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Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 14

24 de janeiro de 2014 0

“Dom Pedro lhe reconhecia a primazia”

Dom Pedro II foi quem transformou a fotografia em moda nacional. O imperador era um cientista, um entusiasta das invenções que maravilhavam o século. Aos quatorze anos, conheceu o daguerreótipo e se encantou. Não só ele, claro. O mundo inteiro se encantou. Quem tinha posses mandava fazer um daguerreótipo. Charles DeForrest, daguerreotipista americano, chegou ao Brasil nos anos 40 e percorreu o país vendendo o seu trabalho. Se o freguês não dispusesse de dinheiro vivo, podia pagar com mercadorias. Mas não era barato. Por um daguerreótipo, DeForrest cobrava um cavalo!

DeForrest passou também pelo Rio Grande do Sul, espalhou daguerreótipos pela província. Um deles, o de Maria Augusta, pago com sacrifício por Walter. Depois, embrenhou-se por Argentina e Uruguai. Ao fim de sua aventura sul-americana, vendeu cada cavalo por três dólares e retornou aos Estados Unidos com a bolsa bem fornida.

Quando DeForrest voltou para sua pátria, a daguerreotipia já estava sendo substituída por outros processos mais modernos, como a ferrotipia. Dom Pedro II acompanhava com interesse a evolução do invento, a sua transformação na fotografia definitiva, impressa em papel. Tornou-se ele próprio fotógrafo, registrou as viagens da família imperial, a vida na corte, retratou para a posteridade o século do qual foi um dos personagens mais importantes.

Dom Pedro conheceu pessoalmente Hercules Florence, o homem que dizia ter inventado a fotografia antes mesmo de Daguerre. De fato, em 1833, Florence criou um processo parecido com o daguerreótipo, sem, no entanto, obter igual sucesso na fixação da imagem. Na época, Florence já vivia no Brasil, onde casou, teve filhos, constituiu família. Em 1839, estava num serão na casa de amigos, em Campinas, quando soube que Daguerre alardeava, na França, a invenção do processo fotográfico. Foi um golpe para Florence. Seus amigos perceberam claramente o abatimento que o fez atravessar o resto da reunião macambúzio. Contou, mais tarde, que aquela tinha sido a pior noite de sua vida.

Mesmo assim, Dom Pedro lhe reconhecia a primazia e o saudava por isso. Era algum consolo para o frustrado Hercules Florence.

Muitos fotógrafos se estabeleceram no Rio de Janeiro, estimulados pelo imperador. Até as famílias de classe média podiam mandar fazer um retrato, uma vez que os preços cobrados pelos fotógrafos não eram tão caros quanto os do velho daguerreótipo que enriqueceu DeForrest. A mania da fotografia se espalhou pelo império. Chegou à Província de São Pedro.

O padeiro Manoel Antunes se orgulhava de ter diversos retratos da família espalhados pela parede, embora sua mulher, Rosa, lhe censurasse o esbanjamento com tais futilidades. Nesse momento, Antunes preparava o almoço com que ia receber seus amigos Brasiliano e Walter. Isso também era censurado por Rosa. Para que gastar com esses dois? Eles não tinham o que comer em casa? Antunes, que normalmente atendia a mulher em todas as suas reivindicações, nesses casos batia o pé. Repetia o bordão do amigo Walter:

– Os bens mais valiosos de um homem de bem são os seus amigos, pá!

Assim, Antunes não só manteve o almoço, como colocou Rosa para ajudá-lo na cozinha. Aquela função o deixava contente. Enquanto preparava os pratos com que regalaria os amigos, cantarolava um fado, uma melancólica e envolvente cantiga acompanhada de guitarra surgida vinte anos atrás, em Portugal.

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