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Posts de agosto 2013

Renato vence graças ao raciocínio correto

31 de agosto de 2013 26

Renato faz o raciocínio correto: se um time se protege bem e não toma gol, está perto da vitória mesmo que jogue mal, porque o gol a favor pode sair num erro do adversário, num lance fortuito ou numa jogada de habilidade de um atacante.
Foi o que aconteceu neste sábado contra a Ponte Preta.
O Grêmio não jogou bem, mas soube se defender. Quase marcou em alguns cruzamentos e escanteios; acabou marcando numa falha do zagueiro adversário.
Pronto. Não precisava mais. Um a zero basta.
Mas o time ainda precisa de ajustes. Há problemas nos três setores. Problemas que, por ora, são resolvidos pelo empenho dos jogadores. Mas o empenho não resolve sempre.

Som de Sexta

30 de agosto de 2013 3

Essa banda inglesa chama-se Keane para homenagear a babá de um deles.
Muito simpático.

Seis dias sem sol

30 de agosto de 2013 15

Queria ser um madrugador. Acordar com o chilrear dos pintassilgos, quando toda a cidade ainda dorme. E, por favor, não me venha um conhecedor de pássaros dizer que os pintassilgos não chilreiam nas árvores de Porto Alegre, não destrocem a minha fantasia.

Então. Os pintassilgos chilreiam e acordo bem disposto. Ligo o radinho de pilha, vou para a cozinha e preparo o mate. Sorvo o mate devagar, à mesa da cozinha, de frente para a janela, olhando para a linha do horizonte que vai clareando aos poucos.

Alguém um dia disse que o mate ajuda o gaúcho a pensar. Gosto disso. Imagino-me tomando mate e pensando no mundo e balançando a cabeça lentamente depois de ter chegado a alguma conclusão inteligente sobre a existência.

Sei que, no meu caso, o mais difícil é chegar a alguma conclusão inteligente sobre a existência, mas me contento com o mate e o olhar no vazio e o chilrear dos pintassilgos e o som do radinho de pilha. Uma manhã calma. Contento-me com uma manhã calma.

Mas o fato é que não sou um madrugador. Hoje em dia, devido às responsabilidades, malditas responsabilidades, até acordo relativamente cedo, só que nunca, jamais!, com o chilrear dos pintassilgos, quando toda a cidade ainda dorme, e muito menos em dias como esses que enfrentamos há pouco aqui na cunha meridional do Brasil: seis dias inteiros sem que o sol aparecesse.

Que fique registrado, imortalizado em papel: durante seis dias de agosto de 2013, o sol não apareceu no sul do Brasil. As pessoas se lembram do que faziam quando dois aviões despedaçaram as Torres Gêmeas ou quando foi posto abaixo o Muro de Berlim, pois eu lembrarei para sempre que, em agosto de 2013, o sol não iluminou Porto Alegre durante seis dias inteiros.

Seis dias inteiros.

Por isso, ao ler as previsões do tempo e saber que o sol, enfim, voltaria a luzir sobre a cidade nesta semana, decidi: neste dia da volta do sol, vou acordar com os pássaros e tomar mate e fruir a manhã. Vou ser, por um dia, o madrugador que sempre quis ser. E foi o que fiz. Na quarta-feira, bem cedo, fazia muito frio e eu já estava de pé. Fui para a cozinha. Liguei o rádio. Preparei o mate.

A manhã estava silenciosa; o ar, fino. Sentei-me à mesa da cozinha e olhei para a janela. Não pensava em nada, apenas olhava. E lá adiante, no horizonte, ele, o sol, surgiu depois de tanto tempo. Foi-se erguendo e iluminou o céu, fez abrir o dia e, sim, os passarinhos cantaram e, só por isso, fiquei feliz.

Vitória sobre o Santos faz o Grêmio subir um nível como time

29 de agosto de 2013 28

O Grêmio subiu um degrau como time de futebol ao bater o Santos por 2 a 0, ontem.
Porque venceu uma decisão contra um clube grande, precisando fazer dois gols de diferença.
Vencer jogo de meio de campeonato, jogo de competição de pontos corridos, é fácil. Não existe a pressão da decisão, a exigência psicológica.
Ontem, o Grêmio reagiu bem ante essa pressão.
O time jogou como se deve jogar num momento desses: com sofreguidão, com gana, quase com angústia, mas cuidando para não ser precipitado.
Barcos e Pará, que semanas atrás estavam tão mal que clamavam pela reserva, foram os destaques, e isso, a recuperação de jogadores, também mostra a evolução do time.

Túnel do Tempo: Boa gente - Capítulo 12

28 de agosto de 2013 1

Fiquei olhando para aquele japonês. Era um japonês muito parecido com outros japoneses que já vira. Tinha uma baita cara de japonês, aquele japonês. Olhos oblíquos, cabelos pretos e tudo mais. Um japonês pequeno e magro como quase sempre são os japoneses. Olhei bem para ele. Olhei e olhei para aquele japonês.

Mas ele não olhou para mim.

O japonês continuou parado a dois metros da entrada do bar, com uma mochila pendurada no ombro, fitando, com um ar um pouco aborrecido, algum lugar no meio da rodoviária. Aquele japonês está chateado, pensei. O que me deu certo alívio. Por algum motivo, achei que um japonês chateado não podia ser um japonês assassino. Um japonês assassino obviamente tem cara feroz. Ou concentrada. Ou até dissimuladamente distraída. Chateada, não. Certo que não. Um japonês chateado fica pensando nas coisas que chateiam os homens: nas mulheres. Ou no trabalho. Ou no dinheiro. Algo assim. Além disso, ele não me olhava, aquele japonês. Não demonstrava o menor interesse em mim. Talvez não estivesse me vigiando, afinal. Depois de alguns minutos, aconteceu algo que me deixou ainda mais aliviado. Uma loira gorda apareceu, o japonês bateu com o braço na perna e exclamou em português, não em japonês:

- Até que enfim!

A loira balbuciou alguma desculpa e saíram os dois, apressados, para os boxes dos ônibus. Suspirei. E pensei que nunca tinha visto um japonês com uma loira gorda. Definitivamente, um japonês com uma loira gorda era novidade absoluta para mim.

Meu café havia terminado. Será que devia pedir a chave para o dono do bar? Olhei em volta. Os dois clientes ainda estavam lá. Não, não podia pedir a chave na frente daqueles caras. Sabe-se lá quem eles eram. Talvez fossem agentes do japonês. Podiam estar disfarçados de pobres. Ah, porque pareciam pobres aqueles dois, isso é certo. Um deles usava até capanga. Nem sabia que ainda existia capanga… O outro vestia camisa de mangas curtas. Francamente, camisa de manga curta é bem coisa de pobre.

Pedi outro café para justificar minha presença ali. E outro. E mais outro. Continuei tomando cafés, esperando que todos os clientes fossem embora. O problema é que um saía e outro entrava. Levou mais de uma hora e sete cafés para que ficássemos só eu e o dono do bar. Percebi que ele já estava desconfiado da minha sede por café. Cada vez que eu pedia mais um café ele cofiava o bigode.

Finalmente, ficamos eu e ele. Só. Chamei-o.

- Outro café? – gritou, da outra ponta do balcão.

- Não, não… – hesitei. Se eu pedisse a chave agora, ele ficaria desconfiado. Afinal, por que um sujeito se entope de café para só depois pedir uma chave? Enquanto pensava no que fazer, ele se aproximou, curioso, cofiando o bigode. Senti o calor tomar conta do meu rosto. Enrubesci. Ele me encarava, decerto achando-me maluco. Mas que droga. Seja o que Deus quiser! Falei:

- Er… Eu sou o Petrônio…

- Ahn?

- O Petrônio!

- Prazer. Inácio.

- Er… O senhor não tem nada aí para mim?

O Inácio recuou um passo:

- O que você quer? Aqui não tem drogas, não!

- Não é nada disso! – a coisa começava a se complicar. – É que um japonês entrou aqui, não entrou?

- Vários japoneses entram aqui!

- Mas esse não deixou uma chave para mim?

O homem franziu a testa.

- Ah, a chave!

- Pois é! Eu sou o Petrônio!

- Ta bem.

Tirou a chave de algum lugar embaixo do balcão e me entregou. Sorri, aliviado.

- Mais alguma coisa?

- Só a conta.

Paguei e saí dali exultante. Eu tinha a chave! Agora, era só buscar o dinheiro. Praticamente corri até os armários. A chave correspondia ao armário número 12. Abri a porta. E lá estava ela. A mala com o dinheiro! Eu estava rico!

Peguei a mala e voei com ela para fora da rodoviária, prendendo-a firme sob o braço. Estou rico, pensava. Ricoricoricoricorico! Enquanto ligava o carro, com a mala no banco do carona, liguei para Itsuko. Ela atendeu e eu:

- A águia pousou! A águia pousou!

Itsuko sussurrou:

- Teu irmão está aqui. Vai pra casa que te ligo mais tarde.

Fui para casa tremendo de excitação. Tudo parecia azul e amarelo naquele belo dia de Porto Alegre. Mas não ficaria assim. Ah, não ficaria. Por quê??? Saiba logo, no próximo capítulo de Boa Gente!

Sala de Redação

27 de agosto de 2013 2

Ouça o Sala de Redação desta terça-feira:

Túnel do Tempo: Boa gente - Capítulo 11

27 de agosto de 2013 2

Não existe nada, nada, nada, nem dinheiro, nem mulher, nem fama ou glória ou Deus, em toda a Sua sabedoria, não existe nada mais importante para um homem do que os seus próprios intestinos. Sobretudo quando seus intestinos pulsam e latejam, ansiando por alívio. Quando as entranhas de um homem chamam, esse grito é mais alto e mais poderoso do que qualquer outro apelo. Por isso, entre os milhões do Japão e meu alívio interior, optei pelo meu alívio interior. Corri para o banheiro da rodoviária. Ou, antes: esgueirei-me para o banheiro imundo da rodoviária, caminhando com as pernas muito juntas, uma roçando na outra, esforçando-me para não fazer tudo ali mesmo, de pé, nas calças, o que seria a vergonha, o opróbrio, a humilhação.

Usei o banheiro da rodoviária e o fiz com gosto. Naquele momento, o banheiro salvador pareceu-me o Palácio de Versalhes. Era suntuoso, aquele banheiro de rodoviária, era perfumado. Era doce. Era só do que eu precisava.

Ali, sentado e sorrindo, filosofei, que em situações extremas o homem filosofa: as coisas boas da vida são as coisas simples, e essas coisas, essas pequenas e suaves e divertidas e triviais coisas da vida, eu as tinha. Tinha meu ótimo apartamento com piscina, tinha uma vida sem preocupações, tinha meus amigos e uma ou outra namorada eventual, tinha até a mulher do meu irmão para transar de vez em quando, por que arriscar tudo em troca do luxo improvável? Por quê??? Ganância? Vaidade? Luxúria? Não! Não necessitava de nada disso. Eu tinha a minha vidinha simples e agradável, poderia vivê-la assim, aprazivelmente, até o fim dos meus dias. Para que complicar?

Não iria complicar. Não. De jeito nenhum. Definitivamente.

Saí daquele banheiro caminhando com decisão filosófica, no pleno domínio dos meus movimentos peristálticos. Eu sabia o que queria da minha vida. Sabia!

Assim refletindo, passei pela frente dos armários da rodoviária. Olhei para as portas de metal. Dentro de uma delas havia vinte milhões. Que loucura.

Parei.

Pensei mais um pouco: será que deveria ir até o bar, nem que fosse apenas para conferir se o japonês deixara a chave lá? Afinal, se eu entrasse no bar e pedisse um café, quem poderia me acusar de algo? A polícia ou a Yakuza decerto não suspeitariam de um homem que tão-somente entra num boteco e senta no balcão e pede um passado bem forte, não, de jeito nenhum.

Foi o que fiz. Entrei no boteco. Além de mim, havia outros dois fregueses. Ambos bebiam refrigerante. O dono limpava o balcão. Era um gordo de bigode. Aproximou-se de mim e me olhou com expressão vazia:

— Pois não?

— Um cafezinho, por favor.

Ele trouxe o cafezinho. Comecei a beber. Aí olhei para a porta e o que vi me deixou aterrorizado. Lá estava… Oh, Deus, desculpe por ter transado com a mulher do meu irmão, desculpe, desculpe! Sim, eu tinha que pedir desculpas, por que lá estava… um japonês!!!

Glup! E agora? O que acontecerá com Danton? Saiba logo, no próximo capítulo de… Boa Gente!

O dedo amassado no torno da fábrica de sapatos

27 de agosto de 2013 10

Quando tinha 10 anos de idade, meu avô esmagou o dedo indicador direito em um torno de fábrica de sapatos. Não estava brincando no torno; estava trabalhando. Naquele tempo, começo do século 20, era assim _ crianças trabalhavam de sol a sol, 14, 15, 16 horas por dia. Como não havia réstia de assistência médica na empresa, eles enrolaram o dedo do meu avô em um pano e o mandaram para casa. Ele ficou com o dedo em garra pelo resto da vida.

Um dia meu avô me disse:

— Eu tinha muita vontade de usar um anel…

Estranhei:

— Mas, vô, por que o senhor não compra um anel? O senhor tem dinheiro.

Ele mostrou o dedo torto:

— Como vou usar um anel numa mão dessas?

Eu, quando tinha 10 anos de idade, descobri o futebol exatamente através do meu avô, que me contava histórias dos grandes craques, dos grandes times e dos grandes jogos. Passei a jogar com os amigos numa rua de areão que ficava ao lado dos prédios da Coorigha, lá no IAPI, e lia revistas e livros que relatavam a história do jogo e dos jogadores, confirmando as façanhas de que meu avô falava. As paredes do meu quarto eram forradas de fotos dos times. Minha mãe gemia de dor quando entrava lá. Não sobrava espaço para mais nada nas paredes, e até no teto eu colara fotos de velhos jogadores. Apreciava principalmente as histórias dos primórdios do futebol e conhecia craques que nenhum dos meus amigos conhecia, o Lagreca, o Neco, o Silvio Pirillo.

Dez anos de idade. É o período da vida do menino em que ele adquire o gosto por certas coisas que o acompanharão para sempre. Meu avô, mesmo tendo esmigalhado o dedo no torno, foi ganhar a vida como sapateiro, e eu, depois de adulto, muito escrevi e escrevo sobre futebol.

E agora, vendo em ação esses jovens jogadores do Brasil, fico pensando que, com 10 anos de idade, eles já estão planejando suas carreiras. Já estão trabalhando duro. Não estão brincando, como eu brincava; estão tentando ganhar a vida, como meu avô ganhava.

Outro dia mesmo, um menino de 16 anos de idade fez um gol no Grêmio, jogando pelo Santos. Ele tem 16, mas desde a primeira infância vem sendo preparado para o jogo profissional, como tantos outros, em todos os times do Brasil. Está certo isso? É bom para o menino começar tão cedo a lutar pela vida? É algo sobre o que os donos do futebol deveriam refletir, porque o que se perde aos 10 anos pode ser perdido para sempre.

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O BOM PROBLEMA DO GRÊMIO

Zé Roberto está voltando. É um dos grandes jogadores do Brasil, tem lugar em qualquer time do Campeonato. Mas onde ele entrará no Grêmio vencedor de Renato? Ramiro e Riveros são a base do time, não podem sair. Souza está jogando recuado, quase como centromédio, também não é a posição do Zé. Logo, o meio-campo está fechado, a não ser que Renato queira mudar o sistema com três zagueiros, o que não é recomendável no momento. Zé Roberto poderia ser até lateral-esquerdo, mas Alex Telles vem jogando bem.

E agora, José?

Agora, José vai ter que ficar no banco.

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O MAU PROBLEMA DO INTER

A defesa do Inter não é tão ruim para ser uma das mais vazadas do Campeonato. Há jogadores bem inferiores em outras defesas por aí. Logo, o problema não é exatamente este ou aquele jogador. É a forma como eles estão jogando. É a organização. O ataque se resolve com talento, a defesa se resolve com organização.

Túnel do Tempo: Boa gente - Capítulo 10

26 de agosto de 2013 2

Lá vinha aquele japonês. Caminhava como qualquer um dos milhões de japoneses que há no mundo, tinha olhos amendoados como todos eles e cabelos pretos e era pequeno e sua pele era uma pele de moreno-claro, exatamente como todos aqueles japoneses que existem no Japão e em São Paulo e em todos os pontos turísticos do planeta. Mas era um japonês diferente. Era o MEU japonês, o japonês a quem eu estava chantageando, e eu sabia que era ele porque já o conhecia de vista, embora nunca tivéssemos conversado.

Lá vinha aquele japonês. Um japonês sério. Quando o vi, numa festa na casa do meu irmão, ele não riu. Ficou na festa por cerca de duas horas sem jamais rir. Na época, ele vestia terno preto, camisa branca e gravata preta. Agora também. Será que só se vestia assim? Caminhava sozinho, em obediência às instruções do e-mail. Uma mala preta pendia-lhe da mão direita. A nossa mala. O nosso dinheiro. Vinte milhões de motivos para vigiar um japonês em meio ao pobredo da rodoviária. É dura a busca da felicidade.

Meu coração batia com força. Senti as pernas amolentarem. E agora?

E agora???

Fiquei de pé, observando-o. O homem caminhava com decisão, sem pressa, olhando para frente, como se conhecesse o lugar. Como se passeasse pela rodoviária todos os dias. Segui-o à distância, mal acreditando no que estava fazendo – estava seguindo a minha vítima! Eu, um chantagista! Eu, um criminoso!

Senti uma pontada no estômago. Uma dor abaixo do umbigo, aguda, perfurante, que me fez gemer baixinho. Cara, precisava ir ao banheiro. Definitivamente. Olhei em volta. Sabia que lá no fundo da rodoviária existiam banheiros públicos. Uns banheiros infectos. Não conseguiria ir a um banheiro daqueles. Sentar-me no vaso sabendo que minutos antes algum… pobre havia sentado lá. Além disso, tinha que ficar de olho no japonês. Não podia me distrair.

Mas me distraíra.

O japonês já estava próximo dos armários, com a chave na mão.

Que vontade de ir ao banheiro! Olhei para cima. Deus! Senhor Jesus Cristo! Nossa Senhora! Por que isso comigo? Por que essa maldita e urgente vontade de esvaziar os intestinos justamente agora, quando estou perto de conseguir dez milhões??? Não pode ter sido só efeito do medo. Não. Deve ser alguma punição. O Senhor está contra mim! Ele em Pessoa! Imaginei Deus de barba, imponente em um manto branco, sentado num trono de ouro, apontando para baixo, diretamente para as minhas entranhas humanas, bradando com sua voz de trovão:

- Agora ele vai se borrar tooooodoooo!

Quem mandou eu transar com a mulher do meu irmão?

O japonês agora enfiava a mala no armário. Agora fechava o armário. Agora retirava a chave. Agora caminhava com a chave na mão direita.

Queria ir ao banheiro. Queria muito ir ao banheiro. Desesperadamente. Definitivamente. Mas não podia desviar a atenção do japonês. Não podia!

Ele se aproximou do bar. A um passo da entrada, parou, virou-se de lado e relanceou o olhar em torno. O olhar dele passou por mim e, por décimos de segundo, parou. Estremeci. Será que ele me viu? Será que me reconheceu? Será que desconfiou? Senti mais uma fisgada no interior do meu ser. Como se estivessem me fincando agulhas no intestino. Ia me sujar todo, ali mesmo, na rodoviária. Jesus, Jesus, Jesus, socorro! Me perdoa! Não transo mais com a mulher do meu irmão!

O japonês entrou no bar. Eu via tudo difuso, agora. Tudo brumoso. Mas consegui divisá-lo passando a chave para o dono do bar e saindo.

Era a minha deixa. Tinha de ir lá e pegar a chave. Mas também tinha de ir ao banheiro, antes que fosse tarde demais. Sentia medo, medo, medo!

O que devia fazer?

O que Danton fez?

Saiba loguito, no próximo capítulo de… Boa Gente!

Túnel do Tempo: Boa gente - Capítulo 9

25 de agosto de 2013 0

No dia seguinte, tudo foi diferente. Minha confiança, minha alegria e meu entusiasmo tinham evaporado. Acordei sentindo-me estranho. Para começar, despertei em um horário em que muitas vezes estou indo dormir: seis da manhã. Abri os olhos e não consegui dormir mais. Fiquei olhando para a parede do quarto, sem pensar em nada específico. Pensei. Pensei. Tentava investigar o que sentia.

Descobri.

Era medo. Sentia um medo pastoso e denso como uma calda e essa calda infiltrava-se nas minhas entranhas e logo enroscava-se-me nas pernas feito uma jibóia e daqui a pouco me cobria como se estivesse sendo sugado por areia movediça. Comecei a imaginar situações nas quais o plano de Itsuko poderia falhar. Aquele pai dela. Não confiava nele. Ou, antes: não confiava na boa vontade dele. A própria Itsuko percebera que havia algo de errado na coisa toda. Ele tinha sido muito lacônico. Aceitara tudo com facilidade suspeita. Sem perguntas, sem considerações, sem nem tentar negociar. Aquilo me deixava nervoso. Definitivamente.

Tomei café preto, não comi nada. Minha garganta estava fechada. Arrastei-me para o banho. Debaixo do chuveiro, decidi que não iria à rodoviária. Não iria. Pronto! Assim, resolvia tudo. Não precisava daquele dinheiro. Minha vida era boa. Por que arriscar tudo por uns milhões? Bem, está certo: muitos milhões. Dez deles. O que eu podia fazer com dez milhões? Não precisaria mais trabalhar. Bem, é verdade que já não trabalhava, mas aí eu teria uma vida digna. Viagens. Festas. Mulheres. Quanto tempo poderia ficar viajando pela Europa com dez milhões? Se reservasse, digamos, um milhão, passaria tranqüilamente um ano circulando pelas capitais do mundo, me hospedando nos melhores hotéis, jantando em restaurantes três estrelas do Guia Michelin, cevando-me com as mulheres de pernas mais longas e peles mais macias e nádegas mais empinadas e seios mais rijos, ah…

Pensando bem, eu ia fazer! Ia, sim! Era só ir lá e pegar o dinheiro. Fácil. Itsuko pensara em tudo.

Vesti-me sentindo-me um pouco mais animado. Calça jeans, tênis de corrida e camiseta branca, básica. Roupa despojada. Só os elegantes sabem se vestir despojadamente. Desci até a garagem. Entrei no carro. Ao sair do prédio, comecei a repassar mentalmente o plano. Ficaria zanzando pela rodoviária até o japonês chegar e guardar a pasta no armário. Esperaria que ele entregasse a chave para o dono do bar ali perto e, depois, iria ao bar, me apresentaria como Petrônio, pegaria a chave, abriria o armário, colheria a mala com o dinheiro e iria embora para casa, rico e feliz. No dia seguinte, dividiria o dinheiro com Itsuko e, por que não?, daria mais uma transadinha com a mulher do meu irmão. Muito simples. Muito legal. Só que algo me incomodava… O quê? O quê? Não sabia…

Cheguei à rodoviária com o coração oprimido mais uma vez. Caminhei um pouco por lá. Olhei no relógio. Faltava muito tempo para as dez horas. Uma hora e vinte. Cheguei cedo demais. Fui à banca de jornais. Comprei uma Zero Hora, uma revista Vip e dois gibis do Homem-Aranha. Sou fã do Homem-Aranha. Sentei-me num banco e comecei a ler o gibi. O Homem-Aranha sempre decepcionando a Mary Jane. Em meio à luta contra o Doutor Octopus, compreendi o que havia de errado na coisa: a entrega do dinheiro! O que impediria o japonês de colocar um capanga para vigiar o bar e me pegar quando eu fosse pedir a chave? Aquela idéia me deixou nervoso outra vez. Não fazia muito calor, mas eu suava. Não conseguia me concentrar nas aventuras do Homem-Aranha. Deixei os gibis e as revistas no colo e olhei em volta. Todos aqueles perdedores caminhando pela rodoviária. Pobres. Sentia o cheiro da pobreza ao meu redor. Não é que tenha nojo de pobre, nada disso. Só não aprecio a convivência com eles e suas fichinhas de ônibus, suas camisetas de time de futebol, seus palitos de dentes e todos os seus filhos chamados Wellington, Washington, Uéscley, Sheilla Kelly…

Não, eu não era um homem de rodoviárias. Não queria estar ali, à espera dos capangas assassinos de um japeta bilionário. Queria estar na minha cama, dormindo. Preparando-me para mais um dia de suave alegria. O dolce far niente. Resolvi ir embora dali. Itsuko que se virasse com os milhões do pai dela.

Aí ele apareceu.

O japonês.

Com uma mala na mão.

Caminhando em direção aos armários da rodoviária.

O que eu devia fazer???

O que ele fez?

Saiba logo, no próximo capítulo de… Boa Gente!

O Código David: A Palavra Proibida

24 de agosto de 2013 6

palavraproibidaTenho um amigo que não fala a palavra azar. Diz que dá… Bom, ele não fala.

Só descobri essa sua idiossincrasia quando um dia ele me disse:

– Não falo aquela palavra.

– Que palavra?

– Aquela.

– Que palavra, pô?

– Aquela ruim.

– Qual??? Dá um sinônimo.

– Falta de sorte.

– Azar?

– Não diz!!!

***************

A FAMA DE AGOSTO

Agosto tem fama de mês aziago. As pessoas não gostam de agosto. Suspeito que essa implicância tenha começado com a Noite de São Bartolomeu, quando protestantes foram massacrados em Paris às vésperas do casamento da Rainha Margot.

Alexandre Dumas, o pai, escreveu um belo livro sobre a Rainha Margot, que depois virou um belo filme com a ainda mais bela Isabelle Adjani, mas acho que já escrevi sobre todas essas belezas.

O fato é que a Noite de São Bartolomeu foi uma noite de agosto, o império asteca caiu em agosto, Rodolfo Valentino morreu em agosto, Getúlio Vargas e Marilyn Monroe suicidaram-se em agosto, Nixon e Jânio renunciaram em agosto e Juscelino Kubitschek sofreu o acidente que o matou em agosto. Donde, a péssima imagem de agosto entre os homens do povo.

Mas eu não acredito nisso. Coisas ótimas já me aconteceram em agosto e espero que continuem acontecendo. Não, não tenho medo de agosto. Agosto é nosso amiguinho.

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A URUCUBACA DO DUDU

Existem realmente, a sorte e o azar? Acho que não, mas algumas pessoas provam o contrário. Uma dessas pessoas foi o hermesdafonsecagaúcho Hermes da Fonseca, marechal do Exército e presidente da República nos albores do século 20. Tinha fama de azarado, o marechal Hermes. O povo dizia que ele tinha “caiporismo”. Chamavam-no, com irreverência carioca, de “Dudu”.

Realmente, “coisas” aconteciam com marechal. Em 1909, o velho presidente Afonso Pena escolheu o ministro David Campista como seu sucessor. Hermes queria ser ele o candidato. Fulo por ter sido preterido, irrompeu no gabinete do presidente a passo militar e jogou a espada em cima da mesa dele. Afonso Pena levou o maior susto, sentiu-se mal e saiu carregado da sala. Morreu um mês depois.

No ano seguinte, já empossado presidente, Dudu preparou uma recepção para o rei português Dom Manuel II, que visitava o Brasil. Quando estava fazendo o brinde em homenagem ao soberano, um mensageiro entrou correndo no salão e avisou que, em Portugal, a monarquia acabara de ser derrubada.

Tempos depois, o governo Dudu contraiu um empréstimo vultoso junto a um banco inglês. Esperto, o presidente determinou que cerca de metade do valor fosse depositado em um banco russo, que estava pagando juros altos. Bem. Em 1917, a revolução bolchevique encampou o banco russo.

Até a mulher do marechal, a bela e talentosa Nair de Tefé, foi vítima dos maus fluidos de Dudu. Um dia, quando ele já tinha deixado o governo, os dois foram passear em uma fazenda de amigos. O marechal estava numa charrete e Nair num carro aberto. Quando o carro passou pela charrete, Nair olhou para o marido e achou-o triste. Quis consolá-lo, desceu do carro e foi até a charrete. No momento em que ela foi subir, o cavalo disparou. Nair caiu, machucou-se e ficou o resto da vida com uma perna mais curta do que a outra.

Por todas essas, a súcia, a malta, a ralé, a arraia miúda cantava para o presidente:

“Ai, Filomena, se eu fosse tu Tirava a urucubaca da cabeça do Dudu”.

Mas isso é a súcia, a malta, a ralé, a arraia miúda, que acredita em sorte e azar. Eu, não. Por isso, digo sempre e digo de novo: agosto é nosso amiguinho.

Túnel do Tempo: Boa gente - Capítulo 8

24 de agosto de 2013 0

Topei. Tinha que topar, né. Uma proposta daquelas. Nada poderia dar errado. Bem, pelo menos era o que Itsuko prometia. Começamos a colocar o plano em execução. A primeira parte foi agradável. Precisávamos produzir as fotos, entende? Itsuko posicionava a câmera e corria para fazer… todas aquelas coisas comigo. Levou tempo isso e, ao cabo, sentia-me exausto porém recompensado por tamanho esforço. Vi as fotos e o resultado foi aprazível. Excitante, até, diria. Escolhemos as fotos em que meu rosto não aparecia e redigimos o e-mail juntos. Confesso que fiz muito pouco. Itsuko já havia pensado em tudo. Enviamos o e-mail. Ela me deu a senha e o laptop.

— Vá para casa e espere a resposta — disse.

Obedeci. Fui para casa satisfeito da vida. Tudo parecia muito tranqüilo. Meu único receio era o momento da entrega do dinheiro. O pai de Itsuko deveria colocar a mala com os vinte milhões num armário da rodoviária, levar a chave para um bar próximo e pedir para o atendente guardá-la e entregar apenas para um sujeito chamado Petrônio. O Petrônio era eu, claro. Não gostei muito do pseudônimo, mas Itsuko estava no comando…

— O atendente não pode ficar com a chave e abrir o armário e ficar com os vinte milhões? — desconfiei.

— Conheço o atendente. Ele é o dono do bar. Não é desonesto. Além disso, você vai passar no bar logo depois que meu pai sair. Vai ser tudo fácil, não se preocupe.

— Não me preocupo, não.

Mas não era verdade. Sentia uma réstia de preocupação no fundo da alma. Sentia medo de que o plano desse errado por algum motivo e eu acabasse preso. Mas procurei não pensar naquilo. Já que desencadeara a coisa, agora iria até o fim. Fui para casa e dormi. Necessitava de oito horas de sono restaurador. Na manhã seguinte, acordei e corri para o laptop. Abri o e-mail. Lá estava a resposta do japonês:

“Onde devo entregar o dinheiro?”

Só isso, sem mais perguntas ou considerações. Itsuko sabia mesmo das coisas! Redigi o texto com as instruções para o velho conforme eu e ela havíamos combinado. Ele deveria entregar o dinheiro na manhã seguinte, às 10 horas. Antes de enviar o e-mail liguei para Itsuko. Ela atendeu.

— A águia pousou! — disse-lhe, antes mesmo de dar alô.

— Maravilha! Vem aqui em casa. É melhor não falarmos por telefone. Traz o laptop.

Quarenta minutos depois, eu entrava na casa do meu irmão. Itsuko me recebeu de short. Um short azul-claro, minúsculo, que deixava à mostra as bochechinhas da nádega. Olhei para aquilo e fiquei arrepiado. Estava de pés descalços e cobria o torso com uma camiseta branca. Essa japetinha! Agarrei-a pelos flancos e puxei-a ao encontro do meu corpo.

— Itsuko! — rosnei.

Ela se livrou de mim. Recuou um passo.

— Agora, não — disse. — Agora vamos tratar de negócios.

Suspirei. Ela continuou:

— Anota aí o e-mail que você vai enviar a ele com as instruções sobre como entregar o dinheiro.

Anotei. Enviei o e-mail. Fechei o laptop.

— Estou preocupada com a reação do meu pai — Itsuko caminhava com seus pequenos pés descaçõs afundando no tapete de palmo de altura. Era linda aquela japonesa. Definitivamente. — Ele não lhe fez nenhuma pergunta, não falou nada. Você tem que ter cuidado. Ele é muito esperto.

— Tenho cuidado! — gemi, e a agarrei de novo.

— Não! — protestou ela, afastando-se mais uma vez.

— Por que não?

— Por que você ainda não latiu?

— Ahn?

— Late!

— O quê?

— Late! Você tem que latir!

Droga, eu não queria latir outra vez. Mas ela parecia decidida.

— Late! — mandou de novo.

Eu, sem muita convicção:

— Au.

— Late de verdade!

— Au… au…

— Late! Já mandei! Ou não vai ter! Não quer? — e, com um único golpe de braços, puxou a camiseta pelo pescoço. Seus dois pequenos e rijos seios ficaram apontando para mim.

Respirei fundo. Puxei o ar. E comecei:

— Auauauauauauauauauauauauauauauauauuuuuuuu!

Avancei. Mas ela me repeliu novamente.

— Auuuu… O que é agora? Auuuuuu…

— De quatro! — ordenou ela. — Late de quatro! Que nem um cachorrinho!

Suspirei mais uma vez. Caí de quatro. Lati com vontade. As coisas que a gente não faz por amor…

No dia seguinte…

Ah, você só saberá um pouco mais tarde o que aconteceu no dia seguinte! Aguarde, leitorinho!

Meus amigos, meus discos e livros, e nada mais

23 de agosto de 2013 29

Estava ouvindo de novo aquela música do Zé Rodrix que a Elis cantava com uma voz de semideusa do Monte Olimpo, Casa no Campo. Não é isso que toda pessoa de mente saudável quer? Um lugar tranquilo para viver, onde se possa plantar os amigos, os discos, os livros e nada mais. Um lugar em que se possa ouvir o silêncio das línguas cansadas.

Quero isso também. Não preciso de elevadores e escadas rolantes, não preciso de gravatas, carros importados, festas feéricas ou celulares com três gês. Pouco me importa o que está bombando nas redes sociais, a briga entre o Barbosa e o Lewandowski ou a alta do dólar. Não quero fama, não quero fortuna. Quero apenas a esperança de óculos e meu filho de cuca legal.

É pedir muito?

Hoje talvez seja.

As pessoas estão agressivas. Vi numa foto de jornal o rosto infeliz de um homem que teve o nariz e os dentes quebrados a socos por outro homem. Ele apanhou na frente da mulher e da filha de dois anos, que passou o dia vomitando devido ao trauma. Por que tanta brutalidade? Por causa de uma discussão de trânsito. Por causa de um carro que teve a lataria arranhada.

 

Leio que em todo o mundo os chamados black blocs se dedicam a quebrar coisas e a jogar bombas caseiras na polícia. Eles acreditam que o mundo vai melhorar pela violência.

E parece que no feriado de 7 de Setembro vão ocorrer mais manifestações

contra… tudo.

As pessoas estão insatisfeitas.

Não é por causa de 20 centavos, nem do excesso de carros, nem dos baixos salários, nem da falta de saúde, segurança e educação. As pessoas estão insatisfeitas porque o sistema de vida do século 21 não está funcionando. Não é o capitalismo que está errado, nem o socialismo, nem qualquer outro modelo. A vida, como está sendo vivida, é que está errada. Porque parece que as pessoas precisam de muito, parece que elas precisam de carros potentes, festas feéricas, celulares três gês, seguidores nas redes sociais, fama e fortuna, quando elas não precisam de nada disso, quando as pessoas só precisam de uma vida simples e boa. Só isso. Simplicidade. Apenas um lugar em que se possa ficar do tamanho da paz, em que se tenha a certeza dos amigos do peito, e nada mais.

Som de Sexta

23 de agosto de 2013 0

Escrevi o texto da minha coluna de sexta ouvindo esta oração cantada por Elis:

Túnel do Tempo: Boa gente - Capítulo 7

23 de agosto de 2013 0

Essa Itsuko. Aí estava uma japeta muito louca. Definitivamente. Manja o plano da mulher: eu tiraria fotos com ela em posições… comprometedoras. Eu e ela, entende? Nós fazendo… como direi para não chocá-los?… bem… tudo. Meu rosto não apareceria, só o dela. Aí eu enviaria as fotos para o pai dela por e-mail. Itsuko já havia criado o e-mail clandestino através de um laptop que, jurava ela, era seguro. Minha tarefa, além de posar para as fotos, era fazer a chantagem: vinte milhões de reais ou as fotos seriam colocadas na Internet. Outra: Itsuko me forneceu uma lista dos fornecedores, sócios e clientes do pai dela. Os contatos mais importantes do homem. Eu colocaria a lista no e-mail e ameaçaria o velho: se ele não me desse dinheiro, as fotos iriam para os senhores com quem ele fazia negócio, debaixo do título: “Veja o que a filha do seu cliente faz nas horas vagas”. Segundo Itsuko, não havia nada que seu pai valorizasse mais do que a própria imagem. Ele faria de tudo, pagaria o que nós quiséssemos, para que as fotos não fossem divulgadas. O homem era um conservador feroz. Certamente preferia que ela fosse seqüestrada a ser envolvido em um escândalo daqueles. Além do mais, vinte milhões era troco para ele. O pai, jurava Itsuko, devia ter mais de um bilhão, só que era um sovina, um ganancioso frio que pouco ligava para a família. Vivia a repetir que, para Itsuko, bastava a herança que ele lhe deixaria e a educação que ela tivera, colégios suíços e tudo mais.

- Ele merece! – gania Itsuko. – Merece!

- Mas o que ele vai fazer com você quando vir as fotos? – preocupei-me. – Ele vai ficar furioso com você e vai ficar decepcionado. Vai ficar ofendidíssimo!

- É exatamente isso que eu quero! Quero que ele sofra por minha causa! Quero que ele perceba que está na minha mão! Aqui! Na minha mão! - e deu com a esquerda um tapa na palma da mão direita – Quero que ele finalmente dê importância para a filha dele, o desgraçado! – a mulher estava com raiva do pai. Definitivamente. Percebi que se tratava de algo pessoal. De certa forma, eu estava sendo envolvido numa briga de família. Foi o que falei:

- Isso está me parecendo uma coisa pessoal…

- É pessoal! Mas também é pelo dinheiro. Quero aproveitar esse dinheiro que é meu. E quero antes que ele morra, puxa! Não quero ficar esperando a morte do meu pai como um abutre. Não quero ter que desejar isso, entende? Além disso, quando ele vai morrer? Quando eu tiver 60 anos??? De jeito nenhum… E, se eu tenho vinte milhões, posso dar dez a você, não posso? É tudo muito justo, Dan.

- Visto por esse ângulo…

- Muito justo!

- Mas o que você vai dizer a ele? Ele vai perguntar quem é o homem das fotos.

- Vou dizer que estava bêbada. Que foi numa festa. Que transei com tantos homens que nem lembro mais da cara deles.

- Você vai dizer isso???

- Vou.

- Meu Deus…

- Quero que ele sofra por causa da filha que ele criou, Dan. Ou, melhor: da filha que ele não criou.

- E ele não vai desconfiar? Não vai achar que é tudo armação sua? Não vai procurar o homem das fotos?

- Foi por isso que escolhi você, Dan. Ninguém suspeitaria de você, do meu cunhado.

Franzi o cenho. Tinha certa esperança de ter sido escolhido porque ela gostava um pouco de mim. Porque ela tinha certo desejo por mim. Itsuko notou o meu desagrado e corrigiu a declaração:

- Claro que eu sinto atração por você, Danzito – apertou a minha perna ao falar. Apertou bem alto, num ponto em que a coxa ligava-se à virilha. Foi bom. Eu disse:

- Uh!

Ela ronronou:

- Não faria isso com alguém de quem não gostasse ou não confiasse. Mas também tem o fato de você ser irmão do meu marido.

- Uh…

- Quem vai desconfiar do irmão do meu marido???

- Bem pensado… Uh…

- Isso se meu pai achar que tudo é um plano meu. Duvido que ele ache. Que mulher ia se expor dessa forma por vontade própria? Pode ter certeza de que isso está fora do alcance dele. Ele é bom em ganhar dinheiro, só. Mas, Dan, garanto a você: qualquer imbecil pode ganhar dinheiro. Digo mais: a maioria dos que têm dinheiro é imbecil.

- Grande plano – eu estava realmente admirado. – Muito engenhoso… Mas e o Rob? Ele não pode achar que o Rob faz parte do plano? Afinal, tirar essas fotos com o próprio marido não constrangeria ninguém.

- Ora! – ela gargalhou. – Você conhece o Rob. Ele é todo certinho! Todo correto! Você acha que alguém suspeitaria do Rob participando de algo assim?

Pensei um segundo. Só um segundo. Balancei a cabeça.

- É mesmo. Ninguém ia suspeitar.

Ela sorriu, orgulhosa. Apertou um pouco mais a minha coxa. Bem ali, ali… Ui… Miou:

- Então, você topa?

Fiquei em dúvida. Será que deveria participar daquela loucura?

 

Deveria? Participou? Sabia logo, no próximo e atrasado capítulo de… Boa Gente!