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O americano bárbaro

25 de janeiro de 2014 2

Vi um cara botando catchup no feijão, outro dia. O feijão dele não era como o nosso feijão, o feijão de verdade, cremoso, saboroso, que se come com arroz. Era um prato só com os grãos, seco e impessoal, grande e vermelho. De qualquer forma, o americano, um tipo de uns dois metros de altura e rosto muito vermelho, pois esse americano colocou catchup por cima do feijão e comeu sem cerimônia. Fiquei chocado. Catchup no feijão. Francamente.

Os americanos cobrem tudo com catchup. Entendo, porque a comida deles é estranha. Urge dar uma disfarçada. Mas colocar catchup no feijão?!? Tudo tem seus limites.

*****

EU E PEGGY

Quando cheguei, tive de dormir em Miami. As tempestades de neve causaram o cancelamento de três mil voos, e do meu também. Então, lá estava eu puxando a minha mala pelo aeroporto de Miami. Mas quem diz que havia quarto hotel para passar a noite? Se os voos são cancelados por causa de questões climáticas, as empresas aéreas não te dão nada, nem hotel, nem sanduíche de salamito, nada. Estava abandonado na noite selvagem da América do Norte.

Bem. Fui até o hotel que fica dentro do aeroporto. As poltronas da recepção estavam todas ocupadas por uns negões grandes que dormiam encostados à bagagem. Imaginei que fossem cubanos. Perguntei se havia vaga e o atendente riu de mim:

_ De jeito nenhum, mai bróder. Sold-out!

Perguntei onde podia conseguir outro hotel e ele:

_ Por aí…

Não me deu a menor bola, aquele atendente de hotel.

Peguei um táxi e fui para um motel daqueles de filme, manja? Aquela placa de neon pendurada. Os quartos distribuídos horizontalmente, pegados um no outro. Me sentia um fugitivo. Um ladrão de banco. Fiz questão de abrir a cortininha e espreitar a rua, para ver se os tiras não estavam me cercando.

Depois, fui a um bar ali perto e a garçonete se chamava Peggy Sue. Não acreditei. Uma garçonete Peggy Sue. Sempre quis ser atendido por uma garçonete chamada Peggy Sue. Pedi um drinque e por pouco não dei um tapa na bunda dela. Os americanos não fazem sempre isso? Cheguei a erguer a mão para, na América, fazer como os americanos, fazer como faria Jack Nicholson. Sim, o velho Jack faria isso! Mas recuei. Vá que eles não entendam minhas boas intenções de agir como um deles, vá que não entendam que um tapa naquela bunda seria uma homenagem ao Grande Irmão do Norte…

Deixei uma boa gorjeta para Peggy Sue.

*****

O barganhador

Vi na TV um programa que me deixou admirado. É sobre um sujeito que compra carros usados. O ponto alto do show é quando ele regateia com o dono do carro. O dono pede 15 mil dólares, ele desdenha, faz muxoxo e oferece seis mil. Acabam fechando por oito, e ele comemora. Quer dizer: um programa sobre barganha. Não é à toa que os americanos conquistaram o mundo pelo comércio.

*****

Viagra

A propaganda o Viagra é muito poética. Uma grande e potente caminhonete está rodando a caminho de casa. Mas a estrada está embarrada e cheia de neve. A caminhonete atola. Só que logo o socorro chega: a caminhonete é atrelada a dois possantes cavalos e eles a puxam até o conforto do lar. Sutil. Os americanos sabem ser sutis, quando querem.

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Frio siberiano

A previsão é de que uma onda de frio rolará do Norte para cá e que, na segunda-feira, a temperatura caia para 20 graus abaixo de zero. Agora está só uns 10 graus abaixo de zero. Quando leio na zerohora.com que em Porto Alegre está fazendo 40 graus, penso:

_ Ah, os trópicos, os trópicos…

*****

Noite dessas, vi um acidente num cruzamento de Boston. Um carro deslizou na neve e acertou o outro na lateral. Os motoristas ainda não tinham descido para se xingar, e uma viatura da polícia apareceu, cheia de luzes piscantes. Não levou um minuto, por Deus. De onde saiu aquele carro de polícia? Do esgoto? Estava escondido atrás de alguma árvore?

Câmeras.

Eles têm câmeras em toda parte, por aqui.

Comentários (2)

  • GILBERTH diz: 25 de janeiro de 2014

    O BRASILEIRO BARBARIZADO POR OUTROS BRASILEIROS:

    No Brasil da Copa do Mundo, como nunca antes na História deste mundo, se pode ver nenhuma Copa nem parecida, eu vi (juro) um cara catando comida do lixo. A comida dele não era como a nossa comida, comida de verdade, fresquinha, saborosa, que se come com prazer. Era uma comida que nem vinha em pratos, seca e impessoal, parecia estar ali no lixo esperando o primeiro faminto que aparecesse e que, por obrigação imposta pelo estômago dele, seria devidamente “saboreada” como um prêmio a quem cedo madrugou. De qualquer forma, o brasileiro, um tipo de, talvez um metro e meio de altura, rosto desfigurado pela miséria, pois esse brasileiro abriu o saco plástico que isolava a tal “comida” de outros dejetos, digamos, menos nobres, e comeu a iguaria sem cerimônia. Fiquei chocado. E saber que em países sérios as pessoas podem escolher o seu almoço, mesmo que isso surpreenda muita gente! Francamente. Concordemos que tudo tem seus limites.

  • Marcelo diz: 27 de janeiro de 2014

    Sensacional, David.

    Até uma Peggy Sue, imortalizada por Roliúde e pelo roquenrrou tu encontrou!

    Crônica legal, dos pequenos detalhes da vida estadunidense. Coisas que passam despercebidas por olhos desatentos, foram, por ti, bem retratadas, como sempre.

    Legal.

    Gd abç e não vá congelar o cérebro nem os dedos, por favor!

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