. Tantos anos depois. A Sorte Grande. Quem sabe não era um sinal? Quem sabe eu, agora, devesse fazer o que meu avô não fez, e enriqueceria, como ele não enriqueceu? A Sorte Grande nos surgiu uma vez, mesmo que em forma de engodo, e agora surgia de novo, chamando: vem. Por que não? Ou quem sabe eu devesse comprar apenas em homenagem ao meu avô? Em homenagem a um passado revivido por um segundo.

— É seu! — ele repetia, abrindo ainda mais o sorriso.

Era um sorriso fácil. Fácil demais. Que levou-me a pensar que meu avô era um descrente, um homem que não confiava em sinais do acaso, um devoto da razão e, tal qual ele faria e fez um dia, retomei o meu caminho, não sem antes dizer para o vendedor:

— É teu.

OS GRANDES

Existem quatro seleções que são sempre favoritas, em qualquer competição que entrem, em qualquer jogo que disputem, mesmo que estejam em péssima fase, mesmo que os adversários estejam em ótima fase. São elas:

Brasil
Argentina
Alemanha e
Itália.

Essas quatro seleções são como os 12 grandes times do Brasil. Nenhum outro time do mundo, nem Barcelona, nem Real, nem Bayern, nem Milan, nenhum haverá de enfrentar esses 12 grandes com certeza de que vai vencer. Esses 12 grandes, qualquer um deles, podem ganhar tudo o que disputarem, até o Botafogo pode.

O que quero dizer com isso é que a Espanha é melhor time, sim, mas o Brasil tem boa chance de vencer. A Espanha não tem um Neymar. Xavi e Iniesta são craques, mas são de natureza diferente. São craques da bola curta, daquilo que os argentinos chamam de enganche no meio-campo. A Espanha precisa produzir um futebol de alta qualidade coletiva para marcar gol; o Brasil, não. O Brasil é capaz de marcar num lampejo, num lance único do jogador único. Como único será o jogo de domingo, no Maracanã.

* Texto publicado na Zero Hora deste sábado, 29/06/2013.

Sala de Redação

28 de junho de 2013 1

Ouça o Sala de Redação desta sexta-feira.

Som de Sexta

28 de junho de 2013 2

Publico essa para você ver o que fizeram com a música do grande Gonzaguinha na novela das nove…

As revoltas do Brasil

28 de junho de 2013 9

Outro dia passei pela Rua Tonelero e tive uma epifania. Essa rua de Copacabana foi ponto de partida de uma das rebeliões da classe média no Brasil. Digo rebeliões da classe média porque as classes baixas dificilmente se revoltam; não têm energia para isso. As altas também não se revoltam; não têm motivos para isso.

Se bem que as classes baixas já participaram furiosamente de duas rebeliões. A primeira, no século 19, foi a Revolta do Quebra-Quilos. Dom Pedro II, um monarca cientista, queria implantar no Brasil o sistema métrico decimal da Revolução Francesa: o quilo, o metro, o litro, essas medidas que hoje o mundo usa, com exceção dos renitentes ingleses. Mas a população, acostumada com a arroba e a libra, desconfiou que seria enganada pelos poderosos. Um vendedor de rapaduras botou a indignação na rua na Paraíba: invadiu uma feira livre e começou a quebrar balanças. A loucura se espalhou por outros Estados. Como em 2013, não existiam lideranças no movimento, existia fúria. As pessoas atacavam os estabelecimentos comerciais e destruíam balanças, e saqueavam, e agrediam. Protestavam contra as novas medidas e contra os impostos, a miséria, tudo. A revolta durou meio ano e foi sufocada com morte e tortura.

Depois, em 1904, explodiu a Revolta da Vacina. O povo se sublevou contra a vacina obrigatória imposta pelo médico e gênio Oswaldo Cruz. Justamente os pobres, os mais afetados pela varíola, reagiam com violência quando os agentes da Saúde tentavam vaciná-los. Saíram às ruas do Rio armados de porretes e navalhas, a navalha era a arma do malandro, e eles cingiam os pescoços com lenços de seda para evitar a degola. Morreram dezenas, mais de cem foram exilados para o Acre. O governo recuou, acabou com a obrigatoriedade, mas, assim que os nervos se distenderam, vacinou todo mundo, e a varíola foi erradicada, e vidas foram salvas, e viu-se que Oswaldo Cruz estava certo e o povo estava errado.

Depois disso, revolta popular mesmo só a que começou com o atentado a Carlos Lacerda, “o Corvo”, na rua por onde passei, a Tonelero. O frenesi gerado pelo atentado terminou com Getúlio furando o pijama listrado e o peito com uma bala calibre 32, e o povo de novo saiu às ruas, só que no Brasil inteiro. Uma revolta mais abrangente e mais furiosa do que a de hoje e, imagine!, não existia Facebook. O que existia no século 19, no 20 e, agora, no 21, é o descontentamento. A vida das pessoas não era boa e continua não sendo boa. E, tanto na revolta de 54 quanto na de hoje, revoltas da classe média separadas por 59 anos e três gerações, os objetivos surgem difusos e os alvos fragmentados.

Essas duas rebeliões não foram como os movimentos de 84 pelas Diretas Já, nem como o de 92 pelo impeachment de Collor, protestos orgânicos, com objetivos claros. O que havia em 54 é o que há em 2013: pessoas com raiva, infelizes com suas vidas, à procura de culpados, querendo uma solução sem saber exatamente qual. Da revolta de 54 brotou um carismático, Jânio Quadros. Ele seria repetido no fim dos anos 80, quando Fernando Collor emergiu de dentro da angústia da inflação. O que vai gerar a revolta de 2013? Suspeito que vamos descobrir já em 2014.

As velhinhas de Copacabana

28 de junho de 2013 4

Todas as manhãs, cinco senhoras vão passear com seus cachorros na Avenida Atlântica, na altura da Constante Ramos. São cinco velhinhas. Os cachorros, de pequeno porte; uns mais peludos, outros mais compridos, nenhum deles maior do que um gato. Uma das velhinhas tem três cachorros. Dois ficam brincando em volta dela, um se empoleira em seu ombro, como se fosse um papagaio. É interessante assistir àquela velhinha conversando com tanta naturalidade com um cachorro no ombro. Não há nenhuma tensão nem nela, nem vertigem no cachorro.

As velhinhas, na verdade, elas não passeiam pela avenida. Ficam sentadas nos bancos da famosa calçada de Copacabana, conversando. Reparei na aragem vivaz que as envolve. Às vezes uma deixa escapar uma risada maliciosa, e aí não parece que estão tendo conversas de velhinhas. E foi então que pensei: o que seriam conversas de velhinhas? Sobre os netos? Sobre tricô? Sobre a novela?

Não, não, aquelas velhinhas passam a impressão de estar falando sobre coisas mais… interessantes. Não que falar sobre netos não seja interessante, eu aqui adoro crianças, mas o jeito delas, a forma como riem… não, definitivamente, não é sobre netos que falam. Assuntos escusos. É o que parece. Seus assuntos são escusos. O que lhes embala as manhãs ensolaradas de Copacabana é o pecado de outrora. Porque você olha para uma senhora em idade provecta, para seu vestido floreado e para seus cabelos encanecidos, e no que você pensa? Que ali vai uma avozinha inocente, que ela naquele mesmo instante está planejando o bolo que fará para os netinhos, que ela se escandalizaria com as loucuras dos jovens nas baladas de hoje.

É isso que você pensa.

Mas olhe bem. Olhe como olhei para as velhinhas de Copacabana. Algumas ainda preservam os traços graciosos da juventude. Imaginei que pelo menos uma delas, sentada de pernas cruzadas no banco de pedra, devia ter sido de uma beleza explosiva por volta dos 20, 30 anos de idade.

Lembrei da crônica imortal de Rubem Braga:

“Ai de ti, Copacabana! Os gentios de teus morros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão!”

Ah, os pecados dos verões dessas cândidas senhoras de Copacabana. Imagino-as vindo pela Constante Ramos dentro de seus biquínis sumários nos anos 60 ou 70, que nos anos 60 ou 70 já havia biquínis sumários. Imagino-as ondulando em direção ao Atlântico, pisando com pezinhos 36 a areia fofa e quente, e os homens, em volta, olhando e comentando. Quantos pecados não terão cometido essas velhinhas nesse tempo? Mais, muito mais, do que as meninas do Facebook. E é disso que elas falam. Dos seus pecados do passado. Por isso sorriem, maliciosas. Elas lembram de coisas. Elas sabem das coisas.

O Uruguai merecia vencer

Às vezes um time propõe um tipo de jogo e o adversário é obrigado a se enquadrar. Obrigado pela imposição do inimigo, digo. Não há alternativa. O problema foi criado e é preciso resolvê-lo.
O Uruguai impôs um tipo de enfrentamento ao Brasil, na quarta. Foi o Uruguai quem compreendeu o jogo e determinou como as coisas aconteceriam naquela tarde. O Brasil limitou-se a tentar se livrar daquela situação incômoda.

O Uruguai fez tudo certo, salvo pequenas falhas individuais, como o pênalti perdido. O Brasil, não. O Brasil estava sufocado. Mas venceu. Por quê? Porque o apoio da torcida fez com que os jogadores não desistissem, sim. E, principalmente, porque tem um craque e um centroavante. Tem craque e centroavante está sempre na iminência da vitória.

* Texto publicado na Zero Hora desta sexta-feira, 28/06/2013

Sala de Redação

27 de junho de 2013 1

Ouça o Sala de Redação desta quinta-feira.

Renato em Ipanema

27 de junho de 2013 20

Assisti ao jogo do Brasil com o Renato Portaluppi. Marcamos de nos encontrar em um barzinho de Ipanema. O nome do barzinho era, exatamente, Barzin.

Os cariocas têm senso de humor para dar nomes aos seus estabelecimentos comerciais. Há um sebo na Barata Ribeiro que se chama “Baratos da Barata”. Em Ipanema, um bar leva o nome de “Barthodomeu” e, em Humaitá, um restaurante de tapas se chama “Entretapas”. A gente se sente bem num lugar assim.

Já nós gaúchos gostamos de nomes com cá e ipsilone. Qualquer trailer de xis e cachorro-quente corre o risco de se chamar Kasa do Kão, que desgraça. Aliás, trailer e xis só existem abaixo do Rio Mampituba, uma evidente vantagem calórica do Rio Grande amado.

Mas o meu encontro com o Renato.

Ele chegou do futevôlei com dois amigos, os três de bermudas, chinelos e sorrisos de praia.  A vida do Renato, hoje, é essa. Futevôlei e chope. Fiz alguma observação a respeito dessa rotina, e ele logo se justificou:

— É que, quando trabalho, trabalho muito. ­É concentração, é viagem, é trabalho o tempo todo…

Tomei um gole de chope para tirar da cabeça todo aquele trabalho cansativo.

De repente, um carro encostou no meio-fio e o Renato correu para falar com o motorista. Ficou debruçado na janela por alguns minutos e voltou de lá com uma reluzente caixa de madeira cheia de charutos dispostos lado a lado como sardinhas.

— Quer um charuto? — perguntou. — Só que tem de fumar ali fora — e apontou para a calçada a meio metro de seu cotovelo.

Declinei. A última vez que fumei um charuto foi na Praia Brava, com o Juninho e o Degô, e nós tínhamos nas mãos copos de uísque, e brindávamos à liberdade.

Lembrei dos meus amigos, pedi um chope e brindei à liberdade.

Cinco minutos se passaram e um negão que poderia ser zagueiro do Vasco apoiou um braço do tamanho da minha coxa no parapeito que separava a nossa mesa da rua, onde se podia fumar. Renato fez menção de lhe dar um cotovelaço, ele recuou, sorrindo.

— Você é grande, mas não é dois — brincou o Renato. — Cadê aquele que está me devendo?

— Já pago, já pago — riu o outro.

Ficaram se provocando mais um pouco, até que o negão se foi, gingando.

Engoli mais um chope em homenagem aos credores bem humorados.

Mais cinco minutos e um ônibus parou sob o semáforo. O Renato apontou:

— Aquele motorista ali late igualzinho a um cachorro.

E, como se o ouvisse, o motorista olhou para o outro lado da calçada e começou a emitir um latido grave, provavelmente de um pastor alemão adulto. Todos os que estavam na calçada riram. O motorista riu também e logo tocou em frente com seu ônibus, latindo, feliz.

Ri com eles, e então chegaram mais chopes. Renato bebeu um gole e começou a se gabar de um campeonato de futevôlei vencido por ele na semana retrasada. Ficaram falando do futevôlei, ele e os dois amigos, por bastante tempo. Nada de manifestações, de quebra-quebra, de corrupção, de PEC 37. Futevôlei, mulheres douradas, chopes gelados. Quem sabe mais um chope gelado? E eu pensei, sem a intenção da rima, que é sempre amena a vida em Ipanema.

O MELHOR DO MUNDO

Vivemos num tempo privilegiado. Porque estamos assistindo à seleção da Espanha jogar. É uma das maiores seleções de todos os tempos, que pratica um futebol revolucionário, nunca d’antes praticado.

Que seleções poderiam se ombrear à da Espanha dos últimos quatro anos?

·       A da Hungria de 1954, baseada no übertime do Honved. Essa Hungria fazia aquecimento antes de entrar em campo, algo inédito na época. Em 10 minutos, já vencia qualquer adversário por 2 a 0.  Mas foi batida pela Alemanha na final. Dizem que os alemães valeram-se do chamado “doping natural”: tiraram sangue dos braços dos jogadores e injetaram nos músculos. A seleção deles virou a Divisão Panzer de botinas. É a tal auto-hemoterapia, que tanta polêmica faz hoje.

·       A do Brasil de 1958, bicampeã em 62. Esse time era especial porque tinha Pelé e Garrincha. Era como ter Michelângelo e Leonardo no mesmo ateliê. Juntos, eles nunca perderam um jogo – e jogaram 50!

·       A do Brasil de 70. Não havia mais Garrincha, mas havia Rivellino, Gérson, Jairzinho, Tostão e Clodoaldo. Era como a reunião de Renoir, Degas, Manet, Monet e Pissarro na mesma vernissage.

·       A da Holanda de 74, tão revolucionária quanto a Hungria, e também baseada num übertime, o Ajax, de Amsterdan. Como a Hungria, foi submetida na final pelos pragmáticos alemães, esses destruidores de sonhos.

E é só. Quer dizer: assista à Espanha bailar com a bola hoje à tarde. Você terá o que contar para os seus netinhos.

* Texto publicado na Zero Hora desta quinta-feira, 27/06/2013.

Sala de Redação

26 de junho de 2013 4

Ouça o Sala de Redação desta quarta-feira.

O perfeito cidadão sul-americano

26 de junho de 2013 13

Uma vez um uruguaio me disse:

“O sul-americano ideal é aquele que tem a humildade do argentino, a honestidade do paraguaio, a classe do brasileiro e a alegria do uruguaio”.

Que peça de ironia. E que bela autocrítica. Os uruguaios têm de fato encaram o mundo com certa melancolia. Sei por que.

Por causa do conhecimento.

Os uruguaios, em geral, são educados. São lidos. Qualquer uruguaio.

Um taxista uruguaio entabulará uma conversa sóbria com você, nada de arroubos atrás do volante, nada de irritação com corridas curtas. E os garçons uruguaios são os melhores do mundo. Um garçom uruguaio comporta-se como um homem tem de se comportar com uma mulher: com autoridade, sem ser autoritário. O garçom uruguaio é um especialista orgulhoso da sua profissão. Ele está lá para servi-lo, sim, mas não com subserviência. Ele conhece seu ofício e será sempre simpático, objetivo, discreto. Profissional.

Eu, se fosse dono de restaurante, importaria garçons uruguaios.

Os uruguaios, pois, têm conhecimento, e o conhecimento faz sofrer. É a falta de conhecimento que leva à arrogância e à presunção com que são identificados alguns argentinos, mais de todos os portenhos. O argentino presunçoso apenas desconhece quem realmente é. Se soubesse quem é, não seria presunçoso; seria triste como um uruguaio.

A tristeza dos uruguaios os torna simpáticos para mim. Vou ao Uruguai, rodo por aquelas estradas desertas de filme americano, trincho um entrecot macio numa parrilla, ouço uma balada doce de Jorge Drexler, vejo os uruguaios caminhando lentamente com suas cuias na mão, com suas garrafas térmicas debaixo do braço, e penso: sabem que o mundo é injusto, são tristes.

O grande Morena

O futebol uruguaio leva essa tristeza digna do povo para dentro de campo. Lembro que vinha jogar no Rio Grande do Sul, sobretudo contra o Grêmio, a Mutual, a seleção do sindicato dos jogadores do Uruguai.

Os jogadores uruguaios se associavam em sindicatos e formavam seleções e saíam a excursionar pelo Exterior, imagine. E não era qualquer seleção. Era uma grande seleção. Na Mutual jogava um centroavante canhoto chamado Fernando Morena. Um dos melhores centroavantes que vi jogar. Dizem os uruguaios que marcou 650 gols. Era metade de um Pelé, esse Fernando Morena, o que é muito, é mais do que quase todos são.

Fernando Morena jogava contra o Grêmio, e sempre fazia gols. Naquele tempo, o Uruguai, além dele, tinha o pai do Forlán do Inter, tinha Pedro Rocha, que jogava no São Paulo, tinha Atílio Genaro Ancheta, zagueirão do Grêmio. Como é que o Uruguai não era campeão de tudo, naquela época?

Eu, no tempo da Mutual e de Fernando Morena, eu, o jogador que mais admirava era Roberto Rivellino. Num jogo contra o Uruguai, no meio dos anos 70, Rivellino mostrou toda a sua categoria incomparável. O Brasil venceu por 2 a 1 e Rivellino teve uma atuação individual soberba, algo que poucas vezes vi antes ou depois. Se você não acredita, vá ao Youtube. O jogo está lá, todinho, quase inacreditável.

Rivellino humilhou os uruguaios. Humilhou. Mas, como já disse, os uruguaios são tristes, porém dignos. Não aceitaram aquele desacato, aquela acachapante superioridade técnica. No fim da partida, furioso, o lateral-direito Ramirez, um negro retaco e sólido como um rinoceronte, arremeteu na direção de Rivellino, com óbvias intenções hostis. Rivellino fez o que eu faria: correu. Muitos o criticaram. Eu, não. Rivellino foi sensato. Há limites para acicatar o brio de um uruguaio.

Simpatizo com os uruguaios, portanto. Torço por eles, quando não jogam contra o Brasil. Mas hoje, não. Hoje haverão de perder para que o Brasil passe pelo teste da Espanha, no fim de semana. Perderão, meus amigos uruguaios. E ficarão mais tristes. Mas serão sempre dignos.

* Texto publicado na Zero Hora desta quarta-feira, 26/06/2013.

Sala de Redação

25 de junho de 2013 3

Ouça o Sala de Redação desta terça-feira.

Ele gosta de amarelo

25 de junho de 2013 7

João Francisco é um amiguinho do meu filho Bernardo. Os dois têm cinco anos de idade. Outro dia, João Francisco foi apresentá-lo a alguns meninos que ele não conhecia e o fez assim:

— Este é o Bernardo Coimbra. Ele gosta de amarelo.

Achei muito inteligente essa forma de apresentação. João Francisco disse o essencial a respeito do Bernardo. Ele gosta de amarelo. A partir dessa informação, os outros meninos já ficaram sabendo que, entre todas as flores, o Bernardo prefere o girassol; que, quando forem brincar, o Bernardo quererá o carro amarelo, o lápis amarelo, a bola amarela; que o Bernardo provavelmente será um torcedor carinhoso da Seleção Brasileira.

Ele gosta de amarelo. Importante saber.

Os cariocas também gostam de amarelo. Torcem pela Seleção Brasileira com devoção que gaúcho nenhum tem. Nos dias de jogos, amontoam-se de pé em frente às TVs dos bares, assistem às partidas com angustiada atenção e, quando o Brasil marca um gol, pulam, gritam, fazem buzinaço.

Eu, se for contar para um estrangeiro que pela primeira vez chega ao Rio como são os cariocas, direi com convicção:

— Estes são os cariocas. Eles gostam de amarelo.

Seria interessante se apresentássemos as pessoas assim, revelando-lhes o essencial já no primeiro contato. Nada de profissão, posição social ou filiação. Só o mais importante.

— Este é o Eduardo. Não fala muito, mas é bondoso como uma irmãzinha. Ele gosta de cerveja.

— Este é o Juninho. Você não vai encontrar alguém mais atencioso e prestativo. Ele gosta de cerveja.

— Este é o Ivan. Tem o hábito de ir embora dos bares mais cedo. É um amigo fiel. Ele gosta de cerveja.

— Este é o Rodrigo. Você sempre pode contar com ele. É uma pessoa sensata e inteligente. Ele gosta de cerveja.

— Este é o Amilton. Um cara que se preocupa com os amigos. Ele gosta de cerveja.

— Este é o Jorge. Está sempre de bem com a vida. Ele gosta de cerveja.

— Estes, nesta mesa, são o Cabeça, o Admar e o André. Diferentes uns dos outros, mas todos são generosos e bons amigos. E todos gostam de cerveja.

— Aquele lá, de mau humor, eu mal conheço. Ele não gosta de cerveja.

SARRA PRA DIREITA

O táxi vinha rodando devagar pela Avenida Atlântica, como um animal nos últimos dias de vida, alcançando o limite de suas forças. Era um táxi velho. Quase propus ao Gabardo que esperássemos por outro carro, mas aí o táxi já parou e nós já entramos. O motorista também era velho. Acho que tinha bigode. Seguimos rodando lentamente, todos os outros carros passavam por nós.

Na altura da Vieira Souto, no esplendor de Ipanema, o carro parou sob um semáforo e, então, sem nenhum aviso prévio, o motorista sacou um CD de um envelope plástico e anunciou num grito de júbilo:

— É o funk! Vou botar um funk!

Não nos perguntava se queríamos funk, tratava-se de uma comemoração. Ele simplesmente colocou o CD no som do painel e aumentou o volume.

— Eu sou do funk! — gritava. — Eu sou da guerra! Vamo expulsar essa presidente! Vamo expulsar!

E começou a cantar, acompanhando a letra:

— Sarra pra direita! Sarra pra esquerda! Sarra pra direita! Sarra pra esquerda!

Eu e o Gabardo nos olhamos, surpresos. Entenderia se o homem gostasse de bolero, mas ele e o carro não combinavam com funk.

— As garotinhas adoram! _ vibrava. _ Adoram!  Sarra pra direita! Sarra pra esquerda!

Aproximei-me do encosto do banco dele e perguntei:

— O que é sarra?

— Sarra? Sarra??? Não sabe o que é sarra??? Sarra é se esfregar nelas! É passar a mão nelas! Sarra pra direita! Sarra pra esquerda! Sarra pra direita! Sarra pra esquerda!

Fiquei com o funk retumbando na cabeça o resto do fim de semana.

Sala de Redação

24 de junho de 2013 2

Ouça o Sala de Redação desta segunda-feira.

Ruas do Rio

24 de junho de 2013 12

Quem terá sido o senhor Serzedelo Correia? Alguém importante, decerto que sim, pois ele é nome de rua aqui em Copacabana. Serzedelo Correia. Que belo nome. Imponente. Sisudo. Alguém que se chama Serzedelo já nasce com 70 anos e bigode. Garanto que o Serzedelo Correia de Copacabana foi comendador. Ou conselheiro. Gostaria de ser um conselheiro. É uma bonita profissão. Porque um conselheiro, obviamente, dá conselhos. As pessoas me procurariam aflitas com seus problemas:

— Conselheiro Coimbra, o senhor acha que devo mudar de emprego?

Eu seguraria a ponta do queixo e:

— Veja bem, meu caro…

Sempre começaria meus conselhos com veja bem, meu caro.

Serzedelo Correia. Por que não pensei neste nome ao batizar meu filho? Um Serzedelinho correndo pela casa… Não… Serzedelos não correm; caminham empertigados.

Talvez eu devesse ter colocado no meu filho o nome do meu pai, Gaudêncio. Um nome bem alegretense, que meu pai era do Alegrete. Nome gaudério, nome de bombacha. Mas ninguém concordou comigo, ninguém, nem familiares, nem amigos, nada. Insensíveis. Não sabem coisa alguma das raízes do Rio Grande.

Há outro interessante nome de rua no Rio: Cupertino Durão. Provavelmente Cupertino foi major ou tenente-coronel. Um Cupertino Durão nasce para comandar, sem dúvidas. Dia desses, passei pela Cupertino Durão e por pouco não fiz continência para a placa da esquina.

Os cariocas são bons para dar nomes às suas ruas. Existem Alamedas das Marrecas, dos Pardais, do Pelicanos, das Rolinhas e dos Rouxinóis, existem ruas dos Ingás, dos Curiós e dos Colibris. Existe também uma avenida Churchill, homenagem justíssima a esse homem que salvou o Ocidente, e ainda a rua Rainha Elisabeth. Extremamente sensível, da parte dos cariocas, reverenciar uma soberana estrangeira, ainda mais uma rainha tão simpática quanto Elisabeth.

Agora, a rua de nome mais sonoro sem dúvida é a Farme de Amoedo. Os cariocas dizem Fahme di Amoedum. De onde é que o pai do Farme, o velho Amoedo, tirou esse nome tão original? De qualquer forma, produz um som bastante harmônico. Farme de Amoedo, Farme de Amoedo. É bom de falar. Disse isso para um carioca e ele me contou que a Farme de Amoedo é a rua gay da cidade. Fiquei admirado. O Rio tem uma rua gay! Que cidade organizada. Depois, pensei em Farme, o homem que deu nome à rua. Como se sentiria se soubesse que os pósteros o relacionam com o mundo gay e que na certa ele será relacionado com os gays pela eternidade afora? Farme talvez tenha respirado e andado pelas ruas de Ipanema no começo do século passado ou até no retrasado. As pessoas eram mais preconceituosas, os homossexuais eram discriminados como se vivessem num mundo de Felicianos e Bolsonaros. Não, acho que Farme não gostaria da saber do destino da sua rua, não mesmo.

Eu, se virasse nome de rua, não me aborreceria se ela fosse habitat dos homossexuais. Só não queria ser uma avenida ruidosa, tomada de automóveis. Preferia me transformar em uma rua calma, com árvores na calçada e uma pracinha florida onde as crianças corressem às gargalhadas e meninos, como o meu pequeno, pedalassem bicicletas com rodinhas na parte de trás. Queria que alguns bancos de pedra fossem plantados na minha rua e que os casais se refugiassem neles para namorar no fim de tarde e que os velhos jogassem damas sobre eles no começo da manhã. E, então, alguém que nela pisasse pela primeira vez olharia para a placa de identificação e acharia muito respeitável o nome lá escrito em letras brancas: Conselheiro Coimbra.

* Texto publicado na Zero Hora desta segunda-feira, 24/06.