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Posts de novembro 2013

Homens que pouco falam

30 de novembro de 2013 2

Não lembro quando conheci o Vitorinho. Lembro que uma noite ele surgiu na nossa mesa, no bar, e que lá ficou, em silêncio. Na noite seguinte, lá estava o Vitorinho de novo, quieto. E a terceira noite, aí sim, ele a atravessou totalmente calado. Esse é o jeito do Vitorinho. Silencioso, quieto e calado.

Acostumei-me com a presença discreta do Vitorinho na mesa do bar. Estou acostumado com pessoas que não falam em mesas de bar. Tem um amigo meu, cujo nome não declinarei, porque as pessoas são muito suscetíveis, pois tem um amigo meu que fazia o seguinte: todas as noites ele ia com a namorada ao mesmo bar, sentavam-se à mesma mesa, nas mesmas cadeiras, colocavam uma garrafa de cerveja e dois copos entre eles e ficavam quietos. Não falavam nada, não se tocavam, nem sequer se olhavam. Só bebiam cerveja. Varavam madrugadas no bar, sempre fazendo o mesmo: nada. Ou, melhor: bebendo, apenas. Achava que aquela fosse uma relação muito especial, construída por silêncios significativos, mantida por silêncios consensuais. Mas um dia eles terminaram. Meu amigo arrumou outra namorada e, também com essa, ele ia ao mesmo bar, sentava-se à mesma mesa e passava a noite inteira em silêncio. Só que com a nova namorada um dia o relacionamento igualmente acabou. Ele conseguiu uma terceira e… adivinhe! O mesmo bar, a mesma mesa, as mesmas cadeiras, a mesma cerveja, o mesmo silêncio.

Esse meu amigo, será que ele tinha sorte e competência para descobrir mulheres que gostassem das mesmas coisas que ele? Ou será que as mulheres são generosas e compreensivas e se adaptam aos hábitos dele para agradá-lo? Ou será que… Não importa. É um enigma. Pessoas silenciosas são enigmáticas.

O Vitorinho parecia-me enigmático. Até que comecei a reparar que, na verdade, ele respeita demais as pessoas. Se ele está falando algo e alguém interrompe, o Vitorinho não protesta, nem manifesta revolta; simplesmente para de falar. E não retoma a sua história, porque logo outro já dá a sua opinião e outro fala de outro assunto e outro interrompe também e um quarto assunto desaba na mesa, espalhando o sanduíche aberto para todo lado, e o garçom chega com os chopes e o assunto do Vitorinho se perde em seu silêncio.

Gostaria de saber o que o Vitorinho ia falar.

Queria que o Vitorinho tivesse conhecido o meu amigo Ricardo Carle. O Ricardo Carle também era dado a silêncios. Um dia sentou-se à nossa mesa alguém muito falante. O Ricardo Carle uma hora se irritou e rugiu:

— Nós viemos aqui pra beber!

Mas, ao contrário do Vitorinho, o Ricardo Carle esperava ser ouvido, quando falava. Exigia, até. Eu achava justo. Os silêncios dele valorizavam sua fala.

A vida é assim. O que vem fácil, vai fácil. Ela ama fácil, desama fácil. Você ganha dinheiro fácil, gasta fácil. Quem fala muito, pouco tem a dizer.

Eu não tenho muito a dizer, por isso às vezes falo bastante, mas às vezes nem tanto.

Já o Vitorinho, esse sim, teria muito a dizer, se o ouvissem na mesa do bar. Me disseram que o Vitorinho era craque, no futebol. Olho para ele e desconfio: será? Nunca vi o Vitorinho contando vantagem a respeito. Mas sei que o Vitorinho foi campeão gaúcho de golfe, este é um dado concreto. E, outro dado concreto, foi campeão brasileiro de tênis. E o Vitorinho é arquiteto dos bons. E é filho do grande Vitorio Gheno, de quem tenho alguns quadros aqui em casa e os mostro com orgulho a todo mundo que chega. Finalmente, descobri que o Vitorinho também pinta muito. Você duvida? Não pergunte a ele na mesa do bar. Vá a sua exposição de aquarelas das casas mais antigas do Moinhos de Vento, no Hotel Laghetto, até 20 de dezembro. São quadros lindos. Que falam o que o Vitorinho tem a falar.

*******

HOMEM QUE POUCO BEBE

O Lauro Quadros toma um chope por semana. Um único chope a cada sete dias. O Lauro Quadros cuida com desvelo da saúde. Então, nada de excessos. Um copo de chope. Nada mais.

Eu, que ingiro (gosto de escrever ingiro) dezenas, talvez centenas de copos de chope por semana, confesso ter ficado compadecido. Um chopinho só, coitado do Lauro. Mas, depois, refleti um pouco mais sobre este copo solitário. Fiquei imaginando a expectativa do Lauro em relação ao seu copo de chope. No domingo, ele suspira:

— Ainda faltam cinco dias…

Na segunda-feira, se chove, o Lauro vai fazer sua caminhada sob o teto do shopping, que é o que ele faz quando chove, e, ao passar veloz pela praça de alimentação, ele lembra:

— Sexta-feira… Sexta-feira…

Assim o Lauro atravessa a semana, pisando macio em reticências.

Até que chega a sexta-feira.

O Lauro abre os olhos de manhã bem cedo, mira o gesso do teto e sussurra, de si para si:

— Hoje é o dia…

Desabotoa o pijama com parcimônia, tira a redinha do cabelo, alonga o pescoço para um lado e para outro, estrala os dedos e repete, com dentes rilhados de fera feroz:

— Hoje é o dia!

Ao chegar à rádio, o Lauro está mais radiante do que nunca. O Programa Polêmica só faz polêmicas suaves, no Sala o Lauro acaricia o ombro do Kenny, ao voltar para casa ele leva junto um sorriso. Até que chega a hora do chope. O Lauro senta-se à mesa do bar e grita, vitorioso:

— Garçom, traga UM chope.

O chope chega. Dourado. Cremoso. Irresponsavelmente gelado. O Lauro levanta o copo à altura dos olhos, percorre cada centímetro com olhar de amante guloso. Leva-o aos lábios. E sente o primeiro gole rolando-lhe garganta abaixo, abaixando-lhe a temperatura interna do corpo, esfriando-lhe dos males da semana, fazendo-o feliz como estivesse dando primeiro beijo na mulher amada. Essa é a vantagem do único copo semanal do Lauro. São sempre primeiros beijos, de todos, os beijos mais doces; nunca são o último beijo, quase sempre, o beijo mais amargo.

Histórias Faladas: A gordinha de minissaia

30 de novembro de 2013 1

Para se redimir com as gordinhas, chateadas com a campanha ´´Gorda de biquíni: isso tem que ter fim“, o colunista David Coimbra relembra a vez em que saiu com uma cheinha sedutora.

Túnel do Tempo: Pistoleiros também mandam flores - Capítulo 15

29 de novembro de 2013 4

A mulher do Peçanha era famosa na cidade. Homens de todas as idades a cobiçavam, do adolescente mais espinhento ao ancião mais reumático. As mulheres a invejavam. As que não a invejavam, cobiçavam-na também. Opulenta. Essa a palavra mais precisa para defini-la. Uma mulher grande, mas não alta demais. Mulheres altas demais são um problema. Rondelli, ao menos, se sentia intimidado diante desses exemplares kingsize. Além disso, era difícil decidir o que pegar primeiro. Muita área de lazer, como dizia o Nico.

Mulheres grandes demais, sim senhor. Uma vez, Rondelli abordou uma morena sentada ao balcão do Dado Bier, uma danceteria da Zona Norte. Abordagens a desconhecidas não eram a especialidade de Rondelli, mas a morena estava há pelo menos quarenta minutos sentada sozinha, parecia enfarada. Nico não cessava de incentivá-lo “vai lá, rapaz! vai lá! ela está olhando pra você!”, e Rondelli já havia bebido um pouco, a confiança o fazia flutuar pelo ambiente. Foi. Aboletou-se ao lado dela. Nesse momento, abalroou-lhe a grande pergunta do homem em todos os tempos da história da civilização: como começar a conversa? Olhou para Nico, sentado a dez metros de distância. O amigo sorria, encorajador, dizia sem falar, só mexendo com os lábios:

– Vai! Vai!

Rondelli respirou fundo.

– Calma! – respondeu, também sem emitir som, apenas mexendo os lábios.

Uma vez leu um conto sobre um sujeito que descobriu a cantada infalível. Senhor Jesus Cristo, o que não daria para conhecer a cantada infalível! Decidiu arriscar o trivial simples. Sorriu e…

– Oi.

Ela girou a cabeça levemente para o lado e lhe enviou um olhar blasé:

– Ó.

E não é que se iniciou mesmo um diálogo bastante razoável? Rondelli avançou na conversa, foi se sentindo seguro. Lembrou-se de algo que Nico sempre dizia: para ter sucesso com mulher, com qualquer mulher, você precisa fazer muito elogio. Seja ela inteligente, seja burra, seja presunçosa, seja despretensiosa, um elogio bem assestado vai ser absorvido pelos poros de sua pele macia como se fosse creme hidratante, vai entrar em sua corrente sangüínea e penetrar em seus ossos até amolentá-la e torná-la uma massa ronronante que você pode moldar como bem entender. Elogio, portanto. Elogio.

Rondelli a elogiou. E foi sincero. Ela era mesmo uma morena sensacional, digna de um crime passional. Depois de meia hora de adjetivos, Rondelli, arrojadamente, convidou-a para dar uma travolteada pela pista. Ela topou. E começou a se levantar. E levantava e levantava e levantava, não parava nunca de levantar. Passou da linha dos olhos do aflito repórter Régis Rondelli, foi-se lá para cima e ele:

– Puxa…

Lá de cima mesmo, ela sorriu, literalmente superior, e beliscou:

– Ficou pequeninho de uma hora para outra?

Mulheres grandes tendem à arrogância, essa lição Rondelli jamais esqueceria.

Mas a mulher do Peçanha não era grande demais. Do tamanho ideal. Standard. Nem alta, nem baixa: da altura que uma mulher devia ter. Grande onde tinha de ser grande, empinada onde tinha de ser empinada. Tudo durinho. E revestido por uma pele lisinha, lustrosa, ah, a mulher do Peçanha… O rosto parecia o da Marilyn Monroe. Por Deus. Que coisa.

Só mesmo a mulher do Peçanha em todo o seu esplendor para fazer Rondelli esquecer um pouco, pelo menos um pouco da história do assassinato do professor.

Mesmo assim, o rosto da infeliz mulher do professor ia e vinha em sua cabeça. Coitadinha. Ela realmente amava o marido, Rondelli tinha certeza disso. Ao chegar à simpática casinha no Parque Minuano, Rondelli nem esperava ser recebido por ela. Achava que seria rechaçado como um abutre em busca da carniça. É assim que a maioria das pessoas imagina os jornalistas: abutres em busca da carniça. Ninguém sabe dos debates éticos que há todos os dias numa redação, ninguém sabe das regras rígidas impostas por um Câncio Castro, o diretor de redação da Zero Hora. Quem conhecesse tais regras jamais pensaria nos jornalistas como abutres em busca da carniça. Só que a maioria das pessoas não sabia de nada disso, então achava que os jornalistas são abutres famintos, e foi por isso que Rondelli esperava ser expulso da casinha do Parque Minuano por aquela triste mulher do professor. Mas, não. Ela olhou em seus olhos, na varanda da casa, e bradou a acusação terrível:

– Foi meu pai! Foi meu pai quem mandou matar o meu marido!

Rondelli temia que os outros repórteres atinassem em ir entrevistá-la, mas tinha quase certeza de que não, a história seria só sua. Que furo! Adoraria ver a cara dos colegas da Zero Hora no dia seguinte. Eles abrindo a Tribuna e se chocando com o furaço estampado na capa. Câncio Castro certamente cobraria deles na reunião das duas horas. Rondelli ouvira falar muito dessa reunião das duas horas. Das cobranças e tal. Câncio Castro ia ficar furioso, ia irromper na sala lotada com um exemplar da Tribuna nas mãos, brandindo-o acima da cabeça como Moisés com as Tábuas da Lei. Jogaria o jornal na mesa:

– Como tomamos esse furo? Como?? Esse Régis Rondelli! Não agüento mais ser humilhado por ele. Não agüento! Contratem-no a qualquer preço! Entenderam? A qualquer preço!

Régis Rondelli seria procurado em seu pequeno apartamento no Passo d’Areia. Os executivos de Zero Hora se espantariam com a simplicidade do lugar. Como um gênio do jornalismo podia viver assim, em tamanha austeridade? Bateriam à porta: ninguém. Uma vizinha emergeria de uma porta, de rolos na cabeça e roupão gasto sobre os ombros:

– Estão procurando por Régis Rondelli, o famoso repórter? Deve estar no boteco da esquina com os amigos. Aquele boêmio.

Encontrariam-no jogando sinuca, com um cigarro pendurado frouxamente nos lábios, os óculos escuros se equilibrando no nariz. Rondelli não fumava, mas achava muito bonito aquilo de fumar. Todo um estilo. O olhar reflexivo que as pessoas faziam exalando a fumaça dos pulmões, atirando-a para cima. Um charme, fumar. Rondelli lamentava não ter adquirido aquele hábito. Também não era bom de sinuca, nem conhecia as regras direito, mas o jogo tinha um fascínio marginal. Além disso, Rondelli sabia que Sergio Faraco, o famoso escritor, passava os dias jogando sinuca. Ah, um dia ia jogar sinuca com o Sergio Faraco! E fumar, sim senhor. Então, o quadro ideal era ele com o cigarro pendente dos lábios, taco de sinuca na mão, óculos escuros na ponta do nariz. Os homens de terno e gravata tentariam convencê-lo a ir para a Zero Hora enquanto ele jogava displicentemente. Rondelli lhes enviaria um sorriso cínico detrás da fumaça azul do cigarro:

– Desculpem-me, senhores, mas meu lugar é aqui, com meus amigos. Prefiro continuar na Tribuna, um jornal pequeno, mas aguerrido. Um jornal do povo. Para o povo. Pelo povo.

– Mas, Rondelli… Nós precisamos de você, nós…

– Não adianta, senhores! Já disse: não. Tenho meus princípios. Tenho toda uma comunidade a defender.

E olharia em volta para os desvalidos. Que o encarariam com humildade agradecida.

Depois de muita insistência e negociação, ele aceitaria, relutante. Mas só porque os amigos do bairro insistiram e porque os executivos garantiram que continuaria fazendo o que fazia: defendendo os despossuídos. Já se via entrando na redação de Zero Hora: invejado pelos homens, desejado pelas mulheres. Os comentários:

– Aquele é o Régis Rondelli. Agora não vamos mais tomar furo. Nossos empregos estão salvos.

O Câncio Castro sairia da sala envidraçada da direção para recebê-lo pessoalmente:

– Régis Rondelli! Finalmente conseguimos contratá-lo – exultaria braços abertos de entusiasmo.

E Mário Marcos de Souza, o presunçoso Mário Marcos de Souza, viria cumprimentá-lo e pedir desculpas por aquele incidente na redação, tempos atrás, quando Rondelli vivia a época das vacas magras. Que emoção. E fim da agonia do trabalho free-lancer, e fim das dívidas, e fim da penúria.

Ao pensar em suas dívidas, Rondelli por algum motivo lembrou mais uma vez do rosto da pobre Meriam. O que causou rachaduras em sua felicidade. O choroso rosto da viuvinha não parava de lhe vir à mente. Entremeado, claro, com a imagem do rosto, e sobretudo do corpo, o estupendo, formidável, inverossímil e até angustiante corpo da mulher do Peçanha. Porque o Peçanha estava ali, diante dele e de seu amigo Nico, os três sentados a uma mesa do Lilliput, cada um com seu copo de chope. O Peçanha na noite, quem diria? Aquele não era o ambiente do Peçanha. Rondelli e Nico no Lilliput, tudo bem. Eles viviam no Lilliput, diziam que o bar era seu segundo lar. Mas o Peçanha… O Peçanha, ao que se sabia, só se dedicava à sua mulher. Algo que ninguém condenava. Nem o Nico, sempre tão cínico em relação ao casamento, censurava o Peçanha por seu desvelo matrimonial. Não havia como criticar o Peçanha. Não com uma mulher daquelas.

– A mulher do Peçanha é superlativa! – discursava o Nico nas rodas de bar. – Superlativa! Se eu tivesse uma mulher daquelas, não saía mais de casa! Abastecia minha despensa de bolacha Maria e me trancaria em casa para sempre. A mulher do Peçanha e pacotes de bolacha Maria. Esse é o resumo da felicidade.

Histórias Faladas: O flagra

29 de novembro de 2013 0

Ele namorava uma morena e resolveu pular a cerca com uma loira. Para a seção História Falada, o colunista David Coimbra fala sobre o dia em que foi pego no flagra por uma ex-namorada.

Sala de Redação

29 de novembro de 2013 0

Ouça o Sala de Redação desta sexta-feira:

Você tem que ler

29 de novembro de 2013 3

Nesses dias estranhos, li uma pequena obra-prima. “Festa no Covil”, do mexicano Juan Pablo Villalobos.
É um livro belo e cruel. Como a vida.
Mais não direi. Só que você tem de correr à livraria para comprá-lo. O engolirá de uma só vez, são 80 páginas de texto escorreito.
O narrador é uma criança. Bom, mas eu disse que nada mais diria, e nada mais direi. Apenas reproduzirei um trecho, que descreve um sentimento que já senti:

“Quando me acalmei, senti uma coisa muito estranha no peito. Era quente e não doía, mas me fazia pensar que eu era a pessoa mais patética do universo”.

Leia, por favor.

Som de Sexta

29 de novembro de 2013 1

As vantagens de dias febris são na vedade uma só: o delírio.
O delírio mistura a realidade e o sonho. Aquilo aconteceu mesmo?
Não sei.
Sonhei que recebia fotos de alguém que estava entre Paris e Londres, que ia de uma cidade a outra.
Era bom de ver aquelas fotos, mas descobri que não era verdade, porque as fotos eram do Reveillon, e o Reveillon não aconteceu ainda, não é?
Então, em homenagem a Paris e Londres, vai aí um som de um londrino, um cara que dirigiu táxi pelas ruas de Londres, cantando em inglêes, sim, mas a parte importante em francês: n’oublie jamais. Esquecer, jamais.

Ego

29 de novembro de 2013 17

Desconfio de qualquer um que seja doutrinário. O acólito, o seguidor de doutrina, o radical de qualquer crença, partido, igreja ou ideal, esse é inevitavelmente um idiota. Impossível ser radical sem ser idiota.

O radicalismo é um desvio de personalidade. Porque, ao radical, pouco importa no que ele acredita. O que importa é ele acreditar radicalmente em alguma coisa. O radicalismo é apenas um meio. Um instrumento em que ele exercita o seu egoísmo.

Assim a mulher feminista. É o pior tipo de mulher com quem conviver, porque ela justifica o seu egoísmo intelectualmente. A mulher feminista, quando faz o mal ao seu companheiro, alega estar sendo honesta com seus sentimentos. E sai pelo mundo de nariz erguido, repetindo com orgulho: sou uma mulher honesta! Sou uma mulher honesta!

Ora, ela foi honesta com os sentimentos DELA. E os dele? Uma pessoa que se preocupa só com os seus sentimentos e esquece o dos outros, o que é?

Egoísta. No caso da feminista, uma egoísta com discurso, cruzcredo.

Fuja da mulher feminista.

Também o político. Se você tiver de escolher entre um político idealista e um político hipócrita, quem você escolherá? O idealista, claro.

Pois você fará má escolha. O hipócrita tem o freio da própria hipocrisia. Se os outros não gostam, ele hesita. Quer dizer: mesmo que seja por interesse, ele, de certa forma, se preocupa com o sentimento dos outros.

Já o idealista não vacilará em cometer os maiores desatinos e as maiores desumanidades em nome do seu ideal. Porque o ideal dele está acima de tudo, inclusive das pessoas. Seja que ideal for, na ponta direita ou na ponta esquerda. O importante é que ele tenha essa justificativa para o seu egoísmo. Ele passa por cima dos outros e ainda bate no peito: tive que fazer isso, porque era no que acreditava.

José Dirceu é um idealista. Ele não queria se locupletar com o Mensalão. Nada disso. José Dirceu tinha um projeto de poder para o PT, e acreditava que aquele projeto salvaria o Brasil, assim como a feminista acredita estar sendo honesta quando coloca os sentimentos dos outros como subalternos aos seus.

É por isso que José Dirceu acredita, de fato, que é um preso político, que é um injustiçado. Porque seu ideal dava salvo-conduto para quaisquer de suas ações, o ideal transformava seu egoísmo em doutrina. Para Dirceu, o seu egoísmo era mais do que isso: era heroísmo.

Ah, mas às vezes os egoístas são desmascarados, e aí lhes aguarda a danação. Aos egoístas, e às egoístas, está reservada a maldição dos versos finais da composição imortal de Lupicínio, “Vingança”:

“Você há de rolar como as pedras que rolam na estrada

Sem ter nunca um cantinho de seu pra pode descansar”.

Histórias Faladas: O dia em que Papai Noel morreu

28 de novembro de 2013 0

A trágica morte de Papai Noel é contada pelo colunista David Coimbra

Túnel do Tempo: Pistoleiros também mandam flores - Capítulo 14

28 de novembro de 2013 1

Então, Aníbal agiu. O profissionalismo foi mais forte. Ele sabia o que fazer, e fez. Deu dois passos em direção ao empresário e, rápido como uma serpente, disparou três tiros, todos nos peito, dois deles certeiros, no coração. O empresário desabou sem nem desconfiar do que lhe sucedera. Assim era bom, assim era direito: executar a vítima antes mesmo que ela pudesse sentir medo ou dor. Isso era clemência. Isso era humanidade. Isso era civilização. Aníbal era uma boa pessoa.

A loira, que ouvira a aproximação do marido, levantara-se de um salto e passara a urrar, nua e enlouquecida, com as costas coladas à parede. Aníbal virou-se para ela:

– Schhhh – ordenou, com o indicador diante do nariz, como nos quadros de enfermeiras em hospital. – Schhhh! Ana! – tentou apelar para o nome dela, que aprendera um minuto atrás. As pessoas prestam mais atenção quando a gente pronuncia o nome delas.

Mas com Ana não funcionou. Ela continuou berrando e ensaiou uma fuga, não dando a Aníbal outra opção: ele a abateu com dois tiros nas costas. A loira expirou no tapete fofo da sala e Aníbal balançou a cabeça: aquilo não estava certo, não era esse o jeito de fazer um serviço. Aquele não era o local certo, aquela não era a gente certa, ele mesmo cometera um erro, diversos erros, e detestava cometer erros.

Agora, em retrospectiva, entendia que, de alguma forma, não tivera tanta culpa. A execução da loira, poxa, acabou sendo inevitável. Ela estava onde não deveria estar. Era uma testemunha. Não podia ser mantida com vida. Mesmo assim, Aníbal lamentava sua morte. Um desperdício, eliminar uma gostosa daquelas. Gostaria de ter ficado com ela, tê-la levado junto e aproveitar dela mais um pouco. Por algum tempo, ao menos. Se ela compreendesse como as coisas funcionavam… O sexo, o prazer, o poder. Mas as mulheres não entendiam nada disso. Elas só compreendiam o amor; o desejo, jamais. Triste.

Aníbal chegou em casa, na rua Portugal, uma rua tranqüila e arborizada de um bairro classe média. Tranqüila, mas não menos perigosa do que as outras ruas da cidade. Mais do que ninguém, ele sabia que os meliantes estavam em toda parte, à espreita, atrás de árvores, protegidos pelas sombras. Lançou olhares conspícuos para os lados antes de entrar na garagem. Essa violência urbana. E o governo não faz nada. Era gente como Aníbal, abnegados como ele, que servia de proteção aos mais fracos.

Aníbal trabalhara como policial, sabia o que devia ser feito. Aparelhar a polícia, melhorar os salários dos policiais, fornecer mais cursos de especialização, era isso que devia ser feito. Em sua maioria, a polícia é honesta. O povo pode confiar na polícia. Claro, há gente indigna em todas as profissões, na polícia não era diferente, mas o índice é até mais baixo que no restante da sociedade, se se considerar as condições em que os policiais vivem e trabalham. Expostos ao perigo todos os dias por um salário de fome. Por essa razão é que tantos policiais caem na marginalidade. Ele mesmo, Aníbal, chegou um momento em que não conseguia mais manter seu estilo de vida. Teve de começar a fazer serviços de segurança particular. Foi assim que entrou no ramo de eliminações de problemas por encomenda. Era dessa forma que descrevia seu trabalho: eliminações de problemas por encomenda. Está certo, admitia que não se tratava de uma atividade legal, mas nem tudo que é justo é legal, ele sabia perfeitamente. Por isso fazia o que fazia. Começou com servicinhos para comerciantes ansiosos pela eliminação de elementos que perturbavam a vida em seus bairros. Aníbal considerava essa uma função digna: livrou a sociedade de bandidos conhecidos, gente má, assassinos, ladrões, seqüestradores, estupradores. Então, Aníbal era uma espécie de anjo vingador, alguém com quem as pessoas sérias e honestas sempre podiam contar, alguém que desembaraçava o cipoal das leis, aquelas leis que tantas vezes colocavam nas ruas os bandidos que a polícia prendia. Sim, Aníbal prestava um serviço indispensável à comunidade! Depois, é evidente, seu trabalho foi se sofisticando. Com nome firmado na praça, Aníbal passou a ser requisitado para empreitadas mais requintadas, como eliminar aquele empresário de Novo Hamburgo. Não passava de um explorador da classe trabalhadora, o empresário de Novo Hamburgo. Merecia punição. Sim, porque Aníbal não tinha preconceitos. Ou gente rica não comete seus pecados? Não prejudica a sociedade? Então, os que Aníbal eliminou só atrapalhavam a vida de gente de bem. Seu único remorso era a loira. Havia sido um erro lamentável, a loira, tudo o que aconteceu com ela. E um desperdício. Como gostaria de ter aproveitado aquela loira um pouco mais…

Já dentro de seu apartamento de quarto e sala, Aníbal mirou-se no espelho grande do banheiro. Assestou um fio de cabelo que escapava da moldura do gel. Os cabelos negros estavam começando a agrisalhar nas frontes. Aníbal achava que um prateado lateral ia lhe conferir respeitabilidade, mas se preocupava com a possibilidade de parecer mais velho do que era. Tinha 32 anos, estava em boa forma. Contraiu os bíceps. Aprovou o que viu. Fazia sucesso com as mulheres e, com dinheiro na mão, mais sucesso ainda. O trabalhinho com o professor de arquitetura ia lhe render uma boa quantia. Talvez passasse uns dias em Florianópolis no mês seguinte. Sorriu ao lembrar da tainha recheada com camarão do Arante, na praia do Pântano do Sul. Consultou o relógio. Ficar em casa o deixava impaciente. Decidiu sair para espairecer. Quem sabe levantar uma mulherzinha na noite porto-alegrense. Um pouco de sexo casual, era disso que estava precisando.

Sala de Redação

27 de novembro de 2013 1

Ouça o Sala de Redação desta quarta-feira:

Túnel do Tempo: Pistoleiros também mandam flores - Capítulo 13

27 de novembro de 2013 1

Aníbal podia fazer o que bem quisesse com ela. Era muito excitante: matar o marido e violar a esposa, como os antigos conquistadores. Um dia, sentado na sala de espera do dentista, folheou uma dessas revistas de História e deparou com uma matéria sobre Gengis Khan. Não lembrava de muitos detalhes da biografia do cara, mas de uma frase jamais esqueceu. Arrancou a página da revista e levou-a consigo. Decorou a frase, volta e meia a repetia mentalmente: “A maior alegria de um homem é a vitória: conquistar o exército de um inimigo, persegui-lo, privá-lo de seus pertences, reduzir sua família às lágrimas, cavalgar em seus cavalos e possuir suas esposas e filhas”. Que prazer insuperável, esse! Não há nada que revele mais a supremacia de um homem sobre outro: derrotá-lo e depois fazer de tudo com sua mulher. De tudo! Não era em vão que sua mãe havia lhe posto o nome de um conquistador: Aníbal, o homem que submeteu Roma! Aníbal. Ele sabia quem era Aníbal. Ele lia, ele se informava, ele não era como aquelas bestas ignorantes dos seus colegas, que só viam Big Brother na TV e riam de seu nome. Não entendiam o significado: Aníbal, Graça do deus Baal. Aníbal, o terror de Roma. Ele era um Aníbal, um Gengis Khan, isso que ele era! O Flagelo de Deus!

Claro, não gostava da idéia de reduzir famílias às lágrimas, não, Aníbal era uma boa pessoa, não se comprazia em ver os outros tristes. Mas o prazer da conquista e da submissão completa de um homem, inclusive usufruindo de sua mulher, ah, disso ele gostava, sem dúvida!

Continuou alisando o seio da loira, que respirava pesadamente, o peito oscilando para cima e para baixo. Agora não gritava mais. Sabia que, se gritasse, poderia levar um tiro no narizinho arrebitado. Estaria gostando de suas carícias? Decerto que gostava. Aquele sujeito, o empresário, provavelmente nem transava mais com ela. E, quando transou, não deve ter feito a coisa certa. Não, não, uma loira daquelas necessitava de um homem de verdade, um homem que a possuísse como ela precisava ser possuída.

Puxou a camisola dela para baixo, num repelão. A loira deu um pequeno salto e começou a soluçar. Ficou só de calcinha. Uma calcinha pequena, de algodão, Aníbal achou que fosse de algodão. Que gostosa! Se Aníbal fosse mulher, queria ser uma gostosa assim. Nossa, como ele iria manipular os homens, se fosse uma gostosa. E como iria fazer sexo de todas as formas. Uma puta. Sem dúvida, se Aníbal fosse mulher, seria uma puta. Aquela loira tinha bem cara de puta. Gostosa daquele jeito. Devia fazer misérias com o empresário. Agora Aníbal ia fazer misérias com ela. Uma vingança de toda a classe masculina, de certa forma. Aníbal, o vingador dos homens. Passeou a mão esquerda gostosamente pelos seios e pela barriga pétrea da loira, enfiou-a dentro da calcinha. A mulher soluçou mais alto. Com a mão direita, Aníbal ainda segurava o revólver e, vez em quando, encostava o cano na cabecinha perfeita dela.

– Fica quietinha – mandava. – Bem quietinha.

Ela obedecia. Deus, aquilo era maravilhoso! Ela certamente estava gostando. Certamente!

Aníbal aproximou a boca da orelha da loira. Sussurrou, estourando de desejo:

– Agora vou te chupar como tu nunca foi chupada, sua gostosa!

Ajoelhou-se diante dela. Arriou as calcinhas até os tornozelos. Ela chorava abafado. Aníbal mandou que abrisse as pernas. Ela obedeceu. As costas da loira estavam apoiadas na parede, as pernas abertas, a calcinha ainda pendente do tornozelo direito. Aníbal enfiou a língua dentro dela. Seu sexo era perfumado. Ela devia ter saído do banho minutos antes. Ah, o sabor de uma loira bem fresquinha e tenra… Era o sabor da própria primavera. Continuou trabalhando ali embaixo, até que não agüentou mais de desejo. Levantou-se, agarrou-a por um dos ombros e mandou que virasse. A loira obedeceu mais uma vez. Era a sua cadelinha obediente. Aníbal posicionou as duas mãos dela na parede. Abriu rapidamente o fecho das calças. E a penetrou. A loira começou a chorar alto enquanto ele trabalhava. A chorar, a soluçar e a repetir “meu Deus, meu Deus!”. E aquele “meu Deus” era sentido e doído e desesperado, e aquilo estragou a coisa toda. Aníbal percebeu que ela não estava gostando. Mas que porcaria. Sentiu-se humilhado e arrependido. Gozou rapidamente. Colocou o pênis para dentro das calças outra vez, enquanto a loira escorregava pela parede, aos prantos, destruída. De imediato, Aníbal se arrependeu de tê-la possuído. Será que ela não entendia que as coisas eram assim? Que era a regra do jogo? Puxa, se ela se entregava àquele empresário nojento, por que não experimentar um homem de verdade ao menos uma vez na vida? Mas, não, ela agora só queria chorar e repetir “meu Deus, meu Deus”, e aquele “meu Deus” estava deixando Aníbal ainda mais aflito. Agachou-se. Levou a mão carinhosamente aos cabelos dela.

– Moça – chamou. – Moça.

Ela deu uma espécie de latido e se arrastou para longe dele. Estava claro que o abominava, que não podia suportar sequer o seu toque. Aníbal sentiu um aperto no peito. Não era para ser assim. Era para haver prazer na coisa toda. Será que ela não sentira nem um pouquinho da excitação que ele experimentara? As mulheres são insensíveis mesmo. Só pensam em amor, amor, amor. Sexo, que é bom, só para conquistar os homens. Conquistam um otário, casam com ele e, aí, nunca mais minissaias, calcinhas minúsculas, decotes profundos. Nunca mais. Sexo, elas não gostavam de sexo. Quem gosta de sexo é o homem.

– Moça – repetiu.

Mas ela se encolheu contra a parede, o rosto escondido entre as mãos, soluçando sem parar. Que desgraça. Será que ela era daquelas que levam tudo a sério? As mulheres sempre levam tudo a sério. Será que ela ficaria traumatizada por toda a vida? Será que Aníbal estragara a mulher? E ela tinha tanto jeito de quem entendia como funcionava a vida… Que falta de sorte. Aníbal agora estava de pé, cogitando o que fazer, quando o empresário entrou na sala. Ficou parado na borda do tapete, com o casaco nas mãos, abobalhado.

Sala de Redação

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Histórias Faladas: Hablando español

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Veja como se fala espanhol na editoria de Esportes de Zero Hora. Quem demonstra é o colunista David Coimbra.

Túnel do Tempo: Pistoleiros também mandam flores - Capítulo 12

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Verdade que o professorzinho não se enquadrava nessas categorias. Era um professor, um trabalhador. Aníbal respeitava os trabalhadores. Isso o incomodava um pouco. Além do fato de o professor morar em Porto Alegre. Com gente dessa classe ele só atuava fora da cidade. Mas o professorzinho também estava causando mal. Atrapalhando gente importante. E, puxa vida, o dinheiro que lhe ofereceram era irrecusável. Outra coisa: o professorzinho podia ser considerado um insignificante. Que contribuição ele daria para a comunidade? Nada. Zero. Talvez até tivesse sido bom abreviar a passagem dele por esse vale de lágrimas. Convenceu-se de que foi um ato humanitário ceifar o sofrimento do pobre coitado. Dez segundos, tudo resolvido. Sem aquela longa agonia dos hospitais, sem a decadência da velhice. Muito mais prático e barato. Deviam lhe agradecer.

Aníbal sorriu com benevolência a esse pensamento. Engatou a quarta marcha do seu Megáne negro como as asas da graúna. Era como se referia ao seu carro: como Iracema, a virgem dos lábios de mel. Havia rodado muito pela cidade, após a consumação do serviço. Agora precisava relaxar. Dirigiu em direção à rua em que se situava o seu edifício. Ainda lembrava do professorzinho. Ele nem teve tempo de compreender o que lhe acontecia. Com Aníbal era assim: serviço rápido e limpo. Não era por acaso que tinha bom nome na praça. Pensou na mulher do professor. Uma turca bem bonitinha. Magra, mas não muito. Gostaria de consolá-la. Sorriu mais uma vez. Lembrou do dia em que pegou aquela loira, mulher de um empresário de Novo Hamburgo. Não foi culpa dele, a coisa aconteceu meio por acaso. Por isso não gostava de atuar nessas classes superiores. Chamava a atenção da imprensa e sempre dava problema. Nesse serviço, haviam lhe garantido que a casa estaria vazia. Tinham lhe dado a chave. Aníbal só precisava entrar e esperar. Quando o sujeito chegasse, era executar a tarefa e ir embora. Rápido. Limpo. Sem complicações.

Pois bem. Aníbal entrou na casa. E quem encontrou de pé, na sala, olhando perplexa para ele? A loira. O que ela estava fazendo ali, carácoles? Não devia estar viajando? Não devia estar bebericando daiquiris com sombrinha no copo em Punta del Este? A loira o fitou com os olhos arregalados. Aníbal suspirou, agastado com a intromissão.

– O que é isso? – gritou ela, já apavorada.

Aníbal se sentiu um pouco ofendido com a reação dela. Por acaso tinha cara de facínora para ela berrar daquele jeito? Está certo, entrara sem ser convidado, mas não podia ser tudo um mal-entendido? Um equívoco inocente? Uma vez havia entrado por engano no apartamento do andar inferior ao dele e ninguém urrou de terror. Ao contrário, foi muito divertido, a família olhou com alguma surpresa para ele na sala, mas de imediato todos compreenderam seu erro, deram risada e ele saiu se desculpando, constrangido. A violência urbana. A vida agitada do mundo moderno. É isso que torna as pessoas desconfiadas e tensas. Aníbal suspirou de novo.

– Calma, minha senhora! Não precisa gritar desse jeito! Que coisa!

Ela piscou, desconcertada.

– O que você quer aqui? É um assalto?

Aníbal deu um tapa irritado na própria perna.

– Eu tenho cara de assaltante, madame? Tenho?

Caminhou em direção a ela com o pescoço se projetando para frente, mostrando o rosto que, ele tinha certeza, não era o de um assaltante. A loira recuou, ainda mais assustada, ofegante de horror, balbuciando “não, não”… Aníbal chegou bem perto, bem perto, e então sentiu o cheiro que vinha do pescoço dela. Um cheiro de loira. Estacou, interessado como um cachorro que fareja um odor desconhecido. Avaliou-a dos tornozelos macios aos cabelos cascateantes. Ali estava uma bela loira, dessas que viram namoradas de jogadores de futebol ou de empresários. Não era à toa que aquela loira casara com um empresário tão poderoso do Vale do Calçado. A loira respirava pesadamente, prensada na parede, a garganta fechada de medo. Vestia um chinelinho de pano e uma camisola leve, cor-de-rosa, um palmo acima dos joelhos redondos. Os seios generosos ansiavam pela liberdade que ficava do lado de fora da camisola. Aníbal inspirou com o nariz e a boca abertos. Queria sorver o máximo daquele ar fresco de loira. Olhou bem para os seios dela. Beleza de seios. Uma belezura mesmo. Ela começou a choramingar.

– O que você quer? – repetia. – O que você quer?

Aníbal cogitou se ela havia colocado silicone. Nunca tocara num seio com silicone. Como seria a consistência? Faria algum barulho? Tchóin, talvez? Aníbal riu alto. Tchóin, que idéia. Olhou nos olhos verdes dela.

– Você colocou silicone? – perguntou.

A loira arregalou ainda mais os olhos. Aqueles faróis de milha tão lindos.

– Me deixa! – gritou. E, tentando se livrar, girou o corpo para sair do cerco de Aníbal e gritou ainda mais alto: – Socorro! Socorro!

Aníbal a segurou pelo pescoço. A loira engasgou. Tossiu:

– Soc… socor…

A voz foi-lhe morrendo na garganta. Aníbal estava furioso. Detestava esses imprevistos. Seu serviço tinha de ser rápido e limpo. Aquela loira não era para estar ali e, agora, além de se meter onde não devia, ficava berrando como se ele fosse um meliante qualquer. Estava tudo errado com aquele trabalho! Mas ele ia corrigir, ah, ia! Aníbal sacou o revólver que levava na cintura. Meteu o cano no rosto corado da mulher.

– Cala essa boca – rosnou, pela primeira vez com uma voz realmente ameaçadora. – Cala essa boca ou eu te mato, sua cadela!

Ela emudeceu. Aníbal sabia como falar com quem estava na outra ponta da arma. A loira continuava tossindo. Aníbal percebeu que ainda apertava seu pescoço. Afrouxou a pressão devagar. Soltou-o, enfim, mas manteve a mão em seu colo macio. Era bom de tocar ali.

– Não grita – ordenou, com o nariz colado no belo rosto da loira. A mão direita ainda empunhando o revólver. – Não grita! – E a mão esquerda foi descendo, descendo, escorregou para dentro da camisola e apalpou o seio direito dela. Que delícia aquele seio! Durinho, meio gelado. Que perfeição! Todas as mulheres deviam colocar silicone. Aníbal continuou apalpando-o com vontade, murmurando “que delícia, que delícia, que delícia”, sentindo uma ereção formidável sob as calças, cada vez mais estimulado pelo medo e pela fragilidade da loira. Ela estava à sua mercê.