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Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 16

29 de janeiro de 2014 2

“Os homens se viciavam depois de uma sessão sexual com a Bronze”

Ao anoitecer, Brasiliano pulou dentro de sua melhor bombacha, encaixou o chapéu de aba larga na cabeçorra, olhou para Januário e gritou:

– A la noche, guaipeca!

Saiu de casa a passo largo, acompanhado de seu companheiro saltitante. Sorria ao pensar que encontraria a Bronze dentro de alguns minutos. Duas horas antes, um menino aparecera em sua casa, na rua da Varginha, dizendo que a Bronze precisava vê-lo ainda aquela noite. Brasiliano deu uma palmada de satisfação em Januário. Era a primeira vez que a Bronze o chamava. Todas as outras vezes ele é que fora visitá-la. Será que ela estava se apaixonando por ele? Gostar dele, Brasiliano sabia que ela gostava. Mas a Bronze não era mulher de se entregar. Não tinha marido, não tinha noivo; tinha homens. Tratava-se de uma mulher celebérrima na cidade. Tanto quanto a baronesa do Gravataí. Cada uma lá por suas razões. Distintas umas das outras, bem-entendido.

A baronesa fora casada com o barão do Gravataí, morto havia dezoito anos. O barão era português, chamava-se João Batista da Silva Pereira. Suas botinas pisaram em solo gaúcho pela primeira vez no começo dos anos 20. João Batista se instalou num terreno situado na Cidade Baixa, à beira do rio Guaíba. Lá construiu um pequeno estaleiro. Que logo cresceu, se tornou poderoso e tornou poderoso João Batista. Aos poucos, o diligente português foi comprando as terras em derredor. Sua propriedade ia até a rua da Margem, assim chamada porque costeava o rio. Estendia-se por uma área tão vasta que os escravos fugidos se homiziavam em seus matos, alimentando-se das frutas silvestres, da caça e da pesca abundantes. E atacando os eventuais passantes para lhes aliviar do peso de suas posses, o que rendeu ao local o sugestivo codinome de Emboscadas.

João Batista levantou um belo e imponente solar em seu terreno. Foi nele que recebeu, em 1845, a visita de ninguém menos do que o imperador Dom Pedro II e a imperatriz Thereza Christina. Tão distinto foi o tratamento dispensado ao casal real, que Dom Pedro decidiu outorgar ao português o título de barão do Gravataí.

As festas no solar continuaram animadas por mais um ano, até que o barão morreu de uma doença misteriosa, ninguém jamais soube precisar o que vitimara um homem tão forte, no vigor de seus 56 anos. Para consolar a viúva Maria Emília, o imperador lhe concedeu o título de baronesa. Desde então, o solar passou a ser conhecido na cidade como o Solar da Baronesa e a propriedade da viúva como o Arraial da Baronesa, sutilmente rebatizado pelo populacho, mais tarde, de Areal da Baronesa, em referência ao seu terreno arenoso.

Pobre baronesa, inexperiente nos negócios, dissipou aos poucos sua fortuna. Dizem que ela mesma mandou atear fogo ao solar, a fim de facilitar o loteamento da área, vendê-la aos poucos e, dessa forma, promover sua salvação financeira. O fato é que nos anos 60 a baronesa continuava ativa e famosa.

Tão famosa quanto a Bronze.

Brasiliano ria ao pensar no apelido da moça. Chamava-se Felizarda, na verdade. Muitos achavam que o Bronze do codinome era devido à sua tez acastanhada, aos seus olhos cor de mel. Brasiliano sabia que não. Sabia que o apelido completo da bela morena era Cu de Bronze, conferido graças aos dotes de suas belas nádegas que ela, aliás, sabia usar muito bem. Os homens se viciavam depois de uma sessão sexual com a Bronze.

Nenhuma cortesã da cidade se comparava a ela. Que não podia ser considerada exatamente uma cortesã. A Bronze escolhia os seus homens. Não eram tantos os que obtinham o privilégio de se cevar em suas carnes morenas, mas esses atingiam o suprassumo do prazer. A Bronze gozava da fama de ser insaciável na cama, além de usar de rara criatividade. Seus amigos íntimos, encantados, sempre lhe mimoseavam com alguma prenda, não raro uma prenda de bom valor. Era uma mulher de variadas artes e profunda ciência. Ciências ocultas, inclusive. Além de ser conhecida como a Messalina de Porto Alegre, a Bronze se tornou celebridade por seus predicados de vidente e cartomante. Assim credenciada, a Bronze via-se frequentada pelos abastados, pelos políticos, pelas damas da sociedade. Diziam que até a baronesa do Gravataí a procurava e lhe pedia conselhos. Havia sempre movimento em sua casa de madeira, na parte alta da cidade.

Quando podia, Brasiliano também passava lá. E era invariavelmente bem-recebido. Conquistara tal privilégio não graças ao seu poder ou volume da conta que tinha no Banco Mauá, mas com a sedução de sua risada franca, de seu bom humor perene e até com as tropelias de Januário. A Bronze adorava cachorros.

Brasiliano ainda não havia contornado o frade de pedra da esquina e já viu que a Bronze o aguardava com a porta aberta, o sorriso alvo cheio de dentes, o queixo erguido, as mãos de dedos longos na cintura.

– Me esperando, morocha? – gritou ele da calçada.

– Você está atrasado – ela riu de volta.

Antes de Brasiliano chegar ao terreno onde ficava a casa, Januário disparou, latindo. Ficou saltitando ao redor da morena, que se agachou para abraçá-lo.

– Januário, seu malandro – ciciou, voz rouca, enlaçando com os braços macios o pescoço do cachorro.

– Acho que tu só me recebes aqui por causa desse guaipeca – riu Brasiliano, agarrando a Bronze pelos ombros redondos, puxando-a para lhe dar um beijo.

– Você tinha alguma dúvida?

Entraram.

– Quer comer alguma coisa? Tomar uma canha? Um vinho?

– Tem aquela linguiça especial do açougue da rua do Arvoredo? Se tem coisa boa, é aquela linguiça. Ontem comi uma na casa do Antunes que até agora lambo os beiços quando lembro dela.

– Vou dizer uma coisa: me sinto mal quando como aquilo. Não sei por quê. Só sei que me dá uma ânsia, um enjoo. Todo mundo adora a tal linguiça, eu não posso ver aquele troço no prato. Mas tenho um queijo do bom. Pode ser?

– Mas bah!

– Então sente aí.

Brasiliano puxou a cadeira de palha trançada e sentou-se à mesa quadrada, de madeira. A Bronze ondulou até a cozinha pequena e de lá voltou carregada. Debaixo do braço esquerdo, um cesto com pão e queijo. Na mão direita, um garrafão de vinho tinto.

– Chamei você aqui porque aconteceram algumas coisas estranhas – a Bronze sentou-se, graciosa.

– Coisas estranhas? – Brasiliano olhava para o pão que cortava com as mãos. A seguir, serviu-se de vinho. – Que coisas?

– O príncipe Custódio me chamou.

Brasiliano levantou os olhos para ela, e em seus olhos agora brilhava um interesse genuíno. Com o príncipe Custódio envolvido, o assunto não devia ser brincadeira. O príncipe Custódio, ou o príncipe Negro, ou o príncipe de Ajudá pertencia a uma família real africana. Sua história era única na triste saga dos negros africanos na América escravagista. Para que sua nação, a nação de Ajudá, não fosse dizimada pelo conquistador branco, ele teria concordado com o exílio eterno. Em troca, os ingleses lhe forneceram remuneração pelo resto da vida. O príncipe se tornou um homem rico nas terras onde seu povo vivia cativo. Estabeleceu-se em Porto Alegre, numa mansão na rua dos Venezianos, e lá vivia com farta criadagem e mais de trinta parentes ou agregados. Expressava-se mal em português, mas falava inglês e francês com fluência. Possuía nove cavalos de raça, tratados com mais desvelo do que recebia a maioria da população da província. Chefe da religião africana, foi o príncipe Negro quem introduziu no Rio Grande a prática do batuque. A Bronze se cevava em seus conhecimentos. Quando ele falava, ela escutava. E aprendia.

– O príncipe… – repetiu Brasiliano, falando para si mesmo.

– Ele. Me falou daquele jeito meio arrevesado dele, ajudado por um intérprete, que algo de maligno está acontecendo nessa cidade. Que a cidade está sendo dominada pelo próprio demônio. Pela besta-fera.

– Nossa…

– Falou que a cidade está devorando a cidade.

Brasiliano cortou com a faca um pedaço do queijo e o levou à boca.

– E o que isso tem a ver comigo?

– Tem a ver que ele disse que um amigo meu corre grande perigo.

– Bueno, tu tens outros amigos, que sei…

– Só que sonhei com você depois de ter falado com ele.

– É? – riu, malicioso. – O que nós fazíamos no sonho? Alguma coisinha boa? Daquelas que só tu sabes fazer?

– Não foi um sonho bom – olhava-o séria, sem nem dar atenção à insinuação. – Quero pôr as cartas pra você.

– Aiaiai, pra que perder tempo? – Brasiliano tomou a mão macia da morena. – Vamos logo ali pro quartinho.

– Não – ela retirou a mão. Levantou-se. Caminhou até uma cômoda, no canto da sala. – Quero ver sua sorte. Não estou com bom pressentimento.

– Que bobiça…

Brasiliano olhou para Januário, ao seu lado. O cachorro estava sentado, olhando fixamente para a fatia de queijo que girava entre os dedos fortes do dono. Seu olhar pidão era comovente. Babava de desejo. Brasiliano estalou a língua. Atirou um naco de queijo para Januário.

– Toma, seu safado interesseiro.

A Bronze sentou-se de volta. Ofereceu-lhe um baralho.

– Embaralha bem – ordenou.

Brasiliano largou o queijo e começou a embaralhar. Januário olhou para o queijo sobre a mesa e suspirou, resignado.

– Pronto – Brasiliano apresentou o baralho de volta à morena.

– Agora corta três vezes na tua direção – ela continuava sisuda, concentrada.

Brasiliano obedeceu. A Bronze tomou as cartas e começou a espalhá-las sobre a mesa, viradas para baixo, em fileiras de sete.

– Vira uma – ainda séria.

Brasiliano virou uma carta da ponta. Ás de espadas.

– Vira outra.

Brasiliano hesitou um segundo. Depois virou a carta contígua ao ás de espadas. Valete de paus.

– Mais uma.

A dama de espadas.

– Mais uma.

Dois de espadas.

Ela levou a mão à boca:

– Virgem santíssima…

– Que é que foi?

Os olhos cor de mel da Bronze fixaram-se nos olhos pretos de Brasiliano.

– Eu sabia! Você é o amigo sobre quem o príncipe me alertou. Você corre grande perigo, Brasi! Grande perigo!

Brasiliano olhou para as cartas na mesa.

– Grande perigo – repetiu ela. – Vire mais duas cartas.

Brasiliano apanhou uma carta distante da fileira que havia escolhido antes, no meio do baralho espalhado. Sete de paus. A segunda carta foi o valete de espadas.

– Minha mãe do céu! – a mão morena da Bronze tomou a grande mão de Brasiliano como se quisesse impedir que ele continuasse.

– Você está no meio de algo muito ruim. Uma mulher. Dois homens. Um homem terrível. É ele. A besta-fera de quem o príncipe me falou. O demônio em pessoa – o olhar dela era aflito. – Cuidado, Brasi. Muito cuidado!

Brasiliano fitou-a por alguns segundos, pensativo. Cofiou o bigodão. Afagou a cabeça de Januário com a outra mão. Deu um tapa na própria coxa.

– Vou tomar cuidado. Prometo. Agora vamos para o quartinho?

Comentários (2)

  • jefferson diz: 29 de janeiro de 2014

    Boa tarde David, meu comentário não é sobre o Tunel do tempo. Como não pensei em outro meio, coloco aqui.
    Tenho notado que quase não tens escrito sobre futebol.
    É uma pena pois tens uma forma de entender e aborda-lo que é um pouco fora dos conceitos habituais. Somos da mesma geração, tem observações que só vejo em ti e no Zini . Não que eu concorde com tudo o que dizes. Se fosse assim, não precisarias escrever, bastava que eu tivesse a minha opinião. O interessante é quando alguém aborda o tema com fundamentos que te fazem refletir. Isto é um dom teu.
    Dirás que participas do Sala. Lá (eu ouço quando possível -e gosto) o que menos se fala é em futebol e é impossível construir um raciocínio.
    Não que eu não goste dos teus demais temas. Gosto, muito, pela forma direta como escreves e principalmente pela tua cultura sobre história, uma das minhas paixões.
    Entretanto, sinto falta de uma participação maior, tua, opinando sobre os fatos e os times que aí estão.
    Se não quiseres nem publica meu comentário pois foge do tema.
    Grande abraço

  • Rubem Bragança diz: 1 de fevereiro de 2014

    Cada um tem o leitor que merece…

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