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Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 13

22 de janeiro de 2014 0

“Ele é a besta-fera”

– Ramos! – Catarina olhou na direção da porta, assustada. – Não é possível! A peça já terminou?

– Peça? – estranhou Walter.

– Peça, peça! No São Pedro – explicou ela, empurrando Walter para o corredor escuro. – Rápido! Sai pelos fundos! Rápido! Ou ele te mata!

Walter hesitou. A incoerência da informação o perturbava: um brutamontes que passava o dia de cutelo na mão, entre picanhas e alcatras, frequentando o Theatro São Pedro? Não combinava. Além disso, havia o seu orgulho. Não queria fazer papel de covarde diante de Catarina.

– Ele vai ao teatro? – perguntou.

– Vai. E você vai embora agora! Ele já está entrando.

– Não – Walter reagiu, peito empinado. – Vou falar com ele. Vou dizer que amo você.

– Enlouqueceu! – Catarina falou isso olhando para ele, mas era como se falasse com outra pessoa. – Só pode estar louco! Ele vai te matar! Ele é a besta-fera!

Besta-fera? Que tipo de expressão era aquela? O que ela queria dizer? Como podia uma mulher chamar o marido de besta-fera? Em todo caso, Walter se alegrou. Catarina não ia querer continuar com a besta-fera – ia querer ficar com ele, Walter.

A chave já estava saindo da fechadura. A porta já ia se abrir. Catarina cada vez mais agitada, nervosa. Olhava para a porta. Olhava para Walter. Tentava empurrá-lo para os fundos da casa.

– Para os fundos – implorou ela. – Por favor! Não quero que ele lhe faça mal. Por favor. Não quero nada de mal pra você.

Aquela frase enterneceu Walter. Ela se preocupava com ele! Ela gostava dele. Mas, ao mesmo tempo, o irritou. Por que Catarina achava que Ramos era mais homem que ele? Por que ela achava que Ramos lhe faria mal e não ele a Ramos? Por que Ramos era grande? Por que era forte? Ora, Walter sabia se defender, fora criado nas ruas barrentas de Hamburgo Velho, brigando por qualquer desavença nos jogos de criança, trabalhando desde muito cedo na sapataria do pai, carregando rolos de couro, empunhando o martelo, mourejando desde que o sol nascia até a lua vagar alto no céu. Nada disso. Ele ia ficar. Ia enfrentar a besta-fera.

– Eu fico! – decidiu.

– Por favor! – ela já estava quase chorando.

– Fico – teimou Walter. Ia resolver o assunto de uma vez por todas. Se ela gostava mesmo dele, que dissesse agora. Walter sabia que ela e Ramos não haviam casado na igreja. Isso talvez facilitasse as coisas. Ele e Catarina, sim, poderiam casar na igreja. As mulheres adoram casar na igreja. – Fico! – insistiu.

– Pelo amor de Deus! – a porta se abria, uma luminosidade fraca entrava pela fresta. Catarina empurrava Walter para os fundos, as pequenas mãos no peito dele. Ele recuava, caminhando de costas, balançando a cabeça, pensando, determinado: vou ficar, vou ficar. Então, choramingando, ela implorou:

– Vais me prejudicar!

Vais me prejudicar. A frase lamentosa trincou a resistência de Walter. Prejudicá-la. Isso ele não poderia fazer. Nunca. Poderia morrer assassinado pela besta-fera, mas prejudicar Catarina, jamais. Jamais fazê-la chorar, e ela estava a ponto de verter lágrimas. Mudou de ideia. Resolveu fugir. Fugir, não. Seria uma retirada estratégica.

– Te amo! – repetiu, antes de se embrenhar na escuridão, guiado por ela.

– Por aqui, por aqui – empurrava-o Catarina.

– Te amo! – repetiu Walter, na esperança de que ela também dissesse te amo.

Ela não disse. Apenas o conduziu até outra peça. Passaram pela cozinha, chegaram a um pátio escuro. Muito escuro. Walter não enxergava nada.

– Pule o muro – Catarina apontou para a parte de trás do pátio e voltou açodadamente para dentro de casa. Bateu a porta sem se despedir, sem dizer eu te amo, sem um aceno amoroso. A última nesga de luz foi sugada pela escuridão.

Muro? Walter não via muro algum. Esperou até que seus olhos se acostumassem com a tênue claridade da lua. Aos poucos, a sombra do muro foi surgindo, nos fundos de um pátio entulhado de objetos que ele mal conseguia divisar. O que era aquilo? Pedaços de mesas? De móveis velhos? De estantes? Um puxado de madeira ali adiante e, sob ele, um enorme tonel. O que conteria? Walter ainda olhou por alguns segundos para a porta fechada. Suspirou. De repente, notou uma luminosidade à sua esquerda, em algum ponto do quintal. Agachou-se rapidamente. Notou, então, que no fundo do terreno, do lado esquerdo, havia um pequeno quarto separado da casa. E não era o quarto de banho. Não. Era um desses quartos de aluguel. Algum criado ou inquilino devia morar ali. Essa pessoa ouviu o barulho, acordou-se e agora sairia à rua para investigar. Walter não podia mais vacilar. Teria de ser veloz e preciso. Levantou-se. Partiu, enfim, lanhando-se todo nos arbustos do pátio, tropeçando em alguns pedaços de madeira, olhando de quando em quando para o quarto fracamente iluminado. Chegou ao muro feito com os grandes tijolos cozidos, obviamente, na rua da Olaria. Era um muro alto. Walter precisaria de um apoio. Felizmente, havia muita madeira sobrando por ali. Tateou o chão, em busca de algo em que pudesse subir. Olhou para a porta do quarto, ainda fechada. Achou uma tábua. Encostou-a no muro. Escalou-o com dificuldade. Olhou de cima do muro para o chão negro. Alto. Muito alto. Mas, o que fazer? Tinha de saltar. Olhou mais uma vez para a porta do quarto. Ninguém saíra ainda. Ninguém também à porta da casa de Catarina. Tomou fôlego. Saltou, receoso. Mas, para sua surpresa, não se machucou. Aterrissou em terreno macio, estava inteiro. Esgueirou-se até sua casa, ali ao lado. Entrou no pátio, tão familiar. Abriu a porta dos fundos. E logo estava de volta à segurança da sua própria residência.

Entrou pela cozinha. Acendeu o lampião. Ainda estava ofegante. Apanhou um garrafão de vinho da despensa e uma caneca do armário. Serviu-se de uma dose generosa. Bebeu em grandes goles. Suspirou. Encheu de novo a caneca. Caminhou com ela até a sala. Sentou-se à escrivaninha. Olhou para o globo sem vê-lo. O que havia acontecido exatamente? Não tinha bem certeza. Catarina o amava? Não dissera que o amava. Mas o amava, ficou mais do que evidente que o amava. Aquele beijo… Walter sorriu, ao lembrar-se. Aquele beijo… Como faria para tê-la? Para tirá-la do açougueiro? Oh, Cristo, por que tudo era tão difícil? Mas, ao mesmo tempo, que novidade esplendorosa em sua vida. Agora, tudo parecia ter sentido. Tudo parecia ter cor e calor. Que bom que havia decidido invadir a casa maldita.

Levantou-se. Caminhou até o quarto, ainda com a caneca de vinho na mão. Olhou para o daguerreótipo de Maria Augusta, aberto sobre o criado-mudo. Lembrou-se de quando tinham feito o retrato com um daguerreotipista ambulante que viera do Rio de Janeiro. Walter havia economizado alguns meses para pagar o trabalho. Ficara perfeito. Lindo. Ali estava o pequeno estojo de bronze aberto como um livro, guardando no fundo, atrás de uma parede de vidro, o seu tesouro: o retrato de sua amada. Um milagre da tecnologia. As novas fotografias eram mais simples, mais baratas e duravam muito mais tempo, é verdade, mas a arte do daguerreótipo continuava insuperável. Walter apanhou o estojo com uma mão. Equilibrou-o entre o indicador e o polegar. Murmurou:

– Você entende, Maria Augusta… Você entende…

Então, os gritos cortaram a noite, mais uma vez.

– Nãããããããão! Nããããããão!

Walter quase deixou o precioso daguerreótipo de Maria Augusta cair. Recuperou-se a tempo. Depositou com calma o estojo e a caneca no criado-mudo, o coração aos saltos. Sentou-se na cama.

– Nããããããõ! Nããããããão!

Walter cobriu os ouvidos com as mãos.

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