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Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 15

26 de janeiro de 2014 0

“O jovem Machado de Assis”

Walter não foi à missa. Não gostava de ir à missa. Ia, de vez em quando, para não ser malfalado pela vizinhança menos carola do que maliciosa. Mas não gostava. Não era religioso. Também não era ateu. Se morasse na Inglaterra, saberia o que era: agnóstico. O agnosticismo estava sendo concebido por aqueles dias pelo britânico Thomas Huxley.

Apesar dessa sua indiferença espiritual, pagara dez réis pela assinatura anual do Estrela do Sul, jornal religioso que circulava aos domingos, em Porto Alegre. Porque gostava mesmo era de ler. Lia de tudo. Jornais, romances, história universal, o que lhe caísse nas mãos. Lia o Estrela do Sul porque gostava de estar atualizado acerca dos ataques da igreja católica aos luteranos que tinham se instalado na província com a chegada dos colonos alemães. O Estrela do Sul era bastante cioso no combate aos protestantes egressos do além-mar. O próprio Walter era de família luterana, mas ele pouco se importava com disputas teológicas. Para ele, o debate entre padres e pastores acabava se tornando, antes de tudo, divertido.

Walter assinava também O conciliador e todos os jornais de vida curta que apareciam eventualmente na cidade, grande parte deles sob os auspícios do médico Caldre e Fião. Walter admirava esse Caldre e Fião, intelectual vigoroso, autor do primeiro romance escrito na província de São Pedro, o ótimo A divina pastora, publicado em 1847. Quatro anos depois, Caldre e Fião, que na verdade se chamava José Antônio do Vale, escreveu um romance ainda melhor, na opinião de Walter: O corsário. Devido a sua ousadia, o livro foi objeto até de algum escândalo na conservadora sociedade porto-alegrense. Nele, Caldre e Fião contava a história de um náufrago inglês que era recolhido por uma bela jovem nas areias de Tramandaí. A moça se apaixonava pelo estrangeiro, mas ele, com sua natureza de homem errante dos mares, muito a faria sofrer.

Os jornais publicados por Caldre e Fião eram sempre enérgicos e sempre reservavam generosos espaços às manifestações culturais. O Estrela do Sul, não. O Estrela do Sul era algo árido para quem se interessava por cultura. Resumia-se a um tabloide de quatro páginas sem pretensões cosmopolitas. O texto de capa se estendia pela página dois – um artigo galhardamente intitulado “Os jesuítas, os lazaristas e as irmãs de caridade defendidos por si mesmos no tribunal da razão e da história”.

Walter decidiu ler o artigo mais tarde, não se sentia particularmente interessado na autodefesa dos jesuítas, dos lazaristas e muito menos na das irmãs de caridade. Passou para a seção “Variedade”, onde havia o Expediente do Bispado. “Hoje, às sete horas da manhã, confere sua excelência reverendíssima em sua Capela Episcopal a Sagrada Ordem de Diácono ao subdiácono José Marcellino de Souza Bitencourt”, noticiava o periódico. Walter fez uma congratulação mental ao subdiácono pela promoção, mas seguiu adiante. Correu os olhos para o quadragésimo segundo capítulo do romance Bárbara, publicado em formato de folhetim. A qualidade do texto se situava um pouco abaixo do razoável. Walter preferia autores modernos, como Manuel Antônio de Almeida ou seu pupilo, o jovem Machado de Assis, mulatinho de 25 anos de idade que naquele ano mesmo publicara um impecável livro de poesias, Crisálidas. Walter inclusive lembrava de cor um poema de Machado que ele considerava genial:

“Erro é teu. Amei-te um dia

Com esse amor passageiro

Que nasce na fantasia

E não chega ao coração;

Não foi amor, foi apenas

Uma ligeira impressão;

Um querer indiferente,

Em tua presença, vivo,

Morto, se estavas ausente,

E se ora me vês esquivo

Se, como outrora, não vês

Meus incensos de poeta

Ir eu queimar a teus pés,

É que, como obra de um dia,

Passou-me essa fantasia.

Para eu amar-te devias

Outra ser e não como eras.

Tuas frívolas quimeras,

Teu vão amor de ti mesma,

Essa pêndula gelada

Que chamavas coração,

Eram bem fracos liames

Para que a alma enamorada

Me conseguissem prender;

Foram baldados tentames,

Saiu contra ti o azar,

E embora pouca, perdeste

A glória de me arrastar

Ao teu carro… Vãs quimeras!

Para eu amar-te devias

Outra ser e não como eras…”

Ah, como ele gostaria que seu amor por Catarina fosse passageiro como o do poeta fluminense. Pouparia-lhe dores e incomodações, por certo. Mas, não. Era coisa séria. Tanto que o motivava a ler aquele folhetim insosso, Bárbara. Só porque um dos personagens chamava-se… Catarina.

“A velha Catarina tinha um coração de ouro, uma saúde de ferro e estava sempre pronta a prestar qualquer serviço. Não seria possível encontrar na circunferência de dez léguas uma tão boa enfermeira.”

Walter pousou o tabloide na mesa de madeira. Levantou a cabeça. Fitou o vazio. Onde estaria Catarina? Não a via desde a sua incursão à casa maldita, no dia anterior, sábado. O que estaria fazendo? Por que não aparecera na sapataria? Será que ele teria de voltar à casa número 27?

Walter suspirou. Consultou o relógio encostado à parede. Nove horas. Tinha combinado de almoçar na casa de Antunes, ali perto, na rua da Figueira. Levantou-se, pegou o chapéu e saiu. Caminhou pouco mais de duas quadras, a Figueira era bem próxima à rua do Arvoredo.

Chegou à casa de Antunes. Abriu o portão de madeira. Foi entrando. Atravessou o corredor comprido que levava aos fundos.

– Ó de casa! – gritou, ao ingressar no alpendre.

– Walter! – Antunes veio sorrindo da cozinha, secando as mãos num pano de prato. Cumprimentou-o, feliz. – O almoço está quase pronto. Vamos ali dentro tomar um schnaps.

Subiram os dois pequenos degraus que levavam à sala de jantar. A casa do padeiro Manoel Antunes era confortável, espaçosa, bem melhor do que a maioria daquela região da cidade. Toda construída em madeira e pintada em tons pastéis, tinha dois quartos, um para o casal, outro para os dois filhos. Havia ainda a sala de jantar, a cozinha e a sala de estar. No quintal, distante das peças principais, o pequeno cubículo que servia de banheiro. Muitas residências contavam apenas com um buraco aberto no solo, nos fundos da construção, onde os moradores se aliviavam de suas necessidades fisiológicas. Outras construíam patentes de madeira, os dejetos eram depositados em uma espécie de barril, que, depois de cheio, era esvaziado em algum terreno baldio ou mesmo na rua, enchendo o ar da cidade de miasmas insuportáveis, sobretudo no sufocante calor do verão.

Antunes, assim como Walter, valia-se de uma alternativa mais moderna e higiênica. Eles haviam pago assinaturas pelos serviços dos cabungueiros. Os cabungos eram barris de madeira que serviam de latrina. Uma vez por semana, um funcionário chamado cabungueiro, geralmente um negro, ia às residências que possuíam assinatura, retirava o cabungo e trocava por outro, limpo e desinfetado com creolina. O cabungo cheio era fechado e carregado de carroça até um trem, que o levava até uma volta do Guaíba, onde teria seu conteúdo despejado. Dos vinte mil habitantes de Porto Alegre, onze mil possuíam assinatura dos serviços dos cabungueiros. Walter, homem lido, ciente das novidades europeias, invejava os ingleses, que já dispunham de eficientes e higiênicos sistemas de esgoto, inclusive com modernos vasos sanitários munidos de descargas.

A casa de Antunes se achava bem-provida dos confortos disponíveis à classe média porto-alegrense. A padaria ia bem, e Rosa administrava com competência as despesas da família. Permitira-se, inclusive, o luxo de possuir dois escravos não muito velhos – os escravos mais velhos, evidentemente, eram mais baratos. Os chamados “boçais”, recém-chegados do continente africano, também alcançavam menor preço do que os “ladinos”, negros nascidos no Brasil, já adaptados à escravidão. Walter, abolicionista convicto, criticou o amigo quando da compra dos dois escravos. Antunes até concordava com ele, mas Rosa exigiu a aquisição dos negros.

A sala de estar em que os dois amigos bebiam agora era ampla e arejada. A janela grande, aberta de par em par, havia sido decorada com uma singela cortina de renda confeccionada pelas mãos hábeis de Rosa. Normalmente as casas tinham poucos móveis. A sala de Antunes podia ser considerada fartamente mobiliada, em comparação com as dos vizinhos. A mesa grande, retangular, dominava o ambiente. No canto, uma mesinha pequena e baixa, que seria ocupada pelas crianças até que completassem quinze anos, pelo menos. Cadeiras em volta da mesa grande, banquinhos sob a pequena e, nas paredes, o orgulho de Antunes: as fotografias. O famoso fotógrafo Manuel de Paula Ramos repetira DeForrest e viera do Rio de Janeiro para fazer retratos pela província. Viera com todo o complicado equipamento, inclusive cenários elaborados. Antunes, Rosa e os filhos foram fotografados em poses diversas, com florestas e montes falsos ao fundo. A que Antunes mais gostava era uma muito em voga: a família inteira dentro de uma canoa, como que em um piquenique.

Walter admirava mais uma vez os trabalhos de Manuel de Paula Ramos, espalhados pelas paredes. Antunes o observava sorrindo. Rosa prosseguia na lida na cozinha. De lá vinha um aroma delicioso e quente, que açulava a fome.

– O que teremos hoje? – Walter esfregou as mãos.

– Hoje, o almoço será dividido em duas partes: uma feita por mim, outra pela Rosa. Preparei uma iguaria que se come na Corte do Rio de Janeiro: passarinhos fritos com bananas!

Walter arregalou os olhos.

– Passarinhos fritos com bananas.

– É. Você vai adorar. Os passarinhos foram caçados pela meninada aqui da rua no Areal da Baronesa. Uma delícia. Temperei-os bem temperadinhos. Enquanto isso, peguei bananas-da-terra, descasquei-as e as abri ao meio. Fritei tudo junto, as bananas e os passarinhos. Com os passarinhos por baixo e as bananas por cima, deitei a guloseima numa travessa e a cobri com pão ralado e açúcar. Divino! A imperatriz dona Thereza Christina quase desmaia quando prova esse manjar dos deuses.

– Acredito – sorriu Walter. – E a Rosa, o que está preparando?

– Arroz com linguiça – Antunes tomou um gole de cachaça. – Veja que falta de imaginação. Mas pelo menos é da linguiça preparada pelo teu vizinho. Uma ótima linguiça.

Walter lembrou de Ramos e o pensamento lhe comprimiu as artérias do coração. Bebeu também ele um trago da branquinha.

Antunes olhou em direção à cozinha, como se temesse que Rosa saísse de lá. Debruçou-se na mesa. Sussurrou:

– Amigo, preciso lhe contar uma coisa.

Walter piscou.

– Que foi?

– É a Rosa – Antunes falou ainda mais baixo, cuidando a porta da cozinha.

– Que é que tem? – Walter modulou a voz à altura da do amigo.

– Acho… – Antunes hesitava. A voz lhe saiu trêmula: – …acho que ela está me traindo!

– Antunes! – Walter jogou o corpo para trás. Antunes vivia desconfiando de Rosa. Às vezes Walter cogitava de o amigo ter razão, mas quem iria se interessar por Rosa, tão sem atrativos que era? Além do mais, poucas mulheres podiam ser tão antipáticas quanto ela. Mandona, exigente, ambiciosa, vivia torturando o marido para que ele acumulasse mais, aparentasse mais, ganhasse mais e mais dinheiro. Walter a desprezava suavemente. Tolerava-a porque era mulher de seu amigo.

– O comportamento dela anda estranho – Antunes olhava para os lados, aflito.

Walter cruzou os braços:

– E com quem ela poderia estar lhe traindo?

– Aí é que está: é terrível!

Walter olhou nos olhos dele. Viu que o amigo sofria. Teve dó. Colou o peito à borda da mesa. Pegou em seu braço.

– O que é terrível, Antunes, meu velho?

– O linguiceiro!

– Lin… – Walter se sobressaltou. – O açougueiro? Ramos?

– Ele! Ele!

– Mas… – a ideia deixou Walter levemente agastado. Parecia que Ramos e Catarina estavam envolvidos em tudo à sua volta. – Mas como é possível?

– Olha, Walter, ela passa todos os dias no açougue. Todos os dias! Todos os dias nós comemos linguiça. É arroz com linguiça, feijão com linguiça, linguiça com pão, linguiça frita… Hoje mesmo, ela fez questão de fazer linguiça, embora eu já tivesse preparado meu banquete. Quem ia querer comer arroz com linguiça tendo passarinhos fritos na banana?

Walter endireitou o torso. Coçou a parte de trás da cabeça. Limpou a garganta.

– Er… De fato, os pratos que você aprendeu na Corte são magníficos. Mas, precisamos admitir, a linguiça é boa mesmo.

– É, claro que é. Eu adoro. Mas ela vai todos os dias lá. Todos os dias. Eles conversam… E anteontem, meu Deus, apareci de surpresa no açougue e vi o jeito como o Ramos olhava para ela. E ela… Ela ria às gargalhadas! Não sei mais o que fazer!

Walter fez um bico, apertou os olhos. Apertava os olhos ao pensar. Suspirou. Rosa e o açougueiro. Seria possível? Verdade que Rosa não era de muito riso. Era mais de ação. Ela a gargalhar… Curioso. Mas não podia… Claro que não podia. Era impossível. Além do mais, por que Ramos se interessaria por Rosa, se tinha Catarina? Se bem que, Walter compreendia, depois de algum tempo de convivência, os predicados de qualquer mulher se esmaecem, o homem tende a desejar outras, mesmo que as outras não tenham categoria para amarrar a botina esquerda da sua esposa.

– Bom, Antunes – Walter começou a falar, mas não sabia bem o que dizer. Pensou em acalmar o amigo, de alguma forma. Convencê-lo de que suas suspeitas não tinham razão. Pronunciava as palavras devagar, para ganhar tempo. – Essas coisas são complicadas… Delicadas. A gente nunca sabe o que as pessoas estão sentindo… – queria encontrar alguma frase inteligente, que convencesse Antunes e a si próprio. Não precisou procurar muito. Brasiliano irrompeu na sala, ruidoso, Januário atrás, feliz.

– Buenas! Também vou querer uma de canha!

Os amigos sorriram. Januário saltou sobre Antunes. O cachorro adorava aquele gordo. Brasiliano às vezes até demonstrava algum ciúme.

– Acho que esse guaipeca gosta de banha! – desdenhava.

Antunes fazia festa a Januário, abraçava-o e beijava-o.

Naquele instante, a figura miúda de Rosa entrou na sala.

– Não beija o cachorro! Que nojo! – repreeendeu a mulher. Carregava uma grande panela de ferro pelas alças. Usava guardanapos de pano para proteger as mãos. Fez a panela aterrissar no centro da mesa.

– Bons dias, cavalheiros – cumprimentou, os olhinhos astutos rebrilhando. Olhou para Walter, olhou para Brasiliano, fez uma careta para Januário. Já tinha dito a Antunes que detestava cachorro dentro de casa, mas o marido não conseguia reunir coragem para fazer a advertência a Brasiliano. Além disso, ele também adorava Januário. Antunes se levantou, sorrindo:

– Vou à cozinha, buscar os passarinhos fritos na banana!

– Passarinhos fritos na banana? – Brasiliano olhou para Walter.

– Uma iguaria da Corte – sorriu Walter.

– Exatamente! – bradou Antunes. E se foi para a cozinha.

Brasiliano e Walter riram. Antunes voltou com uma travessa fumegante. Depositou-a na mesa, vitorioso. Todos se inclinaram para espiar o conteúdo. Januário latiu, interessado.

– A la pucha! – disse Brasiliano.

– O imperador é louco por isso – assegurou Antunes.

Rosa retirou a tampa da sua panela. A fragrância do arroz com linguiça, o popular arroz de china pobre, fez Walter fechar os olhos e salivar, antecipando o prazer que lhe proporcionaria a comida. Gemeu de satisfação. Brasiliano gemeu também. Antunes olhou meio de lado para o arroz com linguiça.

Walter se lembrou dos tempos de guri em Hamburgo Velho. Seu pai, um alemão sisudo e trabalhador, não permitia que ninguém falasse durante as refeições. O silêncio era absoluto à mesa. No máximo, se ouvia um “passe a água, por favor”. Na casa do padeiro Manoel Antunes, a refeição era ruidosa. Januário, sempre ao lado de Antunes, salivava. Rosa começou a servir o arroz com linguiça.

– Os passarinhos fritos na banana são para depois – disse ela.

– O prato principal – concordou Walter, tentando valorizar a comida preparada pelo amigo.

Antunes estava distraído, gritando para que os meninos se sentassem à mesa pequena. Walter experimentou um pedaço da linguiça especial. Nunca na vida provara acepipe semelhante.

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