Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts de setembro 2013

Túnel do Tempo: BANDEIRA DOIS - Último Capítulo (Parte 3)

30 de setembro de 2013 0

Não funcionou. Naquele armário só deviam estar amontoadas as roupas de algum dos jogadores. O dinheiro se encontrava em outro ginásio, se é que a sua tese estava correta.

Havia outro centro de esportes perto dali, a menos de cinco minutos de carro. Mas Fred já se sentia nervoso com tudo aquilo. Tinha medo de que Renata tivesse deduzido o local do esconderijo do dinheiro e que o traísse. Que contasse para o namorado bandido.

Bem… era certo que ela descobriria o local. Todas aquelas perguntas que ele fez sobre os hábitos esportivos do Loguércio iriam fazê-la pensar. Mas talvez ela não o entregasse. Talvez ela fosse leal, afinal de contas… De qualquer forma, Fred não poderia vacilar. Precisava de rapidez, de agilidade. Seu maior medo era deparar com a quadrilha esperando por ele no ginásio, os bandidos prontos para torturá-lo, tomar-lhe a chave e matá-lo, por fim.

Chegou ao ginásio. Situava-se em frente a um motel e atrás da universidade. Estacionou o carro no pátio. Saiu do carro. Caminhou rapidamente para o vestiário. Fred conhecia aquelas quadras, também. Já marcara muitos gols lá.

O som da bola sendo chutada ecoava pelo ambiente. Ele entrou no vestiário. Seu coração dava pulos debaixo da camisa.

Encontrou o armário número 12.

Experimentou a chave.

Amanhã, a seqüência do último capítulo de BANDEIRA DOIS!

Alex Telles cruza muito!

30 de setembro de 2013 45

No Sala, outro dia, traçamos uma candente discussão acerca dos cruzamentos do Alex Telles.
O Pedro e o Wianey acham que ele não sabe cruzar.
Eu acho que ele cruza muito bem, é um dos melhores cruzadores do Brasil. É um raro lateral que vai ao fundo e, com pouquíssimo espaço, consegue colocar a bola na área.
Ontem, um belo cruzamento de Alex Telles deu a vitória ao Grêmio. Não lembro de todos os cruzamentos dele neste campeonato, mas vou fazer a iulustração de três. Vejam:

Grêmio 2 x 1 Botafogo:

Grêmio 2 x 0 Fluminense:

São Paulo 0 x 1 Grêmio:

Cruzar da linha de fundo não é fácil. Em geral, os laterais cruzam do bico da área. Mas Alex Telles consegue ir ao fundo e, com um palmo de campo, manda a bola para a marca do pênalti. Fez isso em praticamente todos os jogos do Grêmio. O problema é que Kléber e Barcos nunca estão na área. São atacantres deficientes. Vargas, que jogou pouco, aproveitou dois cruzamentos. Riveros o outro. Se o centroavante do Grêmio fosse um centroavante de verdade, Alex Telles estaria consagrado.

O que eu realmente queria dizer nesse momento

28 de setembro de 2013 11

bundaNo jornal a gente não pode escrever nome feio. No rádio e na TV até pode dizer um pouco, dependendo do nome, da hora e do programa. No Pretinho Básico, da Atlântida, os guris vivem falando palavrão, e soa muito natural. Claro, não dizem todos. Os palavrões mais cabeludos chocariam os ouvintes.

Tempos atrás não se podia dizer nada que se assemelhasse com o chamado “calão”. Uma vez, o locutor de uma rádio lá de Criciúma foi narrar gol do Mica, um ponta-direita que até jogou no Inter, e gritou assim:

– Mica goooooollll…

Deu a maior confusão. Queriam demiti-lo e tudo mais. Hoje, as pessoas dariam risada, mas ninguém se ofenderia.

*********

Uma vez o Lula, radiante presidente da República, disse palavrão num discurso. As pessoas ficaram escandalizadas. Como pode o presidente do Brasil falar palavrão em cerimônia oficial? O Lula, porém, sempre foi visto como o homem do povo que é, e por isso lhe perdoaram o palavrão. Ele fala a tal “língua do povo” e bibibi. Bobagem. Todo mundo, rico, pobre e classe média que faz passeata, todo mundo fala palavrão. E é bom falar palavrão. O cara desabafa quando fala um palavrão. Que vontade de falar um palavrão.

Lula

Foto: RICARDO MORAES, AP, BD

********

Na Zero Hora não se podia escrever a palavra “bunda”. Era feio. Mas, uma vez, escrevi uma coluna cujo título era, exatamente, “Bunda”. Uma bunda bem grande no alto da crônica. Não que estivesse desafiando as normas do jornal, nada disso. É que decidi contar sobre a origem da palavra bunda, que é muito interessante e é a seguinte, novo parágrafo:

Grande parte dos escravos do Brasil vinha de Angola, da província de Luanda, onde se fala a língua Quimbundo, ou, simplesmente, “bundo”. Bem, você sabe que um dos predicados da raça negra é, exatamente, o derrière avantajado, redondo e rijo, predicado este que, com a bênção do Senhor, foi herdado geneticamente pelas mulheres brasileiras, propiciando a este país tropical a criação de loiras com nádegas de negras, um doce fenômeno da evolução das espécies com o qual Darwin jamais deve ter sonhado em seus mais loucos devaneios.

Mas o que eu ia dizendo é que as negras trazidas da África eram dotadas de grandes e belas nádegas, característica muito apreciada pelos colonizadores portugueses, isso todo mundo sabe, português adora uma mulata. Como essas lindas negras falavam o quimbundo, ou seja, o bundo, os portugueses passaram a chamar essa parte do corpo delas que eles mais admiravam de bunda, e assim fez-se a redonda e sonora palavra “bunda”.

Foi isso que escrevi na Zero Hora naquele tempo em que não se podia escrever a palavra bunda. Hoje pode. Não sei se fui o precursor, mas já vi várias bundas nas páginas. A bunda foi liberada na ZH. O que é ótimo, porque “bumbum”, francamente, é ridículo.

********

É bom dizer um palavrão de vez em quando. Desopila. Graficamente, até posso me aliviar chamando alguém de um baita dum WOLCRISTREMB UGSON@$%$#@!%¨¨&*()((*&**+_ @#FLAVIKSTERMBERG!! Mas não é a mesma coisa do que um palavrão dito com nome e sobrenome, não mesmo.

Por isso, você há de me perdoar se, em algum momento, por alguma razão bastante justificável, eu diga um palavrãozinho. Agora, inclusive, nesse fim de setembro, depois de um inverno interminável e duro, agora quando a Primavera começa com chuva e frio e sabe-se lá o que virá em outubro, eu gostaria de escrever uma palavra mais forte, mais pesada, mais pedregosa e, ao mesmo tempo, mais deliciosamente verdadeira, mas vou me contentar com pouco, quase nada, vou dizer, singelamente, como se sussurrasse em seu ouvido, amigo leitor: esse clima de Porto Alegre é uma merda.

chuva

Foto: RICARDO DUARTE, BD, 22/09/2007

Sala de Redação

27 de setembro de 2013 6

Ouça o Sala de Redação desta sexta-feira:

Som de Sexta - II

27 de setembro de 2013 0

Outra cena memorável do True Stories:

Inter ainda tem tempo para mudar

27 de setembro de 2013 4

O Inter pode, sim, passar pelo Atlético-PR e seguir em frente na Copa do Brasil.
Mas vai ter que melhorar muito.
O time simplesmente não consegue ganhar de ninguém, em lugar algum.
A boa notícia é de que há tempo para isso. A próxima partida será na última curva de outubro.
Nesse interregno, a direção pode diagnosticar o que está errado e agir.
Os homens que dirigem o Inter têm competência suficiente para isso.

Túnel do Tempo: BANDEIRA DOIS - Último Capítulo (Parte 2)

27 de setembro de 2013 3

Um lugar perto da PUC, dissera Renata. Fred conhecia pelo menos três centros de futebol nas imediações da PUC.

Voou até as cercanias do campus da universidade. Calculou ter sido multado por no mínimo dois pardais, no caminho. Pouco importava. Ficaria rico. Pagaria todas as multas com juros, se fosse preciso. Mas não seria preciso. Não pretendia continuar morando no país. Não pelos próximos anos.

Chegou ao primeiro ginásio. Na verdade, um complexo de quadras. Já havia jogado lá, conhecia o local. Já havia jogado na maioria das quadras da cidade. Tratava-se de um fominha consumado. Podiam criticá-lo por isso, mas era esse hábito que o faria encontrar cinco milhões. Ao menos era o que achava.

Fred caminhou por entre as quadras com decisão, sabendo para onde ir. Havia gente jogando, mas ele nem sequer conferiu como iam as partidas, como faria em uma ocasião menos tensa. Olhava fixamente para a porta do vestiário masculino, no fundo do corredor.

Estava aberta. Ele entrou. Tirou do bolso a pequena chave que encontrou colada à peruca de Loguércio. Sorriu. Inteligente, aquele Loguércio. Quem suspeitaria que ele guardava cinco milhões debaixo da peruca? Conferiu o número da chave: 12.

Localizou o armário número 12.

Experimentou a chave.

Amanhã, a seqüência do último capítulo de BANDEIRA DOIS!

Som de Sexta

27 de setembro de 2013 0

Nos anos 80 fui ver esse filme, True Stories, com o pessoal da faculdade.
Gostei demais, porque gostava demais do Talking Heads.
Gosto também do John Goodman, que interpreta essa bela canção do grande David Birne.
Pessoas como nós, que atendem elas mesmas o telefone, não querem liberdade, não querem justiça, só querem alguém para amar, dizia o velho e bom John Goodman.

Uma coisa brilhante na calçada

27 de setembro de 2013 6

Outro dia, caminhava de mãos dadas com meu filho e vimos um brinco caído na calçada. Antes de prosseguir , preciso dizer que gosto muito de caminhar de mãos dadas com meu filho. Ao segurar-lhe a mão de menino, sinto como se pudesse protegê-lo de todos os males do mundo. Uma ilusão boba, claro que sim, mas esse momento, para mim, é de intensa paternidade, e uma das poucas coisas de que sinto real orgulho é de ser pai.

Com essa informação, o leitor perceberá o tamanho da minha insignificância. Qualquer um pode ser pai, sempre houve pais no mundo, há bilhões de pais por aí, e é essa condição trivial que me faz sentir orgulho. Quisera eu ser um paladino da justiça, um defensor dos oprimidos, um mobilizador de multidões, um talento genial em qualquer coisa. Não sou. Sou apenas pai. Um pai banal. E o pior é que gosto disso. Isso me satisfaz. Cada qual com suas limitações.

Mas o brinco. Era um brinco de mulher de forma ovalada, do tamanho de uma moeda de um real. Faiscava num desvão da calçada. Um único brinco, seu par não cintilava pelas cercanias, suponho que balançasse solitário do lóbulo da orelha de sua dona, onde quer que ela estivesse.

Agachei-me, colhi o brinco do chão e dei para o meu filho. Ele ficou a analisá-lo. Nesse momento, já tinha se despegado da minha mão. Isso me incomoda
um pouco: quando ele pode, se solta da minha mão. Eu ali, pensando em protegê-lo, pensando na paternidade e tudo mais, e ele querendo independência
aos seis anos de idade. Francamente.

De qualquer modo, o que interessa é o brinco. Não devia ser valioso. Não sou conhecedor de joias, mas aquele brinco dava a impressão de ser uma reles bijuteria. Quanto custaria? Cem reais? Duzentos? Não faço ideia.

Meu filho sorria enquanto examinava o brinco, e sorrindo olhou para cima, fitou-me nos olhos e disse:

– Vamos dar para a mamãe?

Antes que eu respondesse, ele tornou a olhar para o brinco, colocou-o com cuidado no bolso da jaqueta, e comentou:

– Ela vai adorar. As mulheres adoram coisas brilhantes…

Com essa conclusão, olhou para a frente e fez o que eu queria, mas não esperava: pegou na minha mão. Seguimos caminhando, pai e filho, ele sorrindo, satisfeito, e eu pensando que ele tinha razão: as mulheres adoram coisas brilhantes.

Túnel do Tempo: BANDEIRA DOIS - Último Capítulo (Parte 1)

26 de setembro de 2013 0

Antes de descer do carro, Renata puxou Fred pelos ombros. Beijou-o na boca.

Beijou-o com volúpia, trançando sua língua na língua dele, beijou-o com os lábios bem abertos. Ofegantemente. Sensualmente. Fred ficou excitado. Queria mais daquela mulher. Queria cada vez mais.

Ela entrou no táxi. Afastou-se olhando para trás. Fred abanou, enquanto ela sumia na avenida cinzenta. Em seguida, ele dirigiu até um posto de conveniência. Instalou-se numa mesa, pediu um café e sacou o celular. Fez três ligações. Pagou. E voltou ao carro.

Agora começaria a parte mais perigosa do seu plano. Agora ia buscar o dinheiro!

Amanhã, a seqüência do último capítulo de BANDEIRA DOIS!

Renato mostra sua capacidade

26 de setembro de 2013 38

O Grêmio fez um belo enfrentamento com o Corinthians, ontem, em São Paulo.
Os dois times foram compenetrados, dedicados, abnegados.
Foi um jogo de técnicos de futebol. Se alguém tinha dúvidas da capacidade de Renato como treinador, as desfez ontem, assistindo à partida.
Renato sabe o que quer com o time do Grêmio, e os jogadores sabem o que ele quer, compreendem-no e acatam-no. Não existe maior patrimônio para um técnico.
O Grêmio é um time sem estrelas, que se esforça o tempo todo. É assim que vence suas partidas.
O Corinthians não é muito diferente.
O único jogador que se destacava dos outros, nas duas equipes, era Emerson. No primeiro tempo, ele deu muito trabalho atuando pela esquerda. No segundo, foi parado.
Foi um jogo de iguais. O Corinthians melhor no primeiro tempo, o Grêmio melhor no segundo.
Qualquer um pode vencer na Arena.
O Grêmio teria real vantagem se seus atacantes fossem melhores. Não são. Mas são inteligentes e se entregam ao time. Não é o ideal, mas talvez seja o suficiente.

Túnel do Tempo: BANDEIRA DOIS - Capítulo 14

25 de setembro de 2013 0

Renata tirou o vestido. Foi isso que ela fez. Levou as mãos às costas e, num movimento de ombros, obrigou o vestido negro a deslizar pelo corpo. Que corpo! Renata ficou só de calcinha e sapatos de salto alto. E gargantilha. Fred adorou a gargantilha.

Renata deu um passo para fora do vestido, para frente, na direção de Fred. Mais um passo, espetando o peito dele com seus seios rijos. Fred sentiu a garganta se fechando. Renata entreabriu os lábios carnudos e ciciou:
— Como disse antes, gostei de você, garoto.

Fred achou que era uma armadilha. Só podia ser mais uma cilada sexual daquela morena que sabia usar seus encantos como nenhuma outra mulher que ele já encontrara na vida. Mesmo assim, não resistiu. Como resistir? Quem resistiria?

Valeu a pena. Daquela vez foi ainda melhor do que da outra. Ou talvez não tenha sido melhor, mas foi diferente, foi mais lento e mais profundo.

No fim da manhã, Fred ligou para a recepção e pediu filés com fritas. Enquanto almoçavam, nus, sentados um em frente ao outro na pequena mesa quadrada do motel, Fred insistiu:
— Preciso saber, Renata. Preciso saber. Não sei o que você tem na cabeça, o que você quer, mas, se você tem a menor consideração por mim, me ajuda nisso: eu preciso saber.

Renata suspirou.
— Está bem — recostou-se na cadeira. — Vamos lá: sou namorada de um sujeito perigoso, chefe de um pessoal que negocia com drogas. Esse pessoal estava negociando com outro pessoal.
— Duas quadrilhas.
— Isso. Duas quadrilhas.
— Ambas de drogas?
— Entre outras coisas. São bandos de lugares diferentes. Eles são de fora do Estado.
— Os que me agrediram?
— Esses.

— O que estavam negociando?
— Armas, drogas, coisas que é melhor você não saber. O fato é que tinha muito dinheiro envolvido. Para variar, uma mala de dinheiro. Sempre é uma mala de dinheiro, não é? — ela sorriu. — A mala ia sair deles e vir para nós. Nós entregaríamos um material para eles…
— Drogas?
— Já disse que é melhor você não se inteirar desses detalhes. Saber disso só será ruim para você. O certo é que eles nos entregariam cinco milhões.
— Uau!
— E o Loguércio sumiu com esses cinco milhões.
— Uau! — Fred aprumou-se na cadeira. — Cinco milhões…
— Mas nós o encontramos e o levamos para aquela casa para onde arrastei você — Renata emitiu uma risadinha. — É engraçado. Aquela casa entrou na história por acaso. É a casa do primo do meu namorado.
— Primo do chefe do bando?
— Primo do chefe do bando. Ele foi viajar com a mulher e pediu algo muito singelo para o meu namorado — Renata riu de novo. Fred ficou esperando que ela dissesse o que o primo pediu. — Ele queria que meu namorado alimentasse os cachorros dele.
— Do primo? Os cachorros do primo? Ele não sabe o que faz o seu namorado?
— Claro que não. Pensa que ele tem uma revenda de automóveis. Que meu namorado até tem, mas é de fachada. Aí, quando encontramos o Loguércio, o meu namorado teve a idéia de levá-lo para a casa. Para interrogá-lo. Ninguém suspeitaria daquela casa. Uma casa quente. Só que o pessoal exagerou no interrogatório, o cara teve um ataque, sei lá, e morreu.
— Exagerou mesmo. Eu vi o estado do cara. Mas aí vocês tinham de se livrar do corpo.
— Exatamente.
— E pensaram em atrair um taxista.
— A idéia foi minha — ela estava orgulhosa. — Mas tem algo que você precisa saber: não era para eu transar com você. Era para dsitraí-lo. Mas, como já falei, gostei de você, garoto.
— Sei.
— Gostei mesmo. Gosto.

Fred não conseguiu evitar o sorriso.
— Também gosto…
— Meu namorado está furioso. Suspeita que nós tivemos algo naquele quarto, mas não tem certeza. Eu nego sempre. Se souber que estamos aqui, você está morto. Bem morto.
— Que maravilha… Tenho outra dúvida: como é que os caras da outra quadrilha me encontraram?
— Eles estão suspeitando que o meu namorado combinou o roubo com o Loguércio. Mas meu namorado está escondido, obviamente. Devem ter feito campana nas casas de todos os parentes dele, que não são muitos. Aí viram o seu táxi rondando e foram atrás de você, achando que você está envolvido ou sabe de algo.
— E hoje você foi devolver a chave da casa para o primo do seu namorado, a pedido do seu namorado.
— Muito bem. Isso mesmo.
— Você tem idéia de onde o Loguércio escondeu o dinheiro?
— Nenhuma. Ele foi revistado, naquele dia. Tiraram as roupas dele, até as cuecas. Não havia nada que desse uma pista.

Fred se aprumou na cadeira. Agora a história tornava-se clara em sua cabeça. Tudo se encaixava. Mas o mais importante é que ele tinha um palpite sério, uma idéia bem factível de onde podia estar o dinheiro. Porém, precisava ser cuidadoso. Não sabia quais eram os limites da lealdade de Renata.

Queria confiar nela, mas não tinha certeza de nada a seu respeito. Mal a conhecia. Sabia que era uma mulher selvagemente livre, uma devoradora de homens, uma mulher confiante e que sabia como se mover no mundo.

Sabia também que ela gostava de transar com ele. Que era uma mulher destemida, capaz de se relacionar com um perigoso chefe de gangue. Agora, o que mais poderia esperar dela? Será que ela não o trairia facilmente, se soubesse que ficaria com os cinco milhões? Provavelmente sim. Fred necessitava de toda a cautela possível. Começou tateando:
— Me diz: quais eram os hábitos desse cara?
— Do Loguércio? Que tipo de hábitos?
— Ele… — cuidado, cuidado! — …praticava esportes?

Renata pôs-se ereta na cadeira. Estava desconfiada. Fred concluiu que precisava ter mais cuidado. Ainda mais cuidado…
— Por que você pergunta?
— Só um palpite. Ele praticava esportes?
— Hmm… Jogava futebol várias vezes por semana. Umas três, acho.
— Fominha como eu… Você sabe onde?
— Num lugar perto da PUC.
— Ah… — Fred sentiu um arrepio de excitação.
— Por quê? — insistiu Renata. — Você não perguntaria isso em vão.
— Só uma idéia.
— Que idéia?

Ela já parecia agastada. Fred percebeu que teria de lhe dizer algo, se não quisesse que ela ligasse agora mesmo para o namorado e o denunciasse. Além disso, Renata era uma mulher inteligente, já devia estar desconfiada daquelas perguntas. Para ela deduzir que o dinheiro poderia estar onde Fred achava que estava era um passo.

—Seguinte — Fred começou. — Tenho uma idéia de onde pode estar o dinheiro, e é algo ligado a esse hábito do Loguércio de jogar futebol. Você precisa confiar em mim. Você confia em mim?

Renata ergueu uma sobrancelha:
— Você confia em mim?

Fred sorriu:
— Confio.

Renata riu o seu risinho irônico;
— É um bom homem… Tudo bem. Pode confiar em mim. Qual é a sua idéia?
— Vou tentar achar esse dinheiro para nós.
— Para “nós”?
— É. Ou você quer ficar com o seu namorado bandido?
— Já disse que gostei de você, garoto. Gostaria de ficar com você.
— Então nós precisamos agir juntos. Tenho um plano. Vou tentar encontrar o dinheiro. Enquanto isso, você volta para casa, para não despertar suspeitas, e liga para uma agência de viagem. Compra duas passagens para o Chile para amanhã mesmo.
— Chile? — Renata enrugou o nariz.
— Chile. Gostaria de passar uma temporada no Chile. Já ouvi falar muito bem do Chile. Depois, podemos viajar pela América Latina, para o Peru, conhecer Machu Pichu. Sou historiador, sempre quis conhecer os restos do Império Inca.
— Hmm… Quem sabe começamos por Buenos Aires?
— Pode ser. É até mais fácil de conseguir as passagens. Mas tem que ser para amanhã sem falta. Você liga para o meu celular, me diz o horário do vôo e nos encontramos no aeroporto. Pode ser?
— Hmm, pode. Espertinho, você… Onde você vai passar esta noite, já que seu apartamento está vigiado?
— Eu me viro. Vou para um hotel.
— Certo, certo… — Renata estava refletindo. — Você me deixa num ponto de táxi? Já ficamos tempo demais aqui.
— Vamos, então.
— Vamos.

Enquanto dirigia até o ponto de táxi, Fred pensava se poderia confiar nela, se não teria uma surpresa ao chegar ao aeroporto, se conseguiria mesmo descobrir onde estava o dinheiro. Pensava em tudo isso e se angustiava. O que ia acontecer?

O quê?
Saiba logo, no capítulo derradeiro de… BANDEIRA DOIS.

Sala de Redação

25 de setembro de 2013 2

Ouça o Sala de Redação desta quarta-feira:

Sala de Redação

24 de setembro de 2013 3

Ouça o Sala de Redação desta terça-feira:

Túnel do Tempo: BANDEIRA DOIS - Capítulo 13

24 de setembro de 2013 2

Renata.
Renata.
Renatarenatarenatarenatarenatarenatarenatarenatarenatarenatarenatarenata!

Ali estava uma mulher boa de se olhar. Tanto que Fred quase esquecia do que ela lhe fizera. Malvada! As mulheres são pérfidas, Fred sabia disso, mas aquela era ainda mais pérfida! Bom… pelo menos eles tiveram aquelas horas de prazer. Oh, que horas! Fred permaneceu dentro do carro, vigiando, com o braço estendido sobre o banco do carona.

Renata desligou o celular, consultou o relógio de pulso e depois lançou o olhar para a porta do edifício. Com certeza, aguardava a chegada de alguém. Fred cogitou de descer do carro e ir lá, abordá-la. Só que a pessoa que ela esperava poderia chegar, e Fred não queria encontrar mais ninguém da quadrilha. Resolveu esperar um pouco mais.

Em dois minutos, a pessoa que ela esperava apareceu — o homem que Fred vira entrar e sair da casa onde se refestelara com Renata. O homem caminhou vacilante na direção dela, como se não a conhecesse e estivesse inseguro para saber se ela era realmente quem devia ser.

Seus olhares se encontraram, em confirmação. O homem estendeu-lhe a mão. Cumprimentaram-se com formalidade. Fred teve certeza de que não existia intimidade entre eles. Em seguida, ela abriu a bolsa e de lá tirou algo. Fred forçou a vista: era um chaveiro. Um molho de chaves. Mais uma chave nessa história! Os dois se despediram com brevidade e ele se foi, edifício adentro, com a chave na mão.

Renata deu meia-volta e saiu caminhando pela calçada. Fred se apressou: abriu a porta do Fiesta e correu atrás dela. Atravessou a rua, alcançou-a e, antes que ela percebesse estar sendo seguida, agarrou seu braço, perguntando:
— Quer táxi, moça?

Renata virou-se, indignada.
— Mas quem é que…

Então o reconheceu.
— Ah… Você…
— Eu mesmo!

Fred manteve o braço de Renata seguro. A expressão no rosto da morena se distensionou. Relaxou, ao vê-lo. Sorriu:
— Eu disse para você não me procurar mais, nem ir àquela casa outra vez.
— Pois é. Eu fui.
— Garanto que esse galo na sua testa tem algo a ver com isso.
— Tem — Fred alisou o ferimento. — Obra dos seus amiguinhos.
— Não são meus amiguinhos.
— O que eles são?
— Meus inimiguinhos.
— Inimigos? Que história é essa?
— Acho que não é bom ficarmos conversando aqui, desse jeito. Alguém muito mau pode nos ver juntos e não gostar.
— Alguém muito mau. Você deve conhecer pessoas más, realmente. Vamos até o meu carro.
— Vamos. Eu ia tomar um táxi mesmo.

Ao chegar ao Fiesta, ela se surpreendeu.
— E o táxi?
— Seus inimiguinhos estão de olho nele. Tive que pegar outro carro.

Entraram no Fiesta.
— Vamos para o seu apartamento? — perguntou Fred, ligando o carro.
— No meu apartamento estão pessoas das quais você não vai gostar de ver.
— Onde, então?
— Um lugar discreto.

Fred fez o carro arrancar. Dirigiu em silêncio. Sabia onde ir. Havia um bom motel não muito longe dali. Um lugar discreto, afinal. Seguro. Eles poderiam conversar e Fred resolveria aquele mistério.

E, bem, tinha de admitir: Renata o excitava. Estar com ela em um motel seria ainda mais excitante. Quando o carro enveredou pelo portão do motel, Renata sorriu, mas não disse nada. Fred pediu um apartamento. Entraram. Renata sentou-se no colchão.
— É muito cedo para beber — ela comentou.
— Quero saber o que está acontecendo — falou Fred, parado no meio do quarto.
— O que você quer saber?
— O morto que você colocou no meu porta-malas…
— Não coloquei morto nenhum no seu porta-malas.
— Algum cúmplice seu colocou. Ele se chama Loguércio, certo?
— Como é que você sabe?
— Seus inimiguinhos perguntavam por ele enquanto me espancavam. Quem é ele? Ou melhor: quem era? Ele escondeu algum dinheiro, certo? Decerto o dinheiro desses caras que me agrediram. Que dinheiro era esse? Ele roubou esse dinheiro? Como você está metida nessa história? Como você…
— Pára! – Renata se levantou.

Fred se calou, surpreso. Renata olhou fixamente para ele. E o que fez em seguida o surpreendeu ainda mais.

O que ela fez? Saiba muuuito em breve, no próximo capítulo de… BANDEIRA DOIS!