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Livros que me esperam

10 de agosto de 2013 2

david

Tenho cá nas minhas estantes uma coleção em sete volumes encapados em couro publicada em 1964 pela Editora das Américas, o “Dicionário da Sabedoria”. Na verdade, uma deliciosa coleção de frases célebres. Por exemplo, no verbete “cabelo” há a seguinte preciosidade, de autoria de Longfellow:

“Nem dez parelhas de bois nos puxam com a mesma força com que o fazem os cabelos de uma mulher”.

Ou uma melhor ainda, de Publílio Siro:

“Também um simples cabelo tem a sua sombra”.

Não é uma maravilha de reflexão?

Lá encontrei este verso do gênio espanhol Lope de Vega a propósito de “caducidade”:

“Aprendei de mim, ó flores, o que vai de ontem a hoje; que eu ontem maravilha fui e hoje sombra do que fui não sou”.

Lope de Vega. Sabia brincar com as palavras.

São muitos os livros que estão esperando pela minha atenção. Volta e meia tomo um nas mãos, examino-o, chego a acariciá-lo, leio um ou dois parágrafos e fecho num suspiro: ainda não é tempo.

Tempo, tempo, preciso de tempo para ler os 10 alentados volumes de “Os Grandes Processos da História”, de Henri Robert. E os tijoludos tomos da “Biblioteca Internacional de Obras Célebres”, 25 deles, cada um com pelo menos um milheiro de páginas, quando encontrarei tempo para encará-los? E a “História de Portugal”, de Alexandre Herculano? Tenho que ler a História de Portugal, de Herculano. Lembro-me de quando adquiri essa coleção. O Cyro Martins, diretor da Gaúcha e meu amigão, comentou:

_ Esse livro tem de ser lido com calma, acomodado numa poltrona confortável, acompanhado de um bom vinho.

Vou fazer isso um dia, Cyro. Juro que vou. Tempo, tempo. Sobre “tempo”, o “Dicionário da Sabedoria” registra uma frase de Flaubert:

“O futuro tormenta-nos e o passado retêm-nos. É por isso que o presente nos foge”.

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UM HOMEM CRUEL, MAS FASCINANTE

Um dos livros que me esperavam, encontrou-me. Terminei esta semana de ler “Conquistador”, de autoria do jornalista americano Buddy Levy, edição da Objetiva. Relata a conquista do Império Asteca pelo inteligentíssimo, crudelíssimo, gananciosíssimo espanhol Hernán Cortés.

Uma bela obra sobre de uma gigantesca façanha.

Cortés arrebatou um império vasto como meio continente, pintalgado de cidades desenvolvidas e bem organizadas, maiores e mais belas do que as da Europa da época, habitadas por milhões homens industriosos. Pois sabe como conquistou tudo isso? Desembarcando de suas naus nas praias mexicanas com 500 mercenários e 16 cavalos. Uma proeza improvável, talvez única na crônica dos imperialismos mundiais. Os historiadores explicam sua vitória pela superioridade das armas europeias e pela perplexidade dos astecas com os cavalos, bestas que eles nunca tinham visto antes, e que pisavam com seus cascos no chão da Mesoamérica pela primeira vez desde a Idade do Gelo.

Foi mais do que isso.

Cortés venceu por sua astúcia, por seu carisma e pelo sentimento de lealdade que conseguia despertar nas pessoas. Ou seja: venceu por dispor de boas qualidades humanas.

É estranho dizer isso de um homem que mandava torturar, matar, mutilar e até queimar pessoas vivas, mas ele devia ser um sujeito fascinante.  Arrebatava aliados inclusive entre os seus inimigos. Verdade que, não raro, um punhado de ouro o ajudava na tarefa de convencimento, mas, ora, seus inimigos também tinham ouro.

Certa feita, um de seus oficiais tentou traí-lo. Ele descobriu a trama e, como punição, mandou que lhe decepassem parte dos dedos de um dos pés. Depois da sentença cumprida, a ferida cicatrizou e os ressentimentos do homem também. O oficial se tornou um de seus assessores mais leais e foi designado para missões de alta confiança, saindo-se a contento.

Montezuma, o orgulhoso imperador asteca, ficou fascinado com Cortés, submeteu-se a ele quase que sem resistência, achicou-se, humilhou-se e, por fim, foi destruído mais psicológica do que militarmente.

Numa derradeira prova de suas habilidades, Cortés angariou simpatias até entre as pessoas da Civilização que estava prestes a destruir. Seus principais aliados eram índios tributários do Império Asteca, e a pessoa que mais o ajudou foi também uma índia, Malinche, sua intérprete e amante.

Malinche é grande personagem. Foi dada de presente a Cortés pelos tabascos, que não eram aquele molho de pimenta que tanto aprecio, mas índios locais que a haviam escravizado anos antes.

Malinche era linda e inteligente. Logo aprendeu o castelhano e serviu de intérprete e amante de Cortés. Teve com ele um filho, Martín, considerado o primeiro mexicano, já que foi o primeiro mestiço. Mas Malinche não é venerada como a mãe de todos os mexicanos, como deveria. Não poucos a classificam de traidora, e não por acaso. A lealdade de Malinche era propriedade de Cortés. Ela foi imprescindível no trato com os índios, inclusive na comunicação com o imperador Montezuma. Um dia, Malinche descobriu uma sublevação asteca, denunciou-a e salvou Cortés. Agiu contra os seus iguais e a favor de um europeu branco e barbudo. Mas não pense mal dela. Pense que muito do que acontece, na História, se deve ao contexto. O contexto, este incompreendido.

Mas, como eu dizia, Cortés conquistava pessoas antes de conquistar impérios. Não era um homem comum, e certamente era um homem do seu tempo. Um tempo duro, de homens duros. Tempo, tempo.

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A BANALIDADE DO MAL

Pode-se dizer que Cortés e os conquistadores espanhóis foram o Mal do seu tempo, o século 16. Pelo menos o foram para incas, maias, astecas e outros povos que quase dizimaram.  Mas a representação imbatível do Mal em todos os tempos é, sem dúvida, Hitler e o nazismo. Porque é fácil identificar o Mal na figura grotesca de Hitler e no ambiente sombrio da Alemanha nazista. O problema é que o Mal nem sempre se apresenta assim tão abertamente, tão descaradamente. Seria fácil, se fosse sempre assim.

O Mal pode ser suave, pode ser risonho. E pode ser banal. Hannah Arendt, ao cobrir o julgamento do nazista Adolf  Eichmann em Jerusalém, nos anos 60, viu a banalidade do Mal. Eichmann não chegou a usar as próprias mãos para matar nenhum ser humano, mas foi o idealizador e o organizador dos campos de extermínio. Mandou milhões para a morte. Porém, confinado a uma jaula de vidro durante o julgamento, apresentou-se como um sujeito comum, um qualquer. Hannah Arendt disse sobre ele:

_ Realmente, acreditava que Eichmann era um brincalhão, e digo que li, e me detive particularmente nas declarações que prestou no interrogatório policial, 3.600 páginas, e que não sei quantas vezes cheguei a rir… gargalhar!

Hannah foi perseguida implacavelmente depois de ter publicado suas impressões sobre Eichmann. Sua história está sendo contada em um filme ora em cartaz nos cinemas. Assista. E veja que o Mal, mesmo quando banal, continua sendo o Mal.

Comentários (2)

  • Machiavellirs diz: 10 de agosto de 2013

    ÍNDOLE DO MAL

    Nesta tarde chuvosa de sábado, com a estufa ligada no calor máximo e o cálice do cabernet ligado até às bordas é tempo propício para pensar no mal.

    Aliás, o Machi aqui adora pensar no mal porque pensar no bem não tem graça. Não devemos nos preocupar com o bem, ou seja, não devemos nos preocupar com as coisas certas, mas, sim, e tão somente, com as coisas erradas, ou seja, com o mal.

    E pensando no mal, penso na índole.

    A índole pode ser entendida como sinônimo de caráter. Ou seja, a gente pode dizer que determinada pessoa tem má índole ou mau caráter, tanto faz porque dá no mesmo.

    Mas prefiro entender a índole como sinônimo de inclinação.

    Então, quando digo que aquele determinado cara tem inclinação para fazer o mal ou fazer o bem, na realidade estou dizendo que a índole daquele cara é do mal ou do bem. Ademais, a índole de uma pessoa já nasce com ela… a índole, boa ou ruim, está no seu DNA. Já o caráter, não! O caráter é aprendido, ou seja, com o tempo a gente aprende a ter um bom ou um mau caráter. O mau caráter até pode ser consertado; já a má índole nunca, jamais poderá ser consertada, nem que passem mil séculos. A pessoa que tem má índole morrerá com ela. Assim, uma pessoa de má índole jamais terá um bom caráter e uma pessoa de boa índole jamais se transformará num mau caráter.

    E pensando nisso, fico pensando na índole das pessoas proeminentes que deixaram sua marca no mundo e nas pessoas que integram ou integraram os Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) do Brasil, nas últimas décadas.

    Por exemplo, qual seria a índole do Moisés? E a do Aristóteles? Seriam índoles boas ou ruins? E a índole do Hitler? Como será a índole do Lula? Boa? Má? E a índole do Renan Calheiros? E a do Collor? E a do FHC? Qual a índole do Joaquim Barbosa? E a índole do Dias Toffoli? A índole do Sarney, afinal, é boa ou má?

    Pensem nisso e tentem descobrir o futuro do Brasil. Aproveitem para ler um Schopenhauer com seu pessimismo e um Maquiavel com seu maquiavelismo tentando descobrir a índole que estava no DNA deles e, de lambuja, procurem adivinhar a índole que está no DNA de vocês.

  • jeferson luis diz: 12 de agosto de 2013

    David, sei que tu curte Neil Young (como outros bons… este blog mostra o teu bom gosto musical). Deves conhecer a música “Cortez, The Killer”… uma obra! Reproduz bem tudo o que ilustrastes.

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