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Túnel do Tempo: Você é o Juiz — Último capítulo (parte um)

30 de outubro de 2013 0

Como já disse, você é o meu juiz. Quero que você me julgue. Que dê sua opinião. E que seja sincero: faria o mesmo que fiz, se estivesse em meu lugar? Sim ou não? Seja sincero, por favor. Seja objetivo.

Também eu tentarei ser sincero e objetivo. Vou contar o que ocorreu depois que saí da mansão. Caminhei algumas quadras e tomei um táxi. Levei o saco de pano com as jóias para o escritório e fechei-as à chave em uma gaveta da minha escrivaninha. Fiquei olhando para a gaveta por alguns segundos. Aquele arranjo não me deixava tranqüilo, em absoluto. O roubo poderia ser descoberto a qualquer momento. Contava que Laércio não me acusasse, mas, pressionado, ele era capaz de falar algo que me incriminasse, ou quem sabe a jararaca da minha sogra fosse capaz de me acusar, sabe-se lá. O fato é que não era impossível de que a polícia desse uma batida no escritório. Revistariam tudo, e aí eu estaria perdido: perderia o casamento com a filha do chefe, a cunhada gostosa que volta e meia cedia-me seus favores, a empregadinha voluptuosa que eu planejava pegar nos banheiros da vida, o emprego fácil e de bom salário, a casa em que morava, e ainda seria preso. Nada agradável. Mas não havia saída: precisava retornar o quanto antes para o escritório, para que meu álibi não fosse implodido. Ou seja: não tinha tempo para levar as jóias ao chantagista naquele dia. Até demorei mais do que esperava, com toda aquela função da cozinheira Jenifer, mas pelo menos consegui entrar sem ser notado.

Guardadas as jóias, saí do escritório a fim de ser visto pelo maior número possível de empregados. Eles tinham de saber que eu estava ali, trabalhando, enquanto lá na mansão o mordomo furtava as jóias da patroa. Circulei bastante pela empresa e, depois, voltei ao escritório e liguei para o agiota Lopes. Pedi-lhe mais um dia de prazo. Afinal, já tinha as jóias em meu poder, mas não podia me ausentar, sob pena de esfumaçar meu álibi. Só poderia entregá-las no dia seguinte.

- É muita coisa - assegurei. - Tanta que você vai me dar uma grana a mais para eu cobrir o rombo da transportadora.

- Vamos ver - grunhiu ele. - Se você estiver mentindo, vou pedir para o meu amigo trazer um dos seus dedinhos para mim como lembrança. Não existe aquele ditado: vão-se as jóias mas ficam os dedos? Pois é: se as jóias não vierem, quem virão serão os dedos.

Engoli em seco. Senti um arrepio percorrer-me a espinha. Olhei para o curativo em minha mão molestada, a bandagem branca e dolorosa. Pretendia ficar com todos os meus dez dedos, todos eles eram importantes para mim.

- Pode ficar tranquilo - jurei. - Amanhã, sem falta.

- Eu estou tranquilo - ele rosnou. - Você é que não deveria estar.

E desligou.

Em que situação me meti, francamente!

Fiquei na transportadora o máximo que pude. Queria que o roubo fosse descoberto antes de eu chegar em casa. Saí à noite, esperando encontrar um carro de polícia parado em frente à mansão. Mas não encontrei nada disso. Ao contrário: a casa estava calma, minha mulher, a bruxa da mãe dela e meu sogro-patrão jaziam aboletados em sofás diante da TV; Laércio deslizava, magro e silencioso como uma serpente, pelos corredores labirínticos da mansão; a cozinheira Jenifer e seu corpo de chacrete desapareceram nos esconderijos da despensa; e Luana, ah, Luana, ela havia entrado numa daquelas sainhas plissadas bem curtas, suas lindas pernas luziam ao ar livre, as meias três-quartos chegando-lhe à fronteira dos joelhos redondos, seus seios perfeitos mal se contidos por uma camisa branca, de mangas curtas e botões estourando no peito, era assim que Luana se vestia quando surgiu faiscante na sala. Riu um riso de malícias, de mulher que se sabe desejada.

- Hoje eu vou sair de colegial - anunciou, festiva.

Olhei para ela e senti a excitação pulsar-me no entrepernas.

- A… aonde você vai? - consegui perguntar, desesperado de desejo.

- Por aí… - desconversou ela, saindo a saltitar escada acima.

- É muito perigoso essa menina sair por aí desse jeito - gemi com dificuldade. - Vocês não deviam deixar…

- A Luana? - riu meu sogro. - Ela é que é o perigo! Os homens que se cuidem com essa garota!

- O Rildo ainda enxerga a Luana como uma menininha – ciciou Larissa, passando a mão por meus cabelos.

- Humf! - fez a sogra.

Em alguns minutos, Luana adejou casa afora. Tentei esquecê-la. Concentrei-me na questão das jóias. Decerto o roubo seria descoberto quando fôssemos dormir: a velha tiraria as jóias que havia usado durante o dia e, no momento de guardá-las, depararia com a caixa vazia. Seria um gritedo, uma loucura, a casa viria abaixo. Teria de estar bem preparado para representar minha surpresa e indignação ante o roubo.

O resto da noite transcorreu lentamente, as horas se esvaíam pastosas, sem que nada acontecesse. Perto da meia-noite, nos recolhemos. Fiquei de ouvidos atentos, esperando os berros da sogra. Mas não. Nada aconteceu. De olhos abertos no escuro, deitado ao lado de Larissa, que ressonava baixinho, calculei que a víbora não havia guardado as jóias na caixa. Devia tê-las deixado sobre uma penteadeira, algo assim. O escândalo se daria no dia seguinte. Ou não?

O que aconteceu? Saiba AMANHÃ, na segunda parte do último capítulo de… Você é o juiz!!!

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