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Posts de dezembro 2013

Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 10

30 de dezembro de 2013 1

“O olhar maligno do açougueiro”

Walter passou o resto da manhã sozinho, trabalhando, refletindo. Estava instalado na banqueta atrás do balcão de madeira da sapataria, o avental azul-escuro amarrado ao pescoço descendo-lhe até os joelhos, quatro tachinhas presas aos lábios pelas pontas agudas, as cabeças arredondadas viradas para o lado de fora. Batia as solas com os calçados por con­­ser­tar embutidos num tripé de ferro preto cha­ma­do pé-de-moleque. Nas paredes em volta, estantes com pequenos nichos, cada um deles com pares de calçados já reformados, esperando por seus donos. No chão, em volta dele, rolos de couro curtido, pron­tos para serem cortados em formatos de meia-sola ou sola inteira. A única distração de Walter era a janela que ficava em frente à sua mesinha de ferramentas. A ja­nela oferecia-lhe uma fatia da rua do Arvoredo. Ao longo da rua, alinhavam-se construções de estilos variados. Havia casinhas de paredes de sapê e telhados de capim, muito simples, muito precárias. Havia so­bra­dos de dois andares, alguns de madeira, outros fei­tos com os tijolos cozidos na rua da Olaria, tijolos robustos, que pesavam nove quilos, mediam trinta e cinco centímetros de comprimento, quinze de largura e dez de espessura. Havia casas do tipo açoriano, a porta da frente abrindo-se diretamente para a calça­da, uma persiana de cada lado. A casa de Walter seria assim, se a fachada não tivesse sido alterada para que a peça da frente abrigasse a sapataria. Estabelecimentos comerciais funcionando na residência dos pro­prietários eram comuns na cidade. O açougue de Ramos também fora instalado em sua casa. Com duas diferenças básicas: o açougue havia sido puxado para um apêndice lateral e a casa número 27 era bem maior do que a de Walter e grande parte das outras, no entorno. Walter olhava para a rua irregular, de barro batido, rua que virava lodaçal intransitável em dias de chuva, e pensava em Catarina. Lembrava-se, sobretudo, da forma como ela falara Walter.

– Walter…

Apenas seu nome, reticências, nada mais.

E bastava.

Desde a morte de Maria Augusta não sentia tanta emoção ante a presença de uma mulher. Emoção mesclada com todas as outras sensações violentas que explodiram naquela manhã. O medo que ficara impresso no rosto dela à chegada de Ramos, o olhar maligno do açougueiro, a voz medonha que dava a impressão de ain­da ecoar pela sapataria, todo o constrangimento que pairou como uma nuvem negra sobre eles. Não, aquilo não estava certo. Walter teria de agir. Teria de descobrir o que se passava no número 27. E teria de fazê-lo logo. Não podia deixar para mais tarde. Sabe-se lá o que poderia acontecer com Catarina se continuasse mais tempo naquela casa. Ela devia estar correndo perigo. Grande perigo. Ele sentia isso nos ossos.

Walter limpou o suor da testa. Parou de trabalhar por um segundo. Seus olhos amarelos fitaram a luz ainda mais amarela que vinha da porta da sapataria. Do outro lado da rua, levantava-se o morro sobre o qual reinavam o palácio da Presidência e a igreja Matriz. Walter podia ver um pedaço dos fundos do palácio.

Fazer logo.

Balançou a cabeça, concordando com a própria resolução. Voltou a olhar para o sapato que conser­tava. Assestou-lhe uma tachinha. Há muito tempo ruminava essa possibilidade – invadir a casa maldita, investigar o que acontecia lá dentro. Algo descobriria, disso estava certo. Tinha consciência de que se tratava de uma ação temerária, mas precisava empreendê-la. Sua intuição lhe dizia que Catarina enfrentava algo de muito ruim entre aquelas paredes. Intuição… Não. Era mais do que intuição; era o seu intelecto que chegara a essa conclusão, reunindo os indícios que lhe forneciam seus próprios sentimentos, além de outros dados bastante consistentes, como os gritos que ouvia à noite. Porque, afinal, a inteligên­cia é exatamente isso: compreender por que nossos sentimentos estão nos dando um aviso, interpretá-los e agir de acordo com as conclusões tiradas da interpretação. Se você está sentindo algo, é porque teve uma percepção. É a inteligência pura agindo, pronta para ser verbalizada e, assim, se cristalizar em realidade. Pois as coisas só se tornam reais quando verba­lizadas. Já diz a Bíblia: “No princípio, tudo era o Verbo; e Deus era o Verbo pairando sobre as águas”. Aí está: o Verbo com maiús­cula. Deus é o Verbo, e o Verbo é tudo. Quando falamos sobre um sentimento, ele se materializa na nossa frente. Vira realidade. Walter balançou a cabeça, satisfeito com o próprio racio­cínio. Sim, ele se con­siderava um homem racional. Disso se envaidecia.

Durante semanas, vinha observando a casa. Passava devagar diante dela, mão no bolso, exa­mi­nando cada detalhe, fazendo reconhecimento do terreno. Ia ao açougue, comprava a famosa lingüiça especial, aproveitava para dar uma espiadela no ter­reno, memorizava a geografia do lugar, como se fosse um batedor do Exército ou um daqueles índios americanos sobre os quais havia lido em um jornal da Corte que lhe caíra nas mãos. Índios bravos, cora­josos e ingênuos, que estavam sendo roubados e dizimados pelo governo dos Estados Unidos. Freqüen­temente, Walter parava do outro lado da rua quando saía para pas­sear, examinava o panorama, encos­tado em alguma árvore.

À noite, em sua própria sala, sentado à escrivaninha que era o seu orgulho, Walter traçava uma eventual estratégia de ação. A escrivaninha era alta, feita de boa madeira de lei, compacta, com três gave­tões de cada lado. No tampo, Walter havia disposto os papéis para as anotações, além de seus jornais, do livro que lia no momento e, o principal, o item de decoração que mais o agradava: um globo terrestre de madeira, colorido, do tamanho da banquetinha em que trabalhava na sapataria. Walter gostava de estudar o globo, de situar com precisão onde ficavam os países nos quais haviam ocorrido os fatos históricos que mais o encantavam. Sentava-se à escrivaninha, girava o globo e procurava: ali, na pequena forquilha formada pelos rios Tigre e Eufrates, nas­cera a civilização, graças à ganância comercial dos sumé­rios, ganância que, Walter reconhecia, era o que tirava a Humanidade da cama todas as manhãs e motivara a criação tanto da escrita cuneiforme quanto do moderno telégrafo elétrico. Girando um pouco mais o globo, Walter passava a unha pelas margens do da­di­voso rio Nilo, onde se desenvolvera a formidável cultura egípcia. Um dos sonhos que acalentava com maior paixão era o de um dia visitar o Egito, conhecer o Vale dos Reis, as pirâmides de Quéops, Quefren e Miquerinos, a fabulosa cidade de Alexan­dria, sede da Grande Biblioteca do Mundo Antigo, incendiada por Júlio César. Mas havia mais. Muito mais. Próximo ao Mediterrâneo, Walter fincava o dedo no salto da bota onde vicejara o império de mil anos de Roma. Roma, a Cidade Eterna! O Coliseu! O Fórum! A tão incen­sada Fontana diTrevi, que fora construída havia cem anos e da qual diziam maravilhas! Não podia morrer sem ver Roma. Bem perto se multiplicavam as minús­culas mas buliçosas ilhas gregas. Atenas e Esparta, irmãs e inimigas como os gaúchos que vinte e poucos anos antes se matavam mutua­mente na Guerra dos Farrapos. Mas a ilha de Santa Helena, onde morrera Napoleão, quarenta anos atrás, ele não encontrava. Onde diabos ficava a ilha de Santa Helena? Precisava descobrir onde morrera o homem mais importante da modernidade, o homem que transformara o mun­do no que era hoje.

Havia sido na escrivaninha dominada pelo globo que Walter planejara a invasão à casa maldita, como se fosse um Bismarck traçando planos de guerra na Prússia de seus pais. Desenhara prováveis plantas da casa, estabelecera esquemas de ação detalhados, cheios de etapas e sube­tapas. Fazia isso à noite, sozi­nho, iluminado por um lampião de óleo de baleia.

Durante o dia, aboletado em sua banquetinha, na sapataria, ele revisava os projetos mentalmente. Nunca reunira audácia suficiente para pôr o plano em prática. Agora, a audácia se fazia necessária. Ago­ra, não havia mais o que elucubrar. Teria de agir. Estava resolvido. Antes de o sol voltar a nascer, Walter descobriria o que se passava na casa ao lado.

Retesou-se ao tomar a decisão. Olhou para a rua. Balançou de novo a cabeça, em concordância. Apanhou um rolo de couro que estava no chão, do seu lado direito. Quando tornou a se aprumar na banqueta, ele estava lá.

Walter o reconheceu de pronto. Não havia como não reconhecê-lo. O chefe de polícia Dario Callado era um dos homens mais famosos de toda a Província de São Pedro. Magro, mas forte, a energia como que exsudando dos músculos sempre prontos para a ação. A pele escura, da cor da terra, curtida pelo sol. Os olhinhos rasgados, as pupilas negras onde volta e meia relampejavam um tanto de astúcia, muito de malícia.

Walter ficou apreensivo. Dario Callado em pessoa na sua sapataria. Não vinha pedir para consertar algum sapato, isso era certo. Esses trabalhos menores ele repassava para a criadagem. O poder de Callado se estendia por toda a província. A Corte sempre designava pessoas de outras regiões para o cargo de chefe de polícia. Ele era nordestino. Cearense, alagoano, pernambucano, algo assim. O chefe de polícia era conhecido como um homem facilmente irritável, de humor cambiante e escrúpulos maleáveis. O deputado Silveira Martins não cansava de subir à tribuna para usar da sua célebre oratória a fim de denunciar descalabros cometidos por Callado. Prisões ilegais, como da vez em que um homem foi detido por assobiar durante um espetáculo no Theatro São Pedro. Desmandos, como a prisão de um comerciante que lhe negou cumprimento numa recepção pública. Espancamentos de presos e de escravos, aos quais não permitia sequer que andassem pelas calçadas da cidade. Silveira Martins bradava, o dedo em riste, a basta cabeleira tremulando feito um estandarte, mas a Corte não fazia nada. Dario Callado continuava soberano e intocável na Província de São Pedro.

De todas as histórias que se contavam a respeito de Callado, as que o populacho mais apreciava versavam sobre suas investidas amorosas. Callado era um conquista­dor fracassado. Admirava sobretudo as atrizes de teatro. Sempre que uma companhia chegava a Porto Alegre, ele ia aos camarins, mandava flores para as divas, cortejava-as, na esperança de obter seus favores sexuais. Nada mais natural. As atrizes, célebres por sua vida mundana, eram consideradas mulheres fáceis, carregavam a fama de serem libertinas. Quando chegavam à cidade, eram tratadas como estrelas, tornavam-se assunto de todas as rodas masculinas na rua da Praia, alimentavam os sonhos românticos dos jovens. Um jurava ter visto o tornozelo de uma cantora. E lhe descrevia as formas: como o tornozelo era redondo, liso e provavelmente macio. Outro falava acerca da gargalhada sonora com que uma polaquinha eletrizara a Bailante, da maneira como ela ria sem pudores nesta terra em que as mulheres pouco riam. Os poderosos organizavam recepções para elas, as mães de família olhavam-nas com um misto de inveja e despre­zo. Inveja por sua liberdade, por suas roupas coloridas, pelo feitiço com que encan­tavam os homens. Desprezo por sua péssima reputa­ção, pela ameaça que representavam à vida modor­renta e segura que levavam nas ruas pardas da capital da província mais meridional do império.

A imagem que a gente-bem fazia das atrizes ficara plasmada no ano anterior. Uma jovem cantora italiana representara o papel da Virgem Maria numa quermesse da capela do Menino Deus. Fora sobejamente aplaudida e festejada, era a própria Nossa Senhora, a menina. Dias depois, ela contraiu varíola e morreu. O padre da igreja das Dores recusou-se a lhe ministrar os sacramentos, alegando que a moça tivera uma vida dissoluta. O diretor da companhia processou o padre, mas os magistrados locais se negaram a examinar a questão, argumentando que a Justiça não trata de assuntos religiosos.

Exatamente por ser um homem sedento de pra­zeres mundanos, Dario Callado amava as atrizes. Apaixonou-se por uma delas, uma morena de tez clara que, di­ziam, era francesa, o que lhe incandescia a aura de sensua­lidade. Mas a tal morena, bem como a maio­ria das mulheres abordadas pelo chefe de polícia, não foi sensível aos seus galanteios. Ao contrário, consi­derou mais atraen­te um tenentinho que andava rondando o teatro depois de suas apresentações. Uma noite, Callado foi vê-la nos camarins. Apresentou-se todo enfarpelado, portando um vistoso buquê de flores. Encontrou a moça aos beijos com o tenente. Furioso, atirou o ramalhete num canto do corredor, muniu-se de sua bengala encastoada e com ela aplicou uma surra no galã, recriminando-o porque ele tivera comportamento inadequado em público, onde já se viu tamanha pouca-vergonha.

Era esse homem perigoso e violento que agora estava diante do balcão da sapataria, em silêncio. Walter se levantou, solícito. Apoiou as mãos no balcão:

– Pois não?

O chefe de polícia não respondeu. Ficou olhando para os sapatos nas prateleiras, como se estivesse sozinho na peça. Walter notou que outros dois homens, certamente policiais, haviam se postado do lado de fora da sapataria e observavam a cena sem manifestar emoção. Eram homens grandes e escuros, desses que o chefe de polícia usava para intimidar a quem interrogava. Walter estremeceu. Não gostava nada daquilo. Também não gostava da atitude de Callado. O silêncio do policial o inquie­tava. Era impossível que ele não o tivesse visto. Estavam a metro e meio de distância. Callado simplesmente queria mostrar que pouco ligava para a presença de Walter, ainda que estivesse em sua sapataria.

– Pois não? – repetiu Walter, agastado, tentando manter o tom cordial da voz.

Dario Callado como que despertou de um devaneio. Fincou seus olhinhos duros nos olhos amarelados do sapateiro.

– O senhor trabalha nessa rua há muito tempo? – questionou, sem se apresentar. Decerto, julgava que com ele as apresentações eram dispensáveis. De alguma forma, tinha razão.

– Há alguns anos – respondeu Walter.

– Hmmm. Não tem notado nada estranho por aqui?

Walter apertou os olhos.

– Estranho?

– De um ano para cá, tenho recebido informes sobre desaparecimentos de cidadãos. Dois desses foram vistos por essas imediações antes de sumir. O senhor conhece Olímpio Duarte ou Guilherme Rech?

Walter pensou por um momento. Possuía muitos clientes e muitos amigos, conhecia gente suficiente para não saber todos os nomes de cor. Com seu bom humor constante e seu temperamento afável, Walter superava até os preconceitos raciais que dividiam a cidade. Algumas pessoas o cumprimentavam com intimidade, e Walter nem sequer se lembrava de onde as tinha visto. Duarte. Rech. Não. Walter não se lembrava de nenhum Duarte ou Rech.

– Creio que não – respondeu, afinal.

– O senhor crê que não ou tem certeza que não?

A pergunta era incisiva. Como ele poderia ter certeza? Passava tanta gente por ali. Mas, se dissesse que achava que não, a incômoda presença do chefe de polícia em sua sapataria poderia se alongar indefinidamente.

– Tenho certeza – decidiu.

Dario Callado encarou-o por alguns segundos. Parecia analisá-lo. Estaria cogitando da possibilidade de Walter estar mentindo? Walter se sentiu corar. Odiou-se por isso. Corar naquele momento era como uma confissão de culpa, e ele não era culpado de coisa alguma. Como se detestava quando corava, já era um homem velho para ficar corando assim.

– Muito bem – prosseguiu o chefe de polícia, ostentando um lampejo vitorioso nos olhinhos negros, o que irritou Walter ainda mais. – E algo es­tra­nho? O senhor viu algo estranho?

Walter voltou a refletir. Algo estranho? Os gritos na casa ao lado certamente eram algo estranho. Deveria contar? Talvez isso prejudicasse Catarina. Talvez, se o policial fosse lá fazer perguntas, ela pensasse que Walter era um fofoqueiro, um bisbilhoteiro. Além do mais, o que gritos dentro de uma casa poderiam ter a ver com desaparecimentos? Eram gritos de mulher, e Callado estava investigando desaparecimentos de homens, pelo que ele entendeu. Melhor ter cautela.

– Não tenho visto nada estranho, não.

O chefe de polícia apertou ainda mais os olhi­nhos negros, até que se tornaram dois riscos no rosto curtido pelo sol.

– Está bem – concluiu. – Se o senhor souber de algo suspeito, por favor, me procure.

– Sim, senhor.

O chefe de polícia deu-lhe as costas. Saiu da sapataria, ladeado pelos outros dois policiais. Walter ficou observando. Notou que, do outro lado da rua, estava estacionada a famosa caleça negra de Callado, puxada por dois cavalos também negros. O chefe de polícia e seus asseclas sumiram na luminosidade da rua do Arvoredo. Walter suspirou. Não gostava daquele homem, de fato.

Já começava a voltar ao trabalho quando Januário pulou sobre o balcão. O latido poderoso quase lhe fez engolir uma tachinha. Aquele estava sendo um dia repleto de surpresas. Januário era ca­chor­ro de grande porte, realmente. Seguiu-se o riso estrondoso do anspeçada Brasiliano:

– Mas bá! Boas-tardes, bagual!

Walter olhou por sobre o balcão. Riu de volta, ante a visão daquelas duas criaturas luminosas. Assemelhavam-se, Brasiliano e seu cachorro Januário. Gran­dalhões, sempre satisfeitos com a vida, barulhentos. O basto bigo­de de Brasiliano parecia-se com o pe­la­me que se derra­ma­va sobre a caratonha de Januá­rio, os olhos negros e redondos de um espe­lhavam a alegria sempre presente nos olhos negros do outro. Brasiliano era um urso amável. A Januário, falta­va-lhe pouco para ser um urso também.

– Me diga, amigo Walter, o sujeito que vi sair daqui agorinha é mesmo quem penso que é?

– Dario Callado. O próprio.

– A la fresca! O que ele queria contigo?

– Está investigando uns desaparecimentos.

– Em pessoa? Deve ser coisa grave.

– Deve. Perguntou sobre dois homens que andaram aqui pela rua antes de sumirem. Rech e Duarte. Conhece alguém com esses nomes?

Brasiliano alisou o bigodão.

– Acho que não…

– Eu também não.

– Vi ele entrando no açougue do Ramos, depois de sair daqui.

– No açougue? – Walter levantou uma sobrancelha. – Bem, vai ver ele vai interrogar todo o comércio da rua.

– Vai ver. Mas, sabe, ele pareceu bem contente ao ver o açougueiro. O Ramos saiu à porta do açougue para recebê-lo, e os dois se cumprimentaram de um jeito que achei que se conheciam.

– Bem, o Ramos já foi da força policial, não foi?

– Verdade – Brasiliano pensou um instante. Coçou o queixo. Em seguida, sacudiu a cabeça como se estivesse afastando as idéias que tivera, sorriu. – Buenas, o Callado que se vire – concluiu. E continuou, com maior interesse: – Agora: nem te conto o que vi ontem à noite, amigo Walter.

– Acho que você vai acabar contando – o amarelo dos olhos de Walter luziu atrás do balcão.

– E não é que vou mesmo? – Brasiliano debruçou o peito no balcão. Baixou o tom de voz, como se fizesse uma confidência. – Era tarde, já, umas dez da noite, eu estava na rua Formosa e resolvi dar uma passeada até a periferia, bater perna.

– Essas suas andanças noturnas são um perigo, já disse. Tem muito bandoleiro por aí, muito escravo fugido, pronto para o assalto.

– Com o Januário do meu lado, não tem problema – e Brasiliano deu um tapinha amável na cabeça do cachorro, que latiu de contentamento. – Mas deixa eu te contar.

– Deixo…

– Pois vinha lá pelas bandas da Santa Casa e, de repente, vi um vulto de mulher perto da Roda dos Enjeitados. Parei. Me escondi atrás de uma árvore. Sabe: nunca tinha visto uma mulher despejando filho na Roda. Ontem vi, do meu esconderijo. Ela cobria a cabeça com um xale e chorava, tenho certeza que chorava. Colocou a criança na Roda, mas colocou com muito carinho, com muito cuidado. Antes de girar a Roda de volta, deu um beijo na testa do nenê. Então, girou-a, soluçou, tocou o sino pra avisar o fun­cionário do hospital e saiu correndo.

– Que coisa… – Walter havia parado de trabalhar para ouvir a história. Brasiliano era um bom contador de histórias.

– Na hora em que ela se virou, amigo Walter, acho que vi seu rosto. E, olha, acho que era a Emiliana.

– Emiliana?

– A criadinha do Ramos, aqui do lado!

– Ah… – Walter lembrou-se da moça, uma mulatinha nascida livre. Acontecia amiúde o que sucedeu a Emi­liana. Ela era filha de uma escrava com seu senhor. Ao nascer, o pai lhe concedeu a liberdade, mas manteve a mãe em cativeiro. Emiliana trabalhou um tempo na casa do pai, mas, adulta, decidiu se mudar. Arranjou emprego na casa do açougueiro. Trabalhava em troca de pouso, comida e alguns poucos réis. Muito quieta, sempre de cabeça baixa, nunca se ouvia o som de sua voz. Walter não sabia que estivera grávida. Mais um mistério da casa nú­mero 27.

– Estranho… – comentou.

– Será que o Ramos não aceitou o bebê em casa? – perguntou Brasiliano. – Além disso, quem será o pai? Eu bem que queria mostrar àquela mulatinha por que sou conhecido no Alegrete como Brasiliano Cavalo.

Walter sorriu com a pilhéria do outro. Pensou na Roda dos Enjeitados. Considerava o sistema bastante humano: quando a mulher não queria o filho, deixava-o na Santa Casa, que, após prestar os primeiros cuidados à criança, contratava uma mulher como “criadeira”. A cria­deira tratava a criança por sete anos, depois a devolvia à Santa Casa. Walter pensava na Roda e tentava prestar atenção em um salto que deveria ser extraído.

– Ouviste os gritos essa noite? – continuou Brasi­liano, baixando a voz.

Walter ficou sério. Será que Catarina seria o assunto de todo o bairro?

– Ouvi, sim.

– De arrepiar. Tinha vontade de ir lá, ver o que se passa naquela casa. Mas o açougueiro tem jeito de ser uma fera, não tenho vontade de me arriscar só por curiosidade.

– É. Uma fera – concordou Walter, imaginando como seria entrar no covil da fera.

Toda nudez será redimida

28 de dezembro de 2013 4

 

Houve um toplessaço no Rio, semana passada. As mulheres desabotoaram as blusas e ganharam as ruas literalmente de peito aberto, gritando que elas também têm o direito de sair por aí sem camisa.

Concordo.

Sou a favor de mulheres de torso nu. Se elas quiserem andar com-ple-ta-men-te nuas, também não veria problema algum, desde que se resguardassem de resfriados. O vento encanado, por exemplo, é um perigo, quem já teve avó sabe. Eu mesmo andaria pelado, se não me ressentisse da falta de bolsos, bolso é coisa muito útil.

O que é que tem em alguém andar nu? Na praia, para onde você vai agora nas férias, na praia as mulheres tapam o cóccix, e quase nada mais. Se aquele cóccix está tapado, ninguém se escandaliza. Mas a mesma mulher, quando na cidade, pode expor o cóccix livremente, uma vez que cubra as nádegas. Qual é o critério? Só pode um de cada vez?

Aqueles caras que publicam fotos deles mesmos sem camisa nas redes sociais. É ridículo, é patético, mas ninguém reclama. Agora vá uma menina fazer o mesmo. O Facebook é capaz de cancelar a conta dela. O Facebook é muito moralista.

Aí está: a moral. A moral é relativa. A Fernanda Lima, que apresenta exatamente um programa sobre sexo na TV, pois a Fernanda Lima apareceu gloriosa na transmissão do sorteio dos grupos da Copa do Mundo. Estava dentro de um vestido justo como o caminho do bem, com um decote profundo como a filosofia de Kant, estava sinuosa e dourada como a serpente que se enrolava na macieira do Paraíso. Linda, linda, Fernandinha.

Ocorre que, no distante Irã, o decote da Fernanda Lima provocou tal excitação que o governo o censurou. Gravou o evento e o apresentou com o colo da Fernanda Lima devida e pudicamente coberto.

Aquele era um colo perigoso. No Irã, as mulheres estão lutando para sair à rua sem ter que cobrir os cabelos. Imagina se vissem como se vestem as ocidentais. Imagina se soubessem que, por aqui, a luta das mulheres é para sair à rua sem ter que cobrir os seios.

O vale do entresseios da Fernanda Lima abalou o governo do Irã e fez estremecer os aiatolás. Era um vale do sacrilégio. Um vale do pecado.

Sim, senhor, um pedaço de corpo de mulher, se bem usado, pode acender uma revolução.

****

DEZ LIVROS PARA O VERÃO

Leitores pedem indicações de livros para as férias.

Certo.

Vou listar 10 infalíveis. E, quando digo infalíveis, quero dizer infalíveis. Se você ler qualquer um desses livros, terá uma experiência elevada no verão que chega com suas mulheres de cóccix cobertos e nádegas expostas e, quiçá, seios expostos também.

Não cultivo preconceitos ideológicos. Admiro a civilização norte-americana e seus autores vigorosos. Portanto, vou sugerir nove livros de escritores do Grande Irmão do Norte e um do México. Faço tal deferência ao México não por acaso, senão porque seu ex-presidente, o bigodudo Porfírio Diaz, um dia suspirou:

_ Pobre México: tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos.

Quer dizer: minha indicação é um desagravo ao México tão oprimido. Ao mesmo tempo, quando cito essa frase célebre, faço também uma concessão aos esquerdistas que odeiam os ianques. Assim, com todos contentes, apresento minha lista:

1. Ragtime, de E. L. Doctorow.
Esse livro… sinta o ritmo desse livro. Você vai dançar com Doctorow. Você vai dançar o ragtime.

2. As Vinhas da Ira, de John Steinbeck.
Um dos mais belos e comoventes finais de romance da história. Um livro poderoso, convertido em um lindo filme estrelado pelo grande Henry Fonda.

3. O Longo Adeus, de Raymond Chandler.
Um clássico do romance noir, com Phillip Marlowe, o maior dos detetives cínicos de todos os tempos. Eu queria ser Phillip Marlowe.

4. Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams.
É uma peça de teatro. Um texto seco e forte. Marlon Brando interpretou o protagonista da peça no cinema, e fez história, como sempre fazia Marlon Brando.

5. Moby Dick, de Herman Melville.
Essa é das mais rutilantes pedras preciosas da literatura ocidental. Também virou filme, com Gregory Peck.

6. Factótum, de Charles Bukowski.
Dos mais divertidos livros do Velho Buk. Quando o li, parecia estar lendo sobre um trecho da minha vida.

7. Bonequinha de Luxo, de Truman Capote.
Aprendi muito com este pequeno romance. Capote é autor da frase que, para mim, resume o ato de escrever bem: “Eu quero construir uma frase maleável e resistente como uma rede de pescar”.

8. Espere a Primavera, Bandini, de John Fante.
Fante era o ídolo de Bukowski. Certa feita, bêbado, como soía acontecer, o Velho Buk gritava: “Eu sou Arturo Bandini! Eu sou Arturo Bandini!”
Eu também sou. Sou Phillip Marlowe e Arturo Bandini.

9. Fique Quieta, Por Favor, de Raymond Carver.
Uma vez, o cônsul do Japão me disse que eu escrevia parecido com Carver. Fiquei todo bobo, porque todos queriam ser Raymond Carver. Ou Arturo Bandini. Ou Phillip Marlowe.

10. Festa no Covil, de Juan Pablo Villalobos.
Eis o mexicano da turma. Festa no Covil é uma novela pequena, de 80 páginas, que você lê de uma única vez. É uma história bela e cruel que vai fazer com que você esqueça até os melhores cóccix da orla.

Me ensina a esquecer

27 de dezembro de 2013 24

Meu filho já deveria ter largado o bico. Seis anos de idade, francamente. Ele sabe disso, tanto que, neste ano, decidiu que entregaria o bico para o Papai Noel. Desde novembro vem falando:

– No Natal, vou dar o bico para o Papai Noel. Eu vou.

Bem. Contratei um Papai Noel. Um ótimo Papai Noel. Eu mesmo quase acreditei que fosse o próprio, vindo direto do Polo Norte com seu trenó voador. Quando ele chegou à porta, batendo sino, meu guri saiu correndo pela casa:

– O bico! Tenho que achar o bico!

De fato, mal o Papai Noel entrou, ele lhe estendeu o bico:

– Ó.
Depois, encheu o Papai Noel de perguntas. Sobre o clima da Lapônia, sobre a velocidade das renas, sobre o salário dos duendes que trabalham na fábrica de brinquedos. A festa prosseguiu, depois que o Papai Noel se foi, e o meu guri se distraiu com os brinquedos novos, sobretudo com um mínion, ele adora os mínions.
Então, chegou a hora de dormir. A hora do bico. Nesse momento, acometeu-o uma violenta síndrome de abstinência.

– O bico! — implorava, aos prantos.— Quero o bico! Liga pro Papai Noel! Liga pro celular dele!
Tentei consolá-lo sugerindo que pensasse nos brinquedos que havia recebido. Que tentasse esquecer do bico.

— Mas eu não consigo esquecer! — Ele gritava. — Não consigo esquecer! —

E, olhando para mim com os olhos rasos d’água, pediu:

— Pai, me ensina a esquecer!

Me ensina a esquecer.

Suspirei. Disse que ia tentar. Que aprender a esquecer talvez seja o mais importante da vida, porque a vida é feita de perdas. Que, às vezes, é fundamental deixar de lutar, aceitar a derrota e seguir em frente, porque lá adiante tudo será novo e diferente e, decerto, melhor.

— Em certas ocasiões, a gente tem que desistir, meu filho. Simplesmente desistir. Porque, depois que a gente desiste, começa a esquecer, e vai esquecendo, vai esquecendo, até que um dia aquilo não faz mais falta e a gente olha e nem quer mais.
Ele esfregou os olhos. Aprumou-se na cama:

— Eu vou desistir do bico, pai.

— Isso. Isso…

— Porque é bom esquecer.
Eis a verdade. É bom esquecer.

Som de Sexta

27 de dezembro de 2013 0

Venho reabrir as janelas da vida.

Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 9

26 de dezembro de 2013 0

“Como enfrentá-lo?”

 

– Catarina!

A voz trovejante de Ramos fez tremer as prateleiras da sapataria. Walter teve um sobressalto atrás do balcão. Antunes gaguejou:

– Mmmmm-meu D-Deus!

Catarina engoliu o sorriso. Virou-se para a porta. Ramos estava sobre a soleira, gigantesco.

Walter ficou mudo, os dedos vermelhos de tanto pressionar o cabo do martelo. Olhava de Ramos pa­ra Catarina, de Catarina para Ramos.

– Trouxe seu sapato para o conserto – explicou ela, a cabeça baixa.

– Vamos! – rosnou Ramos, colocando-se de lado na porta, dando-lhe espaço para sair.

Catarina hesitou. Walter pôs-se em expectativa. Será que ela iria? Será que se rebelaria contra a ditadura daquele animal de dois metros de altura? E, se ela fizesse realmente isso, se ela se negasse a ir com Ramos, como Walter deveria reagir? Acolhendo-a, cla­ro. Defendendo-a. Mas Ramos… Ali estava um vio­lento, um homem grande e forte, um perigoso. Um açougueiro, cruz-credo. Como enfrentá-lo? Walter precisaria de ajuda. Antunes?… Walter olhou para o amigo, gordinho, pequeno, o corpo em forma de pingo, a barba rala eriçada de pavor, os olhos pequenos muito arregalados, fitando o gigantesco Ramos fixamente. Não, Walter não podia contar com Antunes. Se houvesse algum confronto, teria de se valer do seu martelo e da sua valentia. Só. Olhou para Catarina. Ela continuava de cabeça baixa e de cabeça baixa depositou o calçado sobre o balcão. Saiu, em silêncio, passando de lado no espaço entre o corpo imenso de Ramos e a porta da sapataria.

Ramos continuou parado sobre a soleira, enca­rando Walter. Que não desfitou. Manteve-se impassível, os nós dos dedos agora esbranquiçados de apertar o cabo do mar­telo, o sangue pulsando nas têmporas, as pernas trêmulas. Nunca vira tanto ódio reunido numa única cria­tura. Olhar para Ramos era olhar para alguma entidade maligna.

Depois de alguns segundos em que o tempo parecia ter parado, Ramos girou sobre os calcanhares e sumiu na claridade amarela do dia. Walter continuou olhando para a porta, tremendo. Antunes se benzeu com a mão canhota:

– Cru, cru, cru, cruz-credo.

Walter respirou fundo. Tinha de se acalmar. Virou-se para Antunes, que ainda não havia tirado os olhos da porta da rua. O amigo então o encarou, limpou o suor da testa e gemeu:

– Walter, amigão, quase me caguei.

De Natal

25 de dezembro de 2013 3

Um presente pra você:

Aumente o volume

25 de dezembro de 2013 0

John Lennon, quando ia lançar Imagine, disse que queria fazer algo parecido com essa sonzeira do meu xará. Já postei, mas tenho que postar de novo. Bote aí o volume no máximo:

Presente de Natal

24 de dezembro de 2013 3

Meu filho era bem pequeno, mal sabia falar, mas havia uma palavra que ele repetia a todo momento:

Quero.

Na verdade, “eu quero”. Tudo ele queria e a cada instante queria. Fiquei fascinado. Ali estava um resumo da vida. O ser humano atravessa seu tempo debaixo do sol querendo, a vida inteira é um querer sem fim.

Agora, no desfecho de dezembro, a primeira pergunta que você se faz é: o que eu quero de Natal e para o ano que vem? E à noite, no recôndito do seu quarto, à meia-luz, você fecha os olhos em oração, concentra-se no Deus em que acredita e faz o quê? Um pedido. “Pedi e vos será dado”, disse Jesus.

Pedi e vos será dado. Linda promessa. Uma promessa de esperança. Mas o que você quer? Você sabe, realmente, o que você quer? Você sabe se o que você pensa querer é o melhor para você? Você tem certeza?

Aquela pequena deusa de pele de ouro, se ela se olhar no espelho, ela vai dizer: “Eu gosto daquele cara, é dele que gosto”. Ela gosta. Mas o que ela vai fazer com este sentimento? Ela não sabe.

E aquele seu colega devasso, ele é guiado pelo desejo, ele busca o prazer, mas nunca encontra satisfação. Ele deseja, mas não sabe de fato o que quer. Não sabe nem se a realização do seu desejo lhe fará bem ou mal.

E a mulher executiva, ela recebe um gordo salário, ela tem autoridade dentro do seu tailleur, ela é dona de uma beleza clássica, mas falta-lhe algo, e ela não sabe o que é. O que pode ser, se ela aparentemente tem tudo o que uma mulher pode querer?

Eu quero, eu quero. Você sabe o que quer? Muito dinheiro no bolso? Saúde pra dar e vender? É o suficiente? Ou você quer apenas uma casa no campo, do tamanho ideal, pau-a-pique e sapê? Ou você é um menino que sonha com o título do seu time no ano que vem? Lembro de um final de ano no IAPI em que um grupo de garotos passou a virada do dia 31 de dezembro para o 1º de janeiro jogando bola. “Para jogarmos bem no ano que vem”, explicaram. São esses anseios prosaicos que o motivam? Que bom, se for.

Eu quero. O budismo ensina que a felicidade está na extinção do desejo. Quanto menos você quiser, mais próximo estará da satisfação. Mas como não querer, se esse é um mundo de quereres?

O que eu quero para 2014? Querer menos, talvez. Sim, eu queria querer menos. Mas queria também ter inteligência para compreender as pessoas que me amam. E paciência para me conformar quando elas não me compreendessem. E atravessar o dia sem tentar resolver todos os problemas da minha vida. Apenas, viver. Suavemente, serenamente, aceitando o tempo que passa, no ritmo das ondas do mar, viver, apenas viver.

Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 8

23 de dezembro de 2013 1

“Percebeu que Antunes ficou escandalizado”

Walter fitava o verde estonteante dos olhos de Cata­rina como se estivesse diante de uma espingarda de dois canos. Ela o encarava com um meio sorriso macio, esperando a explicação: por que, afinal, ele dissera que ela era especial?

Antunes, satisfeito por ter concluído o seu bom-dia, nem sequer reparava na aflição do amigo. Pensava no que diria em seguida. Teria de ser algo inteligente. As mulheres adoram ouvir frases inteli­gentes. Frases que as façam rir. Tinha lido em algum lugar: faça uma mulher rir e conquistará seu coração. Desejava impressionar aquela linda alemã. Demons­trar a superior cultura dos lusíadas. O que a faria rir? Uma piada, talvez? Um dichote qualquer? Antunes não conseguia se decidir.

Walter abriu a boca, mas não disse nada. Pensou um momento. Devia ou não devia? Devia ou não devia? Decidiu que devia. Arrancou a coragem de alguma gaveta da alma e falou, enfim:

– Porque a senhora é a criatura mais maravilhosa que já vi.

Falou. Pronto. Azar. Alzira.

Sem se virar para ele, com os olhos ainda fixos em Catarina, percebeu que Antunes ficara escandalizado.

– Oh! – exclamou o amigo – e mais não disse.

Catarina, para sua surpresa, absorveu o elogio com naturalidade, como se já o esperasse. Como se esbarrasse naquele gênero de ousadia todas as manhãs, depois do café. Fitou Walter fixamente. Sorriu com alguma malícia. Sussurrou:

– Walter…

Foi o suficiente para o coração de Walter quase parar. Era a primeira vez que ela pronunciava o nome dele sem colocar antes um “seu” impessoal. Tratava-se do maior avanço que Walter já obtivera em seis meses de paixão platônica.

Antunes olhava de Walter para Catarina e de Catarina para Walter, confuso. O que estava acontecendo ali? Ele sabia que algo estava acontecendo, mas o quê? Aqueles dois estavam flertando. Na frente dele! Nunca vira o amigo Walter tão desassombrado, tão arrojado, tão louco. E ela… ela retribuiu! Devia ter ficado escandalizada, mas retribuiu. Alemãs! Loiras! Quem pode saber como vai reagir uma loira? O que significava aquilo tudo?

Os dois continuavam parados, olhando um para o outro, ignorando a presença encabulada de Antunes, quando Ramos chegou.

Um conto de Natal de Dostoievski

23 de dezembro de 2013 9

Dostoievski é uma espécie de Beethoven da literatura. Um dos maiores de todos os tempos. “Para escrever bem, você precisa sofrer, sofrer, sofrer”, dizia ele. E Dostoievski sofreu, e escrevia sobre o sofrimento alheio. Esse pequeno e belo conto, “A árvore de Natal do Cristo”, ele escreveu num Natal:

Havia num porão uma criança, um garotinho de seis anos de idade, ou menos ainda. Esse garotinho despertou certa manhã no porão úmido e frio. Tiritava, envolto nos seus pobres andrajos. Seu hálito formava, ao se exalar, uma espécie de vapor branco, e ele, sentado num canto em cima de um baú, por desfastio, ocupava-se em soprar esse vapor da boca, pelo prazer de vê-lo se esvolar. Mas bem que gostaria de comer alguma coisa. Diversas vezes, durante a manhã, tinha se aproximado do catre, onde num colchão de palha, chato como um pastelão, com um saco sob a cabeça à guisa de almofada, jazia a mãe enferma. Como se encontrava ela nesse lugar? Provavelmente tinha vindo de outra cidade e subitamente caíra doente. A patroa que alugava o porão tinha sido presa na antevéspera pela polícia; os locatários tinham se dispersado para se aproveitarem também da festa, e o único tapeceiro que tinha ficado cozinhava a bebedeira há dois dias: esse nem mesmo tinha esperado pela festa. No outro canto do quarto gemia uma velha octogenária, reumática, que outrora tinha sido babá e que morria agora sozinha, soltando suspiros, queixas e imprecações contra o garoto, de maneira que ele tinha medo de se aproximar da velha. No corredor ele tinha encontrado alguma coisa para beber, mas nem a menor migalha para comer, e mais de dez vezes tinha ido para junto da mãe para despertá-la. Por fim, a obscuridade lhe causou uma espécie de angústia: há muito tempo tinha caído a noite e ninguém acendia o fogo. Tendo apalpado o rosto de sua mãe, admirou-se muito: ela não se mexia mais e estava tão fria como as paredes. “Faz muito frio aqui”, refletia ele, com a mão pousada inconscientemente no ombro da morta; depois, ao cabo de um instante, soprou os dedos para esquentá-los, pegou o seu gorrinho abandonado no leito e, sem fazer ruído, saiu do cômodo, tateando. Por sua vontade, teria saído mais cedo, se não tivesse medo de encontrar, no alto da escada, um canzarrão que latira o dia todo, nas soleiras das casas vizinhas. Mas o cão não se encontrava alí, e o menino já ganhava a rua.
Senhor! que grande cidade! Nunca tinha visto nada parecido, De lá, de onde vinha, era tão negra a noite! Uma única lanterna para iluminar toda a rua. As casinhas de madeira são baixas e fechadas por trás dos postigos; desde o cair da noite, não se encontra mais ninguém fora, toda gente permanece bem enfunada em casa, e só os cães,às centenas e aos milhares,uivam, latem, durante a noite. Mas, em compensação, lá era tão quente; davam-lhe de comer… ao passo que ali… Meu Deus! se ele ao menos tivesse alguma coisa para comer! E que desordem, que grande algazarra ali, que claridade, quanta gente, cavalos, carruagens… e o frio, ah! este frio! O nevoeiro gela em filamentos nas ventas dos cavalos que galopam; através da neve friável o ferro dos cascos tine contra a calçada;toda gente se apressa e se acotovela, e, meu Deus! como gostaria de comer qualquer coisa, e como de repente seus dedinhos lhe doem! Um agente de policia passa ao lado da criança e se volta, para fingir que não vê.
Eis uma rua ainda: como é larga! Esmaga-lo-ão ali, seguramente; como todo mundo grita, vai, vem e corre, e como está claro, como é claro! Que é aquilo ali? Ah! uma grande vidraça, e atrás dessa vidraça um quarto, com uma árvore que sobe até o teto; é um pinheiro, uma árvore de Natal onde há muitas luzes, muitos objetos pequenos, frutas douradas, e em torno bonecas e cavalinhos. No quarto há crianças que correm; estão bem vestidas e muito limpas, riem e brincam, comem e bebem alguma coisa. Eis ali uma menina que se pôs a dançar com um rapazinho. Que bonita menina! Ouve-se música através da vidraça. A criança olha, surpresa; logo sorri, enquanto os dedos dos seus pobres pezinhos doem e os das mãos se tornaram tão roxos, que não podem se dobrar nem mesmo se mover. De repente o menino se lembrou de que seus dedos doem muito; põe-se a chorar, corre para mais longe, e eis que, através de uma vidraça, avista ainda um quarto, e neste outra árvore, mas sobre as mesas há bolos de todas as qualidades, bolos de amêndoa, vermelhos, amarelos, e eis sentadas quatro formosas damas que distribuem bolos a todos os que se apresentem. A cada instante, a porta se abre para um senhor que entra. Na ponta dos pés, o menino se aproximou, abriu a porta e bruscamente entrou. Hu! com que gritos e gestos o repeliram! Uma senhora se aproximou logo, meteu-lhe furtivamente uma moeda na mão, abrindo-lhe ela mesma a porta da rua. Como ele teve medo! Mas a moeda rolou pelos degraus com um tilintar sonoro: ele não tinha podido fechar os dedinhos para segurá-la. O menino apertou o passo para ir mais longe – nem ele mesmo sabe aonde. Tem vontade de chorar; mas dessa vez tem medo e corre. Corre soprando os dedos. Uma angústia o domina, por se sentir tão só e abandonado, quando, de repente: Senhor! Que poderá ser ainda? Uma multidão que se detém, que olha com curiosidade. Em uma janela, através da vidraça, há três grandes bonecos vestidos com roupas vermelhas e verdes e que parecem vivos! Um velho sentado parece tocar violino, dois outros estão em pé junto de e tocam violinos menores, e todos maneiam em cadência as delicadas cabeças, olham uns para os outros, enquanto seus lábios se mexem; falam, devem falar – de verdade – e, se não se ouve nada, é por causa da vidraça. O menino julgou, a princípio, que eram pessoas vivas, e, quando finalmente compreendeu que eram bonecos, pôs-se de súbito a rir. Nunca tinha visto bonecos assim, nem mesmo suspeitava que existissem! Certamente, desejaria chorar, mas era tão cômico, tão engraçado ver esses bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém o puxava por trás. Um moleque grande, malvado, que estava ao lado dele, deu-lhe de repente um tapa na cabeça, derrubou o seu gorrinho e passou-lhe uma rasteira. O menino rolou pelo chão, algumas pessoas se puseram a gritar: aterrorizado, ele se levantou para fugir depressa e correu com quantas pernas tinha, sem saber para onde. Atravessou o portão de uma cocheira, penetrou num pátio e sentou-se atrás de um monte de lenha. “Aqui, pelo menos”, refletiu ele, “não me acharão: está muito escuro.”
Sentou-se e encolheu-se, sem poder retomar fôlego, de tanto medo, e bruscamente, pois foi muito rápido, sentiu um grande bem-estar, as mãos e os pés tinham deixado de doer, e sentia calor, muito calor, como ao pé de uma estufa. Subitamente se mexeu: um pouco mais e ia dormir! Como seria bom dormir nesse lugar! “mais um instante e irei ver outra vez os bonecos”, pensou o menino, que sorriu à sua lembrança: “Podia jurar que eram vivos!”… E de repente pareceu-lhe que sua mãe lhe cantava uma canção. “Mamãe, vou dormir; ah! como é bom dormir aqui!”
– Venha comigo, vamos ver a árvore de Natal, meu menino – murmurou repentinamente uma voz cheia de doçura.
Ele ainda pensava que era a mãe, mas não, não era ela. Quem então acabava de chamá-lo? Não vê quem, mas alguém está inclinado sobre ele e o abraça no escuro, estende-lhe os braços e… logo… Que claridade! A maravilhosa árvore de Natal! E agora não é um pinheiro, nunca tinha visto árvores semelhantes! Onde se encontra então nesse momento? Tudo brilha, tudo resplandece, e em torno, por toda parte, bonecos – mas não, são meninos e meninas, só que muito luminosos! Todos o cercam, como nas brincadeiras de roda, abraçam-no em seu vôo, tomam-no, levam-no com eles, e ele mesmo voa e vê: distingue sua mãe e lhe sorrir com ar feliz.
- Mamãe! mamãe! Como é bom aqui, mamãe! – exclama a criança. De novo abraça seus companheiros, e gostaria de lhes contar bem depressa a história dos bonecos da vidraça… – Quem são vocês então, meninos? E vocês, meninas, quem são? – pergunta ele, sorrindo-lhes e mandando-lhes beijos.
- Isto… é a árvore de Natal de Cristo – respondem-lhe. – Todos os anos, neste dia, há, na casa de Cristo, uma árvore de Natal, para os meninos que não tiveram sua árvore na terra…
E soube assim que todos aqueles meninos e meninas tinham sido outrora crianças como ele, mas alguns tinham morrido, gelados nos cestos, onde tinham sido abandonados nos degraus das escadas dos palácios de Petersburgo; outros tinham morrido junto às amas, em algum dispensário finlandês; uns sobre o seio exaurido de suas mães, no tempo em que grassava, cruel, a fome de Samara; outros, ainda, sufocados pelo ar mefítico de um vagão de terceira classe. Mas todos estão ali nesse momento, todos são agora como anjos, todos juntos a Cristo, e Ele, no meio das crianças, estende as mãos para abençoá-las e às pobres mães… E as mães dessas crianças estão ali, todas, num lugar separado, e choram; cada uma reconhece seu filhinho ou filhinha que acorrem voando para elas, abraçam-nas, e com suas mãozinhas enxugam-lhes as lágrimas, recomendando-lhes que não chorem mais, que eles estão muito bem ali…
E nesse lugar, pela manhã, os porteiros descobriram o cadaverzinho de uma criança gelada junto de um monte de lenha. Procurou-se a mãe… Estava morta um pouco adiante; os dois se encontraram no céu, junto ao bom Deus.

Sobre as mulheres

21 de dezembro de 2013 3

Estou escrevendo um livro para o meu filho. Não sobre ele; para ele. Coisas que um pai deve dizer ao filho. Porque, bem, vá que eu não viva o suficiente para dizer-lhe tudo o que gostaria. Não pretendo passar para outro plano da existência agora, mas tenho visto os olhos de fogo do Ceifador amiúde, nunca se sabe.

Um dos capítulos do livro será “Sobre as mulheres”. Mas não vá pensar, meu filho, que arrosto ser um conhecedor da alma feminina, essas coisas de Chico Buarque. Nada disso. Mas sei o que um homem pode sentir quando se relaciona com as mulheres, isso sei bem, porque as mulheres sempre foram o núcleo da minha vida, o perfume dos meus dias e quase todas as aflições da minha alma.

Bem. O que posso dizer de mais importante sobre as mulheres é que elas são diferentes de nós. A maioria dos homens intui essa verdade e se assusta com ela. Pegue um sujeito que, ao avistar uma mulher desejável na rua, agride-a verbalmente chamando-a de gostosa ou qualquer outro adjetivo do gênero, e às vezes agride-a até fisicamente, tocando-a. Esse sujeito, ao sentir desejo por aquela mulher e ter a compreensão instantânea que nunca a possuirá, esse sujeito na verdade TEME aquela mulher. Ele sente medo do que o seu próprio desejo pode fazer com ele. Ele sente medo do poder que aquela mulher exerceu sobre ele. Ele sente medo daquele ser humano que é diferente dele.

Você não deve temer essa diferença, meu filho. Deve apreciá-la, porque essa é uma das delícias da existência, MAS… Mas é preciso tomar cuidado com certo tipo de mulheres. A mulher que conhece o seu poder e que sabe usá-lo, se essa mulher for ungida pelo pai e for autocentrada em demasia, essa mulher é perigosa como uma fera selvagem. Você até pode desfrutar dela, meu filho, mas o faça com o peito de aço e a mente alerta. Mulheres assim tendem a se transformar em devoradoras de homens.

O certo é que existem mulheres más. Logo mais vou discorrer sobre algumas delas. Ilse Koch, a Cadela de Buchenwald; Elizabeth Báthory, a Condessa Sanguinária; Teodora, a Imperatriz de Bizâncio; Dalila, a terrível Dalila.

Sim, meu filho, existem mulheres más. Claro, os homens também podem ser maus, mesquinhos e cruéis. A diferença é que as mulheres são calculistas. Essa história de que as mulheres amam, de que elas são puro sentimento, não acredite nessa balela. É marketing das mulheres. Na verdade, elas são cerebrais, sobretudo com o que tem a ver com seus próprios sentimentos. Uma mulher toma decisões acerca do que sente, um homem não consegue fazer isso. Ela tem um autocontrole que você jamais terá.

Elas são diferentes.

Mas as mulheres, da mesma forma, são capazes de uma entrega, de um desprendimento, de uma generosidade, de um amor tão intenso que nós homens nunca compreenderemos nem sequer de onde vem. Nós homens somos covardes. Nós fugimos da dor. As mulheres, algumas mulheres, o limiar de sofrimento delas está muito além do nosso alcance.

Vou lhe dar um exemplo: a sua mãe, a Marcinha. Neste ano em que, como contei lá em cima, vi o Ceifador de perto ao descobrir que tinha um câncer, em que tantas coisas estranhas me aconteceram, neste ano pontilhado de infortúnios, que foi o mais difícil da minha vida, neste ano, admito, só vi dezembro chegar graças a sua mãe. Eu não merecia, Deus sabe que não, mas ela se manteve firme ao meu lado e leve e sorridente e amorosa. Meus amigos dizem que ela é uma rocha. E é. Uma rocha. As mulheres têm essa qualidade. As mulheres têm essa solidez. Sorte dos homens que estão perto delas. Sorte nossa, pequenos homens. Tenha isso em mente, meu filho: só as mulheres podem ser rochas.
-x-x-x-x-x-

MULHERES MÁS

Ilse Koch, a Cadela de Buchenwald
Era mulher do comandante do campo de concentração de Buchenwald na II Guerra Mundial. Adorava ver os presos sendo chicoteados. Quando aparecia algum que tivesse tatuagens, mandava arrancar-lhe a pele e com ela fazia abajures.

Elizabeth Báthory, a Condessa Sanguinária
Seu tio foi oficial de Vlad Dracul, ninguém menos do que o Conde Drácula. Era belíssima. Seu prazer era torturar servas adolescentes. Uma vez mandou costurar a boca de uma menina que falava demais. Comprazia-se sangrando ou queimando meninas até a morte. Cerca de 650 garotas húngaras foram assassinadas por ela.

Teodora, a Imperatriz de Bizâncio.
Ex-prostituta, seduziu o imperador Justiniano e casou-se com ele. Inventou um método de tortura muito engenhoso: a vítima ficava amarrada a uma cadeira e uma tira de couro era-lhe atada à cabeça. A tira era molhada, secava e depois molhada novamente. Este processo fazia com que o couro encolhesse. Em pouco tempo, os olhos do infeliz saltavam para fora das órbitas.

Dalila
Essa, francamente, é uma das piores. Sansão, juiz dos hebreus e o homem mais forte do mundo, amava-a com ardor. Os filisteus, inimigos figadais dos hebreus, contrataram-na para descobrir o segredo da força dele. E Dalila, com ardis de mulher, iludiu Sansão, descobriu que a força lhe vinha dos longos cabelos, cortou-os e o entregou aos inimigos. Os olhos de Sansão foram vazados e ele terminou seus dias escravizado. Aline, da novela das nove, obviamente repete Dalila. A maldita Dalila.

Sala de Redação

20 de dezembro de 2013 4

Ouça o Sala de Redação desta sexta-feira:

Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 7

20 de dezembro de 2013 0

“ Vinham todos à procura da lingüiça especial”

Ramos suava com a lida. Arfava baixo. Em­preen­dia o criterioso descarnamento do cadáver de Duarte. A primeira parte do trabalho, a mais afanosa, estava quase no fim. Ramos tornara-se perito na operação. Exercia-a com método e rapidez. Conhecia cada nervo mais duro, cada feixe longo ou curto de músculos humanos. Sabia onde cortar, onde perfurar, onde fazer uma incisão, onde haveria maior resistência ao cutelo, onde seria necessária uma faca serrilhada.

Trabalhava em silêncio concentrado, sentindo o suor a escorrer pelo peito largo, sem jamais parar. Já havia esquartejado o corpo, tendo o cuidado de separar cada junção. Quando se compreendia como o corpo humano era construído, ficava fácil. As partes se encaixavam. Ou se desencaixavam. Só se precisava ter cuidado para encontrar o local onde serrar, onde furar. Desossar também não era tão complicado, uma vez que se prestasse atenção na forma como os músculos se estendiam e nos pequenos ligamentos entre uma seção e outra.

Depois, Ramos teria de picar a carne bem pica­dinha, temperá-la e, finalmente, socá-la no saco feito com as próprias tripas do morto. Era a “lingüiça especial”, produto do açougue que fazia enorme sucesso na cidade.

Vinha gente de todas as classes, do clero, da administração municipal, vinha gente de longe, do Caminho do Meio, da Azenha, vinham todos à procura da lingüiça especial feita por Ramos. Mesmo com o estoque regular­mente reposto, às custas das andan­ças noturnas de Catarina, às vezes não havia lingüiça que chegasse. Ramos se orgulhava do seu produto, de suas ações noturnas, do seu sucesso na comunidade e da riqueza que começava a amealhar.

Por isso, mourejava. Cortava um pernil em pequenos cubos e lembrava da noite anterior. Do prazer que sentira. Catarina. O horror nos olhos dela. Os gritos. Como era bom. Como havia demorado para descobrir tamanho prazer.

Catarina. Onde ela andaria agora? Não tinha total confiança nela. Uma mulher que fazia as coisas que ela fazia, que viveu o que ela viveu, que passou por tudo o que passou… Uma desavergonhada, isso sim. Uma mulher sem moral. Verdade, ele gostava de… de ver. O que ela fizera com o magricela na noite anterior, ah, Ramos tinha certeza plena e cabal de que o magricela jamais experimentara prazer semelhante na vida. Que mulher ele tinha! Uma fêmea de verdade. Uma fêmea sempre no cio e que, ao mesmo tempo, só se sentia viva com ele, quando ele fazia aquelas coisas… A primeira vez que assistira um homem possuindo-a, oh, Deus!,ele por pouco não havia enlouquecido de excitação. Mas se enfurecia só de cogitar a possibilidade de Catarina desenvolver um relacionamento com outro. Que não pensasse em ver algum homem por mais de uma noite! Um en­contro sen­sual, um jantar suntuoso e o homem traga­do pelo alçapão. Pronto. Nada mais.

Essas saídas dela à tarde o irritavam. Essas saídas não eram destinadas à caça. Ela certamente estaria falando com outros homens, falando sobre coisas que Ramos não poderia controlar. Aliás, o que estaria fazendo agora?

A sombra do ciúme escureceu os olhos duros de Ramos. Ficou a imaginá-la rindo para os vizinhos, rindo aquele riso doce, aquele riso que o escravizava. Atirou o avental ensangüentado no assoalho. Muniu-se de um facão. Começou a subir as escadas, decidido, subitamente raivoso.

– Vou achar essa rameira! – rosnou para si mesmo, entre dentes. – Ela vai ver o que é bom!

Som de Sexta - II

20 de dezembro de 2013 0

Pergunta para o fim de semana.

Viva a mediocridade

20 de dezembro de 2013 10

A democracia é um péssimo sistema de governo. É lento, é ineficiente. Pena que é indispensável. E é indispensável por um só motivo: porque não existe outro antídoto contra a tirania. Nas democracias, mesmo nas incipientes, os governos se renovam com periodicidade, e nas democracias maduras o povo tem espaço para expressar o que não quer.

Aí está algo que o povo de uma democracia evoluída tem competência para fazer: expressar o que não quer. Expressar o que quer é mais complicado. As pessoas não sabem o que querem. Alguém tem de dizer isso a elas. É por isso que as pesquisas, em geral, são fajutas. Quem se baseia em pesquisas para agir corre o risco de ser sempre medíocre. Porque a pesquisa aponta para a média e a média é… bem… medíocre.

Os grandes cientistas, os grandes inovadores, os grandes artistas, os grandes inventores, os gênios da humanidade jamais teriam feito algo de novo se tivessem se guiado por pesquisas. Imagine Dostoievski contratando uma agência para saber se, em Crime e Castigo, Raskolnikov deve ou não matar a velha usurária.

Nem mesmo os grandes empresários, que têm de agradar ao público para alcançar o sucesso, nem esses chegam a lugar algum se seguirem o caminho das pesquisas e da média da população. Eles têm de seguir o caminho da própria sensibilidade.

Assisti, outro dia, a uma palestra da Zica, carioca que criou a Beleza Natural, espécie de método de amaciamento do cabelo crespo, o cabelo duro. Cabelo ruim, como dizia a minha avó:

– David, tu tem cabelo ruim.

Zica era empregada doméstica, e hoje sua empresa atende a mais de 100 mil mulheres no Brasil. Quando foi perguntada sobre o que a levou a inventar aquela novidade, ela foi singelamente honesta:

– Porque eu queria que o meu cabelo fosse bonito.

Aí está. Era a inquietação DELA. A dor que ELA sentia é que a guiou. Ninguém faz nada de novo se tentar adivinhar o que os outros querem. Fará se souber a dor que lhe vai na alma. A natureza da arte, por exemplo, é revolucionária. A arte, a princípio, choca; depois se populariza. Quase todas as inovações são assim. As pessoas olham e torcem o nariz: isso não vai dar certo. Porque a novidade não existe, até acontecer, e as pessoas não conseguem enxergar o que não existe.

Mas hoje o mundo é das pesquisas. O mundo é da média. Da massa. Um mundo cada vez mais democrático, horizontal e medíocre. Viva a mediocridade.