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Túnel do Tempo: Horror na Cidade Grande - 3º capítulo

25 de julho de 2013 2

A mão.


Era isso!

A mão!

Olhei para a mão branca pousada sobre a minha coxa e estremeci. Era uma mão grande, nodosa, forte… uma mão de homem! Um arrepio escalou-me a coluna, do cóccix até a nuca. Um travesti! Minha cabeça começou a rodar. Olhei para ela, para o rosto. O nariz… Um nariz grande, adunco, de narinas dilatadas. Um nariz de homem!Tratava-se de um homem, sem a menor dúvida! Ou, antes: podia haver dúvida, sim. Ela… ele… ela era bonita… bonito. Traços delicados. Um corpo lindo. E aquele cabelo… Seria peruca? Não vou negar que fosse atraente. Era. Mas, puxa, continuava sendo um homem! Alguém pode dizer que sou preconceituoso, alguém pode achar que deveria simplesmente me entregar ao prazer e esquecer aquele detalhe, mas, por favor! Para mim não é detalhe. Não estava preparado para aquilo. Não, não… Até pegar uma prostituta, para mim, constituía uma aventura. Que dirá um travesti! Imaginei-o nu, com o troço pendurado no meio das pernas, e eu ao lado, na cama. Cruzcredo! Não… Não podia fazer aquilo. Não podia!

Mal acreditava que aquela situação estivesse se passando comigo. Meu Deus, o que devia fazer??? Rodava, um tanto perdido, desnorteado, meio tonto, angustiado, rodava por uma rua escura, deserta, nem sequer imagino que rua era aquela. Alguma via vicinal, paralela à Farrapos, acho, ou perpendicular, não sei, não sabia de nada àquela altura.

Parei o carro. Suava, já.

— O que foi? — ela… ele quis saber. — Quer aqui mesmo? Quer?

E sorriu um sorriso falso, e levou a mão à minha bragueta, tentando manuseá-la. Arrepiei-me. Senti nojo. Tirei a mão dela… dele de mim. Ao tocar naquela mão, mais asco senti. Realmente, não estava pronto para aquele tipo de aventuras. Não sou preconceituoso, juro, mas, oh Deus, simplesmente não estava preparado.

— Não… — limpei o suor da testa com as costas da mão. — Olha, me desculpa, mas mudei de idéia…

— Como assim, meu amor?

— Desculpa, mas não quero mais.

— Rá! — ela riu um riso de desdém. — Não é bem assim, meu amor. Não é assim que funciona. Nós temos um trato. Eu sou profissional.

O tom de voz dela tornara-se preocupantemente agressivo.

— Nós não fizemos nada. Olha, desculpa, foi um engano. Desce do carro, por favor.

— Não é assim! — ele gritou, assustando-me. Arregalei os olhos, jogando o corpo para o encosto do banco.

— O-o-o que é isso? — gaguejei.

— É isso mesmo! — ele gritou ainda mais alto. — Tu me convidou pra entrar no teu carro! Eu entrei! Agora vai ter que pagar!

— Eu… Nós não fizemos nada…

— Vai ter que pagar!!!

Olhei para os lados. Não havia ninguém à vista, mas o escândalo logo iria chamar a atenção. Cristo, iam me reconhecer!Eu com um travesti no carro!

— Tudo bem, tudo bem — concordei, sentindo as mãos trêmulas. — Vou te pagar.

— Cinqüenta reais!

— Tudo bem, eu pago, não precisa gritar!

— É bom mesmo, seu caipira! Cinqüenta reais! — ele havia se transformado. Tornara-se agressivo.

— Tudo bem, tudo bem…

Virei-me de costas para ele, para tirar o dinheiro da guaiaca. Enfiei a mão por baixo da camisa, puxei o cinto onde estava o dinheiro, saquei algumas notas. Entre elas devia haver alguma de cinqüenta reais.

Foi um erro.

Um grande erro. Que só percebi ter cometido tarde demais. Era evidente que o meu gesto de tirar dinheiro da região da cintura iria despertar a cobiça dele. Estava com um maço de notas na mão, tentando enxergar no escuro e divisar uma nota de cinqüenta, quando concluí que seria assaltado ali mesmo, naquele momento. A sensação de que corria perigo era muito forte, muito intensa, muito real para não ser verdadeira.

E era.

Era verdadeira.

Senti uma ponta de metal espetando-me o pescoço e ouvi a ordem da voz agora tornada roufenha, agressiva e imperativa:

— Passa a grana, desgraçado!!! Passa a grana!!!


O que acontece depois? Saiba no quarto capítulo de Horror na Cidade Grande.

Comentários (2)

  • Ivair Angonio Gomes diz: 25 de julho de 2013

    Caro David, muito bacana este blog. Ontem um amigo me indicou, quando falei que iria lançar um livro no próximo dia 22, Morte em Dezembro. E como ele falou muito bem deste blog, principalmente de sua pessoa, seus escritos, passei aqui para dar uma conferida…
    Parabéns mesmo. Gostei do que li.

    Foi uma dica valiosa.

  • Luciano diz: 25 de julho de 2013

    Seria muita inocência andar com uma guaiaca cheia de grana na Farrapos e adjacências, pior ainda colocar um travesti “por engano” para dentro do carro. Pode ficar pior? Pode. Sacar a grana da guaiaca na frente do traveco.
    Francamente, beira o irreal.

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