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Posts de outubro 2013

Túnel do Tempo: Você é o Juiz — Último capítulo (parte final)

31 de outubro de 2013 3

E lá se foi a noite, e a manhã me encontrou desperto, aguardando…

Aguardando…

Mas nada acontecia. Tudo parecia normal. Será que havia algo errado?
Sentei-me à mesa do café sem fome. Mesmo assim, trinchei uma torrada, tomei um gole de café com leite, subi, escovei os dentes, já me preparava para sair, quando, enfim, ouvi o que tanto queria ouvir:

- Minhas jóóóóóóóiaaaaas!

A voz roufenha de dona Mirtes fez a mansão estremecer. Corremos todos escada acima e a encontramos no chão do quarto, a porta do roupeiro aberta e a caixa de jóias vazia rojada no carpete. Dona Mirtes soluçava:

- Roubaram tudo! Tudo! As jóias da minha família!!!

Era mamãe pra cá e Mirtes pra lá e calma e calma e traz um copo d´água com açúcar e chama a polícia e que absurdo meu Deus!

Em alguns minutos, a polícia chegou com estardalhaço. Todos fomos ouvidos. Tentei ser racional em meu relato. Disse que suspeitava dos homens que me haviam assaltado, pouco tempo antes. Eles me ouviram com severidade. Perto do meio-dia, consegui ira para o escritório. Então, fiz o que tinha de fazer: levei as jóias ao agiota, paguei a dívida e ainda consegui mais algum para repor o desfalque no caixa da empresa. Sei que ele saiu ganhando, as jóias valiam muito mais do que eu devia, mas não estava em condições de negociar.

Quando voltei para casa, soube da notícia: Laércio havia sido preso. Descobriram o colar em sua gaveta e o levaram algemado. Chantagista desgraçado. Ele bem que mereceu!

Portanto, minha situação ficou assim: continuei com meu casamento e com meu emprego, continuei morando onde morava e com as perspectivas profissionais que tinha antes de todas essas aventuras. A cunhada? Bem, essa eu não sabia se teria de novo. Será que ela seria fiel ao grandalhão? Duvido. Mas será que continuaria se interessando em mim? Um mistério.

A cozinheira? Dessa vou falar em seguida.

O fato é que cometi adultério com duas mulheres diferentes, sendo uma delas minha cunhada e a outra a cozinheira da casa em que morava, roubei, fui autor de um desfalque na empresa em que trabalho, enganei a todos e coloquei um homem inocente na cadeia. Admito: fiz tudo isso. Mas, considerando as circunstâncias, fiz errado?

Diga-me você: você resistiria à cunhada sedutora? Não? E, se não resistisse e fosse pego, como fui pelo mordomo, praticaria desfalque para pagar a chantagem? E, se o plano de lucrar com o desfalque falhasse, roubaria para se safar? Incriminaria um homem inocente, ainda que esse homem tivesse tentado lhe chantagear? Você faria isso tudo? Seja meu juiz! Estou esperando serenamente seu veredicto. Aguardo seu comentário.

Talvez você desaprove que eu, tantas vezes pecador, tenha saído de todas essas aventuras e desventuras sem punição. Pois garanto: não foi exatamente isso que ocorreu. Porque um dia depois da prisão de Laércio, ela veio me procurar.

Ela.

Jenifer.

A cozinheira.

Fez um sinal para que eu saísse da sala em que lia a última Ele e Ela, com a Sândi nua na capa. Segui-a até um dos banheiros da casa, como aquela casa tinha banheiros, Jesus Cristo! Foi então que Jenifer miou com sua vozinha de arroz-com-leite:

- Seu Rildo, eu queria lhe falar sobre tudo o que aconteceu…

Senti o peito se me oprimir.

- Tudo o quê?

- Tudo: o que houve entre nós, a prisão do Laércio, as jóias roubadas, aquela tarde…

Comecei a compreender o que ia acontecer. Estava nas mãos da cozinheira. Ela podia me chantagear de diversas formas: podia contar que a possuí, podia contar do roubo das jóias, podia me desgraçar definitivamente. Suspirei.

- O que você quer, Jenifer?

- O senhor mesmo disse que ia me dar uma recompensa…

- Quanto, Jenifer? Quanto? - já estava me acostumando a lidar com chantagistas.

- Bom… Acho que tudo ia ficar bem com uns duzentos mil…

- Duzentos mil?!?! Duzentos mil, Jenifer?!?!?!!!!

Olhei para ela. Seus lábios carnudos sorriam levemente. Debochadamente. Seus grandes olhos castanhos coruscavam de satisfação. Ela sabia que eu não tinha saída. Sabia que havia me derrotado. Fechei os olhos. Abri-os. Olhei para cima. Para o teto do banheiro. Para o firmamento. E pensei, em desespero: o que fiz de errado para merecer tanto sofrimento? Me diga: o quê???

Grêmio: derrota acabou saindo barata

31 de outubro de 2013 33

Renato acertou ao escalar Yuri Mamute e Lucas Coelho. Com dois atacantes, manteve o esquema que vem dando certo e mantinha a ideia de ser um pouco agressivo.
Não conseguiu porque os dois, Mamute e Coelho, não foram bem.
Mamute foi um pouco melhor. Coelho foi desanimado.
Mas o Grêmio no todo jogou mal. Esse esquema depende muito dos laterais. Alex Telles ficou preso à marcação do ala direito do Atlético e pouco subiu. Pará, quando foi à frente, criou boas chances.
O zero a um acabou sendo bom resultado, pela circunstância.
Mas será difícil de reverter na Arena.

Túnel do Tempo: Você é o Juiz — Último capítulo (parte um)

30 de outubro de 2013 0

Como já disse, você é o meu juiz. Quero que você me julgue. Que dê sua opinião. E que seja sincero: faria o mesmo que fiz, se estivesse em meu lugar? Sim ou não? Seja sincero, por favor. Seja objetivo.

Também eu tentarei ser sincero e objetivo. Vou contar o que ocorreu depois que saí da mansão. Caminhei algumas quadras e tomei um táxi. Levei o saco de pano com as jóias para o escritório e fechei-as à chave em uma gaveta da minha escrivaninha. Fiquei olhando para a gaveta por alguns segundos. Aquele arranjo não me deixava tranqüilo, em absoluto. O roubo poderia ser descoberto a qualquer momento. Contava que Laércio não me acusasse, mas, pressionado, ele era capaz de falar algo que me incriminasse, ou quem sabe a jararaca da minha sogra fosse capaz de me acusar, sabe-se lá. O fato é que não era impossível de que a polícia desse uma batida no escritório. Revistariam tudo, e aí eu estaria perdido: perderia o casamento com a filha do chefe, a cunhada gostosa que volta e meia cedia-me seus favores, a empregadinha voluptuosa que eu planejava pegar nos banheiros da vida, o emprego fácil e de bom salário, a casa em que morava, e ainda seria preso. Nada agradável. Mas não havia saída: precisava retornar o quanto antes para o escritório, para que meu álibi não fosse implodido. Ou seja: não tinha tempo para levar as jóias ao chantagista naquele dia. Até demorei mais do que esperava, com toda aquela função da cozinheira Jenifer, mas pelo menos consegui entrar sem ser notado.

Guardadas as jóias, saí do escritório a fim de ser visto pelo maior número possível de empregados. Eles tinham de saber que eu estava ali, trabalhando, enquanto lá na mansão o mordomo furtava as jóias da patroa. Circulei bastante pela empresa e, depois, voltei ao escritório e liguei para o agiota Lopes. Pedi-lhe mais um dia de prazo. Afinal, já tinha as jóias em meu poder, mas não podia me ausentar, sob pena de esfumaçar meu álibi. Só poderia entregá-las no dia seguinte.

- É muita coisa - assegurei. - Tanta que você vai me dar uma grana a mais para eu cobrir o rombo da transportadora.

- Vamos ver - grunhiu ele. - Se você estiver mentindo, vou pedir para o meu amigo trazer um dos seus dedinhos para mim como lembrança. Não existe aquele ditado: vão-se as jóias mas ficam os dedos? Pois é: se as jóias não vierem, quem virão serão os dedos.

Engoli em seco. Senti um arrepio percorrer-me a espinha. Olhei para o curativo em minha mão molestada, a bandagem branca e dolorosa. Pretendia ficar com todos os meus dez dedos, todos eles eram importantes para mim.

- Pode ficar tranquilo - jurei. - Amanhã, sem falta.

- Eu estou tranquilo - ele rosnou. - Você é que não deveria estar.

E desligou.

Em que situação me meti, francamente!

Fiquei na transportadora o máximo que pude. Queria que o roubo fosse descoberto antes de eu chegar em casa. Saí à noite, esperando encontrar um carro de polícia parado em frente à mansão. Mas não encontrei nada disso. Ao contrário: a casa estava calma, minha mulher, a bruxa da mãe dela e meu sogro-patrão jaziam aboletados em sofás diante da TV; Laércio deslizava, magro e silencioso como uma serpente, pelos corredores labirínticos da mansão; a cozinheira Jenifer e seu corpo de chacrete desapareceram nos esconderijos da despensa; e Luana, ah, Luana, ela havia entrado numa daquelas sainhas plissadas bem curtas, suas lindas pernas luziam ao ar livre, as meias três-quartos chegando-lhe à fronteira dos joelhos redondos, seus seios perfeitos mal se contidos por uma camisa branca, de mangas curtas e botões estourando no peito, era assim que Luana se vestia quando surgiu faiscante na sala. Riu um riso de malícias, de mulher que se sabe desejada.

- Hoje eu vou sair de colegial - anunciou, festiva.

Olhei para ela e senti a excitação pulsar-me no entrepernas.

- A… aonde você vai? - consegui perguntar, desesperado de desejo.

- Por aí… - desconversou ela, saindo a saltitar escada acima.

- É muito perigoso essa menina sair por aí desse jeito - gemi com dificuldade. - Vocês não deviam deixar…

- A Luana? - riu meu sogro. - Ela é que é o perigo! Os homens que se cuidem com essa garota!

- O Rildo ainda enxerga a Luana como uma menininha – ciciou Larissa, passando a mão por meus cabelos.

- Humf! - fez a sogra.

Em alguns minutos, Luana adejou casa afora. Tentei esquecê-la. Concentrei-me na questão das jóias. Decerto o roubo seria descoberto quando fôssemos dormir: a velha tiraria as jóias que havia usado durante o dia e, no momento de guardá-las, depararia com a caixa vazia. Seria um gritedo, uma loucura, a casa viria abaixo. Teria de estar bem preparado para representar minha surpresa e indignação ante o roubo.

O resto da noite transcorreu lentamente, as horas se esvaíam pastosas, sem que nada acontecesse. Perto da meia-noite, nos recolhemos. Fiquei de ouvidos atentos, esperando os berros da sogra. Mas não. Nada aconteceu. De olhos abertos no escuro, deitado ao lado de Larissa, que ressonava baixinho, calculei que a víbora não havia guardado as jóias na caixa. Devia tê-las deixado sobre uma penteadeira, algo assim. O escândalo se daria no dia seguinte. Ou não?

O que aconteceu? Saiba AMANHÃ, na segunda parte do último capítulo de… Você é o juiz!!!

Sala de Redação

30 de outubro de 2013 1

Ouça na íntegra o Sala de Redação desta quarta-feira:

Túnel do Tempo: Você é o Juiz — 18º Capítulo

29 de outubro de 2013 0

A cozinheira ficou um pouco espantada de me ver ali. Estacou. Aprumou-se. Alisou o avental, nervosa. Ia dar meia-volta, quando a chamei:

- Ei!

Parou.

Caminhei em sua direção. Ela ergueu a mão ao peito, como se tentasse sentir as batidas do coração. Cheguei perto.

- Como é seu nome?

Baixou a cabeça. Era mesmo uma mulata estuante de sensualidade.

- Jenifer.

- Jenifer… – aproximei-me bem dela.

- Jenifer… – repeti. Senti seu cheiro. O cheiro de fêmea que havia sido possuída havia pouco tempo.

- Jenifer… – disse outra vez.

Percebi que estava perturbada com minha presença. Devia estar calculando o que eu fazia ali. Devia estar se perguntando se vira o que ela tinha feito com o mordomo minutos atrás, num dos banheiros da mansão.

Era dona de um pescoço comprido e macio, de ombros redondos e de curvas onde devia haver curvas. Encostei-me nela e senti que estava ficando excitado com a situação. Ao mesmo tempo, precisava me concentrar. Ela era uma testemunha. O roubo seria descoberto, a polícia viria, encontraria o colar e, quando tudo isso acontecesse, aquela Jenifer ia ligar as coisas e me delatar. Qual seria a ligação dela com o mordomo? Quando os flagrei no banheiro ela pedia que ele parasse. Logo, devia ser a primeira investida séria de Laércio. Ou não? Ou aquela história de “para! para!” fazia parte do ritual dos dois? De qualquer forma, namorados não eram: Laércio tinha família e tudo mais. No máximo, ela era um caso dele. O que eu devia fazer com a mulata? Ela arfava de tão nervosa. Vi que seus seios subiam e desciam com a respiração forte. Era uma mulata sensacional.

- Senhor Rildo… – balbuciou ela. – O que o senhor quer comigo? O que o senhor está fazendo?

Já me esfregava nela. Olhei para os lados. O que não podia acontecer, de jeito nenhum, era o Laércio aparecer agora e nos ver. Aí, sim, tudo estaria perdido.

- Olha, Jenifer -  sussurrei – Quero que você venha aqui – empurrei-a para um banheiro. Outro banheiro da casa. Quantos banheiros será que havia naquele lugar?

Ela deu um gritinho. “Oh!” Mas cedeu. Entrou comigo no banheiro. Tranquei a porta. Fiz exatamente como havia feito Laércio minutos atrás. Prensei-a contra a parede.

- Jenifer… – ciciei.

- Senhor Rildo… O que é isso, senhor Rildo?

- Você não pode contar a ninguém que me viu aqui, entende? -  e, ao mesmo tempo, levei a mão àquelas coxas de marfim marrom. Eram coxas pétreas. Coxas sólidas e macias ao mesmo tempo. Como se alisasse uma pilastra de carne.

- Ah, seu Rildo… – ela gemeu. - Por que o senhor está fazendo isso comigo? Eu não conto. Juro que não conto. Ai…

Cachorra. Não fazia vinte minutos que o mordomo se servira dela, e agora já gemia em meus braços. Cachorra! Fiz o mesmo que Laércio. Deixei minha mão escorregar pelas partes internas daquelas pernas de madeira-de-lei e veludo e segurei as alças da calcinha azul que vira momentos antes. Exatamente como Laércio, baixei-lhe as calcinhas até os joelhos. Ela devia estar pensando que os homens são todos iguais, que inclusive fazem tudo igual. Toquei em seu sexo. Estava úmido e quente.

- Cachorra! – murmurei em seu ouvido, as palavras me saindo por entre os dentes.

- Seu Rildo - ela ofegava, ela tremia, eu tremia também.

- Cachorra! – levei-a para a pia, como Laércio a havia levado.

- Ai, seu Rildo!!!

- Cachorra! Cachorra!!! Cachorraaaaa!!!!!

- Seu… Rildo…

Foi rápido e bom. Nem sequer tirei as calças para ter aquela pantera cor de canela. Depois de tudo, enquanto fechava o zíper, disse-lhe no ouvido:

- Se você não contar a ninguém que me viu, vou recompensá-la, compreendeu?

- Compreendi – ela ainda arfava, feito uma cadela.

- Jura que não vai contar?

- Juro.

- Por Deus?

- Por Deus, seu Rildo.

Beijei-a na boca carnuda e me fui. Em um minuto, estava fora da mansão, suado, escabelado, excitado e feliz. Será que devia me preocupar com a mulata? Será que ela era um perigo? Isso eu acabaria descobrindo em breve. Ou não?

Descubra o que Rildo descobriu loguinho, no próximo capítulo de… Você é o juiz!!!

Sala de Redação

29 de outubro de 2013 3

Ouça na íntegra o Sala de Redação desta terça-feira:

Eu, ridículo

29 de outubro de 2013 7

Uma das poesias de Fernando Pessoa de que mais gosto é o “Poema em Linha Reta”, que ele assina sob o heterônimo de Álvaro de Campos.

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,(…)
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;(…)
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…(…)
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Tenho apreço especial por este poema porque, para mim, ele serve de consolo. Afinal, já fui tantas vezes ridículo na vida… Já fui humilhado por mulheres que amei, demitido de empregos dos quais não pretendia pedir demissão, já levei porrada, como diz o poeta, já passei muita vergonha, e sei que todos os dias corro o risco de passar por isso de novo.

Realmente não me acho grande coisa. Queria ser um dos campeões, um dos príncipes citados por Fernando Pessoa. Vejo tanta gente a se jactar dos seus talentos, dos seus sucessos, e eu aqui tão… normal.

Mas tem o seguinte: ao fazer essa confissão, não significa que passo por alguma crise de amor-próprio. Nada disso. Não desgosto de mim e sei que tenho meus méritos. Um deles é que consigo me recuperar dessas ridicularias e dessas humilhações. Já voltei para empregos de que havia sido demitido, e voltei por cima. Já tive de volta mulheres que amei e que me maltrataram, e elas voltaram me amando de verdade. Ou então consegui empregos melhores e mulheres melhores. Ou simplesmente fui em frente e suplantei os reveses com bom humor.

O fato é que me reergui, tenho me reerguido.

Fernando Pessoa poderia ter escrito um poema sobre isso, sobre a sobrevivência, sobre a resistência, sobre a bravura da alegria. Você perde hoje, ganha amanhã. O futebol dá essa lição todos os dias. É verdade: o Grêmio foi ridículo em Curitiba. Foi humilhado e enxovalhado. Mas amanhã vai ser outro dia.

Túnel do Tempo: Você é o Juiz — 17º Capítulo

28 de outubro de 2013 1

Eram gritos de mulher. Na verdade, não eram exatamente gritos, e sim gemidos. Prestando bem atenção, não se dirigiam a mim aqueles gritos, quer dizer, gemidos. A pessoa que gemia nem devia saber que eu estava na casa. De onde vinha o ruído? Esgueirei-me pelos cantos da sala, atento como um perdigueiro. Percebi que o som partia de um dos banheiros do lugar, um banheiro situado no meio de um corredor que levava aos quartos dos empregados. Fui até lá, devagar, pé ante pé, um tigre à espreita da vítima. Espiei pela porta entreaberta. E o que vi me surpreendeu. Laércio, o mordomo, tentava agarrar a cozinheira.

Mas que belo sacana havia me saído esse Laércio! Tinha prensado a cozinheira contra a parede. Enfiava as mãos por baixo da saia dela, agarrava-a com vontade. Com ânsia mesmo. Laércio queria de qualquer jeito sovar a cozinheira. Dei uma boa olhada nela. Hum. Nunca havia reparado naquela cozinheira, envolvido que estava com Larissa ou Luana, mas agora percebia que se tratava de uma mulata bem interessante. Boas pernas. Coxas fortes. Bem interessante, de fato. As possibilidades infinitas da vida na mansão! Laércio apalpava aquelas coxas cor de chocolate e resfolegava com a cabeça enfiada entre os seios da cozinheira. Ela arfava e repetia:

- Para! Para!

Mas não parecia querer realmente que ele parasse.

A calcinha dela apareceu entre os dedos ávidos do mordomo. Uma calcinha azul que podia ser menor. Em um segundo, a calcinha já lhe cobria os joelhos redondos. O sexo pulsante da cozinheira agora se expunha à concupiscência do mordomo. Grande Laércio! Invejei-o. Ganhara duzentos pacotes sem fazer esforço e agora ia se repoltrear com uma cozinheira gostosa.

A coisa ia acontecer ali mesmo e seria uma loucura. Senti vontade de assistir, mas achei que a função facilitaria o meu trabalho. Primeiro o dever, depois o prazer. Deixei Laércio se divertindo com a cozinheira e decidi que talvez me ocupasse dela mais tarde. Deslizei para a sala outra vez, subi as escadas e fui direto para o quarto da velha bruxa. Sabia onde estavam as joias: escondidas num fundo falso do roupeiro. Rapidamente abri o roupeiro, extraí o fundo falso e de lá saquei a caixa de joias. Faiscavam como um pequeno sol. Um tesouro! Piratas matariam pelo conteúdo daquela caixa. Coloquei-as todas em um saco de pano que trouxera especialmente para o trabalho, exceto um colar de brilhantes muito chamativo e, provavelmente, muito caro. Esse, meti no bolso das calças. Devolvi a caixa ao fundo falso, fechei o roupeiro e saí do quarto, sempre tendo o cuidado de apagar minhas impressões digitais.

Desci as escadas. Agora vinha a parte delicada do plano. Talvez a mais perigosa: teria de esconder o colar numa gaveta do quarto de Laércio. Queria imputar-lhe a culpa pelo roubo. Seria perfeito. Per-fei-to! Pagaria minha dívida com o agiota, cobriria o rombo na contabilidade da empresa e ainda me livraria do chantagista maldito. Ele não poderia me acusar de nada nem que desconfiasse. Se me denunciasse, teria de admitir que fez chantagem comigo, seria possível inclusive que o obrigassem a devolver os 200 mil que lhe paguei.

Era mesmo um plano genial. Mas, para esconder a joia em seu quarto, precisaria passar pelo banheiro onde o mordomo e a cozinheira espadanavam em sexo pecaminoso. Foi com muita, muita, mas muita cautela que passei pela frente do banheiro. Não pude evitar: dei uma espiadela. Laércio possuía a cozinheira em cima da pia, furiosamente, rosnando:

- Me chama de patrão! Me chama de patrão!

Ela gania:

- Patrãozinho! Patrãozinho!

O bom Laércio…

Fui em frente. Entrei no quarto dele. Não escolhi muito: abri a última gaveta de uma penteadeira e acomodei o colar entre as meias e as cuecas do chantagista desgraçado. Limpei as impressões mais uma vez. Esperei alguns minutos, escutando com o ouvido colado à porta. Só poderia sair quando o caminho estivesse limpo. Esperei. Esperei.

Esperei.

Ouvi vozes ao longe. Laércio e a cozinheira deviam estar se despedindo. Malandro, esse Laércio. Esperei mais um pouco. Esperei. Esperei. Esperei.

Abri a porta, enfim. Tudo estava silencioso. Tudo calmo.

Já estava no corredor, quando ocorreu o inesperado.

A cozinheira me viu.

Sim. Ela me viu. Já havia se livrado de Laércio, que na certa se encontrava em outro ponto da mansão. Vinha caminhando placidamente pelo corredor, com o maior ar de inocência naquele rosto de rainha da bateria. E flagrou-me saindo do quarto do mordomo, com o saco de pano cheio de joias na mão.

E agora? O que eu poderia fazer???

O que Rildo fez? Ele conseguiu se livrar da cozinheira???
Saiba logo, no próximo capítulo de… Você é o juiz!

Homenagem a Lou

27 de outubro de 2013 3

Essa é uma das que mais gosto do Lou Reed, que morreu hoje aos 71:

Por que o Grêmio foi goleado pelo Coritiba

27 de outubro de 2013 40

Quando um time como o Grêmio, que está fazendo uma boa campanha no Campeonato, leva uma goleada de um time que está do meio para baixo na tabela, como ocorreu hoje, nos 4 a 0 para o Coritiba, quando isso acontece nunca é por uma única razão.
Houve várias: o primeiro gol saiu aos 15 segundos, o que já desnorteia um time; Dida falhou no segundo gol, uma falha muito parecida com a do gol de Williams no Gre-Nal; e os atacantes simplesmente não funcionaram. Tudo isso é verdade, mas são três as principais razões do fracasso. Uma é que o time passou por duas decisões seguidas, o Gre-Nal e o jogo contra o Corinthians. Essa exigência desgasta os jogadores. Outra é que a classificação para a semifinal da Copa do Brasil desviou o foco da equipe. E, finalmente, o esquema: a defesa do Grêmio vaza quando joga com dois zagueiros.
Essa última falha tem de ser corrigida até quarta-feira, ou a última chance de título em 2013 se esfumaçará contra o Atlético do Paraná.

Túnel do Tempo: Você é o Juiz — 16º Capítulo

27 de outubro de 2013 0

Passei o resto da noite articulando o plano. Elucubrando. Pensei em cada detalhe. Cada pormenor. Nada poderia dar errado. Eu não podia falhar.

Não podia.

Em primeiro lugar, tinha de arranjar um álibi razoável para me ausentar do trabalho durante pelo menos uma hora. Bem. Poderia alegar que estava trancado no meu escritório por esse período. Isso era fácil, muitas vezes passava meia tarde sozinho. Até mais. O problema seria provar que não saíra de lá. Como?

Como???

Isso me consumiu boa parte da noite. A madrugada já ia alta quando ocorreu-me uma ideia que pareceu razoável. Podia usar as tecnologias contemporâneas. A doce Internet. Se ficasse dez minutos conversando por MSN com alguém, exatamente no meio daquela hora em que tinha de me ausentar, estaria provada a minha permanência no escritório. Bastaria, portanto, emprestar o meu laptop e a senha do meu MSN para alguém e forjar uma conversa com algum dos meus amigos. Decidi que pagaria a algum gaiato para ter essa conversa por mim. Não alguém do escritório: um conhecido que não soubesse muito a respeito da minha situação matrimonial ou profissional.

Foi o que fiz. Na manhã seguinte, encontrei um velho conhecido para falar por mim no MSN. Não foi difícil. Era um sujeito que estava desempregado havia algum tempo e sobrevivia de expediente. Dei-lhe cem reais e ele quase desmaiou. Percebi que, com cem reais, eu compraria até sua honra sexual.

Feito o negócio, pus em ação o resto do plano. Dei um jeito de sair do escritório sem ser visto. Não peguei meu carro; tomei um táxi. Fui até a mansão. Sabia que, àquela hora, não haveria ninguém em casa, exceto Laércio, e Laércio deveria estar ocupado cuidando da churrasqueira e da piscina para as atividades do próximo feriado, que se aproximava. Meus passos seguintes seriam três. Ei-los:

1. Entrar na mansão por uma janela lateral, sem que Laércio me visse.

2. Subir ao quarto da velha bruxa.

3. Subtrair as joias.

Depois, teria de fazer algo um pouco mais complicado, algo que vou relatar daqui a pouco.

Bem.

Dei o primeiro passo. Entrei na casa por uma janela que, obviamente, já deixara entreaberta.

Hora do segundo passo. Que não saiu como esperava. Quando havia posto o pé no primeiro degrau da escadaria, ouvi um ruído estranho. Estaquei. E estremeci. Uma voz me dizia:

- Para! Para!

Meu coração empedrou no peito. Quem havia me flagrado?

Quem???

Saiba já, já, num dos últimos capítulos de… Você é o juiz!!!

Músicas ao luar

26 de outubro de 2013 4

SONATA EM VIENA

Estava em Viena, na plenitude do verão europeu, e estava deslumbrado com a cidade. Viena é linda, classuda e, cem anos atrás, foi o centro do mundo. Imagine que, em 1913, moraram ao mesmo tempo em Viena seis homens que mudaram a História da Humanidade: o arquiduque Franz Ferdinand, que, no ano seguinte, seria assassinado por um estudante, desencadeando a então chamada Grande Guerra; Adolf Hitler, que desencadearia a II Guerra, muito maior daquela que todos achavam Grande; Joseph Tito e Joseph Stálin, que além de serem ambos Josephs foram ambos ditadores sangrentos; Trotsky, que se encontrou com Stálin naquele 1913 e que, 27 anos depois, seria morto a mando dele com uma picaretada na cabeça; e Freud, que, se tivesse tratado essa gente toda, evitaria dissabores a milhões de pessoas.

Em homenagem a esse gênio da raça humana, Sigmund Freud, fui ao apartamento onde ele morava e atendia, na rua Berggasse, 19. Saí de lá ainda mais encantado e resolvi experimentar um chá com torta no café que era frequentado por Freud. Fiz isso, tomei o chá e fiquei imaginando Viena nos albores do século 20.

Então, atravessei a rua em direção ao parque onde está incrustada a prefeitura da cidade. Acontecia uma festa ali. Barraquinhas vendiam comida e bebida, e as pessoas circulavam com seus pratos e copos na mão. Estranhei: os pratos eram de porcelana e os copos de vidro, louças de boa qualidade, que a gente podia usar em casa. Pois os vienenses andavam por lá com aqueles pratos cheios de comida deliciosa, com os copos cheios de cerveja quase gelada e, ah!, com talheres de aço inox. Vi que se encaminhavam para o prédio da prefeitura, sentavam-se em cadeirinhas de palha trançada em frente às escadarias do portal de entrada, e fui para lá também. Uma orquestra preparava-se para começar um concerto. Um concerto ao ar livre na noite do verão vienense.

Fiquei emocionado com aquela demonstração de civilidade. As pessoas comiam, bebiam e depois devolviam os talheres, pratos e copos às barraquinhas. Em meio a isso tudo, ouviam a música em silêncio, compenetrados, sorvendo a noite. Também me pus a sorver a noite, sentindo nobre delicadeza daquele momento, até que… a orquestra parou por um momento. As atenções se voltaram, todas, para o pianista. Ele se aprumou na banqueta. Concentrou-se. E começou a tocar. Era a “Sonata ao Luar”, de Beethoven, e aquela melodia encheu a noite e o meu coração, e foi mágico, foi como se estivesse flutuando no céu europeu, como se pudesse sentir toda a dor e o arrebatamento que um dia aquele gênio sentiu. Até hoje, quando escuto a Sonata ao Luar, volto a Viena, vivo de novo aquela noite de verão e sinto a alma leve, como a alma sempre devia ser.

******

CULPA DA LUA

As noites do Rio são suaves em junho. Naquela noite eu estava na Lagoa e, por algum motivo, olhei para o azul-escuro do céu, e então vi o Cristo se acendendo.

O Cristo aceso já vi muitas vezes, nunca tinha visto se acendendo. Tão bonito. E, naquele exato instante, enquanto a luz azul ia banhando o corpo de pedra do Redentor, de algum lugar evolou-se uma música do velho Bob Seger. “Shame on the Moon”. Culpe a lua. Foi como se estivesse vivendo com trilha sonora. Aquela lua imensa e intensa lá em cima, o Cristo embaixo e, mais embaixo, eu, tão pequeno, pensando que, sob aquele cenário, todo sentimento é grande, toda paixão e dor são possíveis. Por culpa da lua. Tudo culpa da lua.

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SUA RESPIRAÇÃO

O Ricardo Fabris tinha um Fusquinha verde. Ou vermelho, não lembro.

Aquele Fusquinha, nós enchíamos o porta-malas dele de cerveja e íamos para a praia. Morávamos em Criciúma, eu e meu amigo Ricardo Fabris. Nosso objetivo, naqueles finais de semana no litoral catarinense, era um só.

Não.

Eram vários: as meninas loiras, morenas, ruivas, negras, orientais, grandes ou pequenas, mas todas luzidias do sol tropical.

Estávamos sempre apaixonados por uma delas, eu e o Ricardo, sempre sonhando com algum romance. Às vezes dava certo, às vezes dava errado. É da vida. Mas, fosse como fosse, sempre chegava um momento em que o Ricardo botava uma fita do The Police no som do Fusquinha. Every Breath You Take. A cada suspiro que você der, a cada movimento que você fizer, a cada elo que você quebrar, eu estarei cuidando de você, beibe. Ah, sim, ao som do Police, dava mais certo do que errado.

Túnel do Tempo: Você é o Juiz — 15º Capítulo

26 de outubro de 2013 1

Gritei. Mas gritei. Mas gritei!!!

Nunca havia gritado assim na vida. Foi um grito sem fim, um grito que estremeceu a casa inteira, um grito de intensidade crescente. Assim:
- AaaaaaaaaaaaaaaaaaaAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!

Um grito de 63 as e 11 pontos de exclamação. Não é qualquer gritão que grita assim. Todo mundo saltou da cama, as mulheres berrando de susto, os homens segurando as cuecas. Acenderam as luzes, meteram-se pelo corredor. Encontraram-me já ao pé da escada. Olhei para eles. Desgrenhados, apavorados, esbaforidos. Luana tinha envolvido o corpo perfeito em um lençol fino; Matheus, o Tarzan intelectual, estava de tanga, as partes pudendas cobertas com uma toalha de rosto; meu sogro vestia pijama branco de bolinhas amarelas e uma comovente rede nos cabelos; dona Mirtes, dentro de uma camisola cinza, só precisava da vassoura para sair voando pela janela; minha mulher, admito, reluzia em seu baby-doll sumário; e Laércio, o mordomo, materializou-se num canto da sala atrás de uma enorme espingarda calibre 12.

- O que foi? - eles gritavam. - Que foi???

- Eram eles! - gritei, apontando para um desvão da grande sala ali adiante. - Acho que vi os caras que me assaltaram aqui! Dentro de casa! Eles estão atrás de mim! Estão atrás de mim!

Foi um alvoroço. As mulheres gritaram por socorro, meu sogro correu para o telefone, o Tarzan ficou paralisado fitando o local para onde eu havia apontado, e Laércio esgueirou-se pelas paredes com a espingarda nas mãos, como um caçador espreitando um tigre.

Não havia ninguém, claro. Depois que constataram que a casa estava vazia, eles me fizeram sentar em um dos sofás, me consolaram, me deram água com açúcar.

- Que horror… – dizia Luana, com a mão sobre o peito.

- Tadinho… – suspirava Luana, afagando-me os cabelos.

- Que susto – grunhiu o Tarzan.

- Que fiasco – guinchou a bruxa da minha sogra.

- Temos que instalar alarmes na casa – concluiu meu sogro. - Temos muita coisa de valor aqui que precisamos preservar. Já imaginou se alguém bota as mãos nas tuas joias? – essa frase ele falou virando-se para dona Mirtes.

Foi então que uma ideia genial relampejou no meu cérebro. Uma ideia que nem o Tarzan erudito teria. Uma ideia que poderia muito bem me salvar.

Que ideia foi essa? Rildo se salvou???
Saiba logo, logo, no próximo capítulo de… Você é o juiz!!!

Túnel do Tempo: Você é o Juiz — 14º Capítulo

25 de outubro de 2013 0

No saguão do hospital, ainda tonto com tudo o que me havia acontecido, tinha de dividir-me entre relatar detalhes do assalto do qual dissera ter sido vítima, tranquilizar Larissa, que não parava de choramingar, e tentar entender por que Luana levara aquele grandalhão lá. Quem era aquele tipo? Ele repousara o braço musculoso sobre os ombros nus de Luana, aqueles ombros que eu já havia mordiscado e lambido, aqueles ombros que tinham cheiro de tardes de primavera. Ela usava um vestido sem alças e me encarava com alguma preocupação. Todos me fizeram perguntas, ela, Larissa, o meu sogro, até o grandão participou do inquérito. Acho que me saí razoavelmente bem. Quando estava entrando em contradição, Larissa veio em meu socorro:

- O Rildo está cansado. Vamos levá-lo para casa, depois ele conta tudo.

Sentei no banco do carona do carro do meu sogro. Larissa acomodou-se no banco de trás. Luana e o sujeitinho foram em outro carro. Deixei passar alguns minutos e, tentando parecer casual, perguntei:

- Quem é aquele rapaz com a Luana? Não me apresentaram…

- Ah! – o autor da exclamação foi meu sogro. – Foi uma falha nossa. Minha, principalmente. Aquele rapaz é o Matheus, filho de um velho amigo meu, um industrial muito importante da cidade. Conheço aquele menino desde que ele nasceu. Trata-se de um fenômeno. Um fenômeno!

- Fenômeno?

- É. Fenômeno. Não menos do que um fenômeno. Ele é inteligente, bonito e bem-sucedido. Sabe aqueles caras que se dão bem em tudo, que são bons em tudo, que não têm defeito? Matheus é assim.

Não pude evitar um risinho ressentido.

- Existe alguém assim? – perguntei algo sardônico.

- Parece mentira, mas o Matheus é bem como o papai descreveu – disse minha mulher. – Acho que é o homem mais bonito que já vi e, ao entrar na empresa do pai dele, multiplicou a fortuna da família. Além disso, é modesto. Viu como se veste?

- Parece um surfista - grunhi, com certo desprezo.

- E ele é surfista. Dos melhores! - ela estava entusiasmada.

- E é um craque no futebol! – o pai, mais entusiasmado ainda. – Centroavante goleador. Chuta com as duas. O chute dele é uma potência. Pega de primeira e, BAM!, fuzila o goleiro. Fuzila! Cabeceia feito um Escurinho, dribla como um Rivellino. No tênis, a mesma coisa. O saquel dele é irrebatível. No golfe é um Tiger Woods. Na natação um Phelps. Faz 50 metros em 21 segundos! Em todos os esportes ele é um monstro. O rapaz é faixa preta de caratê, mas é pacífico, uma moça de tão educado e gentil.

- E é um intelectual - ajuntou minha mulher, quase batendo palmas. – Tem uma biblioteca de quatro mil volumes e já leu de tudo! Fala de filosofia, de política, de história, de literatura. É quase um erudito.

- Que maravilha – sentia-me amassado. - Que bom que a Luana achou esse diamante raro.

- Tomara que eles agora se acertem – suspirou o velho.

- Agora? Por quê? Eles já tiveram algo antes?

- Ah, sim – falou Larissa. - Ele foi o grande amor de Luana. Mas estava fora. Passou dois anos rodando pela Europa, pelo Japão, pela Índia e pela China, fazendo contados externos para a empresa da família, trabalhando, estudando. Agora voltou melhor do que nunca.

- Que bom – sentia-me um verme. Um verme! Decerto que aquela perfeição de ser humano não teria se portado com me portei com o capanga do Lopes. Decerto que ele não estaria na situação em que me encontrava agora. Odiava aquele cara!

Chegamos em casa. Consegui me desvencilhar de novos interrogatórios e fui para a cama. Tinha muito o que pensar. Como conseguir dinheiro para escapar da tortura e da morte e da demissão por justa causa e da cadeia? Que noite horrenda estava passando.

Mas ia piorar.

Estava deitado na cama, no escuro, quando ouvi gemidos abafados. Levantei-me. Caminhei até a porta do quarto. Será que?… Não podia. Ela não teria coragem. Mas acho que era mesmo. Abri a porta e caminhei pelo corredor até a frente do quarto de Luana. Encostei o ouvido na porta. E a voz dela me chegou nítida:

- Ai, você é maravilhoso! Ai, que homem! Ai, assim! Ai, faz assim! Assim, assim, assim! Ai, que loucura! Ai, não existe homem como você. Aiaiaiaiai… Aiai! AIAIAIAIAIAI!!!

Ele estava lá dentro! Matheus maldito! Estava no quarto, se cevando em Luana, em suas carnes tesas e tenras, em seu corpo perfeito, em seus seios sólidos, em sua boca sedenta. A minha Luana! Era demais! Era insuportável. Eu tinha de fazer algo! Tinha de fazer! E fiz! Por Deus que fiz.

O quê??????

Saiba logo, no próximo capítulo de… Você é o juiz!!!

Som de Sexta - II

25 de outubro de 2013 0

No domingo, escreverei sobre a Sonata ao Luar, de Beethoven.
Ouvi de novo e tive vontade de compartilhar com você: