Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts de julho 2013

Sala de Redação

31 de julho de 2013 3

Ouça o Sala de Redação desta quarta-feira:

Túnel do Tempo: Horror na Cidade Grande - 7º capítulo

31 de julho de 2013 2

— Vem — repetiu ela, parada no meio da sala.

Continuei aparafusado na soleira da porta. Olhei para dentro. Um apartamento não muito grande, de um quarto, talvez. Estava escuro, não conseguia divisar a decoração. Esperei que meus olhos se acostumassem à penumbra.

Hesitei.

A atitude dela era muito estranha. O que podia querer comigo? Sexo? Não era possível… Ela mal me conhecia. Ou será que as coisas estavam assim em Porto Alegre?Tratava-se de uma cidade perigosa, uma cidade do pecado, sem dúvida.
— Vem — disse ela mais uma vez.

E agora? Não podia continuar parado ali. Ou escolhia a fuga para a segurança ou cedia à tentação da curiosidade. A fuga definitivamente não me agradava. Nenhuma fuga me agradava. Sou de enfrentar as coisas. Foi o que meu pai me ensinou: a enfrentar o medo, a enfrentar as dificuldades. Além do mais, ela havia me ajudado. Seria muito mal-agradecido, se saísse correndo sem nem dar explicação. Seria um covarde. Um pulha.

Entrei.
Ela sorriu.

— Gostei de você — disse. — Por isso avisei do golpe do bilhete premiado. Aqueles dois vigaristas passam o dia aplicando o golpe no Centro.
— Ah, obrigado… Eu não sabia, eu sou do Interior, eu…
— De onde você é?
— Cachoeira.
— Cachoeirinha?
— Não. Cachoeira do Sul.
— Ah. Vem comigo — ela tomou a minha mão. — Vou mostrar o resto da casa.

Não havia muito o que mostrar. A sala tinha um sofá e uma poltrona, uma TV, uma mesinha de centro, nada mais. A cozinha era à esquerda, mas não entramos lá. Ela me levou direto ao quarto. Um quarto de tamanho médio, com uma cama de casal desarrumada e um roupeiro de quatro portas encostado à parede. As janelas eram cobertas por cortinas sebosas. Senti um pouco de nojo daquelas cortinas.
— Aqui é o quarto — ela informou, sorrindo.
— Ah… — eu não sabia o que dizer. Era óbvio que ali era o quarto.

Ela continuou me conduzindo pela mão. Guiou-me até a cama. Sentou-se e me puxou.
— Senta — mandou.

Obedeci.

Mal sentei, ela pulou sobre mim. Enlaçou meu pescoço com seus braços, grudou sua boca na minha e enfiou a língua entre meus dentes. Assustei-me um pouco com o ímpeto dela, mas confesso que o beijo me excitou. Era a primeira vez que beijava uma mulher que não a minha em oito anos. Oito anos! Tinha 17, quando encostei em outra mulher. Uma vida, meu Deus!

O gosto dela era diferente. Ela tinha uma boca macia e quente e mãos que sabiam o que faziam. Começou a me acariciar. Enfiou a mão sob a minha camisa, massageou minhas costas. Gemia. Entreguei-me, naquele momento. Não pensei em mais nada. Deixei que agisse.

E ela agiu.

Enquanto me beijava, tirou a blusa pela cabeça. Seus dois grandes seios saltaram para a liberdade. Olhei para eles e senti o peito se me apertar de desejo e angústia, tudo inexplicavelmente ao mesmo tempo.
— Meu Deus… — balbuciei. — Como são… bonitos.

Em resposta, ela apanhou minha cabeça com as duas mãos, puxou-a para baixo e afundou-a entre seus seios. Fiquei ali, sentindo o cheiro do seu perfume, experimentando a textura da sua pele com a minha língua, apalpando seus mamilos com minhas mãos trêmulas. Ela gemeu mais alto. Sua mão desceu até as minhas calças, tocou-me com fúria, explorou minha bragueta e abriu o zíper. Enfiou a mão por ali e passou a me manusear.
— Oh… — sussurrei. — Oh… Oh…

Aquilo estava bom. Meu Deus, como estava bom! Se fosse em frente, consumaria o ato. Sei que consumaria. Não havia volta, se não parasse ali. Devia parar ali? Devia?

Descubra se Roger parou ou não no próximo eletrizante capítulo de… Horror na Cidade Grande!!!

Inter valoriza o Gre-Nal, mas talvez tenha feito mau negócio

30 de julho de 2013 41

O fato de Damião e Índio terem sido poupados e de D’Alessandro ter forçado o cartão amarelo na partida contra o São Paulo mostra como o Inter está valorizando o Gre-Nal.
De fato, o Gre-Nal sempre é importante, qualquer Gre-Nal, em qualquer tempo, mas, pela lógica do Campeonato Brasileiro, o Inter cometeu um erro ao desfalcar o time para enfrentar o Náutico.
Pelo seguinte: seria mais fácil ganhar os três pontos do Náutico no Recife do que os três do Grêmio na Arena. Pelo menos em tese, é claro, a realidade pode ser bem diferente.
Logo, o ideal seria jogar com o melhor time possível contra o Náutico, porque, afinal, os três pontos de um ou de outro jogo valem a mesma coisa no fim do campeonato.
Com sua decisão, o Inter perdeu por 3 a 0 no Recife e não garantiu vitória no Gre-Nal, porque, em Gre-Nal, a vitória nunca é garantida. Se o Inter empatar domingo, fez mau negócio.

Os dez mais de todos os tempos

30 de julho de 2013 69

A edição de agosto da revista Aventuras na História fez uma pesquisa entre leitores e com historiadores brasileiros e estrangeiros a fim de apurar quem foram as 10 pessoas que mais mudaram o mundo. Ou seja: as pessoas mais influentes da história humana. O resultado foi o seguinte:

Albert Einstein

Jesus Cristo

Adolf Hitler

Karl Marx

Sigmund Freud

Vladimir Lenin

Abraham Lincoln

Mao Tsé-Tung

Josef Stalin

Charles Darwin

Eu, que sou um entusiasta de listas, me pus a especular. Claro que listas são exercícios muito pessoais. Prova é a relação que cada historiador apresentou para a revista. É espantoso como questões íntimas de cada um influenciam nas escolhas, levando-os até a absurdos. Jon Lee Anderson, que é norte-americano, colocou entre os mais influentes Abraham Lincoln, George Bush, Harry Truman e Teddy Roosevelt, isto é, quatro ex-presidentes dos Estados Unidos! Não satisfeito, listou também o Aiatolá Khomeini e Fidel Castro, inimigos diretos dos americanos. Quer dizer: para o americano Lee Anderson, o que interessa é o que acontece em seu país.

Já Kenneth Maxwell, britânico que dirige o Centro de Estudos Brasileiros de Harvard, optou por Andrada e Silva, ele mesmo, um dos irmãos Andrada que deram nome à Rua da Praia e que só foram relevantes para um naco da história brasileira, que é completamente irrelevante para qualquer naco da história mundial.

Outras escolhas que ressumam às preferências e admirações pessoais dos jurados: Laurentino Gomes, que escreveu um livro sobre Dom João VI, citou Dom João VI; o historiador Francisco Cabral Alambert Junior citou o historiador Eric Hobsbawn; e o antropólogo Pedro Paulo Funari citou Gilberto Freyre. Imagine Andrada e Silva, Gilberto Freyre, Dom João VI e Hobsbawn sendo considerados entre os 10 homens mais influentes da história do planeta. Nem as mães deles achariam isso.

Mas, tudo bem, como disse, listas são visceralmente pessoais. Fiquei elaborando minha própria lista das 10 pessoas que mudaram o mundo e, ao mesmo tempo, já que estamos em semana de Gre-Nal, pensei em me arriscar a levantar quais foram os 10 jogos mais espetaculares da Dupla. Não os mais importantes, nem os melhores, mas os mais espetaculares, os inesquecíveis, jogos que eu vi e que me encantaram. Escolhi cinco de cada um.

Do Grêmio:

1.     A Batalha dos Aflitos, claro. Nunca aconteceu coisa igual no futebol, em parte alguma.

2.     Um conjunto de dois jogos: Grêmio 5 x 0 Palmeiras e Palmeiras 5 x 1 Grêmio em 1995.

3.     Grêmio 2 x 1 Palmeiras em 1996, jogo em que Dacildo Mourão anulou o terceiro gol do Grêmio, marcado por Jardel.

4.     O Gre-Nal do Zequinha, 3 a 1, em 1975, no Beira-Rio.

5.     Estudiantes 3 x 3 Grêmio, em 1983.


Do Inter:

1.     Cruzeiro 5 x 4 Inter, um dos maiores jogos que já vi.

2.     O Gre-Nal dos Cinco a Dois, em 1997.

3.     O jogo do Mazembe. É duro, mas esse é um jogo único.

4.     Outro conjunto: Inter batendo a Supermáquina do Fluminense de Rivellino em 1975, surpreendendo todo o Brasil, e logo depois fazendo 1 a 0 no Cruzeiro, no inverossímil duelo de Manga com Nelinho.

5.     Estudiantes 2 x 1 Inter, em 2010, o jogo que valeu o bi da Libertadores.


Pronto, pode me xingar e apresentar a sua lista.

Quanto às pessoas mais influentes do mundo em todos os tempos, as minhas são as seguintes, sem ordem de preferência ou importância:

Jesus

Freud

Marx

Hitler

Mao

Maomé

Moisés

O imperador Augusto

Charles Darwin

Buda


Minha lista é muito melhor do que a dos historiadores!

Sala de Redação

29 de julho de 2013 10

Ouça o Sala de Redação desta segunda-feira:

Túnel do Tempo: Horror na Cidade Grande - 6º capítulo

29 de julho de 2013 1

Era morena. Cerca de 1m65cm de altura. Bonita, embora lhe rondasse certo ar de vulgaridade, algo fora de lugar, sei lá… Vestia um jeans justíssimo e uma blusa decotada. Muito decotada. Teria posto silicone? Creio que sim. As mulheres de Porto Alegre aderiram ao silicone, é o que se diz lá em Cachoeira.


Estava parada às costas dos homens que falavam comigo, a uns dois metros de distância, e fazia-me gestos com as mãos. A princípio, achei que não fosse para mim. Depois, passei a observá-la disfarçadamente. Enfim, percebi que era comigo mesmo. Queria dizer-me alguma coisa. Fazia sinal negativo com o indicador, movia os lábios formando palavras que eu não compreendia, tudo indicava que se tratava de algo grave.

Quando o velhinho virou-se a fim de descobrir para o que eu olhava, a mulher parou de gesticular, postou-se de costas, dissimulou. Decerto era sobre aqueles dois estranhos que queria falar. Talvez dar-me um aviso… Enquanto isso, o velhinho continuava tagarelando.
— O senhor vai lá, saca o dinheiro e eu lhe dou uma recompensa — propôs.
— Mas como é que o senhor sabe que ele não vai fugir com o seu dinheiro? — perguntou o homem que chegara depois.

Antes que o velhinho respondesse, a mulher virou-se outra vez para mim, abriu bem a boca, desenhou lentamente as palavras com os lábios e então consegui ler em seu rosto a palavra que ela sussurrava:
— É… gol…pe!

Golpe? Um golpe! Ela estava advertindo que os homens pretendiam aplicar-me um golpe! Estremeci. E, naquele exato instante, lembrei que já havia lido notícias a respeito. O golpe do bilhete, ou coisa que o valha. Uma bola de nervosismo trancou-me a garganta. E agora? O que devia fazer? Quem sabe entregá-los para o brigadiano parado ali adiante. Mas como eles tiveram coragem de tentar aplicar um golpe tão perto de um brigadiano? Seis, sete metros de distância, quando muito… Será que o soldado estava mancomunado com eles? Só podia! E eu, idiota, prestes a entregar-me a ele! Que erro!

— Ele deixa uma importância com o senhor como garantia — dizia o estranho para o velhinho.
— Ah, essa é uma boa idéia — respondeu o velhinho. — O senhor topa?

Queriam o meu dinheiro! Era isso que eles queriam! Será que sabiam da guaiaca? Será que o volume aparecia sob a camisa? Jesus! Precisava sair dali! E tinha de ser já! Lancei um olhar de súplica para a mulher que me avisara do golpe. Um pedido de socorro mudo, porém desesperado o bastante para que ela o entendesse.

Ela entendeu. Fez com a mão um sinal para que a seguisse. Não me permiti a menor hesitação.
— Com licença, mas vou ter que ir — falei para o velhinho, afastando-o com a mão.

A mulher já andava Rua da Praia abaixo. Fui atrás.
— Ei! — gritou o velhinho. — O senhor não ia me ajudar?
— Ei! – gritou o outro homem. — Ei! Ei!

Não respondi. Tive vontade de olhar para trás, mas não olhei, eu era Sara fugindo de Sodoma e Gomorra, eu podia me transformar em uma estátua de sal, se olhasse para trás.
— Ei! — eles gritavam. — Vem cá! Ei, vem cá!

Não respondi. Não me virei. Não vacilei. Saí caminhando rápido, seguindo os passos da minha salvadora. Até que enfim encontrei alguém decente nessa cidade!

Ela rebolava pela Rua da Praia, esquivando-se dos transeuntes, volta e meia olhando por cima do ombro para conferir se a seguia. Ao me ver, enviava-me um sorriso de estímulo. Eu sorria de volta. Ela caminhava rapidamente, eu tentava alcançá-la, pretendia agradecer-lhe pela ajuda, tencionava pedir detalhes a respeito do golpe do qual ela me livrou.

Entrou por uma rua lateral. Fui atrás. No caminho, pensei que ela talvez pudesse me dizer o que fazer no caso do travesti morto. Uma mulher como aquela, experiente na vida da cidade grande, certamente saberia como agir. Ela continuou andando até um velho edifício. Parou na porta de entrada e ficou me esperando. Cheguei à entrada do prédio, esbaforido.
— Olá — cumprimentei-a. — Eu queria agrad…
— Vem — interrompeu-me ela, enfiando-se no corredor escuro do edifício.

Obedeci. O lugar era sombrio, sujo. Um mau pressentimento assaltou-me a alma, apertou-me o peito e me fez ter vontade de sair correndo dali. Mas não corri. Não podia decepcionar minha salvadora. Fui em frente. Paramos diante da porta de um velho elevador.
— Moça, eu…
— Pssss! — ela levou o indicador à boca, como aqueles quadros de enfermeiras nos hospitais.

Em seguida, abriu a porta do elevador e fez um sinal para que eu entrasse. Entrei. Ela apertou no botão correspondente ao nono andar. O elevador começou a se alçar, fazendo grande ruído. Abri a boca para falar algo, ela repetiu o gesto com o indicador. Quando chegamos ao nono andar, ela desceu e disse outra vez:
— Vem.

E eu fui.

Ela caminhou por outro corredor escuro, até parar em frente à porta encardida de um dos apartamentos. Enfiou a chave na fechadura e a abriu.
—Vem — disse, de novo.

E vacilei. Devia entrar? Devia confiar nela? Ou fugir correndo dali?


O que aconteceu???
Descubra em breve, no próximo capítulo de… Horror na Cidade Grande!

Crônica de Grêmio 2 x 0 Flu

28 de julho de 2013 29

Como há 30 anos.
Hoje, tanto quanto no 28 de julho de 1983, Renato foi o maior responsável pela vitória do Grêmio. Contra o Peñarol, na decisão da Libertadores no velho Olímpico, Renato, acossado por dois marcadores, cruzou uma bola improvável da direita para César mergulhar e fazer o gol da vitória de cabeça. Contra o Fluminense, na novíssima Arena, Renato, agora convertido em treinador, mudou o time no intervalo, e o Grêmio voltou a campo reanimado para fazer 2 a 0.
Sem essa ação no vestiário, o Grêmio não conseguiria vencer. Talvez perdesse. Porque o primeiro tempo foi dominado até com alguma facilidade pelo Fluminense, que tocava a bola de intermediária a intermediária, evoluía quase sem objeção e fazia algumas infiltrações insinuantes, principalmente pelo direito de ataque.
O Grêmio se submetia ao adversário da mesma forma como se submeteu em outro jogo na Arena, diante do Botafogo, duas semanas atrás. E, como duas semanas atrás, o grande problema era a falta de mobilidade dos meio-campistas. Elano e Zé Roberto, embora tenham técnica reconhecida, pareciam perdidos entre os jogadores do Fluminense, deixavam o pobre volante Adriano sozinho no combate aos meias e atacantes inimigos. Na frente, Barcos não acertava um único lance. Quanto tentava a jogada individual, era desarmado; quando tentava o passe, a bola parava no pé de um inimigo. Os laterais, que poderiam ajudar, não avançavam. Sobrava a movimentação de Riveros no meio e, na frente, o empenho solitário de Kléber, que jogava de costas para os zagueiros, recebendo faltas nem sempre marcadas pelo juiz.
Mesmo assim, foi o Grêmio que quase abriu o marcador duas vezes, quando Elano acertou uma falta no pé da trave, aos 12 minutos, e quando Riveros deu um chute de letra, também na trave, aos 37. De resto, a bola ficou com o Fluminense, tanto que os jogadores do Grêmio foram para o vestiário, senão debaixo de vaia, sob murmúrios de insatisfação da torcida.
Então, Renato agiu. Zé Roberto e Riveros recuaram um pouco mais, ajudaram Adriano na marcação e obstruíram a jogada forte que o Fluminense tinha pelo lado esquerdo da defesa gremista. Graças a esse suporte, Alex Telles pôde avançar, e foi ele quem fez uma bela jogada pelo flanco e cruzou na cabeça de Riveros, que abriu o placar aos cinco minutos.
Com a vantagem no marcador, o Grêmio se acantonou na defesa e passou a esperar os contragolpes. O Fluminense bem que tentou repetir o jogo envolvente do primeiro tempo, sem sucesso. Agora, o meio-campo do Grêmio estava mais compactado. O Fluminense simplesmente não criou lances de penetração. O Grêmio, sim. Aos 38 minutos, Zé Roberto driblou dois pelo lado esquerdo e passou com perfeição para Kléber, que entrou na área e desviou do goleiro: 2 a 0.
O único lance perigoso do Fluminense, de Jean, passou quase despercebido pela torcida gremista, porque naquele exato momento o Inter levava um gol no Recife. E aquela tarde, que havia começado com a festa comedida pela conquista de três décadas atrás, terminou alegre na Arena, a nova casa de Renato Portaluppi.

Túnel do Tempo: Horror na Cidade Grande - 5º capítulo

27 de julho de 2013 3

Depois da penosa conversa telefônica com minha mulher, tomei café e saí para a rua. Ainda tinha a guaiaca com o dinheiro enrolada à cintura. Não ia guardar toda aquela importância no hotel, ah, isso é que não. Não confio em hotéis, em cofres de hotéis, em funcionários de hotéis. Além disso, iria à polícia; na polícia estaria seguro, não estaria?


Resolvi deixar a caminhonete no estacionamento do hotel e fui para o Centro de táxi. Como um homem deve proceder para confessar um crime? Não fazia a menor idéia. Sentia-me confuso, a cabeça oca, os olhos ardendo devido à noite indormida. Sentia um paralelepípedo no meio do peito e uma bola de tênis na garganta. Sentia vontade de morrer.

Desembarquei na Praça Dom Feliciano e caminhei até a Rua da Praia. Olhei para o povo que se deslocava de um lado para outro. Iam trabalhar, iam resolver seus problemas. Pequenos problemas, comezinhos, triviais. Como queria ter problemas como aqueles, como queria estar simplesmente me deslocando para o trabalho, pensando na vida sem graça, no chefe autoritário, na colega de minissaia…

Caminhei sem pressa, um tanto desolado, até a esquina da Doutor Flores. Lá havia um brigadiano parado, mãos às costas. Estaquei no outro lado da calçada. Fiquei olhando para ele. Poderia me aproximar dele e simplesmente declarar:
— Matei um homem, ontem.

Ou, melhor:
— Matei um travesti, ontem.

Não, não:
— Matei uma pessoa, ontem.

Em seguida, estenderia os punhos:
— Pode me levar.

Oh, Deus, será que ele me levaria direto ao Presídio Central? Já ouvi horrores sobre o Presídio Central. O que eles fazem com os novatos, as atrocidades… Cristo!, será que não havia mesmo outra saída? E se pedisse para ter uma conversa reservada com ele? Para desabafar… Poderia até pedir conselhos, sei lá. Ele parecia boa gente, talvez compreendesse o meu drama…

Resolvi falar com o brigadiano. Contar o meu problema, explicar tudo direitinho. Havia sido quase um acidente, afinal. Eu não queria matá-lo, só queria me defender. Puxa, o cara estava com um estilete na minha garganta! Eu vi o estilete, depois que atirei o corpo para fora do carro. Vi! O estilete ainda estava comigo, no portfólio do carro, talvez servisse de prova a meu favor.

Sim, falaria com ele. Pelo menos tratava-se de uma autoridade, de alguém que saberia o que fazer.

Respirei fundo. Quando ia dar o primeiro passo em sua direção, senti uma batidinha no ombro. Virei-me. Era um senhor baixinho, de uns 60 anos de idade, cabelos brancos, óculos, vestido de terno preto e gravata vermelha.
— O senhor me desculpe — pediu ele, muito educado. — Desculpe — repetiu. — Eu não queria incomodá-lo, mas é que estou com um problema…

O velhinho passava a impressão de estar realmente aflito. Senti pena dele. Tenho pena dos velhinhos.
— Em que posso ajudá-lo? — perguntei.
— É que eu ganhei na loteria — sussurrou, sacando do bolso interno do paletó um bilhete da Loteria Federal.
— Opa! Mas isso é bom, não é?
— O problema é que… não sou daqui. Nem sei como ir buscar o dinheiro. O senhor poderia me ajudar?
— Eu… Claro, claro…

Pretendia ajudá-lo, mas, ao mesmo tempo, algo não me soou bem naquela história. Ele era muito convincente, não tinha em absoluto a aparência de um vigarista, mas era estranho, aquilo era muito irreal.
— Tenho medo de sair por aí com esse bilhete — ele falou.

Olhei bem para ele. Não havia dúvida: seu jeito era de desprotegido, de indefeso.
— O que posso fazer pelo senhor? — perguntei.

Naquele momento, outro homem se acercou de nós.
— Desculpem, mas ouvi a conversa de vocês. Vocês falaram em bilhete premiado?
— Isso — disse o velhinho, mostrando o bilhete: — Olha se não é premiado?

O homem tinha um exemplar da Zero Hora nas mãos. Procurou a página das loterias e, depois de alguns segundos, esticou o olhar para o bilhete. Comparou os números e balançou a cabeça:
— Primeiro prêmio! — disse. — O senhor está rico!

O velhinho sorriu. Eu sorri. Pelo menos alguém tinha sorte. Pelo menos alguém ia se dar bem.
— Este senhor aqui vai me ajudar a tirar o dinheiro — disse o velhinho.

Concordei com a cabeça:
— É. Vou.
— Eu posso dar o bilhete para o senhor, o senhor vai ao lugar onde sacar o dinheiro e depois me traz aqui.Pode ser?

Foi então que algo inesperado aconteceu.
Algo que mudou tudo.


O que aconteceu???
Saiba AINDA HOJE, no próximo capítulo de… Horror na Cidade Grande!

Som de Sexta - II

26 de julho de 2013 2

Eu gosto dessa inglesinha:

Sala de Redação

26 de julho de 2013 7

Ouça o Sala de Redação desta sexta-feira:

O tempo passa, o tempo voa

26 de julho de 2013 7

Há 25 séculos Heráclito, “o obscuro”, dizia que um homem não pode se banhar duas vezes no mesmo rio. “Tudo flui”, ensinava. E há 25 anos algum gênio da publicidade dizia que o tempo passa, o tempo voa, e a Poupança Bamerindus continua numa boa. Duas ponderações sobre a transitoriedade da vida. Heráclito afirmava que o mundo está mudando sempre e que nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia. O publicitário concordava, com uma ressalva: menos a Poupança Bamerindus. A Poupança Bamerindus era uma garantia contra a efemeridade da vida. Tudo o que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo, tudo muda o tempo todo no mundo, com exceção da Poupança Bamerindus, essa instituição sólida, imutável, eterna.

O tempo passou, o tempo voou, e o que ficou provado? Que Heráclito tinha razão. O Bamerindus extinguiu-se, como o pássaro Dodô, e sua poupança não continuou numa boa. Só que o publicitário, mesmo errado, era de fato genial, tanto que até hoje lembro do bordão criado por ele.

O que ficou do Bamerindus, do jingle e de Heráclito é que eles aparentemente passaram, mas não. Eles fazem parte de mim, da carga de memórias deixada pelo meu passado. E de outras tantas pessoas também. Eis o busílis. O passado existe; o futuro, não. Os sensatos aconselham: “Pense no futuro”. O futuro é o tempo dos sensatos. Mas o futuro é uma abstração. Você fica esperando pelo futuro, e ele não chega jamais. Nunca alguém algum dia disse: “Agora, que estou vivendo no futuro, estou bem”. Nunca. Nunca alguém viveu no futuro.

No passado, sim. Todas as pessoas do mundo viveram no passado. Você agora, no presente, está vivendo do que foi o seu passado. Está sentado sobre ele. O passado é o cimento do seu presente.

A cada dia você constrói o seu passado. O que você está fazendo agora, da maneira como está fazendo, servirá mais tarde como referência. Os outros, quando olharem para você, vão olhar para o seu passado. Para o que significou o seu passado. E você mesmo, ao planejar o que vai fazer e como vai fazer, terá como medida o seu passado.

Faça as coisas benfeitas, portanto, e construa agora um passado glorioso para você. Mesmo que você queira mudar. Porque qualquer mudança, por radical que seja, é baseada em algo que existe concretamente, e só o passado existe concretamente.

Logo, não vou pensar no futuro intangível e inatingível. Vou me alegrar agora com o que tenho agora. Vou sorver a vida neste exato momento. Vou recorrer a outro pedaço do meu passado, formado por uma frase do poeta Horácio, “o orelhudo”, que viveu 500 anos depois de Heráclito e 2 mil anos antes do publicitário do Bamerindus: “Carpe Diem”, ele disse. Aproveite o dia. É o que temos de fazer, eu e você. Vamos aproveitar esse dia, porque ele vai ser depositado na conta do nosso passado. Nós ainda vamos nos lembrar desse dia, amanhã.

Túnel do Tempo: Horror na Cidade Grande - 4º capítulo

26 de julho de 2013 0

Em um segundo, compreendi que a minha vida ia desmoronar ali mesmo, dentro daquele carro. Estava sendo assaltado. Perderia o dinheiro da minha família, o dinheiro que resolveria os meus problemas. Teria de procurar a polícia, contar o que me sucedeu.


Minha mulher, minhas filhinhas e meus amigos saberiam que eu estava com um travesti no carro.Ficaria com fama de homossexual, Cachoeira do Sul inteira me apontaria na rua como um depravado. Minhas filhas, elas são tão pequenas, oh, elas cresceriam ouvindo que o pai é um… um… Oh, Jesus, oh, Jesus Cristo, oh, Nossa Senhora, oh, Senhor Deus, o que foi que fiz para mim mesmo? Como sair daquele apuro?

Sentia-me acuado. A angústia pulsava em meu peito, espalhava-se pelo meu corpo, retesava-me os músculos.
— O dinheiro! O dinheiro! — gritava ele.

A bicha maldita espetava-me o pescoço com aquele troço, uma faca, acho, ou talvez um estilete, não sei.
— O dinheiro!

Em um segundo, de desesperado tornei-me furioso. A raiva como que tonificou meus músculos, inflou-me o peito, encheu-me de força.
— O dinheiro!

Levei a mão esquerda ao bolso da porta. Empunhei a chave inglesa. Apertei-a bem forte e, num movimento brusco e violento, girei o corpo e desferi o golpe. Acertei o travesti assaltante no lado da testa, na fronte. Ele emitiu um gemido seco, ugh!, virou os olhos nas órbitas e desfaleceu. Desabou em cima de mim, de lado, mole, de boca aberta. Empurrei-o para o lado. Fiquei observando, ofegante, a chave inglesa na mão, pronto para aplicar outro golpe, caso ele reagisse. Mas ele não reagiu. Ficou imóvel, sem sentidos. Meu Deus, meu Deus, será que… Será?…

Tinha vontade de gritar, de chorar, de sair correndo dali. Debrucei-me sobre o corpo dele. Abri a porta do carona. Usando os pés como alavanca, atirei-o para fora o mais rápido que pude. Arranquei com o carro. O corpo ficou no chão da rua, branco e flácido.

Mal conseguia dirigir. Tremia, suava, respirava com dificuldade. Depois de rodar algumas quadras, parei o carro no meio-fio a fim de recuperar a respiração. Não sei que horas voltei para o hotel, não sei nem como atinei em deixar o carro no estacionamento, nada. Naquela noite, não dormi. Rezei. Rezei muito.

Rezei para saber o que fazer, como proceder, como sair daquela situação. Havia assassinado uma pessoa. Era um assassino. Pensei no meu pai. Sempre que deparava com um problema desses, pensava em meu pai. Tentava raciocinar: o que meu pai faria, se estivesse em meu lugar? Meu pai era um homem decente, um homem honesto, íntegro. Gostaria de ser como ele. Tentava ser como ele.

Sei o que ele faria.
Sei.
Eu sei.

Ele iria se entregar. Iria à polícia, confessaria o crime e responderia pelos seus atos.

Assim era o meu pai. Um homem reto. Um homem de verdade.
Assim eu faria.

Decidi que, logo de manhã, iria à primeira delegacia de polícia e me apresentaria como o autor do homicídio. Faria a coisa certa. Isso. Como meu pai. Faria a coisa certa. A coisa certa. A coisa certa.

Ele fez?
Saiba no próximo capítulo de… Horror na Cidade Grande!

Som de Sexta

26 de julho de 2013 1

Hoje é um dia de Fito:

Atlético, Inter e para que existe o futebol

25 de julho de 2013 98

O futebol existe por causa de jogos como esse de ontem do Atlético Mineiro.
O futebol existe por causa de campanhas como a do Atlético Mineiro na Libertadores de 2013.
O futebol existe para retratar um pedaço da vida. Existe porque, em 90 minutos, é capaz de oferecer um teatro de drama, tragédia, comédia e heroísmo.
O futebol existe para que o homem acredite na glória, na coragem, na superação de suas próprias forças.
Só um jogo como o de ontem pode oferecer tudo isso.
E é por isso que o campeonato de pontos corridos, um campeonato sem decisão, é o antifutebol.
Há quem diga que todas as 38 rodadas de um campeonato de pontos corridos são decisivas. Se todas são decisivas, nenhuma é.
Ontem, o Inter assumiu a liderança do campeonato num jogo em que soube controlar o desespero do São Paulo. Havia 2.500 pessoas no Morumbi. Um jogo frio, do qual ninguém vai se lembrar daqui a dois meses. Enquanto isso, em Belo Horizonte, uma decisão ganhava a posteridade. Só as decisões ganham a posteridade.

Túnel do Tempo: Horror na Cidade Grande - 3º capítulo

25 de julho de 2013 2

A mão.


Era isso!

A mão!

Olhei para a mão branca pousada sobre a minha coxa e estremeci. Era uma mão grande, nodosa, forte… uma mão de homem! Um arrepio escalou-me a coluna, do cóccix até a nuca. Um travesti! Minha cabeça começou a rodar. Olhei para ela, para o rosto. O nariz… Um nariz grande, adunco, de narinas dilatadas. Um nariz de homem!Tratava-se de um homem, sem a menor dúvida! Ou, antes: podia haver dúvida, sim. Ela… ele… ela era bonita… bonito. Traços delicados. Um corpo lindo. E aquele cabelo… Seria peruca? Não vou negar que fosse atraente. Era. Mas, puxa, continuava sendo um homem! Alguém pode dizer que sou preconceituoso, alguém pode achar que deveria simplesmente me entregar ao prazer e esquecer aquele detalhe, mas, por favor! Para mim não é detalhe. Não estava preparado para aquilo. Não, não… Até pegar uma prostituta, para mim, constituía uma aventura. Que dirá um travesti! Imaginei-o nu, com o troço pendurado no meio das pernas, e eu ao lado, na cama. Cruzcredo! Não… Não podia fazer aquilo. Não podia!

Mal acreditava que aquela situação estivesse se passando comigo. Meu Deus, o que devia fazer??? Rodava, um tanto perdido, desnorteado, meio tonto, angustiado, rodava por uma rua escura, deserta, nem sequer imagino que rua era aquela. Alguma via vicinal, paralela à Farrapos, acho, ou perpendicular, não sei, não sabia de nada àquela altura.

Parei o carro. Suava, já.

— O que foi? — ela… ele quis saber. — Quer aqui mesmo? Quer?

E sorriu um sorriso falso, e levou a mão à minha bragueta, tentando manuseá-la. Arrepiei-me. Senti nojo. Tirei a mão dela… dele de mim. Ao tocar naquela mão, mais asco senti. Realmente, não estava pronto para aquele tipo de aventuras. Não sou preconceituoso, juro, mas, oh Deus, simplesmente não estava preparado.

— Não… — limpei o suor da testa com as costas da mão. — Olha, me desculpa, mas mudei de idéia…

— Como assim, meu amor?

— Desculpa, mas não quero mais.

— Rá! — ela riu um riso de desdém. — Não é bem assim, meu amor. Não é assim que funciona. Nós temos um trato. Eu sou profissional.

O tom de voz dela tornara-se preocupantemente agressivo.

— Nós não fizemos nada. Olha, desculpa, foi um engano. Desce do carro, por favor.

— Não é assim! — ele gritou, assustando-me. Arregalei os olhos, jogando o corpo para o encosto do banco.

— O-o-o que é isso? — gaguejei.

— É isso mesmo! — ele gritou ainda mais alto. — Tu me convidou pra entrar no teu carro! Eu entrei! Agora vai ter que pagar!

— Eu… Nós não fizemos nada…

— Vai ter que pagar!!!

Olhei para os lados. Não havia ninguém à vista, mas o escândalo logo iria chamar a atenção. Cristo, iam me reconhecer!Eu com um travesti no carro!

— Tudo bem, tudo bem — concordei, sentindo as mãos trêmulas. — Vou te pagar.

— Cinqüenta reais!

— Tudo bem, eu pago, não precisa gritar!

— É bom mesmo, seu caipira! Cinqüenta reais! — ele havia se transformado. Tornara-se agressivo.

— Tudo bem, tudo bem…

Virei-me de costas para ele, para tirar o dinheiro da guaiaca. Enfiei a mão por baixo da camisa, puxei o cinto onde estava o dinheiro, saquei algumas notas. Entre elas devia haver alguma de cinqüenta reais.

Foi um erro.

Um grande erro. Que só percebi ter cometido tarde demais. Era evidente que o meu gesto de tirar dinheiro da região da cintura iria despertar a cobiça dele. Estava com um maço de notas na mão, tentando enxergar no escuro e divisar uma nota de cinqüenta, quando concluí que seria assaltado ali mesmo, naquele momento. A sensação de que corria perigo era muito forte, muito intensa, muito real para não ser verdadeira.

E era.

Era verdadeira.

Senti uma ponta de metal espetando-me o pescoço e ouvi a ordem da voz agora tornada roufenha, agressiva e imperativa:

— Passa a grana, desgraçado!!! Passa a grana!!!


O que acontece depois? Saiba no quarto capítulo de Horror na Cidade Grande.